quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Leve-me com Você (Take Me with You), de Catherine Ryan Hyde - RESENHA #93


Assim que li a premissa de Leve-me com Você (2014), da premiada escritora norte-americana Catherine Ryan Hyde, fiquei tentado a ler o livro. O capricho editorial que a DarkSide deu à edição brasileira (como de costume) terminou de me convencer. O romance, porém, esteve muito longe de ser o que eu supunha que fosse.

Fiquei animado com a ideia de ler uma história contemporânea sobre um homem que, de luto pela morte do filho, pretendia espalhar as cinzas do garoto numa viagem intimista e poética por parques ecológicos. Imaginava apreciar esse simpático tema do contato do homem com a natureza, entrevendo descrições exuberantes como as de Stacpoole em A Lagoa Azul. Pobre criança ingênua rs!

É bem verdade que não se deve esperar muito de um young adult, mas a gente que tem uns aninhos a mais sempre exige um bocado rs. Li as primeiras cem páginas do romance de Catherine com relativo entusiasmo, deixando-me levar pelo simpático August em seu motor home. Mas, depois de um tempo, a condução da autora me pareceu um tanto problemática, arrastada e prolixa. A história ia ficando meio dispersa, sem direção, como um carro desgovernado que segue observando tudo o que vê pela frente, maçando os passageiros.

Catherine Ryan Hyde é hoje mais ou menos o que fora Maria José Dupré aqui no Brasil em meados do século passado: aquela tia que se propõe a contar uma história minuciosamente, sem a mínima pressa, espreitando as conversas alheias. Sua linguagem desataviada e pueril peca principalmente pelos excessos e repetições. Eram tantos diálogos transcritos que, às vezes, esquecia-me de que havia um narrador por ali, à espreita, com sua timidez disfarçada.

Sobre as repetições, tenho ainda fresco na memória o despertar de August no começo de quase todos os capítulos da terceira parte. “August acordou devagar, como se viajasse por um véu de água translúcida.” (pág. 239); “August abriu os olhos e se surpreendeu ao ver o forro vermelho do teto do trailer.” (pág. 246); “August abriu os olhos. Olhou pela janela do trailer.” (pág. 259); “August acordou assustado no banco do passageiro do trailer.” (pág. 286); “August acordou de repente depois de uns quarenta e cinco minutos de sono.” (pág. 297); “August acordou de um cochilo no sofá e percebeu que o trailer estava parado.” (pág. 310); “August abriu os olhos, depois as persianas sobre a cama.” (pág. 321). Lembrou-me as redações de alguns ex-alunos que sempre começavam com “É de conhecimento de todos...”.

Sobre o manejo da narrativa – aquela história do carro desgovernado –, primeiro abracei a temática do pai de luto pela morte do filho de dezenove anos; depois, fui tolerante com a mudança de foco para o alcoolismo, já que a mãe do garoto havia bebido no dia do acidente; fui perdendo a paciência com a crise de August ao tentar curar seus problemas através dos filhos de Wes; temos então a distrofia muscular distal (embora faça sentido, pela reviravolta que ocorre na história); finalmente, a temática do montanhismo quase me impede de terminar o livro.

Devo ter passado a impressão de que odiei a leitura de Leve-me com Você, mas não é bem por aí. Mesmo não indo além de um passatempo para ser esquecido nas próximas semanas, o livro é praticamente salvo pela sensibilidade de August, o pai que todo mundo queria ter. Fico pensando se existiria no mundo um homem tão maravilhoso quanto ele. Provavelmente não rs. Só assim fica explicada a reaproximação tão automática entre ele, Seth e Henry depois de oito anos... Se estou sendo irônico? Talvez.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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