quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Tipo uma História de Amor (Like a Love Story), de Abdi Nazemian - RESENHA #150

É sempre uma alegria conhecer bons autores contemporâneos, principalmente porque, para mim, não costuma ser muito corriqueiro; mas, quando acontece, é de fato maravilhoso. Assim, não foi com grandes expectativas que iniciei a leitura de Tipo uma História de Amor (2019), do iraniano-americano Abdi Nazemian.

Este é um daqueles casos em que sou fisgado pela capa e, logo em seguida, por uma sinopse promissora. Contudo, não imaginava que a experiência de leitura seria tão apreciável, a julgar pelo fato de que não tenho grandes simpatias pelo gênero YA. O livro é narrado em três pontos de vista pelos personagens centrais da trama: Reza, Art e Judy.

Reza é um adolescente iraniano que, após a morte do pai, muda-se com a mãe e a irmã mais velha para o Canadá. Quando a mãe de Reza contrai segundas núpcias, eles vão viver em Nova York, à exceção de Tara (irmã de Reza), que entraria para a faculdade.

O padrasto de Reza é um homem rico e aparentemente simpático, mas Saadi, o filho dele, é o oposto de Reza no que se refere a estilo e personalidade. Enquano Saadi é um cara “normal” e de comportamento heteronormativo, Reza sabe que é gay, mas não tem coragem de revelar isso a ninguém.

O que mais acentua o medo de Reza quanto à possibilidade de assumir sua sexualidade é a epidemia de aids, que atingia seu auge no final dos anos 80, época em que se passa a história. Nessas circunstâncias, o garoto decide tentar um relacionamento com Judy, uma aspirante a estilista de moda que passa longe dos padrões de beleza, mas ele acaba se apaixonando por Art, o melhor amigo de Judy.

Art é o único garoto gay assumido da escola. De estilo extravagante e chamativo, é apaixonado por fotografia e participa ativamente dos movimentos militantes da comunidade LGBT+. Embora também se sinta atraído por Reza, prefere esconder seus sentimentos de sua melhor amiga para não magoá-la.

Outro personagem bastante relevante para a trama é Stephen, tio de Judy que, além de ter perdido seu companheiro para a aids, também é portador do vírus HIV. Judy, Art e o tio Stephen tradicionalmente viam filmes antigos nas noites de domingo. A chegada de Reza, contudo, acaba interferindo na relação amistosa do trio.

Abdi Nazemian constrói uma trama excelente que, para além de envolver o leitor, tem o mérito de instruí-lo e preveni-lo sobre várias situações, isto levando-se em conta o público-alvo da obra: adolescentes da comunidade LGBT+ que estão se descobrindo e se iniciando sexualmente.

Além de muitos esclarecimentos sobre aids e o vírus HIV, o autor expõe a dificuldade de aceitação dentro do seio familiar, a homofobia dentro das escolas, como também a existência de políticos e pessoas influentes que menosprezam a população queer. E, para não citarmos apenas fatores negativos, vale lembrar as diversas referências a pessoas que lutaram pela diversidade sexual, sobretudo artistas como Madonna, para quem o livro não deixa de ser uma explícita homenagem.

Tipo uma História de Amor mantém-se na linha do ótimo do início ao fim. É lúdico e informativo, pois nos comove com suas cenas delicadas ao passo que nos põe a par da história do movimento LGBT+ em sua luta contra a aids e a favor do direito de ser quem você é.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

TOP 10 - MELHORES LEITURAS DE 2020!!!

2020 foi um ano histórico onde todos tiveram suas vidas mudadas. Mas, apesar de tantos episódios tristes, este ano foi um dos mais importantes na minha história. Muitos acontecimentos desviaram minha concentração dos livros. Mesmo assim, consegui encerrar o ano com cinquenta leituras concluídas, o que me deixou bastante satisfeito. Listar os dez melhores títulos de cada ano é sempre prazeroso, mas neste especificamente a experiência foi reveladora, pois mostrou-me mais do que nunca o quanto a literatura é um fator importante na minha vida. Nos melhores e piores momentos, os livros estiveram presentes. As leituras deste ano, boas ou ruins, foram companheiras de momentos inesquecíveis. Em nenhum outro ano eu me senti tão privilegiado por ser um leitor. Costumo dizer que livros são longas conversas que escolhemos ter com pessoas quase sempre incríveis. É pois uma enorme satisfação compartilhar com vocês dez das melhores conversas que tive no complexo ano que felizmente termina hoje.

 

# 10º lugar O ÍNDIO AFONSO, de Bernardo Guimarães (4 estrelas)


Ler Bernardo Guimarães é garantia de uma prosa boa e envolvente. É sentar-se à sombra de um alpendre e deleitar-se com a fantasia imaginativa do sertão. As aventuras e peripécias protagonizadas por Afonso divertem e encantam na proporção que nos transportam para tempos lendários e saudosos.

 

# 9º lugar CROMA, CAMINHO DE VIDA, de Regis Castro (4 estrelas)


Embora a leitura desse livro tenha sido bastante satisfatória, acabei me sentindo meio roubado ao me deparar com um tema sobre o qual há tempos cogitava escrever. O que me conforma é ver que o trabalho de Regis ficou tão bom, que me dispensou totalmente da tarefa. O conflito de Fernando Torres, embora tratado mais apressadamente nos capítulos finais, é ricamente explanado por este prosador brasileiro injustamente negligenciado pela crítica.

 

# 8º lugar →  O MENINO DO PIJAMALISTRADO, de John Boyne (4 estrelas)


Quando um livro contemporâneo se torna muito famoso, eu automaticamente perco o interesse por ele, salvo raras exceções. Mas, se mesmo depois de anos, o mesmo livro continua sendo relevante entre os leitores, meus olhos acabam se voltando para ele. Se você é leitor, provavelmente você já terá lido/ouvido falar na obra máxima de John Boyne. Antes da leitura, já estava prevenido de que ele partiria meu coração, mas sinceramente não contava que precisasse levar isso tão a sério.

 

# 7º lugar A TEIA DE CHARLOTTE, de E. B. White (4 estrelas)


Não é segredo pra ninguém que clássicos infantis estão entre os meus favoritos da vida. Um detalhe que sempre me chama atenção é de como esses livros privilegiam o tema da morte em seus enredos. Antigamente achava que a ideia era abordar um tema tão delicado entre crianças, mas hoje percebo que, diante da morte, todos nós somos crianças medrosas que se esforçam por lidar melhor com o misterioso desfecho de nossa existência.

 

# 6º lugar A BEATA MARIA DO EGITO, de Rachel de Queiroz (4 estrelas)


Que Rachel de Queiroz foi uma notável romancista, disso eu já sabia. Que foi uma exímia dramaturga é que me soou como novidade. Pena é que tenha produzido tão pouco nesse campo. Contudo, as duas únicas peças que nos legou comprovam a força de seu talento para o teatro. Se a primeira, Lampião, desagradou-me por trazer uma figura que antipatizo, A Beata Maria do Egito compensou-me por me parecer uma verdadeira obra-prima do teatro nacional.

 

# 5º lugar O SIMAS, de Pápi Júnior (4 estrelas)


O Simas foi uma das leituras mais aguardadas da minha vida. Há muitos anos procurava por uma edição dele, e em 2020 finalmente isso foi possível. Foi inevitável criar grandes expectativas quanto ao romance mais famoso de Pápi Júnior, mas felizmente elas foram devidamente atendidas e, ouso dizer, até superadas. O Simas é de uma expressividade rara em nossas letras. Talvez seja Adolfo Caminha de quem mais se aproxima seu estilo realista e romântico ao mesmo tempo. É, em resumo, uma autêntica obra de arte.

 

# 4º lugar TENTAÇÃO, de Adolfo Caminha (4 estrelas)


Outra leitura bastante ansiada foi este último romance de Adolfo Caminha, mas, diferente d’O Simas, este estava sendo guardado/poupado propositalmente. Mesmo que não possa equiparar Tentação aos dois romances que eternizaram o nome de Caminha, arrisco dizer que ele tem um brilho especial que faltou aos outros. Nele, os arroubos do Naturalismo se rendem às delícias da escola romântica, mas longe, muito longe de cair num pieguismo previsível e açucarado.

 

# 3º lugar MEMÓRIAS DE MARTA, de Júlia Lopes de Almeida (5 estrelas)


Se eu ainda tinha alguma dúvida quanto a D. Júlia ter entrado para o rol de meus autores favoritos, ler seu romance de estreia confirmou em definitivo meu apreço pela autora de A Falência. Surpreendeu-me que ela, em sua primeira obra de fôlego, já demonstrasse tanto talento artístico. Não acredito sinceramente que Memórias de Marta se sobreponha, em qualidades literárias, a obras como Tentação e O Simas, mas o acabamento e concisão que D. Júlia dá ao seu primeiro romance sobrepujaram um Caminha mais experiente e um Pápi Júnior – conquanto igualmente estreante – verborrágico e prolixo.

 

# 2º lugar PSICOSE, de Robert Bloch (5 estrelas)


Quem acompanha minhas resenhas sabe que não é tarefa fácil para qualquer autor passar pelo meu crivo sem sair ileso de observações. Deste trabalho primoroso de Robert Bloch, que já mereceu uma das melhores adaptações da história do cinema, o que dizer? Um livro perfeito? Obviamente que não. Mas sem dúvida uma obra bem acabada, sem excessos, sem pontas soltas e plenamente satisfatória.

 

# 1º lugar O JARDIM SECRETO, de Frances Hodgson Burnett (5 estrelas)


Quando decidi ler O Jardim Secreto, já previa que o mesmo se tornaria uma das melhores leituras do ano, mas ver que ele se tornou simplesmente a melhor não deixa de ser uma grata surpresa, principalmente por ser de autoria feminina e de autora nascida no século XIX. É um clássico que dispensa apresentações e que eu recomendaria de olhos fechados a toda e qualquer criança. As mensagens de amor e amizade difundidas neste livro... É disso que o mundo precisa.

 

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Croma, Caminho de Vida, de Regis Castro - RESENHA #149

Conheci a literatura de Regis Castro por volta dos meus quinze anos, através do romance Raïssa, leitura da qual, hoje tenho certeza, deixei escapar muita coisa. Regis é mais conhecido por seus diversos livros católicos, alguns deles escritos em parceria com Maïsa Castro, sua esposa. No que se refere à prosa de ficção, além de Raïssa, publicou outros três romances: Croma, Caminho de Vida (1967), Barby e Pique.

Regis, a meu ver, pertence ao rol daqueles escritores injustiçados, já que suas qualidades literárias são inquestionáveis. Sua escrita cuidadosa e delicada merecia mais atenção do público e da crítica, e, talvez por esse descaso para com sua ficção, o escritor tenha engavetado sua pena de romancista.

Croma, Caminho de Vida (posteriormente publicado como Croma, um Caminho para a Vida) é seu romance mais conhecido, tendo ganhado várias reedições. Conta a história de Fernando Torres, um seminarista prestes a realizar seus votos sacerdotais. Para este fim ele embarca no navio Croma, rumo a Itália, mas seu companheiro de cabine, o psicanalista Álvaro Ruiz, convence-o a encarar uma experiência que põe à prova a vocação de Torres.

A experiência consiste em omitir as intenções religiosas do seminarista, fazendo-o passar por um rapaz comum no navio. Em pouco tempo, ele trava diálogo com Odete, uma jovem interessante, órfã de pai, que dedica-se à poesia a fim de escapar da relação conflituosa com a mãe, mulher exigente que discrimina todos os pretendentes da filha.

Ruiz, ao tomar conhecimento da nova amizade de Torres, alerta-o para a necessidade de que o mesmo não se prenda exclusivamente aos encantos de Odete, incentivando-lhe outras relações. Seguindo o conselho do médico, o moço acaba conhecendo Rosely, uma jovem em tudo diferente de Odete, a despeito de seus muitos atributos físicos.

Enquanto mantém contato com as duas moças, Torres, durante as refeições, conta a Ruiz a história de sua vida, tentando esclarecer os motivos que determinaram seu desejo de querer tornar-se padre. A experiência proposta pelo médico, no entanto, deixa-o numa difícil encruzilhada: escolher entre suas inclinações sentimentais e religiosas.

A narrativa de Croma é muito bem conduzida quase que em sua totalidade. O autor constrói um ritmo interessante ao intercalar a experiência de Torres com a história de sua vida, mostrando as decepções do passado, seus amores frustrados, seu instinto filantrópico e suas dúvidas em relação ao futuro, a qual caminho seguir.

Senti, contudo, o final um tanto apressado que, mesmo não sendo incoerente, poderia ter sido melhor desenvolvido. A rapidez com que Torres muda de ideia nos momentos finais do romance é sem dúvida o ponto mais questionável do livro. Mas, não obstante este ou aquele senão, a obra de Regis Castro revela o grande talento de um prosador que merecia ser mais lido.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 14 de novembro de 2020

Contos e Fantasias, de José Vicente Sobrinho - RESENHA #148

José Vicente Sobrinho (1875-1924) foi um dos fundadores da Academia Paulista de Letras. Tendo vivido menos de cinquenta anos, além de seus trabalhos como jornalista, cronista e biógrafo, deixou-nos a coletânea Contos e Fantasias (1898), seu livro mais conhecido.

Influenciado pela escola simbolista, José Vicente Sobrinho brinda-nos com uma prosa poética admirável. Nesta resenha, tratarei apenas da primeira parte da coletânea já citada, ou seja, a que compreende os “contos”. A segunda parte do livro, “Cartas à minha irmã”, a despeito de sua roupagem literária, funciona mais como um conjunto de reminiscências e elucubrações pessoais.

Os nove contos da primeira parte são verdadeiras joias poéticas, dessas que fazem saltar das páginas verdadeiros quadros enternecedores, ainda que pungentes. Quando lidos em voz alta, estes contos exprimem musicalidade e ritmo impressionantes, qualidades que se destacam em relação aos enredos, que aqui são simples e de fácil construção.

“Palhaços”, que abre o conjunto, já nos apresenta um tema recorrente na obra do contista: histórias circenses. Nele, o palhaço Delfino, abandonado pela esposa, que fugira com outro artista da companhia, assiste a morte lenta de seu pequeno Julito. Narrador e leitor são espectadores diretos da cena, graças aos artifícios empregados pelo autor.

Não pude ler as duas primeiras páginas de “Soldados”, pois havia algumas perdas no texto da digitalização a que tive acesso. Contudo, a maestria do prosador simbolista mais uma vez comoveu-me com a história de Miguel que, após ficar inválido na guerra, é desprezado pela mulher amada, que se casa com outro.

“Pescadores” tem ares de lenda trágica, dessas que se leem com empolgação e lamento. A demora de Nicolau desperta cruéis suspeitas na esposa e nos filhos do pescador, mas essa aflitiva expectação é assistida pelo velho Ruy de Deus, que acompanha todo aquele drama com um olhar providencial. O desfecho místico e poético faz deste um dos pontos altos da coletânea.

Em “A morte de Alfredinho”, acompanhamos outro quadro lutuoso, desta vez como se o autor pretendesse nos convidar para um enterro, sem deixar de nos alertar para o contraste que se percebe durante o percurso, já que a cidade celebra contente a festa do Divino Espírito Santo. Já em “Nostalgia”, ele nos sensibiliza ao ser empático com um pequeno imigrante italiano que contempla extasiado o cartaz de uma companhia de vapores para a Itália.

“Conto de S. João” é palco para mais um artifício interessante do contista. Aqui ele brinca com o poder que detém o ficcionista para controlar o destino de seus personagens, mostrando duas possibilidades para a mesma história, mas sem abrir mão de suas constantes imagens poéticas.

“Recordações” possui um título autoexplicativo, além de ser quase uma música para quem o ouve. “Velhos marujos” também se destaca na coletânea por sua forte carga dramática. A descoberta de uma traição somada a uma noite de tempestade dão ao conto uma atmosfera incômoda e angustiante, mas a prosa poética do autor mais uma vez amaina os conflitos em cena.

Os temas fúnebres aparecem finalmente no último conto: “Pobres pequenos”. Rosália, em seu leito de morte, repassa os erros e acertos de sua vida de artista circense, assistida pelo marido e pelos filhos, que sonham em vê-la representar a grande pantomima da “Gata Borralheira”.

Se o livro de José Vicente Sobrinho estivesse limitado a estas nove histórias, eu certamente lhe concederia uma avaliação mais meritória; contudo, as “Cartas à minha irmã”, que compreendem metade do volume, não me empolgaram da mesma forma. Ainda assim, a descoberta deste contista, para mim, foi um dos momentos mais marcantes das leituras deste ano.

Avaliação: ★★★

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

A Dama de Espadas (Пиковая дама), de Aleksandr Púchkin - RESENHA #147

Já estava mesmo passando da hora de finalmente travar meu primeiro contato com os russos. Meus métodos pessoais indicaram-me Aleksandr Púchkin, o iniciador da literatura russa moderna, que influenciaria praticamente todos os prosadores posteriores.

Desconsiderando a importância da inovação que o poeta do Eugênio Oneguin trouxe para a literatura de seu país, temos uma produção ficcional de pouco interesse para o leitor contemporâneo, dada a simplicidade dos enredos e escolha dos temas. Não saberia dizer se minhas impressões são reflexo da seleção questionável de Boris Schnaiderman para a coletânea que li. O caso é que boa parte deste volume enfadou-me ao ponto de querer abandoná-lo.

Acredito que uma boa antologia é aquela que reúne os trabalhos mais significativos que se inserem na proposta do volume que se pretende publicar. Nesse sentido, a inserção de obras inacabadas, a meu ver, comprometem a experiência do leitor que deseja um primeiro contato com determinado autor ou temática. Imaginem uma seleta da prosa romântica alencarina cujo pórtico fosse A Neta d’Anhanguera, seguida d’A Cabeça de Santo Antônio ou d’Os Contrabandistas. Isso mesmo! Não faz sentido.

Schnaiderman abre sua seleta de Púchkin com duas novelas inacabadas: “O negro de Pedro, o grande” e “Dubróvski”. Em ambas constatamos a boa escrita do ficcionista russo, mas acabamos frustrados nos dois casos: no primeiro, pela inconclusão da trama; no último, além da inconclusão, pela insipidez do enredo. “Dubróvski” quase me leva a abandonar o livro, mas minha persistência foi justamente recompensada nos trabalhos seguintes.

“A dama de espadas”, que dá título ao volume, além da primeira narrativa completa, é também a primeira que constitui um bom momento do conjunto. Com sutil ironia, Púchkin nos apresenta uma história sobre ambição e suas consequências. Lisavieta Ivânovna é cortejada por Hermann, mas o real interesse do jovem é tentar uma aproximação com a patroa de sua pretendente, a fim de descobrir um inusitado segredo de jogo que poderá enriquecê-lo.

Dando sequência a essas três novelas, temos quatro contos. “O chefe da estação” deixou-me um tanto intrigado. Irônico e melancólico em linhas gerais, o conto pareceu-me interessante, mas questionável pela conduta dos personagens. Penso que, se Púchkin tivesse feito dele uma novela, teria tido mais espaço para desenvolver melhor sua trama, como também explicar mais claramente o comportamento das figuras centrais.

“O tiro” talvez seja o mais bobinho da antologia, apesar de ter uma construção curiosa por nos mostrar um narrador-personagem que nos conta um causo completo a partir de dois encontros casuais que tivera.

“O fazedor de caixões” rivaliza com “A dama de espadas” a posição de melhor narrativa do conjunto. Com sua atmosfera fantástica, o conto nos surpreende pela alteração que se faz no estilo do meio para o final, como também pelo clichê do desfecho que, ao tempo da publicação, deveria causar maior impressão aos leitores da época.

“Kirdjali” encerra pessimamente a seleta de prosa da antologia. Maçante e arrastado, tenho minhas dúvidas se li de fato esse último conto. Sobre os poemas de Púchkin nada tenho a declarar.

Minha primeira experiência com os russos, conforme visto, não foi lá muito feliz. Mas, como há tantos outros autores ainda por conhecer, acredito que algum deles será digno da minha simpatia. É esperar pra ver! rs

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O Alquimista, de Paulo Coelho - RESENHA #146

“Paulo Coelho não é literatura”, bradavam meus professores. Isto soa familiar? Parece que sim, uma vez que já é quase convenção entre muitos estudiosos da Literatura depreciar a obra do escritor brasileiro mais traduzido no mundo todo.

Como deve ter acontecido a muita gente, fiquei desestimulado a conhecer os livros do célebre autor carioca, deixando-me persuadir por opiniões até então dignas da minha confiança. Agora que finalmente li O Alquimista (1988), descobri que Paulo Coelho é sim um bom prosador. Se é dos que repetem fórmulas e revelam pouca criatividade (considerando-se o conjunto de sua produção ficcional), isso já não sei.

Minha recente experiência com O Alquimista veio reiterar um antigo pensamento que faço questão de compartilhar com meus leitores: Leiam tudo que vocês tiverem vontade, independente do que digam a respeito, seja literatura infantil, seja romance erótico, seja autoajuda, seja livro best-seller, seja o rótulo do detergente rs. Se deu vontade, leia! E apenas pela leitura tire suas próprias conclusões.

Passando ao objeto desta resenha, O Alquimista é uma extensa fábula sobre um jovem pastor de ovelhas que, após ter o mesmo sonho duas vezes, procura uma cigana, na tentativa de descobrir o seu significado. No sonho, Santiago encontra uma criança que pretende lhe mostrar um tesouro escondido nas pirâmides do Egito, mas o pastor acaba acordando antes de chegar ao lugar exato.

A cigana revela que o tesouro será encontrado, mas, antes, exige a promessa de que Santiago lhe dará a décima parte do achado. Incrédulo de tal interpretação, o pastor acaba encontrando, pouco depois, um velho que se apresenta como o rei de Salém. O estranho ancião, além de demonstrar conhecer o passado de Santiago, promete ajudá-lo a encontrar seu tesouro em troca de um décimo de suas ovelhas.

Assim ajustados, o rapaz recebe duas pedras místicas do rei de Salém, que, segundo o velho, serviriam de auxílio durante a jornada até as pirâmides. Santiago deixa então a Espanha e segue em busca do que ele acredita ser sua Lenda Pessoal. A segunda parte do livro conduz o leitor por esta peregrinação espiritualista até seu surpreendente desfecho.

O maior mérito d’O Alquimista está na capacidade que teve seu autor em fazer uso de uma linguagem simples e objetiva que nos remete aos grandes fabulistas clássicos cujos textos eram marcados por um poder de oralidade fascinante. Dessa forma, o livro consegue atingir um público vasto e diversificado, podendo ser lido com deleite por crianças e adultos.

Quanto aos aspectos religiosos/espiritualistas, que permeiam toda a obra, se entendidos como fruto da formação do narrador, em nada comprometem as qualidades literárias da narrativa. Se uma história é narrada sob o ponto de vista de um católico, um islamita ou mesmo um bruxo, ela poderá ser boa ou ruim, a depender do quanto a crença do autor interfere no texto. Se a ficção perde terreno para a pregação, o texto deixa de ser literário, o que não é o caso d’O Alquimista.

Conquanto esta minha primeira experiência com Paulo Coelho não tenha provocado o entusiasmo que me é comum diante de meus ficcionistas favoritos, a surpresa de encontrar algo aproveitável naquilo que eu julgava ser uma escória incorrigível deixou-me bastante satisfeito e até mesmo curioso por conhecer outros títulos do autor.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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domingo, 13 de setembro de 2020

Casamento e Mortalha no Céu se Talha, de Júlio César Leal - RESENHA #145

Júlio César Leal (1837-1897) foi um prolífico escritor baiano, mais conhecido por ter sido um dos primeiros divulgadores do Espiritismo no Brasil. Enquanto literato, dedicou-se principalmente ao teatro, mas cultivou outros gêneros como a poesia e o romance. Casamento e Mortalha no Céu se Talha (1876) pertence a esse último.

É um livrinho bobinho, sem dúvida, escrito num estilo piegas e sentimental, superado há muito pelos nossos melhores prosadores românticos, como José de Alencar. No entanto, trata-se de uma novelinha de ritmo formidável, dessas que se leem rapidamente e com relativo interesse.

Se desconsiderarmos exageros do tipo: amores à primeira vista, mocinhas sequestradas e vilões facinorosos, teremos uma história quase ótima. Mas como esses clichês românticos eram garantia de público, compreende-se melhor o estilo adotado por um ficcionista que buscava tornar-se conhecido.

Paulo de Oliveira é o “mendigo do Lavradio”. Após sofrer um desmaio, o pobre homem é logo socorrido pelo generoso Carlos Augusto, que, além de conduzi-lo de volta para casa, presta assistência ao enfermo durante toda a noite. Nesse intervalo de tempo, Carlos enamora-se de Celina, a filha do mendigo.

A jovem Celina, por sua vez, encanta-se pelo salvador de seu pai, e vibra de felicidade ao ouvir Carlos pedir sua mão. Mas o experiente Paulo, sabendo ser aquele moço filho de um visconde, desacredita que este possa dar seu consentimento à união dos jovens. Com efeito, o pai de Carlos nega-se terminantemente à aprovação de um casamento tão desigual e convence o filho a partir para a Europa.

Entretanto, novas circunstâncias conduzirão a família do mendigo do Lavradio a Portugal, onde o encontro com Carlos será inevitável. Mas a bela Celina acaba acendendo paixões em outros dois personagens: o velho José Basílio, um solteirão milionário; e Leonidas, o inescrupuloso conde de Manzanares.

É por essa teia de lances amorosos que o ficcionista conduz sua trama, regada a envenenamentos, roubos, entrevistas noturnas, aparições sobrenaturais, assassinatos, dentre outros ingredientes folhetinescos.

A influência da doutrina espírita é bastante evidente no texto de Júlio César Leal. Em determinado momento, quando da explicação de uma cena sobrenatural, temos uma série de “relatos verídicos” sobre experiências que “confirmam” a vida após a morte. Mas não temos aqui, felizmente, nenhum tipo de pregação religiosa. O livro, enquanto obra visivelmente despretensiosa, limita-se a mostrar uma sequência de situações segundo um ponto de vista que não se impõe como verdade absoluta.

Casamento e Mortalha no Céu se Talha funciona mesmo como divertido passatempo para quem, como eu, aprecia a literatura brasileira dos oitocentos. É um entretenimento deveras interessante e que não exige muito tempo ou esforço. A prosa de Júlio César Leal, se não revela grandes qualidades estilísticas, ao menos entrega um texto bem cuidado e de ritmo regular, o que pra mim já é alguma coisa.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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