quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

O Vigário de Wakefield (The Vicar of Wakefield), de Oliver Goldsmith - RESENHA #173

O Vigário de Wakefield é daqueles livros com que sempre nos deparamos através de referências, ou seja: muitos conhecem, mas poucos leram de fato. Embora menos lembrado atualmente, o clássico do irlandês Oliver Goldsmith foi grandemente apreciado e popular desde seu lançamento em 1766.

Os romances do século XVIII, de modo geral, não envelheceram muito bem. A produção do século seguinte, sendo mais aprimorada e superior, tornou o leitor contemporâneo bastante exigente. Deve-se contudo levar em conta os fatores que caracterizam a ficção dessa época. Uma narrativa mais lenta, didático-moralista, com personagens e situações artificiais, atendia suficientemente os leitores de então.

Em O Vigário de Wakefield, temos uma narrativa lúcida e objetiva desde a primeira frase. Charles Primrose, o vigário do título, é um narrador competente que, com muita habilidade, conta-nos sua história sem maiores dificuldades. Assim, ele nos apresenta sua casa, sua lareira e, o mais importante, sua família.

Charles e sua esposa Deborah viviam confortavelmente com seus filhos, mas a fuga do comerciante que cuidava do dinheiro do vigário acaba abalando a situação financeira da família, que precisa mudar de casa, como também de estilo de vida.

Charles, em seu estoicismo, procura conduzir os seus pelo caminho da resignação e da humildade, enaltecendo o valor da família e da vida simples mas honrada. A princípio, a vaidade da esposa e das filhas sofre um pouco com as novas condições, mas outras circunstâncias poderão dificultar ainda mais a felicidade doméstica.

George, o mais velho dos rapazes, aparta-se da família em busca de aplicar seus estudos num trabalho digno. Olívia, a filha mais velha, acaba se apaixonando pelo proprietário da nova moradia, o senhor Thornhill, cuja reputação é bastante duvidosa. Sophia, por sua vez, é cortejada pelo misterioso senhor Burchell que, desprovido de fortuna, não pode lhe oferecer um casamento vantajoso.

Uma série de dificuldades se interpõe à felicidade da família de Charles, mas sua postura diante dos problemas será a fortaleza que sustentará seu tão querido lar. Ao longo dessa trajetória, o leitor encontra não poucas passagens dignas de marcação, principalmente pela grandeza de seus sábios ensinamentos.

A primeira metade do romance acabou me agradando mais pela leveza, fluência e simplicidade das cenas, que são de um colorido único. Após um episódio mais grave com Olívia, porém, o livro muda de tom, tornando-se mais carregado e repleto de embaraços que põem à prova a serenidade do bom vigário e até mesmo a paciência do leitor.

O romance de Oliver Goldsmith, apesar de seus exageros, felizmente, não cai em incoerências. As voltas e reviravoltas da trama são devidamente explicadas, ainda que um tanto apressadamente. A impressão final foi-me bastante positiva e, se a primeira frase do romance já fora digna de marcação, a última certamente jamais será esquecida.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 1 de janeiro de 2022

TOP 7 - MELHORES LEITURAS DE 2021!!!

Se 2020 foi um ano complexo para minhas leituras, 2021 deve ter sido duas vezes mais. O ano passado foi um ano de muitas mudanças, de idas e vindas, de voltas e reviravoltas, de maneira que não pude concluir mais do que 29 títulos. Desta vez, portanto, ao invés do costumeiro Top 10, teremos um ranking mais simplório com apenas 7 livros. Eu poderia perfeitamente acrescentar outras três obras lidas para não quebrar a tradição, mas, analisando as demais leituras, não as julguei dignas de figurar numa lista como esta. Espero que meus leitores, portanto, contentem-se com estas sete indicações de livros maravilhosos que me acompanharam no complexo ano de 2021.

 

# 7º lugar A TORRE EM CONCURSO, de Joaquim Manuel de Macedo (4 estrelas)

Uma das alegrias de 2021 foi retornar ao teatro do doutor Macedinho. Em 2020 eu não havia conseguido ler nenhuma peça. Ano passado eu pude ler três e, dentre elas, A Torre em Concurso certamente se destacou. Macedo põe em cena uma excelente sátira política que dialoga ainda bastante com o cenário atual.



# 6º lugar  VILA SOLEDADE, de Maria José Dupré (4 estrelas)

A última leitura do ano evitou que esta lista fosse um Top 6 rs. Vila Soledade mostrou-se um dos melhores romances de Maria José Dupré. É uma história sofrida, como costumam ser os livros da autora de Éramos Seis, mas este em especial, talvez pelo momento em que o li, tornou-me muito empático com a protagonista Ana em sua busca pela felicidade. Em diversos momentos eu me via em Ana, uma vítima da incompreensão alheia, cada um sofrendo por seu próprio motivo. E o que dizer daquele desfecho? Ainda não superei.


# 5º lugar  ANNE DE AVONLEA, de Lucy Maud Montgomery (4 estrelas)

Segundo melhor livro da série “Anne”, esta foi uma leitura muito feliz. Anne de Avonlea é um livro que exala alegria e tantos outros sentimentos bons, que não podemos lê-lo sem um sorriso no rosto. É uma pena que a série não tenha conseguido manter o nível e o dinamismo dos dois primeiros títulos, ainda que tenha entregado várias passagens notórias ao longo de todos os volumes. Fui conquistado pelo bom humor, pela delicadeza e pela sensibilidade dessas páginas encantadoras.


# 4º lugar  A FAMÍLIA MEDEIROS, de Júlia Lopes de Almeida (4 estrelas)

Sim, vocês já sabiam que ela apareceria aqui, não é? A cada novo livro que leio de D. Júlia, fico mais convencido de que ela é minha autora brasileira preferida, desbancando até minha querida Rachelzinha. Eu simplesmente amo todos os livros que leio dessa mulher e fico surpreendido com o fato de que ela parece adivinhar os meus pensamentos, optando por escolhas na trama que lavam a minha alma. Anne Shirley diria que D. Júlia e eu somos almas gêmeas rs. Eva é uma personagem que me cativou tanto, como se tivesse saído de um livro alencarino ao estilo de O Tronco do Ipê ou Til. Mesmo com uma escrita mais modesta, por se tratar de sua primeira ficção longa, a autora nos entrega um romance delicioso.


# 3º lugar  GEORGE, de Alex Gino (5 estrelas)

Se este livro não existisse, ele precisaria ser escrito o quanto antes. Felizmente já temos George, narrativa contemporânea que aborda com bastante franqueza o tema da “transexualidade”, sendo ainda mais impactante por trazer uma criança trans como protagonista. Alex Gino faz o tratamento de um tema complexo com tanta leveza e naturalidade, que tudo parece mais simples do que de fato é. Mas esta leitura só será relevante e esclarecedora para quem estiver disposto a entender que George é e sempre foi uma menina.


# 2º lugar  TIPO UMA HISTÓRIA DE AMOR, de Abdi Nazemian (5 estrelas)

Desde que li este livro no começo do ano, sabia que ele apareceria aqui. Não sou um grande leitor de literatura contemporânea e fico muito satisfeito sempre que me deparo com grandes livros escritos no meu próprio tempo. Tipo uma História de Amor é muito mais que um romance gay. É um interessante registro sobre como era a comunidade LGBT+ nos anos 80. É surpreendente perceber o quanto avançamos até os nossos dias, embora certas dificuldades ainda persistam, principalmente no que se refere à aceitação. A história de Reza, embora mais impactante para o jovem leitor que ainda está descobrindo sobre sua própria sexualidade, é digna da apreciação de todos quanto queiram se aventurar por uma narrativa excelentemente bem construída.


# 1º lugar  ANNE DE GREEN GABLES, de Lucy Maud Montgomery (5 estrelas)

L. M. Montgomery está longe de ser uma das minhas autoras favoritas, mas é inegável que ela conseguiu com Anne de Green Gables criar um clássico atemporal. A leitura deste primeiro livro (de uma série de nove) dispensa completamente a leitura dos demais. Não que os outros sejam ruins, mas nenhum consegue prender tanto o leitor quanto o romance de 1908. Anne Shirley é uma das crianças mais adoráveis da literatura mundial. Falante, sonhadora e cheia de imaginação, ela nos conquista facilmente, nos diverte e nos empolga com suas trapalhadas. Livro para todas as idades, para todos os públicos, para todos aqueles que apreciam o lado bom da vida e que se esforçam para ser melhores a cada dia.

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Vila Soledade, de Maria José Dupré - RESENHA #172

Estou inteiramente reconciliado com a prosa de Maria José Dupré. Todos por aqui sabem do meu projeto pessoal de ler sua obra completa, e que tive algumas decepções nessa trajetória. A leitura de Os Rodriguez, em 2019, reanimou-me o interesse pela obra da escritora paulista. Vila Soledade (1953), o livro deste ano, veio confirmar minha admiração pela autora de Éramos Seis.

Vila Soledade é sem dúvida uma de suas obras com melhor acabamento. A meu ver, seu problema mais grave concentra-se nos capítulos iniciais, quando a autora despeja para o leitor vasto leque de personagens que não serão essenciais à trama principal. De fato, os capítulos sobre os avós da protagonista podem soar meio fastidiosos e levar muitos leitores ao abandono. Mas felizmente não se trata de um obstáculo demorado ou difícil de ultrapassar e, na sequência, o livro segue num ritmo excelente.

Ana é uma mulher madura, pertencente à alta sociedade, que vive um casamento de aparências. Mesmo que ela tenha casado por amor, seu marido Estêvão nunca a amou verdadeiramente, sendo desses homens que veem o matrimônio mais sob a ótica das convenções sociais.

Frustrada enquanto esposa, Ana também não consegue ser uma boa mãe, tendo dificuldade de ganhar o carinho e a confiança dos filhos. Estes acabam ficando mais próximos de Lisa, a governanta austríaca que cuidara deles desde pequenos. Vera e Rodrigo também manifestam mais interesse pelo pai, considerando sempre mais a opinião dele em todos os assuntos.

Para preencher o vazio de sua vida, Ana dedica-se ao piano, uma de suas paixões. Ela também é uma leitora voraz e está sempre à procura de novos livros. O apoio da irmã mais velha, a conservadora Albertina, também é um consolo em sua existência. Mas a amizade dos moradores e frequentadores da “Vila Soledade”, o sítio da cunhada, será culminante para o desenvolvimento da personagem.

É na “Vila” que Ana conhece Otávio, um advogado desquitado que, desde o princípio, manifesta crescente interesse por ela. A partir daí, Ana vive o dilema da dúvida entre seguir suas próprias inclinações, na tentativa de descobrir a felicidade; ou preservar, antes de tudo, a sua imagem de mulher correta perante a sociedade, principalmente aos olhos de Albertina, sua única irmã, e que jamais concordaria com o divórcio.

Acompanhamos as dúvidas e as cogitações de Ana ao longo de boa parte do livro. Em todas as visitas à “Vila”, novas situações fazem-na repensar sua situação. Em vários momentos ela tenta evitar as visitas ao sítio da cunhada Soledade, um raro exemplo de mulher feliz no casamento, mas a insatisfação de sua vida pessoal a impelem para uma tentativa arriscada de redescobrir o amor.

Vila Soledade é daqueles livros que facilmente geram empatia no leitor, que sofre junto com a protagonista em toda sua angustiante trajetória. Ana é tão humana, tão cheia de defeitos, mas ao mesmo tempo tão desejosa por uma mudança, tão esperançosa por descobrir a felicidade, que sorrimos e choramos com ela, quase querendo abraçá-la em alguns momentos. Era reconfortante ver que havia uma personagem ali, a boa tia Hortênsia, que lhe inspirava e oferecia compreensão.

Encerrei meu ano de leituras com uma das melhores obras de Maria José Dupré. Tem sido uma experiência interessantíssima acompanhar e constatar a evolução de escrita da autora ao longo dos anos. De sua ficção adulta, restam ainda dois romances por ler. Espero que, como este Vila Soledade, tragam boas surpresas nos próximos anos.

Avaliação: ★★★★

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

O Retorno dos Blythes (The Blythes Are Quoted), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #171

Após empreender a leitura dos oito livros da série “Anne”, restava-me ainda conhecer aquele que é considerado por muitos o nono livro: O Retorno dos Blythes. Como era meu propósito ler toda a série em 2021, tratei de executar a leitura antes que o ano acabasse. Quanto aos dois volumes das Crônicas de Avonlea, como não são exatamente parte da saga de nossa ruivinha, preferi deixá-los para outro momento, pois já basta de Montgomery por este ano rs!

O Retorno dos Blythes também poderia ter sido lido em momento mais oportuno, pois, assim como nas Crônicas de Avonlea, a família Blythe não é o objeto central. Este suposto nono livro é na verdade um compilado dos manuscritos do fim da vida de Montgomery. Nele estão reunidos quatorze contos, dezenas de poemas, além de alguns textos menores que contextualizam o conjunto.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1974, numa versão resumida intitulada A Estrada para o Ontem. A versão completa da obra só seria organizada e publicada por Benjamin Lefebvre em 2009. Quase todos os contos compilados (interesse maior desta resenha) constituem a produção ficcional da própria Anne, que costumava ler e comentar suas histórias com toda a família reunida em volta da lareira de Ingleside.

Os contos deste livro podem ser divididos em duas categorias: aqueles cujos temas são inovadores na produção de Montgomery; e aqueles que mais parecem um filminho de “sessão da tarde”, ao modelo de várias histórias avulsas que acompanhamos ao longo da série “Anne”. De modo geral, o conjunto é bastante agradável, salvo duas histórias que me pareceram absurdamente desnecessárias. Tentarei fazer comentários sucintos sobre todos os contos a seguir.

A começar pelos contos de temas mais diversificados, e que me pareceram mais interessantes, temos “Alguns tolos e um santo” abrindo o conjunto e surpreendendo por se revelar um conto de terror. Curtis Burns é o novo ministro da congregação metodista de Mowbray Narrows, mas acaba chocando os membros de sua igreja ao anunciar que se hospedaria na residência de Alec Comprido, um lugar que todos acreditam ser mal-assombrado. O conto é interessante e tem seus momentos realmente assustadores, mas pareceu-me prolixo em diversas passagens, sendo a narrativa mais longa do livro.

“Retribuição” e “A reconciliação” são histórias parecidas. Em ambos temos personagens femininas decididas a acertar contas com o passado, mas, quando do momento culminante de suas performances, as situações terminam de forma inesperada. O efeito final é que não é o mesmo: há ironia no primeiro caso e, no outro, um delicioso senso de humor.

“A imaginação nos faz de tolo”, um dos contos mais peculiares da coletânea, traz um enredo que flerta com o fantástico. A jovem Esme está à beira do casamento, mas seu coração está cheio de dúvidas, graças a um insólito episódio do passado envolvendo a excêntrica tia Hester. “Um sonho se realiza” também tem seus toques fantasiosos ao relatar uma situação que sugere uma dúvida constante no leitor sobre ser ou não real.

“Cuidado, irmão” poderia se encaixar no grupo das histórias mais bobinhas do livro, mas parte de uma premissa tão inusitada, que destoaria das demais. Timothy acredita que seu irmão Amos estragaria sua vida ao contrair segundas núpcias com Alma Winkworth, mas, ao tentar impedir a aproximação do provável casal, acabará sendo vítima de seu próprio plano.

Se este livro possui um conto impecável e que pode ser considerado a joia do conjunto, este certamente é “Uma mulher comum”. A leitura desta narrativa por si só já justifica o interesse pelo volume como um todo. Em “Uma mulher comum”, Montgomery está no seu melhor. A história de Ursula Anderson surpreende por vários motivos: pela construção, pela ambientação, pela alternância nos pontos de vista, pela enredo revelador e, sobretudo, pelo desfecho inesperado. Um conto primoroso, sem dúvida!

Passando agora ao conjunto das histórias mais previsíveis e menos trabalhadas, temos aquelas situações clássicas dos contos infantis: a adoção de uma criança órfã, o pai que reaparece, crianças que ganham um novo lar, o garotinho rejeitado que é acolhido por um parente cuja existência ele desconhecia, etc. Esses são os temas de “Uma tarde com Mr. Jenkins”, “O faz de conta dos gêmeos”, “A criança que foi privada da vida” e “Uma pausa nas histórias de Anne Blythe”.

Não poderiam faltar também os romances açucarados, com direito a amantes que se reencontram depois de anos separados. São os casos de “A tola missão”, “A estrada para o ontem” e o péssimo “Aí vem a noiva”, que, ao lado de “Uma pausa nas histórias de Anne Blythe”, disputa o título de pior conto do volume.

A leitura destes contos foi para mim uma espécie de resumo de tudo o que representou a série “Anne”: uma empreitada cheia de altos e baixos, de bons e maus momentos. Mas a experiência, como um todo, foi sem dúvida muito válida, e ficará marcada em minha trajetória de leitor. É bastante satisfatório quando chegamos ao final de um longo percurso; mais ainda quando tivemos uma Anne Shirley nos acompanhando ao longo dele.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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terça-feira, 23 de novembro de 2021

George, de Alex Gino - RESENHA #170

Um dos maiores privilégios da literatura contemporânea é o tratamento de temas que no passado eram totalmente silenciados. A transexualidade é de fato um assunto delicado até para os nossos dias, que dirá para os séculos passados. Ainda há muitas controvérsias no que se refere às pessoas “transgênero”, mas o crescente interesse sobre questões de identidade de gênero e orientação sexual tem aclarado muitos pontos obscuros e colaborado para uma melhor compreensão da população LGBT+.

Alex Gino, ficcionista estadunidense, apresenta-nos George (2015), cuja proposta é bastante ousada: uma narrativa sobre uma criança trans. A premissa do livro interessou-me instantaneamente. Desejava conferir de perto como tal história fora desenvolvida, antevendo as múltiplas e inevitáveis dificuldades de se tratar um assunto de alta complexidade com o público infantojuvenil.

Preciso confessar que fiquei deveras surpreendido com a habilidade com que Alex Gino desempenhou a escrita de George. O livro está um primor. O narrador em 3ª pessoa não se acanha em tratar George como o que é: uma menina. A simplicidade e a naturalidade com que ele encara a complexa condição de sua protagonista são reconfortantes, pois conferem ao texto uma leveza que se mantém do início ao fim.

No enredo, a pequena George, de aproximadamente dez anos, sonha poder interpretar a memorável aranha de A Teia de Charlotte, um clássico de E. B. White. No entanto, George depara-se com um empecilho: todos pensam que ela é um menino, pois seu corpo é biologicamente masculino. Quando ela se candidata ao papel, a conservadora senhora Udell enfatiza que George, a despeito de seu talento, só poderia fazer papéis “de meninos”.

A partir de situações cotidianas, Alex consegue transmitir ao leitor a insatisfação de George por não poder ser quem ela é de verdade. A garota, por exemplo, precisa esconder suas revistas adolescentes, pois eram voltadas para o público feminino. Além disso, mesmo sendo a melhor amiga de Kelly, ela é encarada como um “melhor amigo”, sendo privada portanto de demonstrar com franqueza sua verdadeira personalidade.

Alex, sempre com muita sutileza, ainda aborda questões como aceitação da família, bullying na escola e representatividade. Mesmo o processo de “transição” da personagem dá-se muito naturalmente. Mas não quero me aprofundar nesse assunto para não comprometer a experiência de leitura de ninguém.

Outro fator importante na obra é o esclarecimento que se faz da diferença entre o “homossexual” e o “transgênero”. Em determinado momento, George é encarada por alguns personagens como um “menino gay”, o que a deixa um tanto aborrecida, já que sua sexualidade ainda não aflorou. Nesse ponto, entendemos que o que a protagonista busca afirmar é sua “identidade de gênero”, cujo conceito ainda é bastante confundido com “orientação sexual”.

Por tudo que citei nesta resenha, George é sem dúvida um livro incrível, e que precisa ser mais difundido entre jovens e adultos. Acabei de saber que brevemente a obra será reeditada com um novo título, Melissa, atendendo a um desejo de Alex e de muitos leitores que ficaram inconformados com o destaque para o nome masculino. Eu, particularmente, prefiro o título original, pois, a meu ver, ele transmite melhor a temática do livro, que é justamente a insatisfação por ser “George”, como também a trajetória da personagem até finalmente tornar-se “Melissa”. Mas, com este ou aquele título, a verdade é que o livro de Alex Gino não deixa de ser o que é: simplesmente maravilhoso.

Avaliação: ★★★★★

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terça-feira, 16 de novembro de 2021

A Família Medeiros, de Júlia Lopes de Almeida - RESENHA #169

D. Júlia segue me surpreendendo e me tornando cativo de sua literatura tão humana e vivaz. Cada livro seu tem uma coloração diferente que revela a versatilidade da autora de A Falência, tamanha é a destreza com que a autora passeia pelos estilos e modelos literários. Ao que parece, a escritora encarava cada uma de suas obras como um projeto único, livre de tendências previsíveis e esquemas reaproveitados.

A Família Medeiros (1891), conquanto não seja sua primeira publicação, foi o primeiro romance que ela escreveu, antes mesmo do já resenhado Memórias de Marta, o que explica o refinamento e a segurança artística que a prosadora já demonstrava nesta obra. Quanto à primeira composição romanesca, objeto desta resenha, embora fulgure ao lado de outros sucessos de D. Júlia, é perceptivelmente mais simplório em relação ao acabamento do texto. Ali nascia a romancista que, embora ainda não andasse firmemente como nas Memórias de Marta, afoitava-se em saltos e arrancos surpreendentes.

Escrito no limite entre o Romantismo e o Realismo, A Família Medeiros pode ser considerado um romance de transição. De fato, as duas escolas aparecem no livro como que irmanadas, sem que isto prejudique o resultado final. Estruturada em capítulos breves, a narrativa segue seu curso num ritmo poucas vezes modificado.

Como romance abolicionista, o efeito acabou sendo comprometido pela demora na publicação, que ocorreria anos depois da libertação dos escravos, prejuízo que se torna irrelevante em nossos dias. A par deste, muitos outros temas são tratados, confirmando a preocupação da autora para com os menos favorecidos, já constatada em leituras anteriores. Na mistura, claro, não poderia faltar uma história de amor para conferir leveza ao conjunto da obra.

A trama é basicamente sobre uma intriga familiar. O comendador Medeiros, após a morte de seu irmão Gabriel (com quem tinha desentendimentos), vê-se obrigado a aceitar em sua casa a sobrinha Eva. Diferente de suas primas, Eva é uma garota instruída e de ideias avançadas. Defensora da causa abolicionista, a sobrinha do comendador alimenta reservas no tio, que antipatiza sua postura crítica perante a administração em Santa Genoveva.

A chegada de Otávio, filho do comendador, que se formara engenheiro na Alemanha, torna tudo mais interessante. Não escapara ao moço as qualidades superiores da prima, como também a ojeriza do pai em relação a ela. Há contudo uma razão poderosa para que Medeiros seja tolerante com a sobrinha, já que Eva guarda consigo papéis que o comprometem seriamente. Caberá a Otávio elucidar o segredo daquele interessante conflito.

Aqui, mais uma vez, como nos demais romances já lidos, a matéria é vastíssima. D. Júlia lança sua ótica sobre os mais diversos temas; além da questão abolicionista, temos: a condição da mulher no final do século XIX, o casamento como transação mercantil, a má administração nas propriedades rurais, o trabalho assalariado (principalmente por imigrantes), a reclusão dos morféticos, dentre outros.

Encerro compartilhando a alegria que sinto por ver a obra de Júlia Lopes de Almeida finalmente recebendo a atenção que lhe é devida. O resgate de sua ficção tem sido notório nos últimos anos e muitos de seus livros finalmente retornaram às livrarias. A Família Medeiros acaba de ganhar uma edição de luxo no mercado e, pouco a pouco, o leitor contemporâneo vai se apropriando desse vasto tesouro que por tanto tempo esteve negligenciado.

Avaliação: ★★★★

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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Rilla de Ingleside (Rilla of Ingleside), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #168

Finalmente chegamos ao oitavo livro de “Anne”, o último da série publicado em vida da autora, atentando-se para o fato de que Anne de Windy Poplars (1936) e Anne de Ingleside (1939) situam-se (na cronologia do enredo) antes de Rilla de Ingleside (1921).

De todos, este oitavo livro é o que mais destoa do conjunto, certamente por trazer o tenso pano de fundo da Primeira Guerra Mundial. A obra é um registro interessante de como a guerra interferiu no ambiente familiar. A autora, felizmente, não se concentra em descrever episódios de guerra, embora ela o faça indiretamente, seja pelos diálogos entre os personagens ou pelos registros no diário de Rilla Blythe.

Rilla de Ingleside, contudo, não é, como eu supunha, um livro leve e ameno como os anteriores. Aqui o clima é quase sempre tenso e de uma atmosfera pesada. Embora a autora não deixe de reproduzir os episódios divertidos e cômicos do costume, eles não dão alívio suficiente à obra, que se mantém num ritmo mais carregado.

É interessante como a autora expõe a indiferença dos personagens para com o episódio que, na verdade, seria o estopim da Grande Guerra. De fato, ninguém poderia prever que um assassinato em Saravejo poria o mundo em fervo e, muito menos, que as consequências do motim chegariam à tranquila Ingleside.

Jem é o primeiro a deixar a família, seguindo o exemplo de outros canadenses que já haviam se alistado para o combate. Walter vai em seguida e, por último, Shirley. Além deles, Kenneth Ford, o filho de Leslie e Owen, e que se torna o namoradinho de Rilla, também se candidata para lutar. E não poderíamos esquecer de Jerry e Carl, os filhos do reverendo Meredith, que também partem para a Europa.

Rilla de Ingleside concentra-se principalmente em como os moradores de Glen St. Mary reagem à guerra, principalmente no que se refere à preocupação para com os filhos e maridos que partiram em nome da pátria. Rilla, a suposta protagonista, embora esteja sempre às vistas do leitor, não é o ponto central da obra. Seu romance com Kenneth Ford, por exemplo, tem um espaço mínimo no livro. Sua realização mais importante no enredo é a missão que assume de cuidar de Jims Anderson, um órfão da guerra.

O maior problema do livro, portanto, talvez seja a escolha do título, que acaba gerando uma quebra de expectativa no leitor. Rilla de Ingleside não é sobre Rilla. É sobre como os horrores de uma guerra afetam uma família. É agoniante ver que os personagens dormem e acordam afetados pela preocupação, que a leitura do jornal diário é ansiada e temida ao mesmo tempo, que um simples toque de telefone acelera o coração de todos.

Já comentei por aqui minha aversão a livros com temática de guerra. Certamente por isso não consegui gostar tanto assim da leitura de Rilla. Mas é inegável que o livro me emocionou em diversos momentos e até me diverti com uma e outra situação. Se, por um lado, era sofrido contemplar o cãozinho Segunda-Feira numa espera incansável/improvável por Jem; por outro, era divertido como a dupla personalidade do gatinho Doc perturbava a hilária Susan Baker, cuja participação neste oitavo livro merece ser destacada.

Desconsiderando os livros de extras, a série “Anne” se encerra um tanto melancólica com este Rilla de Ingleside. Eu realmente esperava um desfecho mais digno e menos lutuoso. Mas, na verdade, a série como um todo foi uma sequência de quebras de expectativa. E com isso não quero dizer que esteja arrependido da leitura. Embora Montgomery não tenha se tornado uma autora favorita, acompanhar a trajetória de Anne, desde Green Gables até Ingleside, foi uma das experiências mais marcantes que já tive enquanto leitor.

Avaliação: ★★★

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