sexta-feira, 7 de maio de 2021

Anne de Avonlea (Anne of Avonlea), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #157

Como estou resolvido a ler toda a série “Anne”, de Lucy Maud Montgomery, passei ao segundo livro, Anne de Avonlea (1909), onde encontramos nossa carismática protagonista alguns anos mais velha.

Anne, agora com dezessete anos, é a professora da escola de Avonlea. Como visto no primeiro livro, a garota abriu mão de seguir carreira acadêmica para evitar a venda de Green Gables e auxiliar Marilla em sua enfermidade. Os desafios de sua iniciação profissional e a aparição de novos personagens marcam este segundo volume da série.

Percebi que, tal como no livro anterior, Anne de Avonlea segue um modelo episódico, compondo uma coleção de fatos e situações sucessivas; mas, diferente de Anne de Green Gables, aqui nem sempre a garotinha ruiva será a figura central. Essa dispersão da trama sugere certa falta de unidade no enredo, mas a autora, com seu estilo ágil e delicado, preserva a atenção do leitor.

Desses episódios, convém citar a chegada de Mr. Harrison a Avonlea, a adoção dos gêmeos Davy e Dora e a descoberta da moradora de uma casa de pedra.

Mr. Harrison, o novo vizinho dos Cuthbert, é tido por todos como um solteirão mal-humorado. Inimigo da limpeza, o homem vive sozinho na companhia de Ginger, um papagaio falastrão. Anne de Avonlea abre com um desentendimento divertido entre ele e Anne, mas que logo dará lugar a uma incipiente amizade.

Davy e Dora eram filhos de um primo de Marilla. Após a morte da mãe, os gêmeos, de apenas seis anos, são acolhidos em Green Gables. Enquanto Dora é uma menina dócil e tranquila, Davy é travesso e indisciplinado. O garoto, contudo, acaba cedendo às meiguices da jovem professora e assume uma disputa declarada com Paul Irving, o aluno favorito de Anne.

Miss Lavendar, a excêntrica moradora da casa de pedra, é descoberta por Anne quando esta e Diana erram o caminho que as levaria à outra residência. Trata-se de uma solteirona de grande imaginação que costumava, com sua criada Charlota IV, preparar o chá da tarde para visitantes que ela fantasiava receber. Pouco depois, Anne acaba descobrindo que Miss Lavendar fora o primeiro amor do pai de Paul Irving.

Há tanta matéria em Anne de Avonlea quanto em seu antecessor. Além desses episódios citados, acompanhamos o desenvolvimento da relação entre Anne e Gilbert Blythe, a luta de Anne para educar Davy e o problemático Anthony Pye, os sucessos da Sociedade de Melhorias de Avonlea e, finalmente, as venturas e desventuras de personagens já conhecidos como os Allan e Mrs. Lynde.

Mesmo sem ser tão grandioso quanto o primeiro livro da série, este Anne de Avonlea nos mantém cativados e curiosos pela trajetória de Anne Shirley, principalmente por mostrar que, mais adiante, uma curva no caminho pode fazer com que tudo mude.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

 

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terça-feira, 20 de abril de 2021

Amor e Pátria, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #156

Dando sequência ao meu propósito de ler o teatro completo do doutor Macedinho (projeto este que andava meio abandonado rs), li desta vez o drama Amor e Pátria (1859), peça esta constituída num único ato.

A ação se passa poucos dias após a independência do Brasil e, embora classificada como drama, a peça tem ares de opereta cômica. De poucos personagens, Amor e Pátria traz um enredo simples e ligeiro.

É o aniversário de Afonsina e, para tal ocasião, seus pais, Leonídia e Plácido, reservam-lhe uma grande surpresa. Nossa aniversariante é uma jovem bastante instruída em conhecimentos diversos, o que a torna alvo das censuras de seu tio Prudêncio, que julga a educação de Afonsina um tanto inapropriada para uma mulher que, no seu entender, deveria entender menos de política que do ofício doméstico.

É interessante reconhecer nesta, como em outras obras de Macedo, seu esforço em defender o lugar da mulher na sociedade brasileira, mas um lugar distinto daquele que se entendia em meados do século XIX. Afonsina é uma mulher preocupada com o futuro político de sua pátria e, por sua vez, censura o tio por seu comodismo perante os conflitos em torno da independência da nação.

O sentimento patriótico de Afonsina, contudo, encontrará abrigo no coração de Luciano, jovem revolucionário e defensor do príncipe (que se tornaria D. Pedro I). No entanto, uma rede de mentiras leva a crer que Plácido é um inimigo do príncipe português, e que Luciano fora seu denunciante, o que compromete a surpresa do aniversário de Afonsina, como também o destino do jovem casal.

Não saberia apontar as pretensões de Macedo com esta breve cena dramática. A despeito de seu tema patriótico, Amor e Pátria está longe de alcançar a dramaticidade épica d’O Jesuíta de Alencar, por exemplo. Se a intenção, porém, era tão somente celebrar nossa independência através de um passatempo corriqueiro, certamente que o objetivo não seu perdeu.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Anne de Green Gables (Anne of Green Gables), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #155

Anne de Green Gables (1908), clássico canadense de Lucy Maud Montgomery, tem sido redescoberto por milhares de leitores no mundo todo graças à aclamada adaptação seriada da Netflix. Mesmo sem ter visto a série de TV, acabei me rendendo ao entusiasmo de todos que têm aplaudido as obras que compõem a série “Anne”, e finalmente li o primeiro livro.

Anne Shirley, a protagonista, já está devidamente inserida naquela caixinha especial onde guardo todas as crianças apaixonantes que tenho encontrado na literatura, como Zezé, Marcelino, Tistu, dentre outros. De todos, Anne é de longe a mais falante, não poupando palavras toda vez que tenta expressar sua empolgação perante as belezas do mundo.

Não há como antipatizar uma persoangem como Anne. Desde sua primeira aparição na história, ela nos conquista com seu palavreado minucioso, com seu entusiasmo perante as coisas mais simples da vida e com sua postura otimista que não esmorece diante das dificuldades.

A trama de Montgomery nos envolve às primeiras cenas, quando os irmãos Cuthbert, Marilla e Matthew (ambos solteiros) decidem adotar um menino para ajudar nos trabalhos em Green Gables, fazenda onde residem. Um mal entendido, porém, acaba colocando Anne no caminho desses irmãos que, motivados pelo carisma da menina, decidem por ficar com ela.

Anne Shirley, movida por sua inesgotável imaginação, idealiza tudo à sua volta, batizando os lugares por onde passa e criando fantasias em torno de sua nova vida na cidade de Avonlea. Matthew, que sempre fora tímido e ensimesmado, é quem mais se deixa dominar pela magia de Anne. Marilla, embora rabugenta e conservadora, também cria uma afeição sincera pela pequena órfã, esforçando-se para dar-lhe uma boa criação.

Pouco a pouco, Anne vai grangeando a amizade de todos em Avonlea, sobretudo de Diana Barry, sua melhor amiga e parceira de aventuras. Mas, se por um lado, a aguda imaginação da filha adotiva dos Cuthbert é motivo de diversão entre suas companheiras de escola, por outro, acaba gerando uma série de conflitos domésticos que perturbarão sobretudo a impaciente Marilla.

Mesmo sendo uma criança otimista e espirituosa, Anne é complexada por ser ruiva e sardenta, julgando-se menos bela por isso; quando Gilbert Blythe, o primeiro aluno da turma, faz piada com a cor de seu cabelo, ela imediatamente cria uma barreira que impossibilita qualquer tipo de relação entre os dois, o que desperta também uma contínua rivalidade entre eles sobre quem seja o mais inteligente da turma.

É nesse ritmo bem humorado e nessa atmosfera instigante que L. M. Montgomery conduz sua narrativa, sempre entremeada de belas reflexões e frases dignas de nota. Sua prosa é de uma leveza que se mantém uniforme praticamente em todo o livro, prescindindo de passagens muito dramáticas ou digressões analíticas.

Não há em Anne de Green Gables a clara pretensão de se tornar um clássico. O que imortalizou Anne em nosso imaginário é a vitalidade que exsuda dessa protagonista, cuja imaginação era tão grandiosa e que tinha tanto a dizer, que um único livro seria insuficiente para contê-la.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 5 de março de 2021

A Volúpia do Pecado, de Cassandra Rios - RESENHA #154

Cassandra Rios (1932-2002) era um nome obscuro para mim até pouquíssimo tempo. Foi durante a transmissão virtual da Parada LGBT de São Paulo (ano passado) que tomei conhecimento de sua polêmica existência.

Impressionei-me com os rótulos que lhe eram atribuídos no século passado: “escritora maldita”, “escritora mais proibida do Brasil”, “escritora mais censurada pela ditadura”. Mesmo tendo 36 de suas obras censuradas, Cassandra, em 1970, alcançou a proeza de ser a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de livros.

Contudo, Odette Ríos (como realmente se chamava) notabilizou-se de verdade por publicar em 1948 (quando tinha apenas dezesseis anos) o primeiro romance lésbico de nossa literatura: A Volúpia do Pecado. É sobre ele que vamos falar hoje.

De antemão, todos sabemos que não se pode esperar muito do romance de estreia de uma adolescente. A Volúpia do Pecado é sem dúvida bastante problemático, o que me fez pensar se Cassandra caiu no ostracismo por injustiça ou por carência de qualidades literárias. Precisaria ler os livros de sua fase madura para constatar. Desde já, aceito sugestões.


A Volúpia do Pecado nos conta sobre o envolvimento amoroso entre duas adolescentes: Lyeth e Irez. Depois que se tornam vizinhas, uma aproximação entre ambas é inevitável, a princípio como uma grande amizade, para depois tornar-se numa paixão tórrida.

Embora Lyeth receie manter um relacionamento com outra mulher, apresentando resistência, acaba cedendo às investidas de Irez que, sempre provocadora, empenha-se em seduzir a amiga. Para convencê-la de seus sentimentos, Irez entrega seu diário a Lyeth, revelando-lhe seus desejos mais íntimos em relação a ela. Além dos problemas de autoaceitação, as dificuldades de se relacionarem em segredo mais os ciúmes obsessivos de Irez acabam prejudicando o romance das duas.

A obra mantém algum interesse basicamente até o momento em que Lyeth e Irez trocam o primeiro beijo. Em seguida, temos uma sequência interminável de cenas de sexo, de tal modo que a participação dos demais personagens, que já não era significativa até então, torna-se praticamente nula. O livro, focado inteiramente nas transas das protagonistas por dezenas e dezenas de páginas, torna-se maçante e repetitivo.

Os conflitos e discussões entre Lyeth e Irez são ridículos, com direito a ciúmes infundados e brigas agressivas que são mais cômicas que dramáticas. A busca pelo entendimento da homessexualidade através de manuais e consultas psiquiátricas é pessimamente desenvolvida, como quase tudo no livro, tornando o desfecho, que poderia ser lógico, praticamente incompreensível.

Não é difícil entender por que A Volúpia do Pecado seja um livro ruim. Além dos problemas de maturidade, o romance possivelmente fora uma válvula de escape para sua autora, que também era uma adolescente homossexual à época em que o escrevera. As repetitivas cenas eróticas possivelmente foram concebidas mais para empolgação da própria Odette que para outros prováveis leitores que ela imaginava alcançar.

Ainda que repleto de imperfeições, o primeiro trabalho de Cassandra Rios tem o mérito do pioneirismo no tratamento da homossexualidade feminina na literatura brasileira. A autora ainda esmiuçaria o tema em dezenas de outros livros possivelmente melhores, a despeito de toda a perseguição sofrida pela publicação deles. Por estes e outros feitos, seu nome, diferente de sua obra, certamente não será esquecido.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho 

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domingo, 14 de fevereiro de 2021

Fortaleza Digital (Digital Fortress), de Dan Brown - RESENHA #153

Dan Brown é mais um daqueles escritores que, não obstante venderem como água, são taxados de repetitivos, artificiais e rasos. Há pouco tempo tive a oportunidade de ler Paulo Coelho, outro integrante dessa turma, e não julguei a leitura d’O Alquimista uma perda de tempo. A avaliação que dei à leitura de Dan Brown ombreou o best-seller brasileiro, ainda que tenha me agradado mais deste último.

Eu classificaria o norte-americano Dan Brown como “literatura de entretenimento” e Paulo Coelho como “literatura esotérica”. Entre uma e outra, simpatizo mais a primeira. Entretanto, no presente caso, O Alquimista se sobrepõe ao Fortaleza Digital no que se refere à sua forma final, mas as avaliações de ambos se equiparam quando notamos que Dan Brown é mais divertido e envolvente.

Eu, particularmente, não condeno nenhuma proposta de literatura, desde que esteja claro um investimento mínimo por parte do autor. Se, contudo, o livro, além de uma narrativa ruim, possui problemas de revisão, coerência e ritmo, poderemos sem culpa lançá-lo à fornalha ardente rs.

No caso de Dan Brown, são inegáveis os problemas de sua escrita, certamente mais acentuados em Fortaleza Digital (1998), por ser livro de estreia. Os personagens são planos e reconhecíveis em qualquer suspense de sessão da tarde. Há uma corrida para se combater um problema aparentemente insolúvel que ironicamente terá um desfecho trivial. Temos a reviravolta clássica do vilão que se torna vítima e vice-versa. Em suma, temos um passatempo garantido que, embora prenda nossa atenção por várias horas, estará irremediavelmente esquecido depois que lermos outras duas ou três obras do mesmo gênero.

Na trama de Fortaleza Digital, a genial criptógrafa Susan Fletcher é convocada para resolver um problema de consequências astronômicas: a NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos) depara-se com um arquivo externo que não pode ser desencriptado. Mesmo o TRANSLTR, supercomputador secreto de dois bilhões de dólares, não é capaz de quebrar o código secreto.

O arquivo inquebrável, chamado de Fortaleza Digital, é uma criação do japonês Ensei Tankado, que o idealizou como uma resposta afrontosa ao uso do TRANSLTR. Tankado discordava que o Governo tivesse acesso irrestrito às informações e mensagens pessoais de todos; por esse motivo, ele chantageia a NSA, exigindo que a existência do TRANSLTR seja divulgada em troca da chave do Fortaleza Digital.

A situação se complica quando Tankado é encontrado morto na Espanha, pois ele já havia deixado a NSA de sobreaviso que, em caso de sua morte, a chave secreta seria publicada na internet por seu cúmplice. Além disso, antes de morrer, o japonês supostamente teria confiado um anel à pessoa que o socorreu, joia esta cuja gravação todos acreditam também ser a chave do Fortaleza Digital.

Nessas circunstâncias, enquando Susan tentará descobrir o cúmplice de Tankado, David Becker, seu noivo, sairá em busca do tal anel. Nem preciso dizer que o livro se constrói de mil obstáculos para que nossos mocinhos fiquem ocupados por mais de trezentas páginas. Se por um lado Susan se envolve numa teia de mentiras, por outro David depara-se com o obstáculo do anel estar convenientemente sempre com outra pessoa.

A saga pela descoberta da chave do Fortaleza Digital é sem dúvida divertida, já que parte de uma das fórmulas mais antigas e batidas das histórias de entretenimento. Lembra quando todos ansiávamos para que Goku reunisse as esferas do dragão? Então… A meu ver, o problema maior do livro, mesmo enquanto passatempo, está na forma como o autor finaliza a corrida frenética de seus personagens. Ao final temos aquela impressão de “muito barulho por nada”.

Fortaleza Digital será um ótimo passatempo para quem curte suspense investigativo, sobretudo para aqueles que não tiverem lido outros títulos do autor. Se não é mais que puro entretenimento, ao menos sugere questionamentos relevantes sobre o direito à privacidade e no quanto podemos confiar nas autoridades que nos governam. Basta lembrarmos da máxima favorita de Tankado: “Quem irá guardar os guardiões?”.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho 

P.S.: Um puxão de orelhas à editora Arqueiro, que não se deu ao trabalho de atualizar a ortografia da nova edição. 

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo - RESENHA #152

Eis que retorno a uma antiga paixão, Aluísio Azevedo, depois de dois anos sem o ler. A razão deste intervalo em nossa relação foi a leitura do perturbador O Homem, que me deixou ressacado da pena do mestre naturalista por um tempo. Desejando experimentar um quitute inteiramente diverso dos que Aluísio me ofertara até aqui, apelei para sua obra de estreia.

Os apreciadores do autor d’O Cortiço bem sabem que, a despeito de seu interesse pela escola naturalista, Aluísio publicou livros românticos, a fim de ganhar uns trocados. Uma Lágrima de Mulher (1880) pertence a este grupo de livros escritos sob encomenda. Desse modo, temos dois Aluísios: o grande escritor, que estrearia no ano seguinte com O Mulato; e o novelista sentimental, hoje praticamente desconhecido.

Para atender ao gosto do público pelo exótico, o novelista ambienta sua trama numa formosa ilha de Lipari, na Itália. Rosalina, a protagonista, é aquela figura romântica que todos já conhecemos. Órfã de mãe, vive na companhia do ambicioso Maffei, seu pai, e de sua ama, a religiosa Ângela.

Inconformado com sua posição de humilde pescador e ambicionando ascender socialmente, Maffei parte para Nápoles, deixando as duas mulheres sozinhas. Por esse tempo, aproxima-se delas o jovem Miguel, um pobre músico por quem Rosalina se apaixona.

Os dois jovens vivem um idílio sentimental até o regresso de Maffei que, ao saber do namoro da filha, opõe-se terminantemente. A partida para Nápoles se apresenta como a solução mais eficaz. Contudo, outros acontecimentos constituirão ameaça maior à felicidade do casal principal.

Embora este Aluísio romântico seja de fato outro escritor, é possível reconhecer algumas semelhanças com o autor de Casa de Pensão. A escrita clara e correta, embora aqui com tintas mais exageradas, já é perceptível neste primeiro romance. Por outro lado, também reconheci a influência de nossos primeiros romancistas na construção de personagens misteriosos, como Sombra da Noite; e na participação de bichinhos simpáticos, como o cãozinho Castor.

O tema da corrupção da mulher, embora indicasse tendências que seriam melhor trabalhadas nas obras maduras de Aluísio, já apareceria no primeiro romance brasileiro, O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa. Mas em ambos os casos, por se tratarem de obras românticas, a intenção é puramente moralista.

A parte final do livro soou-me um tanto apressada, comprometendo o desenvolvimento da trama que, a meu ver, fluiu melhor nos dois primeiros terços. O desfecho exagerado e teatral de Uma Lágrima de Mulher é inegavelmente piegas e forçado, para não dizer inverossímil. Poderia justificar o caso com aquele velho discurso do autor estreante, mas a verdade é que, aqui, temos mesmo outro Aluísio. E certamente não vou ignorá-lo rs.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Diário do Chaves (El Diario del Chavo del Ocho), de Roberto Gómez Bolaños - RESENHA #151

O seriado Chaves era um dos meus vícios de infância. Não obstante as diversas mudanças de horário, eu sempre dava um jeitinho para acompanhar a turminha da vila. Tanto vi todos aqueles episódios, que até hoje lembro com carinho a maioria das piadas e situações em torno do Chavinho e seus amigos.

Era pois muito natural que mais cedo ou mais tarde eu me interessasse por conhecer os livros publicados pelo criador/intérprete do menino do barril, Roberto Gómez Bolaños, o lendário Chespirito. Ano passado tive o prazer de conhecer sua poesia através da coletânea …Y También Poemas (2003). E neste ano finalmente li Diário do Chaves (1995), seu primeiro livro, único publicado no Brasil.

Diário do Chaves é uma obra bastante interessante para os fãs do seriado, pois, além de mostrar um pouco da vida do protagonista antes de chegar à vila, reúne várias ilustrações do próprio Bolaños. A edição brasileira, já esgotada há bastante tempo, é de formato simples e sem grandes atrativos.

O livro abre com um prefácio onde Bolaños, já no plano da ficção, relata seu encontro com Chaves e de como teve acesso ao seu diário. O autor também previne o leitor sobre as interferências realizadas no “texto original”, tendo em vista os compreensíveis problemas de linguagem do “redator”.

Sob o ponto de vista do menino órfão, vamos acompanhando sua trajetória a partir de suas lembranças mais remotas, quando foi abandonado pela mãe numa creche. Chaves conta que, depois de um tempo, foi mandado para um orfanato onde sofria maus tratos e que, por conta disso, acabou tendo que fugir de lá.

As passagens sobre sua vida na rua são as mais interessantes do livro e nelas há um realismo mais explícito, pois o garoto acaba travando relações com outras pessoas marginalizadas (adultos e crianças), exposto ao trabalho infantil, à prostituição e ao consumo de drogas.

Chaves também conta de como chegou à vila que todos conhecemos. Ele foi acolhido por uma senhora idosa, que morava na casa de Nº 8, e que o achava muito parecido com um neto dela. Após a morte dessa senhora, o garoto passa a viver pela caridade dos outros moradores da vila.

É a partir daí que aparecem todos os personagens adorados pelo público do seriado: Seu Madruga, Chiquinha, dona Florinda, Quico, dona Clotilde, professor Girafales, seu Barriga, dentre outros. Contudo, os episódios humorísticos contados no diário são os mesmo que já vimos mil vezes na televisão, o que pode deixar o texto meio arrastado por soar repetitivo.

Ao final, temos um “Histórico” assinado por Florinda Meza, que interpretou dona Florinda e que é a viúva de Bolaños. Esse texto de encerramento nos dá uma ideia do sucesso que foi o seriado e do alcance que teve em todo o mundo, enriquecido de várias anedotas em torno das apresentações ao vivo do elenco original.

Se você é fã de Chaves, certamente não deve deixar passar esse livro. Para mim, que há muito não revejo os episódios da série, foi um prazer revisitar muitas das histórias que me divertiram durante tantos anos. Contudo, enquanto obra isolada, o Diário do Chaves não é mais que um livro infantil, desses que se podem descartar sem maiores prejuízos.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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