sábado, 24 de agosto de 2019

Um Homem Gasto, de Ferreira Leal - RESENHA #108 (contém spoilers)

O principal fator que desperta interesse para a leitura de Um Homem Gasto (1885) é a circunstância do romance de Ferreira Leal ter sido o primeiro de nossas letras a utilizar o tema da homossexualidade, ainda que este não figure como o assunto principal do livro.

Aproveitando-se de sua experiência profissional enquanto médico, o autor constrói um estudo naturalista centrado em Alberto de Freitas, personagem principal da obra. O romance, de caráter epistolar, também chama atenção por sua linguagem excessivamente erudita, o que causaria aversão à crítica da época.

É notável a carência de episódios interessantes em Um Homem Gasto que, assumindo uma proposta consideravelmente analítica, acaba negligenciando no que se refere aos aspectos romanescos da trama. O que se pretende no livro é uma espécie de advertência, seja para prevenir os homens sobre os malefícios da corrupção moral, seja para evitar a infelicidade da mulher diante de um matrimônio mal contraído.

Luiza casa-se com Alberto, mesmo este sendo bem mais velho que ela. Em cartas para a amiga Cecília, que logo se casaria com Paulo, Luiza confidencia os pormenores da vida conjugal, descrevendo a rotina em sua nova morada em Petrópolis. Uma crise de histeria em Luiza e uma súbita mudança no comportamento de Alberto vêm abalar o casamento dos dois. O caso é que Alberto é um homem sexualmente impotente, o que lhe acarreta um entorpecimento moral irremediável e de graves consequências.

Em carta de Alberto para Paulo, ficamos sabendo os motivos que tornaram o esposo de Luiza num “homem gasto”. Ele conta dos abusos sofridos nos tempos de internato e da vida devassa que levara em Paris. Os excessos de sua juventude promíscua anteciparam o envelhecimento de um homem que ainda não contava quarenta anos. Essa condição de esgotamento impossibilita Alberto de fazer a felicidade de sua esposa, tornando-o doente e levando-o ao suicídio.

A homossexualidade em Um Homem Gasto aparece apenas sob a circunstância do confinamento no internato religioso, onde os mestres seduziam seus alunos com variados atrativos, como também os garotos maiores se aproveitavam dos colegas mais novos. Nenhum caso específico é explorado com detença, mas Alberto chega a citar um professor de português como o “principal de seus requestadores”.

Apesar de suas questionáveis qualidades literárias, Um Homem Gasto merece atenção por seu valor documental enquanto obra pioneira no tratamento de temas tabus para sua época. É perfeitamente compreensível que o romance tenha caído no esquecimento, mas nem por isso o texto de Ferreira Leal deixa de ser um interessante objeto de estudo.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

OBSERVAÇÃOUm Homem Gasto ganhou nova edição em livro este ano pela editora “O Sexo da Palavra”. Pode ser adquirido pelo site (https://www.osexodapalavra.com/) ou na página do Facebook da editora (https://www.facebook.com/osxdapalavra/).

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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Um Estranho no Espelho (A Stranger in the Mirror), de Sidney Sheldon - RESENHA #107

A experiência que tive ano passado com A Ira dos Anjos, de Sidney Sheldon, deixou-me um tanto indisposto em relação ao autor, mas restava-me ainda aqui comigo Um Estranho no Espelho (1976), que parecia ser mais promissor.

O livro, felizmente, mostrou-se mais interessante, apesar de seus altos e baixos. O drama envolvendo Toby Temple e Jill Castle foi mesmo surpreendente em alguns momentos, além de terrivelmente pungente. Se por um lado, como de costume, buscava entreter-me com as tramas folhetinescas de Sheldon, por outro não podia deixar de impressionar-me com os dilemas vivenciados pelos protagonistas.

Eis um livro que, não fosse escrito tão ligeiramente, poderia figurar entre os melhores de Sheldon; mas que, mesmo carregado de imperfeições, alcança algum destaque dentre outros best-sellers do norte-americano.

Toby Temple, já na infância, revelava talento para o humor. A mãe do garoto acreditava piamente que o filho estivesse predestinado a ser um grande comediante. Após engravidar uma garota, Toby decide fugir para Hollywood, na intenção de, além de livrar-se do compromisso, tentar a carreira artística. Mas uma série de dificuldades embaraçam seus planos.

Enquanto Toby batalha pelo sucesso, acompanhamos, desde o nascimento, a difícil trajetória de outra personagem: Josephine Czinski. Esta, que escapara à morte por um milagre, órfã de pai, vive sozinha com sua mãe que, após o falecimento do marido, tornara-se uma fanática religiosa. A mãe de Josephine trabalha como costureira para muitas famílias ricas, o que permite o contato da filha com pessoas da alta sociedade. Dentre essas relações, Josephine acaba se apaixonando por David Kenyon, mas este é compelido pela família a casar-se com uma garota de sua classe. Desiludida, Josephine assume a identidade de Jill Castle e também parte para Hollywood, aspirando por realizar o antigo sonho de chegar ao estrelato.

A essa altura, Toby Temple já é uma estrela consagrada. É a vez, portanto, de Jill Castle, tal como Toby, submeter-se ao sacrifício da própria dignidade para chegar ao sucesso. Os dois seguem pois infelizes: ela, por sentir-se desvalorizada e diminuída pelos grandes produtores; ele, porque, embora festejado e bajulado por meio mundo de adoradores, experimenta um inevitável sentimento de solidão. Até que seus destinos finalmente se cruzam.

Incomodou-me estar diante de um contexto que certamente merecia uma atenção mais acurada por parte do autor. O drama de Toby Temple e Jill Castle renderia ao livro páginas menos supérfluas do que as que nos são entregues. Por vezes o romancista nos brinda com passagens mais atenciosas, permitindo-nos refletir os conflitos da trama, mas certas escolhas deliberadas e um desfecho apressado prejudicaram o conjunto da obra.

Um Estranho no Espelho possui assim um ritmo bastante desigual. A atmosfera de suspense para a qual o autor apela nos capítulos finais confirma sua incerteza perante os planos que pretendia dar ao livro que, não poucas vezes, parece ir se construindo de improvisos, passando por episódios isolados e deixando lacunas aqui e ali. É como um grande rascunho ao qual faltou um melhor trabalho de edição.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Aldeota, de Jáder de Carvalho - RESENHA #106

Li por esta que é a 1ª edição do romance (1963)
Em 2010, quando ganhei o “Prêmio Jáder de Carvalho”, não fazia ideia de quem fosse o autor cearense homenageado e, desde então, senti-me na obrigação de ler algum trabalho seu. Da produção romanesca de Jáder, Aldeota (1963) é a obra que se sobressai, sendo também a mais acessível, graças às edições Demócrito Rocha que a reeditou em 2003.

Os dois primeiros terços de Aldeota valem por um excelente romance regionalista, lembrando os nossos bons prosadores da “Geração de 30”. Mesmo com seus personagens sem conta e seguindo um estilo meio disperso, a narrativa até então é interessante e nos torna cuidadosos pelo destino do protagonista Chicó. A última parte, no entanto, que corresponde ao momento de ascensão do personagem central, faz uma mudança radical no estilo apostado anteriormente. É como se nos deparássemos com uma segunda obra que pouco ou nada se assemelha à primeira. O belo romance regionalista dos onze primeiros capítulos transforma-se num irritante documentário sobre as origens pouco nobres do aristocrático bairro que dá título ao livro.

Romance de formação, em Aldeota acompanhamos a trajetória de Francisco das Chagas Oliveira, o Chicó, que aos doze anos já trabalhava no comboio de Zé Vicente. Menino de espírito livre e aventureiro, Chicó aprecia o viver sem raízes, buscando conhecer terras e lugares desconhecidos. A morte de Zé Vicente o detém por algum tempo em São Mateus, onde o menino emprega-se como secretário de autoridades locais. Seu instinto andarilho o leva em seguida a Juazeiro, onde aprende o ofício de ourives. A morte do novo patrão o põe definitivamente à solta pelo mundo, realizando as mais diversas experiências.

Neste carrossel de trabalhos improvisados, Chicó chega aos seringais amazonenses, onde, além de uma realidade difícil, ele encontrará os fundamentos de sua vida futura: o comércio ilegal. De volta ao Ceará, ele não hesitará em aplicar tudo o que aprendeu no norte, alcançando por este meio uma fortuna de questionável procedência.

Catarina, filha de portugueses, com quem Chicó casara em Belém, observa atentamente as falcatruas do marido. Ela, que tem inclinações literárias, tudo registra em seu caderninho de impressões. Contudo, a inteligente senhora nada pode fazer além de “envergonhar-se de ser sócia inocente nas escusas atividades de seu marido”.

Jáder revela em Aldeota diversas qualidades de um bom ficcionista: desenha cenas pitorescas, como as do comboio de Zé Vicente; mostra-se bem-humorado através das piadas sacanas do papagaio Capitão; demonstra senso crítico, seja denunciando a politicagem de uma época ou mesmo desmistificando a lendária figura do Padre Cícero; constrói enfim diversas situações que ganham o interesse do leitor, mas muito disso se perde na parte final do romance, para onde tudo converge. A impressão que tive foi a de fazer um interessante passeio cujo trajeto era mais interessante que o próprio destino.

A leitura de Aldeota não me deixou curioso por conhecer outros romances de Jáder. Talvez por ser uma obra tão multifacetada, dei-me por satisfeito com esta experiência em particular, que certamente teve algum valor. A verdade, porém, é que o nome Jáder de Carvalho será sempre lembrado com carinho pelo estreante romancista de O Senhor Irineu.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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