Os últimos livros que tenho lido de Maria José
Dupré têm me deixado bastante insatisfeito. Contava que Gina (1945), último que li, marcaria um feliz reencontro com a
prosadora de Éramos Seis, mas o livro
quase consegue ser pior que o péssimo O Romance de Teresa Bernard.
Em Gina,
mais do que em qualquer livro da autora (dos que li), fica bastante claro a
falta de método, se é que não podemos considerar como propósito escrever um
romance livremente, repleto de episódios isolados que tanto engrandecem a obra
(em número de páginas). Gina é um
romance problemático, sem dúvida, mas tem lá seus bons momentos. Estes, porém,
quando associados aos defeitos da narrativa, acabam em prejuízo.
Já comentei os detalhes exagerados e
corriqueiros, tão recorrentes na escrita da autora, na resenha de Luz e Sombra. Em Gina esses pormenores estão ainda mais acentuados. Temos inúmeros
personagens descartáveis na trama, que aparecem e desaparecem o tempo todo em
episódios isolados e desnecessários. Sabe aquela tia que começa falando do
preço do feijão e termina explicando a doença do marido? Maria José Dupré é
essa tia. Assim, mal Gina encontra com um personagem que não tem nada a ver com
a trama principal, cria-se um intervalo na história. Eu diria que Gina tem mais intervalos que história.
Se por um lado a autora dedica-se na feitura de
relatos e episódios inúteis, por outro ela negligencia em pontos de grande
importância para o romance, o que consequentemente acarreta inverossimilhança à
obra, sobretudo na figura da protagonista.
Gina é um tipo pessimamente desenvolvido e pouco
convincente. Até o final da primeira parte, compreendemos perfeitamente sua
situação. Não é difícil compor a imagem da menina pobre, órfã de pai, detestada
pela irmã, negligenciada pela mãe, que apela à prostituição para escapar da
miséria. Os problemas do livro, a meu ver, começam na segunda parte, quando
Gina, subitamente, decide dar um tempo na sua carreira de mulher alegre para
dedicar-se ao grande sonho de sua vida: a música. É digno de nota que este
sonho, sem precedentes no livro, surge mesmo do nada.
Para realizar o grande sonho de “toda a sua
vida”, embora nunca mencionado antes, Gina decide acompanhar um maestro
italiano que se prontifica a ajudá-la em sua carreira como cantora. Qualquer um
atribuiria a atitude do maestro a interesses sexuais, mas a autora parece
querer nos obrigar a crer que não havia entre ele e Gina outra relação que não
a de amizade. Daí, esses dois grandes amigos partem para a Itália e o romance
se torna livro de viagens, como acontecera em Teresa Bernard e Luz e Sombra.
O exotismo, que era moda no século passado, é novamente explorado pela autora; em
tempos de Google, porém, tal recurso se torna antiquado e desinteressante.
Logo em seguida, Gina perde o interesse pelo
“grande sonho de toda sua vida” quando conhece Frederico, por quem se apaixona
imediatamente. A autora, podendo empregar seu inquestionável poder descritivo
na aproximação destes dois amantes, prefere uni-los sem rodeios,
arrebatadamente, para depois levá-los ao Egito (pois as viagens continuam...
rs). Quanto ao amigo maestro... Quem se importa com ele, não é mesmo?
De volta ao Brasil, a paixão delirante de Gina
esfria ao primeiro obstáculo: a família de Fred, que não aceita o passado da
pretendente do filho. Como n’A Dama das Camélias (que é convenientemente citado pela autora), o pai do moço intercederá,
em benefício da paz doméstica, que Gina deixe Frederico. Ela, que era tão
apaixonada, decide esquecê-lo. Tenta viver longe dos vícios por algum tempo,
movida por seu instinto de dignidade, mas, quando a fome aperta, recorre outra
vez à prostituição.
Na terceira e última parte da obra, subitamente
(para não perder o costume), Gina apaixona-se pelo Dr. Fernando, o Armand Duval
que a resgatará da perdição. A regeneração de Gina (preciso dizer?) não merece
a mesma atenção dada a tantos outros episódios mais relevantes do livro, como a
grávida que cai do trapézio ou a morte do Ribas, que morreu como um passarinho.
Depois que Gina se torna a mais decente das
mulheres e a mais dedicada das mães, a autora, que pretendia que seu romance
tivesse no mínimo trezentas páginas, concentra-se em Zelinda, a irmã invejosa
de Gina. Zelinda, que é mesmo insuportável, não poderia render muito na
história, mas seu desfecho é certamente sua melhor participação na trama. Na
falta dela, temos ainda os filhos de Gina para render bons capítulos: Helena
com seu romance na praia, Fernandinho com sua adorada Juju (já quero um livro
só da Juju!) e Ana Luísa com o velho clichê: eu te odeio porque te amo. Um
casamento encerra a história. Bem novela das seis, não? (A Globo adaptou Gina em 1978).
Gina é um romance
que, apesar de seus bons momentos, acaba se perdendo. O estilo adotado pela
autora renderia-lhe um livro de três mil páginas, que ela sem dúvida faria se a
Saraiva o tivesse encomendado; mas é provável que eles tenham ficado sem
recursos após imprimirem as Memórias de
um Médico do Alexandre Dumas. Estou mesmo desanimado para continuar com meu
projeto de ler as obras da autora (uma por ano) em ordem cronológica. Então,
devo continuar? Os Rodriguez já me
aguardam para 2019. Bah!... Pelo menos é um livro menor rs.
Avaliação: ★★
Daniel Coutinho
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Eu vi esse livro no seu canal, e achei a capa bacana, já estava em busca, lendo sua resenha, desisto. Julguei que a mesma autora de Éramos Seis tinha uma bela trama para nos contar.
ResponderExcluirSim, a capa é do Nico Rosso, o mesmo que ilustrava as capas da Coleção Saraiva. Estou lendo um livro dessa autora por ano, mas realmente não tenho encontrado nada tão bom quanto "Éramos Seis". Mas ano passado li "Os Rodriguez" e foi uma das melhores leituras do ano. Meio que fiz as pazes com a Dupré rs.
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