domingo, 1 de dezembro de 2019

Maricota e o Padre Chico, de João Salomé Queiroga - RESENHA #115

João Salomé Queiroga (1810?-1878) foi um escritor mineiro que, juntamente com seu irmão Antônio Augusto de Queiroga, atuou no período do pré-romantismo, ainda que suas obras tenham sido publicadas tardiamente. Os irmãos Queiroga, como eram conhecidos, participaram da fundação da Sociedade Filomática em 1833, agremiação literária que defendia a realização de uma literatura de cor local.

Salomé Queiroga, de fato, prezou, tanto na poesia quanto na prosa, pela divulgação dos costumes e tipos populares, especialmente os de sua região. Maricota e o Padre Chico (1871), seu único romance, como já alerta o subtítulo, propõe-se a relatar uma lenda do Rio S. Francisco.

Esboçado sob os moldes românticos, o livrinho de Salomé Queiroga, apesar de ter uma escrita razoável, peca pelo mau desenvolvimento dos episódios narrados. Talvez na intenção de ser o mais fiel possível à narrativa popular, o autor acabou prescindindo de recursos que tornassem o objeto de sua trama mais interessante.

Aos primeiros capítulos o autor já nos conta como teve conhecimento da referida lenda. Fora durante uma viagem de barco, exatamente no local onde se desenrolara o causo, que ouvira a narração de um sertanejo, tendo este ouvido de seus antepassados.

Maricota era uma linda menina que, ficando órfã muito cedo, vivia sob os cuidados de dona Dulce, sua tia. É uma típica heroína romântica, com todos os encantos e simpatias do costume. Quando completara sete anos, idade da razão segundo a Igreja, encontrara de forma muito misteriosa um gato preto, a quem denominara de Diabinho, uma vez que as pessoas, sobretudo sua tia, acreditavam que o belo animal tinha procedência maligna.

Quanto ao padre Chico, trata-se de um sacerdote de má índole, avaro e libidinoso, que acaba manifestando interesses carnais pela ingênua Maricota, que estremece e chega a adoecer ante o olhar concupiscente do vigário. Num episódio curioso, o padre Chico acaba sofrendo uma mordida do Diabinho, afastando-se a partir daí de todas as suas atividades religiosas. Alguns chegam a afirmar que o espírito ruim que habitava o corpo do gato fora transmitido ao padre, ficando este endemoninhado.

Outro personagem relevante é o Quincas da Conceição, o mocinho da história. Órfão como Maricota, Quincas estudara um tempo no Rio de Janeiro, mas regressara à fazenda que herdara, assumindo o controle de tudo com maestria. É também pintado sob o molde do herói romântico, o que pode ser confirmado já no episódio de sua adolescência, quando pusera a própria vida em risco para salvar o índio Pugichá de um afogamento.

Durante uma visita de Quincas e sua irmã Chiquinha à casa de Maricota, outro episódio curioso acontece: após repreender o Diabinho com uma relíquia sagrada dada por certo missionário chamado Frei Clemente, Maricota percebe que involuntariamente matara o animal, cometendo assim um “gaticídio” segundo o Quincas. Este, acreditando nas propriedades milagrosas da relíquia e conhecendo as más intenções do padre Chico, apodera-se de um pedaço da relíquia para oportuno uso.

De fato, aparecendo o padre Chico na mesma residência, Quincas, que já declarara seu amor por Maricota com quem esperava casar-se, revolta-se contra a exploração demonstrada pelo sacerdote para com os bens de sua futura noiva. No entanto, após tentar provar que o padre valia-se de sua posição sacerdotal para obter vantagens pessoais, Quincas é excomungado pelo religioso. A relíquia sagrada de frei Clemente, contudo, poderá ser a salvação do valoroso noivo de Maricota.

Apesar de seus inúmeros defeitos, o livro de Salomé Queiroga revela o nobre interesse da já citada Sociedade Filomática, dando espaço aos costumes e usos regionais, além de apresentar diversas notas de rodapé que os esclarecem. Seu valor, contudo, não chega nem perto de uma obra regionalista anterior, O Ermitão do Muquém, pioneira no gênero, escrita por outro mineiro, o fabuloso Bernardo Guimarães.

Algumas considerações também são dignas de interesse, como a indignação do autor perante a condição do escravo naquela época. Surpreendeu-me bastante a franqueza com que ele nos mostra o racismo por parte da própria heroína, talvez na tentativa de provar que as más convenções pervertem até os seres mais angelicais.

João Salomé Queiroga foi inegavelmente um simpatizante das letras, um entusiasta como costumo dizer. É compreensível seu obscurantismo e conhecer sua obra representa mais um interesse de natureza pessoal. Mas certamente que a cena do “gaticídio” já fez valer a leitura deste livrinho rs.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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