sexta-feira, 5 de março de 2021

A Volúpia do Pecado, de Cassandra Rios - RESENHA #154

Cassandra Rios (1932-2002) era um nome obscuro para mim até pouquíssimo tempo. Foi durante a transmissão virtual da Parada LGBT de São Paulo (ano passado) que tomei conhecimento de sua polêmica existência.

Impressionei-me com os rótulos que lhe eram atribuídos no século passado: “escritora maldita”, “escritora mais proibida do Brasil”, “escritora mais censurada pela ditadura”. Mesmo tendo 36 de suas obras censuradas, Cassandra, em 1970, alcançou a proeza de ser a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de livros.

Contudo, Odette Ríos (como realmente se chamava) notabilizou-se de verdade por publicar em 1948 (quando tinha apenas dezesseis anos) o primeiro romance lésbico de nossa literatura: A Volúpia do Pecado. É sobre ele que vamos falar hoje.

De antemão, todos sabemos que não se pode esperar muito do romance de estreia de uma adolescente. A Volúpia do Pecado é sem dúvida bastante problemático, o que me fez pensar se Cassandra caiu no ostracismo por injustiça ou por carência de qualidades literárias. Precisaria ler os livros de sua fase madura para constatar. Desde já, aceito sugestões.


A Volúpia do Pecado nos conta sobre o envolvimento amoroso entre duas adolescentes: Lyeth e Irez. Depois que se tornam vizinhas, uma aproximação entre ambas é inevitável, a princípio como uma grande amizade, para depois tornar-se numa paixão tórrida.

Embora Lyeth receie manter um relacionamento com outra mulher, apresentando resistência, acaba cedendo às investidas de Irez que, sempre provocadora, empenha-se em seduzir a amiga. Para convencê-la de seus sentimentos, Irez entrega seu diário a Lyeth, revelando-lhe seus desejos mais íntimos em relação a ela. Além dos problemas de autoaceitação, as dificuldades de se relacionarem em segredo mais os ciúmes obsessivos de Irez acabam prejudicando o romance das duas.

A obra mantém algum interesse basicamente até o momento em que Lyeth e Irez trocam o primeiro beijo. Em seguida, temos uma sequência interminável de cenas de sexo, de tal modo que a participação dos demais personagens, que já não era significativa até então, torna-se praticamente nula. O livro, focado inteiramente nas transas das protagonistas por dezenas e dezenas de páginas, torna-se maçante e repetitivo.

Os conflitos e discussões entre Lyeth e Irez são ridículos, com direito a ciúmes infundados e brigas agressivas que são mais cômicas que dramáticas. A busca pelo entendimento da homessexualidade através de manuais e consultas psiquiátricas é pessimamente desenvolvida, como quase tudo no livro, tornando o desfecho, que poderia ser lógico, praticamente incompreensível.

Não é difícil entender por que A Volúpia do Pecado seja um livro ruim. Além dos problemas de maturidade, o romance possivelmente fora uma válvula de escape para sua autora, que também era uma adolescente homossexual à época em que o escrevera. As repetitivas cenas eróticas possivelmente foram concebidas mais para empolgação da própria Odette que para outros prováveis leitores que ela imaginava alcançar.

Ainda que repleto de imperfeições, o primeiro trabalho de Cassandra Rios tem o mérito do pioneirismo no tratamento da homossexualidade feminina na literatura brasileira. A autora ainda esmiuçaria o tema em dezenas de outros livros possivelmente melhores, a despeito de toda a perseguição sofrida pela publicação deles. Por estes e outros feitos, seu nome, diferente de sua obra, certamente não será esquecido.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho 

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domingo, 14 de fevereiro de 2021

Fortaleza Digital (Digital Fortress), de Dan Brown - RESENHA #153

Dan Brown é mais um daqueles escritores que, não obstante venderem como água, são taxados de repetitivos, artificiais e rasos. Há pouco tempo tive a oportunidade de ler Paulo Coelho, outro integrante dessa turma, e não julguei a leitura d’O Alquimista uma perda de tempo. A avaliação que dei à leitura de Dan Brown ombreou o best-seller brasileiro, ainda que tenha me agradado mais deste último.

Eu classificaria o norte-americano Dan Brown como “literatura de entretenimento” e Paulo Coelho como “literatura esotérica”. Entre uma e outra, simpatizo mais a primeira. Entretanto, no presente caso, O Alquimista se sobrepõe ao Fortaleza Digital no que se refere à sua forma final, mas as avaliações de ambos se equiparam quando notamos que Dan Brown é mais divertido e envolvente.

Eu, particularmente, não condeno nenhuma proposta de literatura, desde que esteja claro um investimento mínimo por parte do autor. Se, contudo, o livro, além de uma narrativa ruim, possui problemas de revisão, coerência e ritmo, poderemos sem culpa lançá-lo à fornalha ardente rs.

No caso de Dan Brown, são inegáveis os problemas de sua escrita, certamente mais acentuados em Fortaleza Digital (1998), por ser livro de estreia. Os personagens são planos e reconhecíveis em qualquer suspense de sessão da tarde. Há uma corrida para se combater um problema aparentemente insolúvel que ironicamente terá um desfecho trivial. Temos a reviravolta clássica do vilão que se torna vítima e vice-versa. Em suma, temos um passatempo garantido que, embora prenda nossa atenção por várias horas, estará irremediavelmente esquecido depois que lermos outras duas ou três obras do mesmo gênero.

Na trama de Fortaleza Digital, a genial criptógrafa Susan Fletcher é convocada para resolver um problema de consequências astronômicas: a NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos) depara-se com um arquivo externo que não pode ser desencriptado. Mesmo o TRANSLTR, supercomputador secreto de dois bilhões de dólares, não é capaz de quebrar o código secreto.

O arquivo inquebrável, chamado de Fortaleza Digital, é uma criação do japonês Ensei Tankado, que o idealizou como uma resposta afrontosa ao uso do TRANSLTR. Tankado discordava que o Governo tivesse acesso irrestrito às informações e mensagens pessoais de todos; por esse motivo, ele chantageia a NSA, exigindo que a existência do TRANSLTR seja divulgada em troca da chave do Fortaleza Digital.

A situação se complica quando Tankado é encontrado morto na Espanha, pois ele já havia deixado a NSA de sobreaviso que, em caso de sua morte, a chave secreta seria publicada na internet por seu cúmplice. Além disso, antes de morrer, o japonês supostamente teria confiado um anel à pessoa que o socorreu, joia esta cuja gravação todos acreditam também ser a chave do Fortaleza Digital.

Nessas circunstâncias, enquando Susan tentará descobrir o cúmplice de Tankado, David Becker, seu noivo, sairá em busca do tal anel. Nem preciso dizer que o livro se constrói de mil obstáculos para que nossos mocinhos fiquem ocupados por mais de trezentas páginas. Se por um lado Susan se envolve numa teia de mentiras, por outro David depara-se com o obstáculo do anel estar convenientemente sempre com outra pessoa.

A saga pela descoberta da chave do Fortaleza Digital é sem dúvida divertida, já que parte de uma das fórmulas mais antigas e batidas das histórias de entretenimento. Lembra quando todos ansiávamos para que Goku reunisse as esferas do dragão? Então… A meu ver, o problema maior do livro, mesmo enquanto passatempo, está na forma como o autor finaliza a corrida frenética de seus personagens. Ao final temos aquela impressão de “muito barulho por nada”.

Fortaleza Digital será um ótimo passatempo para quem curte suspense investigativo, sobretudo para aqueles que não tiverem lido outros títulos do autor. Se não é mais que puro entretenimento, ao menos sugere questionamentos relevantes sobre o direito à privacidade e no quanto podemos confiar nas autoridades que nos governam. Basta lembrarmos da máxima favorita de Tankado: “Quem irá guardar os guardiões?”.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho 

P.S.: Um puxão de orelhas à editora Arqueiro, que não se deu ao trabalho de atualizar a ortografia da nova edição. 

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Uma Lágrima de Mulher, de Aluísio Azevedo - RESENHA #152

Eis que retorno a uma antiga paixão, Aluísio Azevedo, depois de dois anos sem o ler. A razão deste intervalo em nossa relação foi a leitura do perturbador O Homem, que me deixou ressacado da pena do mestre naturalista por um tempo. Desejando experimentar um quitute inteiramente diverso dos que Aluísio me ofertara até aqui, apelei para sua obra de estreia.

Os apreciadores do autor d’O Cortiço bem sabem que, a despeito de seu interesse pela escola naturalista, Aluísio publicou livros românticos, a fim de ganhar uns trocados. Uma Lágrima de Mulher (1880) pertence a este grupo de livros escritos sob encomenda. Desse modo, temos dois Aluísios: o grande escritor, que estrearia no ano seguinte com O Mulato; e o novelista sentimental, hoje praticamente desconhecido.

Para atender ao gosto do público pelo exótico, o novelista ambienta sua trama numa formosa ilha de Lipari, na Itália. Rosalina, a protagonista, é aquela figura romântica que todos já conhecemos. Órfã de mãe, vive na companhia do ambicioso Maffei, seu pai, e de sua ama, a religiosa Ângela.

Inconformado com sua posição de humilde pescador e ambicionando ascender socialmente, Maffei parte para Nápoles, deixando as duas mulheres sozinhas. Por esse tempo, aproxima-se delas o jovem Miguel, um pobre músico por quem Rosalina se apaixona.

Os dois jovens vivem um idílio sentimental até o regresso de Maffei que, ao saber do namoro da filha, opõe-se terminantemente. A partida para Nápoles se apresenta como a solução mais eficaz. Contudo, outros acontecimentos constituirão ameaça maior à felicidade do casal principal.

Embora este Aluísio romântico seja de fato outro escritor, é possível reconhecer algumas semelhanças com o autor de Casa de Pensão. A escrita clara e correta, embora aqui com tintas mais exageradas, já é perceptível neste primeiro romance. Por outro lado, também reconheci a influência de nossos primeiros romancistas na construção de personagens misteriosos, como Sombra da Noite; e na participação de bichinhos simpáticos, como o cãozinho Castor.

O tema da corrupção da mulher, embora indicasse tendências que seriam melhor trabalhadas nas obras maduras de Aluísio, já apareceria no primeiro romance brasileiro, O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa. Mas em ambos os casos, por se tratarem de obras românticas, a intenção é puramente moralista.

A parte final do livro soou-me um tanto apressada, comprometendo o desenvolvimento da trama que, a meu ver, fluiu melhor nos dois primeiros terços. O desfecho exagerado e teatral de Uma Lágrima de Mulher é inegavelmente piegas e forçado, para não dizer inverossímil. Poderia justificar o caso com aquele velho discurso do autor estreante, mas a verdade é que, aqui, temos mesmo outro Aluísio. E certamente não vou ignorá-lo rs.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Diário do Chaves (El Diario del Chavo del Ocho), de Roberto Gómez Bolaños - RESENHA #151

O seriado Chaves era um dos meus vícios de infância. Não obstante as diversas mudanças de horário, eu sempre dava um jeitinho para acompanhar a turminha da vila. Tanto vi todos aqueles episódios, que até hoje lembro com carinho a maioria das piadas e situações em torno do Chavinho e seus amigos.

Era pois muito natural que mais cedo ou mais tarde eu me interessasse por conhecer os livros publicados pelo criador/intérprete do menino do barril, Roberto Gómez Bolaños, o lendário Chespirito. Ano passado tive o prazer de conhecer sua poesia através da coletânea …Y También Poemas (2003). E neste ano finalmente li Diário do Chaves (1995), seu primeiro livro, único publicado no Brasil.

Diário do Chaves é uma obra bastante interessante para os fãs do seriado, pois, além de mostrar um pouco da vida do protagonista antes de chegar à vila, reúne várias ilustrações do próprio Bolaños. A edição brasileira, já esgotada há bastante tempo, é de formato simples e sem grandes atrativos.

O livro abre com um prefácio onde Bolaños, já no plano da ficção, relata seu encontro com Chaves e de como teve acesso ao seu diário. O autor também previne o leitor sobre as interferências realizadas no “texto original”, tendo em vista os compreensíveis problemas de linguagem do “redator”.

Sob o ponto de vista do menino órfão, vamos acompanhando sua trajetória a partir de suas lembranças mais remotas, quando foi abandonado pela mãe numa creche. Chaves conta que, depois de um tempo, foi mandado para um orfanato onde sofria maus tratos e que, por conta disso, acabou tendo que fugir de lá.

As passagens sobre sua vida na rua são as mais interessantes do livro e nelas há um realismo mais explícito, pois o garoto acaba travando relações com outras pessoas marginalizadas (adultos e crianças), exposto ao trabalho infantil, à prostituição e ao consumo de drogas.

Chaves também conta de como chegou à vila que todos conhecemos. Ele foi acolhido por uma senhora idosa, que morava na casa de Nº 8, e que o achava muito parecido com um neto dela. Após a morte dessa senhora, o garoto passa a viver pela caridade dos outros moradores da vila.

É a partir daí que aparecem todos os personagens adorados pelo público do seriado: Seu Madruga, Chiquinha, dona Florinda, Quico, dona Clotilde, professor Girafales, seu Barriga, dentre outros. Contudo, os episódios humorísticos contados no diário são os mesmo que já vimos mil vezes na televisão, o que pode deixar o texto meio arrastado por soar repetitivo.

Ao final, temos um “Histórico” assinado por Florinda Meza, que interpretou dona Florinda e que é a viúva de Bolaños. Esse texto de encerramento nos dá uma ideia do sucesso que foi o seriado e do alcance que teve em todo o mundo, enriquecido de várias anedotas em torno das apresentações ao vivo do elenco original.

Se você é fã de Chaves, certamente não deve deixar passar esse livro. Para mim, que há muito não revejo os episódios da série, foi um prazer revisitar muitas das histórias que me divertiram durante tantos anos. Contudo, enquanto obra isolada, o Diário do Chaves não é mais que um livro infantil, desses que se podem descartar sem maiores prejuízos.

Avaliação: ★★★

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Tipo uma História de Amor (Like a Love Story), de Abdi Nazemian - RESENHA #150

É sempre uma alegria conhecer bons autores contemporâneos, principalmente porque, para mim, não costuma ser muito corriqueiro; mas, quando acontece, é de fato maravilhoso. Assim, não foi com grandes expectativas que iniciei a leitura de Tipo uma História de Amor (2019), do iraniano-americano Abdi Nazemian.

Este é um daqueles casos em que sou fisgado pela capa e, logo em seguida, por uma sinopse promissora. Contudo, não imaginava que a experiência de leitura seria tão apreciável, a julgar pelo fato de que não tenho grandes simpatias pelo gênero YA. O livro é narrado em três pontos de vista pelos personagens centrais da trama: Reza, Art e Judy.

Reza é um adolescente iraniano que, após a morte do pai, muda-se com a mãe e a irmã mais velha para o Canadá. Quando a mãe de Reza contrai segundas núpcias, eles vão viver em Nova York, à exceção de Tara (irmã de Reza), que entraria para a faculdade.

O padrasto de Reza é um homem rico e aparentemente simpático, mas Saadi, o filho dele, é o oposto de Reza no que se refere a estilo e personalidade. Enquano Saadi é um cara “normal” e de comportamento heteronormativo, Reza sabe que é gay, mas não tem coragem de revelar isso a ninguém.

O que mais acentua o medo de Reza quanto à possibilidade de assumir sua sexualidade é a epidemia de aids, que atingia seu auge no final dos anos 80, época em que se passa a história. Nessas circunstâncias, o garoto decide tentar um relacionamento com Judy, uma aspirante a estilista de moda que passa longe dos padrões de beleza, mas ele acaba se apaixonando por Art, o melhor amigo de Judy.

Art é o único garoto gay assumido da escola. De estilo extravagante e chamativo, é apaixonado por fotografia e participa ativamente dos movimentos militantes da comunidade LGBT+. Embora também se sinta atraído por Reza, prefere esconder seus sentimentos de sua melhor amiga para não magoá-la.

Outro personagem bastante relevante para a trama é Stephen, tio de Judy que, além de ter perdido seu companheiro para a aids, também é portador do vírus HIV. Judy, Art e o tio Stephen tradicionalmente viam filmes antigos nas noites de domingo. A chegada de Reza, contudo, acaba interferindo na relação amistosa do trio.

Abdi Nazemian constrói uma trama excelente que, para além de envolver o leitor, tem o mérito de instruí-lo e preveni-lo sobre várias situações, isto levando-se em conta o público-alvo da obra: adolescentes da comunidade LGBT+ que estão se descobrindo e se iniciando sexualmente.

Além de muitos esclarecimentos sobre aids e o vírus HIV, o autor expõe a dificuldade de aceitação dentro do seio familiar, a homofobia dentro das escolas, como também a existência de políticos e pessoas influentes que menosprezam a população queer. E, para não citarmos apenas fatores negativos, vale lembrar as diversas referências a pessoas que lutaram pela diversidade sexual, sobretudo artistas como Madonna, para quem o livro não deixa de ser uma explícita homenagem.

Tipo uma História de Amor mantém-se na linha do ótimo do início ao fim. É lúdico e informativo, pois nos comove com suas cenas delicadas ao passo que nos põe a par da história do movimento LGBT+ em sua luta contra a aids e a favor do direito de ser quem você é.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

TOP 10 - MELHORES LEITURAS DE 2020!!!

2020 foi um ano histórico onde todos tiveram suas vidas mudadas. Mas, apesar de tantos episódios tristes, este ano foi um dos mais importantes na minha história. Muitos acontecimentos desviaram minha concentração dos livros. Mesmo assim, consegui encerrar o ano com cinquenta leituras concluídas, o que me deixou bastante satisfeito. Listar os dez melhores títulos de cada ano é sempre prazeroso, mas neste especificamente a experiência foi reveladora, pois mostrou-me mais do que nunca o quanto a literatura é um fator importante na minha vida. Nos melhores e piores momentos, os livros estiveram presentes. As leituras deste ano, boas ou ruins, foram companheiras de momentos inesquecíveis. Em nenhum outro ano eu me senti tão privilegiado por ser um leitor. Costumo dizer que livros são longas conversas que escolhemos ter com pessoas quase sempre incríveis. É pois uma enorme satisfação compartilhar com vocês dez das melhores conversas que tive no complexo ano que felizmente termina hoje.

 

# 10º lugar O ÍNDIO AFONSO, de Bernardo Guimarães (4 estrelas)


Ler Bernardo Guimarães é garantia de uma prosa boa e envolvente. É sentar-se à sombra de um alpendre e deleitar-se com a fantasia imaginativa do sertão. As aventuras e peripécias protagonizadas por Afonso divertem e encantam na proporção que nos transportam para tempos lendários e saudosos.

 

# 9º lugar CROMA, CAMINHO DE VIDA, de Regis Castro (4 estrelas)


Embora a leitura desse livro tenha sido bastante satisfatória, acabei me sentindo meio roubado ao me deparar com um tema sobre o qual há tempos cogitava escrever. O que me conforma é ver que o trabalho de Regis ficou tão bom, que me dispensou totalmente da tarefa. O conflito de Fernando Torres, embora tratado mais apressadamente nos capítulos finais, é ricamente explanado por este prosador brasileiro injustamente negligenciado pela crítica.

 

# 8º lugar →  O MENINO DO PIJAMA LISTRADO, de John Boyne (4 estrelas)


Quando um livro contemporâneo se torna muito famoso, eu automaticamente perco o interesse por ele, salvo raras exceções. Mas, se mesmo depois de anos, o mesmo livro continua sendo relevante entre os leitores, meus olhos acabam se voltando para ele. Se você é leitor, provavelmente você já terá lido/ouvido falar na obra máxima de John Boyne. Antes da leitura, já estava prevenido de que ele partiria meu coração, mas sinceramente não contava que precisasse levar isso tão a sério.

 

# 7º lugar A TEIA DE CHARLOTTE, de E. B. White (4 estrelas)


Não é segredo pra ninguém que clássicos infantis estão entre os meus favoritos da vida. Um detalhe que sempre me chama atenção é de como esses livros privilegiam o tema da morte em seus enredos. Antigamente achava que a ideia era abordar um tema tão delicado entre crianças, mas hoje percebo que, diante da morte, todos nós somos crianças medrosas que se esforçam por lidar melhor com o misterioso desfecho de nossa existência.

 

# 6º lugar A BEATA MARIA DO EGITO, de Rachel de Queiroz (4 estrelas)


Que Rachel de Queiroz foi uma notável romancista, disso eu já sabia. Que foi uma exímia dramaturga é que me soou como novidade. Pena é que tenha produzido tão pouco nesse campo. Contudo, as duas únicas peças que nos legou comprovam a força de seu talento para o teatro. Se a primeira, Lampião, desagradou-me por trazer uma figura que antipatizo, A Beata Maria do Egito compensou-me por me parecer uma verdadeira obra-prima do teatro nacional.

 

# 5º lugar O SIMAS, de Pápi Júnior (4 estrelas)


O Simas foi uma das leituras mais aguardadas da minha vida. Há muitos anos procurava por uma edição dele, e em 2020 finalmente isso foi possível. Foi inevitável criar grandes expectativas quanto ao romance mais famoso de Pápi Júnior, mas felizmente elas foram devidamente atendidas e, ouso dizer, até superadas. O Simas é de uma expressividade rara em nossas letras. Talvez seja Adolfo Caminha de quem mais se aproxima seu estilo realista e romântico ao mesmo tempo. É, em resumo, uma autêntica obra de arte.

 

# 4º lugar TENTAÇÃO, de Adolfo Caminha (4 estrelas)


Outra leitura bastante ansiada foi este último romance de Adolfo Caminha, mas, diferente d’O Simas, este estava sendo guardado/poupado propositalmente. Mesmo que não possa equiparar Tentação aos dois romances que eternizaram o nome de Caminha, arrisco dizer que ele tem um brilho especial que faltou aos outros. Nele, os arroubos do Naturalismo se rendem às delícias da escola romântica, mas longe, muito longe de cair num pieguismo previsível e açucarado.

 

# 3º lugar MEMÓRIAS DE MARTA, de Júlia Lopes de Almeida (5 estrelas)


Se eu ainda tinha alguma dúvida quanto a D. Júlia ter entrado para o rol de meus autores favoritos, ler seu romance de estreia confirmou em definitivo meu apreço pela autora de A Falência. Surpreendeu-me que ela, em sua primeira obra de fôlego, já demonstrasse tanto talento artístico. Não acredito sinceramente que Memórias de Marta se sobreponha, em qualidades literárias, a obras como Tentação e O Simas, mas o acabamento e concisão que D. Júlia dá ao seu primeiro romance sobrepujaram um Caminha mais experiente e um Pápi Júnior – conquanto igualmente estreante – verborrágico e prolixo.

 

# 2º lugar PSICOSE, de Robert Bloch (5 estrelas)


Quem acompanha minhas resenhas sabe que não é tarefa fácil para qualquer autor passar pelo meu crivo sem sair ileso de observações. Deste trabalho primoroso de Robert Bloch, que já mereceu uma das melhores adaptações da história do cinema, o que dizer? Um livro perfeito? Obviamente que não. Mas sem dúvida uma obra bem acabada, sem excessos, sem pontas soltas e plenamente satisfatória.

 

# 1º lugar O JARDIM SECRETO, de Frances Hodgson Burnett (5 estrelas)


Quando decidi ler O Jardim Secreto, já previa que o mesmo se tornaria uma das melhores leituras do ano, mas ver que ele se tornou simplesmente a melhor não deixa de ser uma grata surpresa, principalmente por ser de autoria feminina e de autora nascida no século XIX. É um clássico que dispensa apresentações e que eu recomendaria de olhos fechados a toda e qualquer criança. As mensagens de amor e amizade difundidas neste livro... É disso que o mundo precisa.

 

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Croma, Caminho de Vida, de Regis Castro - RESENHA #149

Conheci a literatura de Regis Castro por volta dos meus quinze anos, através do romance Raïssa, leitura da qual, hoje tenho certeza, deixei escapar muita coisa. Regis é mais conhecido por seus diversos livros católicos, alguns deles escritos em parceria com Maïsa Castro, sua esposa. No que se refere à prosa de ficção, além de Raïssa, publicou outros três romances: Croma, Caminho de Vida (1967), Barby e Pique.

Regis, a meu ver, pertence ao rol daqueles escritores injustiçados, já que suas qualidades literárias são inquestionáveis. Sua escrita cuidadosa e delicada merecia mais atenção do público e da crítica, e, talvez por esse descaso para com sua ficção, o escritor tenha engavetado sua pena de romancista.

Croma, Caminho de Vida (posteriormente publicado como Croma, um Caminho para a Vida) é seu romance mais conhecido, tendo ganhado várias reedições. Conta a história de Fernando Torres, um seminarista prestes a realizar seus votos sacerdotais. Para este fim ele embarca no navio Croma, rumo a Itália, mas seu companheiro de cabine, o psicanalista Álvaro Ruiz, convence-o a encarar uma experiência que põe à prova a vocação de Torres.

A experiência consiste em omitir as intenções religiosas do seminarista, fazendo-o passar por um rapaz comum no navio. Em pouco tempo, ele trava diálogo com Odete, uma jovem interessante, órfã de pai, que dedica-se à poesia a fim de escapar da relação conflituosa com a mãe, mulher exigente que discrimina todos os pretendentes da filha.

Ruiz, ao tomar conhecimento da nova amizade de Torres, alerta-o para a necessidade de que o mesmo não se prenda exclusivamente aos encantos de Odete, incentivando-lhe outras relações. Seguindo o conselho do médico, o moço acaba conhecendo Rosely, uma jovem em tudo diferente de Odete, a despeito de seus muitos atributos físicos.

Enquanto mantém contato com as duas moças, Torres, durante as refeições, conta a Ruiz a história de sua vida, tentando esclarecer os motivos que determinaram seu desejo de querer tornar-se padre. A experiência proposta pelo médico, no entanto, deixa-o numa difícil encruzilhada: escolher entre suas inclinações sentimentais e religiosas.

A narrativa de Croma é muito bem conduzida quase que em sua totalidade. O autor constrói um ritmo interessante ao intercalar a experiência de Torres com a história de sua vida, mostrando as decepções do passado, seus amores frustrados, seu instinto filantrópico e suas dúvidas em relação ao futuro, a qual caminho seguir.

Senti, contudo, o final um tanto apressado que, mesmo não sendo incoerente, poderia ter sido melhor desenvolvido. A rapidez com que Torres muda de ideia nos momentos finais do romance é sem dúvida o ponto mais questionável do livro. Mas, não obstante este ou aquele senão, a obra de Regis Castro revela o grande talento de um prosador que merecia ser mais lido.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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