domingo, 15 de dezembro de 2019

Os Rodriguez, de Maria José Dupré - RESENHA #116

Eu e a senhora Leandro Dupré estivemos amuados um com o outro até bem pouco tempo. A minha resenha de Gina deverá tê-la feito retorcer-se no túmulo. Já estava esmorecendo da proposta de ler a obra completa da autora de Éramos Seis quando finalmente surge uma luz.

Os Rodriguez (1946) é um dos melhores romances de Maria José Dupré. Nele encontramos uma prosadora mais hábil e contida, além de visivelmente mais preocupada com a estética literária de sua obra. Aqui temos a fluidez já conhecida de seus romances anteriores aliada à construção de um texto melhor delineado e verossímil.

Trata-se de um romance de formação onde acompanhamos a trajetória de Dora, desde a infância até a velhice. Dora pertence a uma família de fazendeiros que está em decadência. O livro abre com a fatídica cena dos gafanhotos que devastam as plantações da Fazenda Boa Vista. Empobrecidos, os pais de Dora decidem tentar a vida na cidade mais próxima e posteriormente em São Paulo, onde residiam os tios Rodriguez.

Dora era uma menina franzina e de poucos atrativos físicos, mas inteligente e bastante orgulhosa. Quando levada numa visita à casa de tia Elisinha Rodriguez, sente-se incomodada pela notável diferença de classe. Julgando-se discriminada pela tia e pelas primas, Dora concentra-se em concluir a Escola Normal para ser professora no interior, longe dos parentes ricos. Mas Alexandre, o filho mais moço de tia Elisinha, regressa da Inglaterra e encanta-se pela prima que, com o passar dos anos, torna-se mais bela.

O casamento de Dora e Alexandre se realiza mesmo contra a vontade da mãe do moço. O orgulho de Dora, ante sua nova posição, acentua-se consideravelmente e a mesma persiste em desprezar a família do esposo, salvo tio Paulo, que sempre mostrara-se mais amável. Dora Rodriguez é pois outra mulher: alguém que ignora o passado pobre (incluindo a família) e dá-se por completo às frivolidades da vida social.

Deslumbrada com os prazeres do luxo, Dora torna-se sobretudo egoísta, negligenciando as relações afetivas com o marido e os filhos. Lilian e Alexandre vivem cercados de mimos, mas carecem da atenção dos pais. Dorita, que nascera depois, acaba sendo a mais desprezada, principalmente por ter uma aparência que remete à Dora do passado, a menina esquálida da fazenda Boa Vista. Paulo, o caçula, curiosamente torna-se o filho mais querido, ganhando atenções da mãe que seus demais irmãos jamais tiveram.

Os anos passam e as crianças crescem. Cada um deles, porém, segue por um destino que a orgulhosa Dora jamais poderia prever.

Os Rodriguez constitui um drama familiar onde acompanhamos com interesse o desenrolar de vários episódios de forte carga emocional. Em determinado ponto, a história sofre uma reviravolta e nos deparamos finalmente com as muitas vezes previsíveis consequências dos atos de cada personagem. Nessa emaranhada teia dramática, sobressai a figura da matriarca, com quem o leitor cria uma complexa relação de empatia.

Os capítulos finais são os mais impactantes e algumas cenas são incrivelmente perturbadoras e incômodas. Chamam atenção principalmente pela humanidade que concentram, uma humanidade que transcende o bem e o mal, que nos define enquanto pessoas.

Sem os excessos de obras anteriores, aqui, por exemplo, há apenas menções de viagens para o exterior, poupando-nos daquele exotismo anacrônico tão maçante ao leitor contemporâneo. Certa inconstância no ritmo também pode causar desconforto em alguns momentos. Mas esses e outros defeitos não desmerecem a leitura deste romance onde prevalecem as qualidades.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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