sexta-feira, 18 de junho de 2021

O Cego, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #160

Joaquim Manuel de Macedo já era o romancista popular de A Moreninha e O Moço Loiro quando adentrou os palcos em 1849 com seu drama O Cego. A peça, praticamente toda em versos e dividida em cinco atos, marca a estreia de Macedo como dramaturgo.

O enredo é sobre Paulo, um jovem que, após uma enfermidade, acaba perdendo a visão. Noivo de Maria, Paulo preserva o desejo de casar-se com a moça, embora Emília, sua mãe, tente persuadi-lo do contrário, alegando que tal união estaria fadada à desgraça.

Maria, na realidade, ama Henrique, irmão de Paulo que todos acreditavam ter sido morto na guerra. Acreditando na morte do amado e persuadida por Damião, seu pai, a moça aceita resignada a firmar um compromisso com Paulo, mantendo-se nesta resolução mesmo depois da cegueira do noivo.

O casamento da filha de Damião parecia não ter obstáculos, mas a notícia de que Henrique sobrevivera, como também seu iminente retorno, complica a situação. Sabendo do compromisso do irmão, Henrique acusa Maria de infidelidade. Esta, impedida pelo pai de romper seu compromisso, tenta inutilmente esquecer o antigo namorado. Paulo, por sua vez, tenta descobrir o que está acontecendo através de Daniel, o seu condutor.

Como se vê, esta primeira peça de Macedo já apresentava uma boa carga dramática, que ganharia ainda mais acento com ser o texto em versos. Há espaço para monólogos bastante emotivos, mas que também nos levam a refletir questões importantes como o papel da mulher na sociedade daquela época.

Macedo revelou seu talento para o teatro desde sua primeira peça. Ainda que O Cego não tenha sido um grande êxito em sua carreira, o drama foi o pontapé inicial de uma extensa trajetória nos palcos. De fato, o autor ainda levaria à cena mais de uma dezena de outras composições teatrais.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho


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terça-feira, 8 de junho de 2021

Anne da Ilha (Anne of the Island), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #159

O terceiro livro da série “Anne” não causou-me impressões tão positivivas quanto os dois anteriores; e já estou devidamente prevenido de que o quarto volume não melhora muito essa situação. Espero de verdade que a série não siga nesse ritmo decrescente até o final, pois ainda temos muita matéria a ser percorrida antes de chegarmos ao último livro.

Anne da Ilha (1915) não é um livro ruim, mas está longe de ser interessante como Anne de Avonlea, e ainda mais distante da excelência do Anne de Green Gables. Faltou à autora, nesta terceira obra, o espírito animador que aplicou aos livros anteriores. Mesmo os novos personagens, que poderiam ter rendido boas passagens ao romance, não ganharam o meu interesse ao longo da obra.

O livro começa muito bem. O leitor anseia por acompanhar a entrada de Anne em Redmond, criando expectativas sobre a trajetória dela na faculdade, mas o desenvolvimento dos fatos não é muito animador. A entrada de Philippa Gordon na história parecia mesmo promissora para a trama, mas logo percebemos que a personagem era de pouco fôlego, não restando-lhe muito que fazer no livro além de ficar indecisa entre seus muitos pretendentes.

Priscilla Grant e Stella Maynard, as outras companheiras de Anne, têm uma participação ainda menos significativa do que a mimada Phil, parecendo quase figurantes na história. A autora, de modo geral, pouco explora o universo de Redmond; como tentativa para tornar a vida de Anne em Kingsport mais interessante, ela romantiza Patty’s Place, a casa dos sonhos, mas o lugar também não constitui um grande interesse no livro.

As temporadas de Anne em Avonlea felizmente resgatam a magia dos livros anteriores, pois reencontramos personagens já conhecidos e acompanhamos o desenvolvimento deles. A morte de uma antiga companheira de Anne é um dos pontos mais dramáticos do livro. Também é digna de nota a passagem em que Anne visita a casa onde nasceu, em Bolingbroke.

Outro problema de Anne da Ilha é o arrastado romance entre Anne e Gilbert. A participação do garoto neste terceiro livro também não é das mais relevantes. Como se não bastasse a pouca interação do casal principal, o aparecimento de Roy Gardner dá um esticamento desnecessário ao livro, mas nada que supere o maçante romance de Janet Sweet e John Douglas.

Anne da Ilha realmente me pareceu um livro esticado, ainda que seja provavelmente o menor volume da série. As histórias que o compõem, em sua maioria, não me cativaram, mas Lucy Maud Montgomery ainda assim consegue nos manter interessados pela trajetória de Anne. Agora que nossa ruivinha já está formada, vejamos o que os próximos anos lhe reservam…

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 14 de maio de 2021

A Torre em Concurso, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #158

Joaquim Manuel de Macedo tinha certa queda pela sátira política, como bem demonstram suas obras A Carteira de meu Tio e Memórias do Sobrinho de meu Tio. Era pois comum que a pena do sátiro fosse emprestada ao dramaturgo, e daí nascesse A Torre em Concurso (1861).

Esta é sem dúvida uma das peças mais interessantes do teatro macediano. Embora a crítica ácida que se faz na comédia seja suavizada pelas cores vibrantes do Romantismo, A Torre em Concurso não encobre sua intenção política de conscientizar o povo brasileiro.

Num curato de uma das províncias brasileiras, lança-se um edital pelo qual se busca um engenheiro “inglês” para levantar a torre do sino da igreja local. Os engenheiros nacionais ficam descartados “porque todos eles juntos não valem o dedo mindinho de um engenheiro inglês” (pág. 176).

Aproveitando-se do fato de que a população do curato não domina o idioma estrangeiro, dois impostores (foragidos da polícia) candidatam-se ao cargo e são submetidos a uma eleição. Lord Gimbo (Crespim) e Mr. Matracoat (Pascoal) conhecem-se, mas ficam impedidos de acusarem-se um ao outro e preferem aguardar pela decisão popular.

Em outro núcleo de personagens, temos Faustina, que ama o engenheiro Henrique, mas este é constantemente assediado por Ana, a tia velha de Faustina. Quando a megera descobre os interesses do jovem casal, convence seu irmão João Fernandes, juiz de paz do curato, a casar a filha com o engenheiro eleito.

A partir daí, Macedo emprega todo o seu humor ácido na explanação da campanha dos “engenheiros ingleses”. Ambos ganham seu time de apoiadores pelos motivos mais fúteis possíveis. Antes do interesse comum (a construção da torre) está a necessidade pessoal de poder político.

O dramaturgo compõe cenas bastante cômicas protagonizadas por um juiz analfabeto, por um subdelegado corrupto e por uma solteirona despeitada que se torna cabo eleitoral a fim de casar a sobrinha com o candidato mais feio da disputa. A par disso estão todos aqueles casos clássicos de fraude eleitoral, como compra de votos, eleitores invisíveis, imparcialidade política etc.

É triste pensar que A Torre em Concurso permanece atual para nosso tempo, tendo em vista que o fantasma da corrupção continua atormentando nosso país. É pena também que um texto desta qualidade esteja tão esquecido pelos leitores contemporâneos, pois, a meu ver, seu conteúdo seria relevante até mesmo para estudo no ensino básico.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 7 de maio de 2021

Anne de Avonlea (Anne of Avonlea), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #157

Como estou resolvido a ler toda a série “Anne”, de Lucy Maud Montgomery, passei ao segundo livro, Anne de Avonlea (1909), onde encontramos nossa carismática protagonista alguns anos mais velha.

Anne, agora com dezessete anos, é a professora da escola de Avonlea. Como visto no primeiro livro, a garota abriu mão de seguir carreira acadêmica para evitar a venda de Green Gables e auxiliar Marilla em sua enfermidade. Os desafios de sua iniciação profissional e a aparição de novos personagens marcam este segundo volume da série.

Percebi que, tal como no livro anterior, Anne de Avonlea segue um modelo episódico, compondo uma coleção de fatos e situações sucessivas; mas, diferente de Anne de Green Gables, aqui nem sempre a garotinha ruiva será a figura central. Essa dispersão da trama sugere certa falta de unidade no enredo, mas a autora, com seu estilo ágil e delicado, preserva a atenção do leitor.

Desses episódios, convém citar a chegada de Mr. Harrison a Avonlea, a adoção dos gêmeos Davy e Dora e a descoberta da moradora de uma casa de pedra.

Mr. Harrison, o novo vizinho dos Cuthbert, é tido por todos como um solteirão mal-humorado. Inimigo da limpeza, o homem vive sozinho na companhia de Ginger, um papagaio falastrão. Anne de Avonlea abre com um desentendimento divertido entre ele e Anne, mas que logo dará lugar a uma incipiente amizade.

Davy e Dora eram filhos de um primo de Marilla. Após a morte da mãe, os gêmeos, de apenas seis anos, são acolhidos em Green Gables. Enquanto Dora é uma menina dócil e tranquila, Davy é travesso e indisciplinado. O garoto, contudo, acaba cedendo às meiguices da jovem professora e assume uma disputa declarada com Paul Irving, o aluno favorito de Anne.

Miss Lavendar, a excêntrica moradora da casa de pedra, é descoberta por Anne quando esta e Diana erram o caminho que as levaria à outra residência. Trata-se de uma solteirona de grande imaginação que costumava, com sua criada Charlota IV, preparar o chá da tarde para visitantes que ela fantasiava receber. Pouco depois, Anne acaba descobrindo que Miss Lavendar fora o primeiro amor do pai de Paul Irving.

Há tanta matéria em Anne de Avonlea quanto em seu antecessor. Além desses episódios citados, acompanhamos o desenvolvimento da relação entre Anne e Gilbert Blythe, a luta de Anne para educar Davy e o problemático Anthony Pye, os sucessos da Sociedade de Melhorias de Avonlea e, finalmente, as venturas e desventuras de personagens já conhecidos como os Allan e Mrs. Lynde.

Mesmo sem ser tão grandioso quanto o primeiro livro da série, este Anne de Avonlea nos mantém cativados e curiosos pela trajetória de Anne Shirley, principalmente por mostrar que, mais adiante, uma curva no caminho pode fazer com que tudo mude.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

 

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terça-feira, 20 de abril de 2021

Amor e Pátria, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #156

Dando sequência ao meu propósito de ler o teatro completo do doutor Macedinho (projeto este que andava meio abandonado rs), li desta vez o drama Amor e Pátria (1859), peça esta constituída num único ato.

A ação se passa poucos dias após a independência do Brasil e, embora classificada como drama, a peça tem ares de opereta cômica. De poucos personagens, Amor e Pátria traz um enredo simples e ligeiro.

É o aniversário de Afonsina e, para tal ocasião, seus pais, Leonídia e Plácido, reservam-lhe uma grande surpresa. Nossa aniversariante é uma jovem bastante instruída em conhecimentos diversos, o que a torna alvo das censuras de seu tio Prudêncio, que julga a educação de Afonsina um tanto inapropriada para uma mulher que, no seu entender, deveria entender menos de política que do ofício doméstico.

É interessante reconhecer nesta, como em outras obras de Macedo, seu esforço em defender o lugar da mulher na sociedade brasileira, mas um lugar distinto daquele que se entendia em meados do século XIX. Afonsina é uma mulher preocupada com o futuro político de sua pátria e, por sua vez, censura o tio por seu comodismo perante os conflitos em torno da independência da nação.

O sentimento patriótico de Afonsina, contudo, encontrará abrigo no coração de Luciano, jovem revolucionário e defensor do príncipe (que se tornaria D. Pedro I). No entanto, uma rede de mentiras leva a crer que Plácido é um inimigo do príncipe português, e que Luciano fora seu denunciante, o que compromete a surpresa do aniversário de Afonsina, como também o destino do jovem casal.

Não saberia apontar as pretensões de Macedo com esta breve cena dramática. A despeito de seu tema patriótico, Amor e Pátria está longe de alcançar a dramaticidade épica d’O Jesuíta de Alencar, por exemplo. Se a intenção, porém, era tão somente celebrar nossa independência através de um passatempo corriqueiro, certamente que o objetivo não se perdeu.

Avaliação: ★★★

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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Anne de Green Gables (Anne of Green Gables), de Lucy Maud Montgomery - RESENHA #155

Anne de Green Gables (1908), clássico canadense de Lucy Maud Montgomery, tem sido redescoberto por milhares de leitores no mundo todo graças à aclamada adaptação seriada da Netflix. Mesmo sem ter visto a série de TV, acabei me rendendo ao entusiasmo de todos que têm aplaudido as obras que compõem a série “Anne”, e finalmente li o primeiro livro.

Anne Shirley, a protagonista, já está devidamente inserida naquela caixinha especial onde guardo todas as crianças apaixonantes que tenho encontrado na literatura, como Zezé, Marcelino, Tistu, dentre outros. De todos, Anne é de longe a mais falante, não poupando palavras toda vez que tenta expressar sua empolgação perante as belezas do mundo.

Não há como antipatizar uma persoangem como Anne. Desde sua primeira aparição na história, ela nos conquista com seu palavreado minucioso, com seu entusiasmo perante as coisas mais simples da vida e com sua postura otimista que não esmorece diante das dificuldades.

A trama de Montgomery nos envolve às primeiras cenas, quando os irmãos Cuthbert, Marilla e Matthew (ambos solteiros) decidem adotar um menino para ajudar nos trabalhos em Green Gables, fazenda onde residem. Um mal entendido, porém, acaba colocando Anne no caminho desses irmãos que, motivados pelo carisma da menina, decidem por ficar com ela.

Anne Shirley, movida por sua inesgotável imaginação, idealiza tudo à sua volta, batizando os lugares por onde passa e criando fantasias em torno de sua nova vida na cidade de Avonlea. Matthew, que sempre fora tímido e ensimesmado, é quem mais se deixa dominar pela magia de Anne. Marilla, embora rabugenta e conservadora, também cria uma afeição sincera pela pequena órfã, esforçando-se para dar-lhe uma boa criação.

Pouco a pouco, Anne vai grangeando a amizade de todos em Avonlea, sobretudo de Diana Barry, sua melhor amiga e parceira de aventuras. Mas, se por um lado, a aguda imaginação da filha adotiva dos Cuthbert é motivo de diversão entre suas companheiras de escola, por outro, acaba gerando uma série de conflitos domésticos que perturbarão sobretudo a impaciente Marilla.

Mesmo sendo uma criança otimista e espirituosa, Anne é complexada por ser ruiva e sardenta, julgando-se menos bela por isso; quando Gilbert Blythe, o primeiro aluno da turma, faz piada com a cor de seu cabelo, ela imediatamente cria uma barreira que impossibilita qualquer tipo de relação entre os dois, o que desperta também uma contínua rivalidade entre eles sobre quem seja o mais inteligente da turma.

É nesse ritmo bem humorado e nessa atmosfera instigante que L. M. Montgomery conduz sua narrativa, sempre entremeada de belas reflexões e frases dignas de nota. Sua prosa é de uma leveza que se mantém uniforme praticamente em todo o livro, prescindindo de passagens muito dramáticas ou digressões analíticas.

Não há em Anne de Green Gables a clara pretensão de se tornar um clássico. O que imortalizou Anne em nosso imaginário é a vitalidade que exsuda dessa protagonista, cuja imaginação era tão grandiosa e que tinha tanto a dizer, que um único livro seria insuficiente para contê-la.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sexta-feira, 5 de março de 2021

A Volúpia do Pecado, de Cassandra Rios - RESENHA #154

Cassandra Rios (1932-2002) era um nome obscuro para mim até pouquíssimo tempo. Foi durante a transmissão virtual da Parada LGBT de São Paulo (ano passado) que tomei conhecimento de sua polêmica existência.

Impressionei-me com os rótulos que lhe eram atribuídos no século passado: “escritora maldita”, “escritora mais proibida do Brasil”, “escritora mais censurada pela ditadura”. Mesmo tendo 36 de suas obras censuradas, Cassandra, em 1970, alcançou a proeza de ser a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de livros.

Contudo, Odette Ríos (como realmente se chamava) notabilizou-se de verdade por publicar em 1948 (quando tinha apenas dezesseis anos) o primeiro romance lésbico de nossa literatura: A Volúpia do Pecado. É sobre ele que vamos falar hoje.

De antemão, todos sabemos que não se pode esperar muito do romance de estreia de uma adolescente. A Volúpia do Pecado é sem dúvida bastante problemático, o que me fez pensar se Cassandra caiu no ostracismo por injustiça ou por carência de qualidades literárias. Precisaria ler os livros de sua fase madura para constatar. Desde já, aceito sugestões.


A Volúpia do Pecado nos conta sobre o envolvimento amoroso entre duas adolescentes: Lyeth e Irez. Depois que se tornam vizinhas, uma aproximação entre ambas é inevitável, a princípio como uma grande amizade, para depois tornar-se numa paixão tórrida.

Embora Lyeth receie manter um relacionamento com outra mulher, apresentando resistência, acaba cedendo às investidas de Irez que, sempre provocadora, empenha-se em seduzir a amiga. Para convencê-la de seus sentimentos, Irez entrega seu diário a Lyeth, revelando-lhe seus desejos mais íntimos em relação a ela. Além dos problemas de autoaceitação, as dificuldades de se relacionarem em segredo mais os ciúmes obsessivos de Irez acabam prejudicando o romance das duas.

A obra mantém algum interesse basicamente até o momento em que Lyeth e Irez trocam o primeiro beijo. Em seguida, temos uma sequência interminável de cenas de sexo, de tal modo que a participação dos demais personagens, que já não era significativa até então, torna-se praticamente nula. O livro, focado inteiramente nas transas das protagonistas por dezenas e dezenas de páginas, torna-se maçante e repetitivo.

Os conflitos e discussões entre Lyeth e Irez são ridículos, com direito a ciúmes infundados e brigas agressivas que são mais cômicas que dramáticas. A busca pelo entendimento da homessexualidade através de manuais e consultas psiquiátricas é pessimamente desenvolvida, como quase tudo no livro, tornando o desfecho, que poderia ser lógico, praticamente incompreensível.

Não é difícil entender por que A Volúpia do Pecado seja um livro ruim. Além dos problemas de maturidade, o romance possivelmente fora uma válvula de escape para sua autora, que também era uma adolescente homossexual à época em que o escrevera. As repetitivas cenas eróticas possivelmente foram concebidas mais para empolgação da própria Odette que para outros prováveis leitores que ela imaginava alcançar.

Ainda que repleto de imperfeições, o primeiro trabalho de Cassandra Rios tem o mérito do pioneirismo no tratamento da homossexualidade feminina na literatura brasileira. A autora ainda esmiuçaria o tema em dezenas de outros livros possivelmente melhores, a despeito de toda a perseguição sofrida pela publicação deles. Por estes e outros feitos, seu nome, diferente de sua obra, certamente não será esquecido.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho 

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