domingo, 22 de julho de 2018

A Capital, de Eça de Queirós - RESENHA #71


Quando Eça de Queirós começou a escrever A Capital em 1877, planejava fazer uma narrativa curta de duzentas páginas, a primeira de uma série de novelas que pretendia ser uma pequena “Comédia Humana” portuguesa. Entusiasmado com o assunto do livro, acabou escrevendo seiscentas páginas, fazendo consideráveis mudanças ao longo dos anos, tantas, que morreu sem concluir a obra. Em outras palavras, levantou toda a casa, mas não teve tempo de compor metade dos acabamentos.

Certamente por isso A Capital está muito melhor realizada nos primeiros capítulos que nos últimos. Segundo o filho de Eça, de quem herdara o mesmo nome, seu pai, após esboçar uma obra, fazia-a de um fôlego, deliberadamente, desprezando estilo e forma, que só seriam levados em conta na reescrita. Exigente consigo mesmo, Eça estava sempre inconformado com a compleição de seus livros, mesmo depois de realizar acuradas revisões. A primeira parte d’A Capital chegou mesmo a ser impressa por Ernesto Chardron, seu editor, mas o romancista impediu a circulação do livro, por não estar satisfeito com o resultado. O prejuízo provocou um desentendimento momentâneo entre os dois. Após a morte de Eça, o livro permaneceria ainda engavetado por mais de vinte anos, sendo publicado somente em 1925.

O romance propõe-se a contar as desventuras do jovem Artur Corvelo. O rapaz, que tivera uma criação excessivamente branda, tornou-se volúvel e fraco de caráter. De inclinações literárias, cultivava ideias românticas e admirava fervorosamente Victor Hugo e Aldred de Musset. Após a morte dos pais, não conseguira manter seus estudos em Coimbra por muito tempo, precisando apelar à caridade de suas tias de Oliveira de Azeméis. Sua vida ao lado das tias é bastante monótona se comparada à que tinha ao lado dos acadêmicos. Para ocupar-se, Artur aceita trabalhar como ajudante de farmácia e compõe dois livros: a coletânea de poemas Esmaltes e Joias e o drama Amores de Poeta, ambos profundamente influenciados pela escola romântica.

Dentre as poucas amizades contraídas em Oliveira de Azeméis, Rabecaz torna-se o amigo íntimo do poeta e seu principal incentivador intelectual. Ele, que já vivera em Lisboa, narra maravilhas da capital para Artur que, deslumbrado pelas imagens descritas pelo Rabecaz, deseja deixar a vila, onde acredita não ser possível desenvolver com proveito todo o seu talento. Uma herança de dois contos de réis, recebida pela morte de seu padrinho, possibilita a Artur sua partida para a capital.

Levando consigo uma carta de recomendação do Rabecaz, Artur, desde sua chegada à Lisboa, depara-se com inúmeras dificuldades. Sua constituição frágil e seu temperamento sensível padecerão ante a sequidão e a indiferença de pessoas estranhas. Quando sua situação financeira torna-se conhecida, muitos especuladores oferecem amizade que, aparentemente profícua, é logo aceita pelo ingênuo poeta. Artur, influenciado principalmente por Melchior, redator do jornal O Século, passa a ter então uma vida regada a luxo e gastos desmedidos.

Na sequência, temos uma série de episódios onde o pobre Artur é vítima do mais renitente caiporismo. É incrível como nada parece colaborar com sua sorte, tantos são os infortúnios por que passa. Seus sonhos de celebridade literária são logo refugados pela indiferença dos lisboetas, mais interessados em pândegas e dissipações. Esquecia-me dizer que outra frustração de Artur era não conseguir relacionar-se com a “mulher do vestido de xadrez”, uma que vira na estação de Ovar e com quem trocara olhares.

Li os primeiros capítulos d’A Capital com animação, julgando-o já uma das melhores leituras do ano, mas a falta de correção da segunda metade do romance infelizmente prejudicou bastante a integridade da obra. Reconheci muitos excessos: situações exageradas, descrições prolixas e ritmo arrastado em razão da incrível estupidez do protagonista. A imbecilidade de Artur beira a inverossimilhança, especialmente porque, desde o começo da narrativa, não obstante sua pusilanimidade, ele revela espírito e senso crítico das situações.

Confesso ficar incomodado com narrativas em que os personagens sofrem excessivamente. Como tive pena do Artur rs! Sentia-me indignado em diversas passagens, como também incomodado com o já conhecido pessimismo eciano. Um detalhe curioso é que Eça planejava incluir no livro uma personagem chamada Cristina, uma provinciana sobre quem escrevera mesmo algumas linhas, que poderia ser a salvação de Artur. Como o autor não dera continuidade às emendas de sua obra, seu filho optou por descartar os trechos em que Cristina aparecia, evitando assim que sua inclusão no enredo fosse despropositada.

N’A Capital, Eça mais uma vez perpassa o tema da homossexualidade, como já fizera n’A Relíquia e mais perceptivelmente n’O Crime do Padre Amaro. Há uma cena em que Artur, após entrar num café, é assediado por um homem mais velho. Mas a novidade consiste mesmo na presença de uma lésbica na trama. Trata-se de D. Joana Coutinho, descrita como uma mulher máscula, casada com um velho rico, doente e passivo. D. Joana relacionava-se com mulheres e tinha “grandes amizades femininas”. Era chamada de “D. Juana” e, por ser uma mulher da alta sociedade, as pessoas faziam vista grossa para seus “vícios”.

Queria citar ainda uma última impressão que contentou-me bastante. Certamente por já ter me deparado com vários ataques à religião nas obras de Eça, causou-me grande surpresa a leitura de certas passagens que denotavam uma fé espiritual. Sempre achara que Eça fosse ateu, mas a verdade é que ele, mesmo indiferente à religião, acreditava em Deus, o que fica comprovado pela sua correspondência, onde abusava de expressões como “se Deus quiser” ou “querendo Deus”.

Claro que a leitura d’A Capital é absolutamente válida, principalmente para os apreciadores de Eça. Se pensarmos que mesmo obras “inteiramente acabadas” não são isentas de defeitos, temos justificado a importância do trabalho que foi o resgate dos inéditos do autor d’Os Maias.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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