segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

TOP 10 - MELHORES LEITURAS DE 2019!!!

Em 2019, como em todos os anos, não me faltaram bons livros. Embora tenha lido relativamente menos que em 2018, as escolhas deste ano foram mais acertadas, de maneira que nenhum livro avaliado com “3 estrelas” entrou para este ranking. Dos autores que figuraram ano passado, apenas D. Júlia se manteve, o que tem confirmado minha estima pela autora. A literatura brasileira predominou como nunca antes na história deste blog: 7 títulos nacionais. Além deles, figuram aqui um romance inglês, um francês e um espanhol, este último ocupando a ambicionada primeira posição. Vamos conferir?

# 10º lugar OS RODRIGUEZ, de Maria José Dupré (4 estrelas)
Após uma sequência de decepções, fiz as pazes com a autora de Éramos Seis. Os Rodriguez, talvez por ser um romance mais conciso, agradou-me do início ao fim. Com uma ou outra passagem mais exagerada, o livro conseguiu me prender com seu ritmo acelerado, deixando-me sempre curioso pelo destino de Dora e seus filhos. Mas foi o forte teor dramático da obra, como na cena da saraivada de joias, que garantiu sua inclusão neste ranking.

# 9º lugar O GALO DE OURO, de Rachel de Queiroz (4 estrelas)
O último romance que me faltava ler da Rachelzinha proporcionou-me uma despedida deveras feliz. Foi no aconchegante colo desta saudosa vovó que conheci finalmente a história de Mariano, um homem comum como qualquer outro, com suas ditas e desditas, mas sobretudo com muita esperança de realizar o seu sonho dourado.

# 8º lugar O PRIMO DA CALIFÓRNIA, de Joaquim Manuel de Macedo (4 estrelas)
Este ano travei conhecimento com o Macedo dramaturgo e li duas de suas peças. É uma grande alegria ver que uma delas já entrou para meu Top10 de melhores do ano. Adriano é aquele pobre coitado que o leitor deseja ardentemente poder ajudar. A estratégia que o faz ascender socialmente é divertidíssima, como tudo o mais nessa brilhante ópera: tipos caricatos, tiradas humorísticas, canções jocosas, etc. Mesmo o argumento não sendo original, Macedo realizou um excelente trabalho de adaptação.

# 7º lugar O CASO DOS DEZ NEGRINHOS, de Agatha Christie (4 estrelas)
Mesmo não tendo ficado plenamente satisfeito com a solução mirabolante apresentada ao final do livro, preciso admitir que o percurso desta leitura foi simplesmente eletrizante, do tipo que faz a gente avançar muitas páginas em pouco tempo. Esta minha primeira experiência com Agatha Christie fez-me entender todo o culto prestado à grande dama do romance policial.

# 6º lugar CADA FORMA DE AUSÊNCIA É O RETRATO DE UMA SOLIDÃO, de Marco Severo (4 estrelas)
Os contos de Marco Severo deixaram-me impactado por diversos momentos, não exatamente pelo estilo pungente de suas tramas, mas pela capacidade do autor de emoldurar causos tenebrosos em pequenas joias literárias. Uma escrita cuidada, bem executada e sem grandes pretensões: um modelo ao qual os contemporâneos deveriam atentar-se mais.


# 5º lugar A FALÊNCIA, de Júlia Lopes de Almeida (4 estrelas)
Depois de ter me impressionado com A Intrusa ano passado, D. Júlia mantém-se entre os melhores do ano, desta vez com um romance de deixar qualquer um ressacado. A Falência, além de constituir excelente leitura, tem o mérito de reverberar. Depois de um tempo, o livro cresceu tanto para mim que, às vezes, penso não ter feito uma avaliação muito justa para ele. Quem sabe numa releitura?

# 4º lugar A MENINA DA CHUVA, de Bruno Paulino (5 estrelas)
As crônicas de Bruno Paulino ganharam meu coração. Enquanto lia alguns de seus textos, pensava: “vendo assim, parece tão fácil”. Mas a verdade é que nem todo mundo consegue transmitir sentimentos de forma tão franca e honesta como Bruno. Seu narrador parece um menino traquinas, desses que dizem o que pensam, desses que só falam a verdade.

# 3º lugar O RIO DO QUARTO, de Joaquim Manuel de Macedo (5 estrelas)
Às vezes penso que Macedo não pode me impressionar mais do que já fez até agora. Mas este ano ele não só me impressionou, como teve dois de seus livros neste ranking, além de um terceiro, O Forasteiro, ao qual eu faço uma menção honrosa. O romance de Luisinha e Milo é uma das coisas mais fofas para se ler na vida. Não entendo como possa estar tão esquecido do grande público. O Rio do Quarto é, como já disse em resenha, uma pérola.

# 2º lugar O MENINO DO DEDO VERDE, de Maurice Druon (5 estrelas)
Todo mundo já tinha lido, menos eu, admito! Mas enfim conheci Tistu, esse menininho que com um toque mágico muda tudo ao seu redor. Como não amar Tistu? Zezé, Marcelino, o Principezinho... Essas crianças têm me ensinado tanto... E a verdade é que muita gente carece bastante de aprender com elas!

# 1º lugar MARCELINO PÃO E VINHO, de José María Sánchez-Silva (5 estrelas)
Fazer a resenha deste livro foi uma tarefa dificílima para mim porque, conforme mencionei no próprio texto, seu valor transcende qualidades literárias. Marcelino Pão e Vinho é muito mais que uma obra de arte: é uma lição de amor e humanidade. É um livro que nos faz pensar no quanto estamos corrompidos pelas misérias deste mundo e, principalmente, esquecidos do real sentido da palavra “amor”.

Daniel Coutinho

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sábado, 21 de dezembro de 2019

Nina, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #117

Na carreira de Alencar há um livro que, penso, destoa bastante do conjunto fabuloso de sua produção romanesca. Trata-se de Diva (1864), que integra a trilogia “Perfil de mulher”. Na história, temos Emília, ou simplesmente Mila, garota caprichosa que faz o inferno na vida de Augusto, um modesto médico.

Fora impossível não associar este romance de Alencar à minha última leitura. Em Nina (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, Nicolina, ou simplesmente Nina, é uma garota caprichosa que faz o inferno na vida de Firmiano, um modesto provinciano.

Criado por sua irmã Escolástica após a morte dos pais, Firmiano, tendo concluído seus estudos, decide tentar a vida no Rio de Janeiro. Munido de boas cartas de recomendação, ele vislumbra um emprego público modesto, mas satisfatório. Sua dedicada irmã, contudo, ambiciona para Firmiano uma carreira literária e incumbe-lhe da composição de um romance.

O amigo Félix fá-lo crer que o caminho mais seguro para inspirar-se é a paixão de uma mulher. Numa visita ao Passeio Público, Firmiano acaba encontrando sua musa inspiradora: Nicolina. Este primeiro encontro é marcado por um episódio bem humorado em que o jovem provinciano é feito de bobo pela terrível moça.

Nina, como é chamada desde criança, é a filha única de André de Sousa e Gervásia, que a conceberam em idade já avançada. A criança fora criada cercada de mimos e atenções, daí seu temperamento voluntarioso e índole caprichosa. Mas, apesar destes senões, Nina é de natureza boa e amorosa, sendo capaz de sacrificar-se para reparar alguma falta praticada.

Conhecendo que Firmiano era filho de um antigo amigo de seu pai, ela desculpa-se sinceramente, convidando-o a frequentar sua casa. O moço acaba cedendo aos encantos da tentadora menina, mas sabendo-se pouco belo e sem fortuna, julga-se incapaz de ganhar o coração de Nina, estando esta noiva do doutor Vidal, um cavalheiro formoso e rico.

Firmiano passa a ignorar as atenções de Nina, na tentativa de curar-se de sua nascente paixão, mas a indiferença dele excita o orgulho da caprichosa garota que, para vingar-se, decide antecipar seu casamento com Vidal, que nega-se ao desejo da noiva em respeito ao luto por seu finado pai. Ferida novamente em seu orgulho, Nina descompromete-se com Vidal e, para afrontá-lo com mais denodo, sugere preferir a Firmiano, um candidato em tudo inferior.

O romance segue nesse joguinho de namorados que muito me lembrou outro romance de Macedo: Rosa, que acaba saindo-se melhor por sua jocosidade. Em certo ponto também nos lembra Vicentina, quando, numa digressão, Macedo põe em julgamento a má-criação recebida por Nicolina, cujos pais eram excessivamente indulgentes.

Obra menor (tanto em qualidade como em extensão), o romance é econômico em personagens. Além dos já citados, apenas Erícia também participa ativamente da trama. É a melhor amiga de Nina, mas que, em razão dos caprichos desta, acompanhará Firmiano em sua desdita.

Se Diva é o romance de Alencar que menos simpatizo, Nina é, por seu turno, dentre os romances que já li do doutor Macedinho, o menos interessante. A escrita elegante e o estilo agradável de sempre do autor, contudo, não inutilizam a experiência de leitura. O desfecho da trama pode até parecer injusto, mas fica justificado quando percebemos que Macedo é um pai tão indulgente quanto André de Sousa.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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domingo, 15 de dezembro de 2019

Os Rodriguez, de Maria José Dupré - RESENHA #116

Eu e a senhora Leandro Dupré estivemos amuados um com o outro até bem pouco tempo. A minha resenha de Gina deverá tê-la feito retorcer-se no túmulo. Já estava esmorecendo da proposta de ler a obra completa da autora de Éramos Seis quando finalmente surge uma luz.

Os Rodriguez (1946) é um dos melhores romances de Maria José Dupré. Nele encontramos uma prosadora mais hábil e contida, além de visivelmente mais preocupada com a estética literária de sua obra. Aqui temos a fluidez já conhecida de seus romances anteriores aliada à construção de um texto melhor delineado e verossímil.

Trata-se de um romance de formação onde acompanhamos a trajetória de Dora, desde a infância até a velhice. Dora pertence a uma família de fazendeiros que está em decadência. O livro abre com a fatídica cena dos gafanhotos que devastam as plantações da Fazenda Boa Vista. Empobrecidos, os pais de Dora decidem tentar a vida na cidade mais próxima e posteriormente em São Paulo, onde residiam os tios Rodriguez.

Dora era uma menina franzina e de poucos atrativos físicos, mas inteligente e bastante orgulhosa. Quando levada numa visita à casa de tia Elisinha Rodriguez, sente-se incomodada pela notável diferença de classe. Julgando-se discriminada pela tia e pelas primas, Dora concentra-se em concluir a Escola Normal para ser professora no interior, longe dos parentes ricos. Mas Alexandre, o filho mais moço de tia Elisinha, regressa da Inglaterra e encanta-se pela prima que, com o passar dos anos, torna-se mais bela.

O casamento de Dora e Alexandre se realiza mesmo contra a vontade da mãe do moço. O orgulho de Dora, ante sua nova posição, acentua-se consideravelmente e a mesma persiste em desprezar a família do esposo, salvo tio Paulo, que sempre mostrara-se mais amável. Dora Rodriguez é pois outra mulher: alguém que ignora o passado pobre (incluindo a família) e dá-se por completo às frivolidades da vida social.

Deslumbrada com os prazeres do luxo, Dora torna-se sobretudo egoísta, negligenciando as relações afetivas com o marido e os filhos. Lilian e Alexandre vivem cercados de mimos, mas carecem da atenção dos pais. Dorita, que nascera depois, acaba sendo a mais desprezada, principalmente por ter uma aparência que remete à Dora do passado, a menina esquálida da fazenda Boa Vista. Paulo, o caçula, curiosamente torna-se o filho mais querido, ganhando atenções da mãe que seus demais irmãos jamais tiveram.

Os anos passam e as crianças crescem. Cada um deles, porém, segue por um destino que a orgulhosa Dora jamais poderia prever.

Os Rodriguez constitui um drama familiar onde acompanhamos com interesse o desenrolar de vários episódios de forte carga emocional. Em determinado ponto, a história sofre uma reviravolta e nos deparamos finalmente com as muitas vezes previsíveis consequências dos atos de cada personagem. Nessa emaranhada teia dramática, sobressai a figura da matriarca, com quem o leitor cria uma complexa relação de empatia.

Os capítulos finais são os mais impactantes e algumas cenas são incrivelmente perturbadoras e incômodas. Chamam atenção principalmente pela humanidade que concentram, uma humanidade que transcende o bem e o mal, que nos define enquanto pessoas.

Sem os excessos de obras anteriores, aqui, por exemplo, há apenas menções de viagens para o exterior, poupando-nos daquele exotismo anacrônico tão maçante ao leitor contemporâneo. Certa inconstância no ritmo também pode causar desconforto em alguns momentos. Mas esses e outros defeitos não desmerecem a leitura deste romance onde prevalecem as qualidades.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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domingo, 1 de dezembro de 2019

Maricota e o Padre Chico, de João Salomé Queiroga - RESENHA #115

João Salomé Queiroga (1810?-1878) foi um escritor mineiro que, juntamente com seu irmão Antônio Augusto de Queiroga, atuou no período do pré-romantismo, ainda que suas obras tenham sido publicadas tardiamente. Os irmãos Queiroga, como eram conhecidos, participaram da fundação da Sociedade Filomática em 1833, agremiação literária que defendia a realização de uma literatura de cor local.

Salomé Queiroga, de fato, prezou, tanto na poesia quanto na prosa, pela divulgação dos costumes e tipos populares, especialmente os de sua região. Maricota e o Padre Chico (1871), seu único romance, como já alerta o subtítulo, propõe-se a relatar uma lenda do Rio S. Francisco.

Esboçado sob os moldes românticos, o livrinho de Salomé Queiroga, apesar de ter uma escrita razoável, peca pelo mau desenvolvimento dos episódios narrados. Talvez na intenção de ser o mais fiel possível à narrativa popular, o autor acabou prescindindo de recursos que tornassem o objeto de sua trama mais interessante.

Aos primeiros capítulos o autor já nos conta como teve conhecimento da referida lenda. Fora durante uma viagem de barco, exatamente no local onde se desenrolara o causo, que ouvira a narração de um sertanejo, tendo este ouvido de seus antepassados.

Maricota era uma linda menina que, ficando órfã muito cedo, vivia sob os cuidados de dona Dulce, sua tia. É uma típica heroína romântica, com todos os encantos e simpatias do costume. Quando completara sete anos, idade da razão segundo a Igreja, encontrara de forma muito misteriosa um gato preto, a quem denominara de Diabinho, uma vez que as pessoas, sobretudo sua tia, acreditavam que o belo animal tinha procedência maligna.

Quanto ao padre Chico, trata-se de um sacerdote de má índole, avaro e libidinoso, que acaba manifestando interesses carnais pela ingênua Maricota, que estremece e chega a adoecer ante o olhar concupiscente do vigário. Num episódio curioso, o padre Chico acaba sofrendo uma mordida do Diabinho, afastando-se a partir daí de todas as suas atividades religiosas. Alguns chegam a afirmar que o espírito ruim que habitava o corpo do gato fora transmitido ao padre, ficando este endemoninhado.

Outro personagem relevante é o Quincas da Conceição, o mocinho da história. Órfão como Maricota, Quincas estudara um tempo no Rio de Janeiro, mas regressara à fazenda que herdara, assumindo o controle de tudo com maestria. É também pintado sob o molde do herói romântico, o que pode ser confirmado já no episódio de sua adolescência, quando pusera a própria vida em risco para salvar o índio Pugichá de um afogamento.

Durante uma visita de Quincas e sua irmã Chiquinha à casa de Maricota, outro episódio curioso acontece: após repreender o Diabinho com uma relíquia sagrada dada por certo missionário chamado Frei Clemente, Maricota percebe que involuntariamente matara o animal, cometendo assim um “gaticídio” segundo o Quincas. Este, acreditando nas propriedades milagrosas da relíquia e conhecendo as más intenções do padre Chico, apodera-se de um pedaço da relíquia para oportuno uso.

De fato, aparecendo o padre Chico na mesma residência, Quincas, que já declarara seu amor por Maricota com quem esperava casar-se, revolta-se contra a exploração demonstrada pelo sacerdote para com os bens de sua futura noiva. No entanto, após tentar provar que o padre valia-se de sua posição sacerdotal para obter vantagens pessoais, Quincas é excomungado pelo religioso. A relíquia sagrada de frei Clemente, contudo, poderá ser a salvação do valoroso noivo de Maricota.

Apesar de seus inúmeros defeitos, o livro de Salomé Queiroga revela o nobre interesse da já citada Sociedade Filomática, dando espaço aos costumes e usos regionais, além de apresentar diversas notas de rodapé que os esclarecem. Seu valor, contudo, não chega nem perto de uma obra regionalista anterior, O Ermitão do Muquém, pioneira no gênero, escrita por outro mineiro, o fabuloso Bernardo Guimarães.

Algumas considerações também são dignas de interesse, como a indignação do autor perante a condição do escravo naquela época. Surpreendeu-me bastante a franqueza com que ele nos mostra o racismo por parte da própria heroína, talvez na tentativa de provar que as más convenções pervertem até os seres mais angelicais.

João Salomé Queiroga foi inegavelmente um simpatizante das letras, um entusiasta como costumo dizer. É compreensível seu obscurantismo e conhecer sua obra representa mais um interesse de natureza pessoal. Mas certamente que a cena do “gaticídio” já fez valer a leitura deste livrinho rs.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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