quarta-feira, 4 de abril de 2018

Trilhas Longínquas de Oku (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashō - RESENHA #64

Considerado o maior haicaísta de todos os tempos, Matsuo Bashō (1644-1694) celebrizou-se também pelos relatos que fazia de suas peregrinações. Trilhas Longínquas de Oku (1694), o mais famoso deles, é considerado sua obra-prima. Trata-se do relato de uma viagem que Bashō, acompanhado de seu discípulo Sora, realizou em 1689, por Michinoku, nome pelo qual também era conhecida a Província de Mutsu (território que hoje corresponde às prefeituras de Fukushima, Miyagi, Iwate e Aomori, e às municipalidades de Kazuno e Kosaka na prefeitura de Akita), ao norte e noroeste de Honshu, maior ilha do Japão. Calcula-se que Bashō percorreu, quase sempre a pé, cerca de 2300 km em 156 dias, na idade de 46 anos, considerada avançada para os padrões do século XVII.

Depois dessa confusa introdução rs, passemos à apreciação da obra.

Ainda que não centrado em sua pessoa, Trilhas Longínquas de Oku não deixa de ser um retrato do poeta que foi Bashō. Talvez ele tenha alcançado o grau mais elevado da essência do “ser poeta”, pois sua vida, ao que tudo indica, foi toda dedicada à poesia e à religião. O culto de Bashō pelo zen-budismo — é importante lembrar — está diretamente associado ao culto da poesia. Acho que ficou claro que a vida desse ilustre oriental foi pura poesia mesmo rs. Ainda que os biógrafos discordem bastante a seu respeito, o amor pelo haicai (desde tenra idade) acaba sendo o ponto de interseção entre todos eles.

O que chama atenção na obra máxima de Bashō não é exatamente o percurso empreendido por ele, mas suas reações diante das paisagens e pessoas que encontra. Sua sensibilidade é algo inacreditável, notadamente para o leitor contemporâneo. É interessante como o perigoso trajeto se relaciona ativa e passivamente com a poesia: ora Bashō busca intencionalmente uma imagem referida por autor clássico, ora uma imagem presenciada é logo associada pelo poeta a algum poema famoso. Claro que essas referências, geralmente mescladas com o texto, só poderiam ser atinadas por conhecedores da poesia japonesa, como Meiko Shimon (tradutora da minha edição), que através de notas de rodapé, chega a transcrever alguns dos poemas aludidos por Bashō.

Eis uma obra puramente contemplativa: para autor e leitor. A viagem tinha fins exclusivamente poéticos. Bashō buscava: matéria para seus haicais, encontrar velhos amigos poetas, conhecer outros igualmente dedicados à poesia, verificar monumentos referidos pela poesia clássica, praticar sua fé em vários templos encontrados, apreciar as variedades naturais. Acho que fiz um resumo do livro todo agora rs. Mas nada como compartilhar da sensibilidade do autor! Se por um lado ele aprecia cuidadosamente o ambiente à sua volta, o leitor aprecia seu maravilhoso senso de observação.

Trilhas Longínquas de Oku é permeado por vários haicais de Bashō e Sora, todos eles poemas circunstanciais, que expressam as emoções de momentos marcantes do trajeto; algumas vezes estes poemas eram dependurados na entrada dos locais visitados. Assim, há um poema dedicado às armas de valentes guerreiros de outro tempo, outro inspirado pela empatia para com o sofrimento de duas prostitutas, aquele pelo qual se despede de seu companheiro Sora... Enfim, são muitos haicais, alguns até atendendo a pedidos rs.

O relato de Bashō é de uma simpleza graciosa, mas que exige bastante atenção de leitores, como eu, pouco afeitos à cultura oriental. A tradução de Meiko Shimon tem o mérito de ser a primeira (no Brasil) a verter o texto do original japonês para a língua portuguesa, mas talvez por não ser a tradutora uma falante nativa do português, algumas passagens não me pareceram bem transpostas para nosso idioma, o que pode representar uma dificuldade sofrível, já que a comprometida fluidez de certos trechos não chega a interferir na compreensão da obra.

Imagino que os amantes da poesia apreciarão a prosa poética de Bashō bem mais do que eu, mas, sinceramente, aproveitei esta experiência com particular entusiasmo. Há uma pureza nas impressões do poeta viajante que chega a emocionar, por sugerir que o homem carece de fé e de arte para se manter num mundo tão materialista.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 29 de março de 2018

Casamento de Amor (Matrimonio d'Amore), de Francesca Lenardon Pilosio - RESENHA #63


Como deu muito certo ler algo mais de Stacpoole, utilizei a mesma estratégia, desta vez retornando a uma autora descoberta em 2017: a italiana Francesca Lenardon Pilosio ou simplesmente Franca Lenardon. Quando li Uma Mulher ano passado, tive certeza que não poderia parar por ali com tão subestimada autora. A obra escolhida foi outra publicação da Saraiva, mas pertencente à “Coleção Rosa”, voltada especialmente para o público feminino. Trata-se de Casamento de Amor (1944) que, não obstante ser obra mais simples, possui as mesmas qualidades que me seduziram na obra anterior.

A escrita da senhora Lenardon é de uma fluidez tão correntia que, sem perceber, você já tem lido mais páginas do que planejava. Foi assim com Uma Mulher (lido em 2 dias) e com Casamento de Amor (lido em 3 dias). Esse ritmo não se deve exclusivamente à simplicidade do texto. Já li romances de escrita mesmo primária muito lentamente, porque não instigavam meu interesse. Talvez o segredo de Lenardon esteja na forma como ela dispõe as cenas, na beleza de suas descrições domésticas, na vivacidade dos diálogos e na construção de tipos que ganham a simpatia do leitor. Essa combinação proporciona uma experiência de leitura agradabilíssima!

O que pode causar aversão ao leitor contemporâneo, sobretudo no apreciador da literatura atual, é certa ingenuidade no estilo da autora, o que talvez tenha contribuído para seu ostracismo. Lenardon pinta situações e criaturas que parecem habitar num mundo cor de rosa. Mais que otimista, ela é idealista. No seu romance, por exemplo, não há vilões; a figura mais próxima de um antagonista é o próprio herói. A narrativa é cercada de um sentimentalismo que pode parecer piegas, mas que se fundamenta em valores que deveriam ser mais cultivados por nós: a bondade, a caridade, a honestidade, a integridade, etc. Mesmo sabendo que o mundo não é o que se pinta em Casamento de Amor, não posso evitar apaixonar-me por ele e compartilhar do sonho de Lenardon.

No romance, temos a história de Alfredo Altieri, filho da condessa Eleonora, que deseja casá-lo, para não deixá-lo sozinho no caso de sua morte, uma vez que Alfredo é órfão de pai. O rapaz, contudo, é um desiludido que julga mal todas as mulheres, desinteressado pois pelo casamento. Seu tio Carlos, temendo a extinção do sobrenome da família, já que não tivera filhos, ameaça deixar sua herança para estranhos, no caso do sobrinho não casar-se naquele mesmo ano. Alfredo, para quem o palácio do tio Carlos tinha um valor sentimental, consente no casamento, não demonstrando contudo um mínimo interesse pela possível noiva.

À condessa Eleonora é atribuída a missão da escolha da felizarda, pois Alfredo, cujo maior interesse é conhecer os exotismos do mundo, está de viagem marcada para a China. Pretendendo demorar-se na viagem como de costume (até porque o itinerário de nosso viajante contempla vários outros países orientais), Alfredo deixa uma procuração com Barni, o advogado da família, que logo sugere à condessa a candidata ideal para seu filho. Trata-se de Bárbara, uma bela jovem que, ficando órfã muito cedo, fora criada num colégio de freiras.

Bárbara é uma jovem que, mesmo tendo passado a maior parte de sua vida reclusa, possui considerável instrução, além de uma poderosa capacidade intuitiva das situações. Mesmo julgando a proposta da condessa um tanto questionável, aceita-a por confiança em Barni, seu tutor, a quem trata por padrinho, além de sentir-se atraída pela ideia do casamento com o jovem da foto que lhe é apresentada. Assim, efetua-se aquele incomum casamento, sem a presença do noivo.

Bárbara, embora fascinada com sua nova casa e aquela nova mãe, lamenta a demora do esposo, que não manifesta um interesse legítimo por ela nem mesmo por correspondência. Casualmente, acaba ouvindo uma conversa entre a sogra e Barni, pela qual descobre a verdadeira razão de seu casamento. Por esse tempo, a condessa adoece gravemente e acaba falecendo. A baronesa Maria, irmã de Eleonora, que estava presente desde o casamento de Bárbara, decide fazer companhia à jovem até o regresso de Alfredo. A jovem esposa, porém, está decidida a deixar a casa de seu marido e não mais esperar por ele.

Maria e Barni ficam impressionados com a decisão de Bárbara, mas a verdade é que ela tem um plano. Bárbara não acredita que Alfredo possa amá-la por imposição. Ele precisaria conhecê-la espontaneamente, sem sentir-se obrigado pelo casamento, para então interessar-se por ela legitimamente. Para tanto, ela precisa de uma nova identidade, para ser a mulher que Alfredo encontrará depois de sentir-se desprezado pela esposa. O plano a todos parece muito arriscado, mas, para Bárbara, é a única possibilidade de ter um casamento de amor.

Casamento de Amor é impregnado dessa encantadora atmosfera de conto de fadas. É um livro que, embora tenha me agradado bastante, preferiria ter lido aos quatorze anos, idade na qual estamos mais propensos a sonhar com um mundo ideal, em que todas as pessoas são boas e dignas de uma felicidade para a qual não existem limites.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 24 de março de 2018

Os Dois Sósias (The Man Who Lost Himself), de H. De Vere Stacpoole - RESENHA #62


Entusiasmado que fiquei com a escrita de Stacpoole, quando li ano passado A Lagoa Azul, ansiava urgentemente ler mais alguma coisa do autor. Ainda entristecido por não poder ler os outros dois livros da trilogia de Emelina e Dick, acabei localizando este romance de aventuras publicado no Brasil em 1956 pela editora Edigraf: Os Dois Sósias (The Man Who Lost Himself, 1918).

Mesmo assinado por Stacpoole, o livro não parecia grande coisa, a julgar pela qualidade da edição. O título bem diverso do original também me sugeriu uma tradução malcuidada. Mas como era tudo o que me restava deste maravilhoso irlandês, não podia deixar passar rs! E para minha grande surpresa (ou nem tanto assim), acabei adorando o livro. Simplesmente divertidíssimo!

Os Dois Sósias, diferente d’A Lagoa Azul, é obra mais ligeira e despretensiosa, mas de leitura tão agradável e cativante, que estou convencido de que Stacpoole tem sido negligenciado pelo público brasileiro. Ainda que tenha lido por uma edição de bolso com letra pequeníssima e numa tradução um tanto problemática, pude vislumbrar o talento inquestionável do autor. Dentre outras surpresas, o enredo me fez pensar que talvez Inés Rodena tenha se inspirado nesta obra para criar a trama de La Usurpadora. Quando passarmos ao enredo, este ponto estará devidamente esclarecido. Que seja pois já rs!

Vitor Jones é um jovem americano que não tem tido sorte na vida. Uma recente relação profissional o leva para território inglês onde mais uma vez a sorte se lhe apresenta adversa. Desgostoso de tanto insucesso, acaba conhecendo um homem que mudará sua vida inteiramente: o conde Artur Rochester, seu perfeito sósia. Este, primeiro a se dar conta da incrível semelhança entre os dois, decide festejar a descoberta com Jones.

No dia seguinte, Jones acorda num lugar onde nunca esteve antes. Ele só lembra de ter sido carregado bêbado para aquela residência que logo reconhece ser a mansão do conde de Rochester. Uma porção de criados logo o cerca de cuidados e atenções com os quais ele nunca sonhara. Todos o tomam pelo conde. Embora julgando-se vítima de uma brincadeira, o verdadeiro conde não se manifesta. Uma notícia de jornal notificando a morte de um americano identificado como “Vitor Jones” convence o verdadeiro Jones de que fora o conde de Rochester, o responsável pela troca, quem realmente acabara falecendo.

O conde, contudo, tivera tempo de deixar uma carta para seu sósia, pedindo-lhe que se aguentasse em seu lugar. Assustado com a situação, receoso de complicar-se ainda mais e sem um níquel no bolso, Jones prefere calar a verdade e continuar representando o papel do sósia. Não imaginava, contudo, que Rochester fosse um estroina de péssima reputação, cercado de más companhias e, ainda por cima, infiel à esposa.

Para sua surpresa (e do leitor), Jones assume a identidade do sósia de tal forma, que reage às consequências da vida dele, como se fosse a sua própria, chegando mesmo a confundir-se ocasionalmente sobre sua personalidade. Tudo o que era indiferente a Rochester é encarado com austeridade pelo sósia que logo propõe-se a reparar todos os erros daquele cujo lugar usurpava. Como se não bastassem tantos problemas de natureza diversa, Jones ainda sente-se inevitavelmente atraído por Teresa, a esposa do conde, que não obstante os inumeráveis defeitos do marido, ainda o ama. Digam se vocês não viram essa novela de Gabi Spanic rs?

Admito que mesmo envolvido com as peripécias aventurescas da trama, não podia deixar de rir-me da situação, como que desdenhando de uma história improvável que não fazia mais que me divertir. Mas Stacpoole, prevenido de leitores como eu, acaba fazendo uso de um recurso com o qual não contava. Em poucas palavras, ela cria uma situação que obriga o leitor a dar crédito à sua improvável narrativa. O que parecia inverossímil acaba sendo aceitável. Essa obstinação do autor por fazer crível seu enredo fez a obra crescer consideravelmente em meu conceito.

No mais, só compartilho de uma impressão curiosa que tenho observado em relação a romances de aventura. Esse ritmo acelerado que os caracteriza chega a me aturdir. Talvez por estar habituado a leituras que refletem as situações mais atentamente e que, portanto, são mais lentas, fico quase ofegante com esse correr de cenas e acontecimentos apressados. Ainda que me divirta com as situações, elas acabam me cansando também, pela velocidade com que transcorrem na obra.

Desejaria muito ver Stacpoole sendo reeditado aqui no Brasil. É autor de estilo agradável e envolvente, seja pela sedução poética d’A Lagoa Azul, seja pelo movimento excitante d’Os Dois Sósias.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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terça-feira, 20 de março de 2018

Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett - RESENHA #61 (contém spoilers)


Ainda estou meio zonzo da leitura que fiz das Viagens na Minha Terra (1846), de Almeida Garrett. Confesso que fui ao livro com certo receio, provocado pela fama de “difícil” que ele tem. Fácil realmente não é rs. A escrita de Garrett me parecia, por vezes, tão incomum, que difícil me era compará-la. Ouso dizer que suas peculiaridades linguísticas vão além das de Camilo, mas é muito provável que tal impressão se explique no fato de que esta foi minha primeira experiência com o iniciador do Romantismo em Portugal.

Viagens na Minha Terra é obra híbrida, ou seja, que faz mistura de gêneros e estilos. Essa estrutura nada convencional já lhe confere grande interesse (ainda que não de minha parte rs), especialmente pela época em que foi publicada. Não é tarefa fácil comentar obra que discute uma infinidade de temas propositalmente dispersos. A leitura é mesmo confusa, e é o próprio autor quem assevera: “Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, só com muita paciência se pode deslindar e seguir em tão embaraçada meada.”.

Contentar-me-ei em comentar o que me parecer digno disso!

Os primeiros capítulos são formidáveis. Parodiando os modelos clássicos, o autor propõe um relato extraordinário que se concentra nos sucessos de uma viagem de Lisboa a Santarém. São os mínimos detalhes do percurso, contudo, que abrem margem para muitas digressões. O estilo dessas observações é irônico, galhofeiro e revestido de uma falsa presunção. Mesmo não sendo exatamente modesto, nosso narrador não é um vaidoso. Sua afetação é antes artifício, dentre outros que colaboram com o bom humor de sua obra. Achei divertido e inteligente; o autor sabe ser mordaz sem ser deselegante.

A certa altura do percurso, quando chega ao Vale de Santarém (que não deve ser confundido com Santarém, o destino final), nosso narrador fica profundamente impressionado com a visão de uma janela, o que lhe faz cismar. Um de seus companheiros de viagem acode-lhe, dispondo-se a contar a história da menina que um dia vivera ali, recostada àquela janela, rodeada de rouxinóis. Começa aqui o episódio da “Joaninha dos olhos verdes”.

Nem preciso dizer que grande parte do meu interesse em ler as Viagens era justamente conhecer o famigerado episódio de Joaninha. Que decepção! E que claro esteja: agora trato do romancista!

A história de Joaninha, à primeira vista, pode mesmo parecer bastante singela. A narrativa principia de maneira bem despretensiosa: uma velha cega (dona Francisca) dobando um novelo, tendo como única companhia sua neta (Joaninha) de dezesseis anos. As duas recebem, costumeiramente às sextas-feiras, a visita do sinistro Frei Dinis. Há, contudo, uma aura de mistério em torno desse quadro de simplicidade.

Mas, agora, desenrolemos a trama sem os meandros do autor rs!

Dinis de Ataíde fora um nobre português que, após ter granjeado sucesso na carreira militar, dedicara-se à magistratura, fazendo interessante fortuna. Teve, contudo, a má sorte de interessar-se por uma mulher casada: a filha de dona Francisca. Consumado o adultério, nasce Carlos, a quem todos pensam ser um filho legítimo. Quando descoberta a traição, o filho de dona Francisca (pai de Joaninha) une-se ao cunhado para limpar a honra da família. Dinis, em defesa da própria vida, vê-se obrigado a matar os dois; matara, contudo, ignorando a identidade de suas vítimas; o reconhecimento delas causa-lhe grande arrependimento. Para livrar-se dos corpos, lança-os no rio Tejo, o que acaba sugerindo, com conveniência, um suposto acidente.

Dinis não esconde o crime praticado da mãe de Carlos. A esposa infiel, horrorizada, falece chorando pelo marido perdido e amaldiçoando o amante, pai de seu filho. Lembremos ainda que dona Francisca esteve sempre a par de todos esses acontecimentos! Assim, para expiarem suas penas, Dinis de Ataíde e dona Francisca entregam-se à vida religiosa. O magistrado torna-se Frei Dinis, guardião do Convento de S. Francisco de Santarém; e dona Francisca consagra-se à educação de seus netos: Carlos e Joaninha. A fortuna que fora de Dinis de Ataíde é quase toda para o sustento dos órfãos.

As circunstâncias teriam seguido assim sem maiores dificuldades, não fosse o fato de que Carlos cresce com a desconfiança de que sua avó e Frei Dinis foram cúmplices na morte de “seu pai”. Sua prima, quinze anos mais jovem que ele, era muito criança para compartilhar de seus receios. Desiludido ainda com a situação política de Portugal, Carlos, após formar-se em Direito, decide emigrar para a Inglaterra. Sua partida acaba sendo fulminante para todos. Não se trata de uma questão puramente familiar, mas política.

Instaura-se uma guerra civil entre realistas e liberais. Carlos está entre os liberais, para desgosto de Frei Dinis. Os combates trazem-lhe de volta ao Vale de Santarém e, numa tarde, ele reencontra Joaninha, adormecida no campo. A nova imagem da prima, que vira apenas criança, acende-lhe chamas no coração. E agora falemos do coração de Carlos, que vem a ser o “grande motivo” do romance.

Carlos sofre por ter um coração maior do que se possa conceber. Em Inglaterra, por exemplo, ele apaixona-se por três irmãs: Júlia, Laura e Georgina. Certamente que seu tipo era dos mais atraentes, uma vez que as três irmãs acabam correspondendo aos seus honestos sentimentos. Mas não pensem que ele comete o descaramento de amá-las ao mesmo tempo! Seu coração só resiste a uma por vez rs. A primeira que amou, Laura, infelizmente, já estava comprometida e acaba indo morar com o marido na Índia; com Júlia, seu amor acaba sendo mais platônico, em razão de Georgina ser muito mais bonita rs; o reencontro com Joaninha, finalmente, vem confirmar o diagnóstico que ele mesmo faz de si: “Oh! eu sou monstro, um aleijão moral deveras, ou não sei o que sou.”. Não parece um romance maravilhoso e de grande interesse? Mas ainda não chegamos na melhor parte rs!

Em razão de seu compromisso com os liberais, Carlos deixa sua noiva e vai para a Ilha Terceira, onde desperta o amor de uma piedosa freira que, segunda ela, só queria consolá-lo. Ele, de fato, parecia muito triste por ter o coração dividido entre a Índia, a Inglaterra e o Vale de Santarém rs! O diabo não é tão feio como se pinta; por isso, Carlos acaba não correspondendo a mais esta conquista, o que não evita contudo diversos comentários maldosos a este respeito.

Lamento se esta resenha estiver um pouco confusa. Garanto que o é menos que o livro de Garrett!

Esquecia-me dizer o resultado do bucólico encontro entre Joaninha e seu amável primo. A reação dela ao despertar é de grande surpresa por encontrar a personificação do objeto de seus sonhos, porque, sim, Joaninha também acaba apaixonada por Carlos. Dividido entre o amor da prima e o da bela inglesa, Carlos empenha-se na sua causa política, mas acaba gravemente ferido num combate. Feito prisioneiro, ele acaba sendo salvo por Frei Dinis, que decide tratar as feridas do filho em seu convento. Mas Carlos ainda teria uma enfermeira particular: Georgina, que fora encontrá-lo em Portugal, por julgar muito frias as últimas cartas mandadas pelo maravilhoso noivo. Desconfiada, ela acaba sabendo da existência de Joaninha e dos novos sentimentos de seu amado; mas, num ato de inacreditável resignação, a bela inglesa acaba cedendo Carlos para a tal priminha dos rouxinóis. Digno de nota: Joaninha aceita o sacrifício de Georgina de muito bom grado.

As desconfianças de Carlos são também finalmente esclarecidas depois que ele se recupera das feridas. Sua primeira ideia é matar Frei Dinis, mas acaba sendo retido pela descoberta de ser o franciscano seu verdadeiro pai. Perplexo, ele beija a mão ao pai, abraça a avó e parte para Évora. De lá, remete uma carta para Joaninha, contando-lhe os detalhes de seu incomum coração, tão incapaz de amar uma única mulher. Joaninha enlouquece e morre; Carlos enriquece e torna-se barão.

Não é uma linda história de amor?

Não bastasse o enredo do episódio de Joaninha ter se perdido inteiramente em incoerências, o autor alterna tão emocionante história com outras tantas digressões, mas não como aquelas dos capítulos iniciais. As digressões finais fazem o leitor percorrer por templos, túmulos, pardieiros e outros grandes monumentos da histórica Santarém. Vocês não imaginam o meu interesse rs!

Brincadeiras à parte, não estou aqui para questionar o valor da obra de Garrett. Percebi, principalmente na primeira metade da obra, o grande escritor que ele era. Mas, convenhamos que, como romancista, realmente não vingou.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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