domingo, 12 de novembro de 2017

Luz e Sombra, de Maria José Dupré - RESENHA #53



Esperava fazer as pazes com Maria José Dupré este ano, pois em 2016 fiquei bastante decepcionado com O Romance de Teresa Bernard. Conforme prometido, Luz e Sombra (1944) foi o livro da vez e, se não fiz inteiramente as pazes com a autora de Éramos Seis, ao menos já nos cumprimentamos de cabeça erguida rs.

Longe de ser um livro ruim, Luz e Sombra é aquele bolo que passou do ponto; o gosto pode até não ser muito bom, mas a gente continua comendo mesmo assim rs. Trata-se de um romance de costumes, cujo problema maior são os excessos. A autora parece ficar tão empolgada com a descrição dos costumes, que se esquece de que o leitor pode não estar tão interessado nisso. Sabe aquela tia que começa a contar uma história e faz um arrodeio estonteante até chegar onde quer? Eis o que Maria José Dupré faz em Luz e Sombra, com a diferença que o “arrodeio” é aqui a própria mensagem.

Tenho percebido também a preferência da autora pela narrativa em 1ª pessoa. Os quatro romances que li dela são narrados por mulheres, o que confirma ainda mais sua postura feminista, tão perceptível em toda sua obra (pelo menos nos que li). Em Luz e Sombra, a narradora é mana Rosa, moça velha pertencente a uma rica família paulistana do século XIX. A narrativa contada ocorre entre 1869 e 1891. São 22 anos de acontecimentos cotidianos, corriqueiros e triviais dessa numerosa família de quatorze irmãos. Eis outra dificuldade que o romance pode apresentar em suas primeiras páginas: identificar as dezenas de personagens que nos são apresentados, pois, como se não bastassem os treze irmãos de mana Rosa, temos os pais, os tios, os primos, os amigos e, claro, os inimigos. Como esses mil tipos vão/voltam no romance com mais/menos espaço, aleatoriamente, tudo fica meio confuso. Portanto, se você pretende ler Luz e Sombra, vou te dar uma mãozinha e organizar toda essa turbamulta rs:

Os pais de mana Rosa são o barão e a baronesa de S. Marcos, que tiveram, como já dito, quatorze filhos (7 homens e 7 mulheres), sendo apenas quatro deles casados no começo da narrativa. Os homens são: Félix (casado com Eponina), Augusto (casado com Aninhas), Luís, Inácio (gêmeo de Leontina, reside na Itália, onde estuda pintura) Vicente, Lourenço e o pequeno Bonifacinho. As mulheres são: Leopoldina (casada com Alberto), Leontina (gêmea de Inácio, reside no Rio de Janeiro, casada com o primo Paiva), mana Rosa, Maria Letícia, Francisca Miquelina e as adolescentes Adelaide e Cristina. Mora ainda com a família o solteirão tio Antônio (irmão da baronesa). Ufa!

Passando para a estrutura, temos uma narrativa bem fragmentada e aleatória no percurso desses vinte e dois anos. Embora narrado por mana Rosa, podemos dizer que a protagonista do romance é Maria Letícia, pelo fato de que ela protagoniza a grande maioria dos episódios relatados por sua irmã solteirona. É até meio complicado passar à trama, porque simplesmente não há trama. Portanto, para você que espera ler um livro com vários acontecimentos encadeados numa trama, Luz e Sombra não será uma boa opção. Trata-se de um dos romances mais despretensiosos que já li, tanto que, depois de finalizar um terço do volume, ainda não conseguia lobrigar o propósito da autora.

Sentia-me incomodado com a postura da narradora. É uma figura completamente resignada e que não tem vida própria. Mana Rosa, nas trezentas páginas de Luz e Sombra, fala pouquíssimo de si. Até ouso dizer que a única ocasião em que ela chega a falar tão somente de si mesma é no primeiro capítulo, quando diz: “Nunca fui alguém na minha numerosa família; por uma farsa cruel do destino, compreendi que era inferior às minhas irmãs; elas eram belas, claras ou morenas, inteligentes e elegantes; eu fui sempre feia e triste. Tinha saúde fraca e por isso, aos vinte e dois anos, chamavam-me solteirona e homem algum me escolheu para esposa.” (pág. 8).

Após esse interessante desabafo, ela desaparece de tal forma, ao ponto de quase se assemelhar a um narrador em 3ª pessoa. E aqui, faço um rápido parêntese para comentar que, em certos momentos, a própria autora também parecia esquecer-se de que estava narrando em 1ª pessoa, pois mana Rosa é capaz de dar detalhes que vão além de uma observação comum, beirando ser uma narradora onisciente e não simplesmente um caráter intuitivo. Como nada de interessante acontece em sua própria vida, o jeito é ser coadjuvante na vida de suas irmãs, especialmente a bela Maria Letícia, cuja personalidade forte, marcada por sua coragem e ousadia, é destaque na família. É como se Maria Letícia fosse a “luz” e mana Rosa a “sombra” rs.

A propósito do título, e agora falando sério rs, a autora o relaciona com a narrativa principalmente sob dois aspectos. A princípio, associamos a “luz” à fase feliz da família de mana Rosa, cuja felicidade é, tempos depois, embaciada por penosas agruras, numa fase de “sombras”: “Nunca pude esquecer esse dia; essa festa foi o marco que separou a vida de nossa gente; foi como um limite. Começou uma época de tristeza e esse dia foi o último de risos e festas. Foi a sombra interceptando a luz.” (pág. 130). Mas, claro, não poderíamos esquecer que as ideias de “luz” e “sombra” relacionam-se mais efetivamente com um dos temas centrais do livro: a escravidão. Esta, enquanto “sombra”, seria brevemente extinta pela “luz”, que seria a lei da abolição de 1888.

Como disse, o livro é todo de trivialidades e episódios cotidianos. Mana Rosa começa por contar do noivado de Maria Letícia com Fernão, o que provoca ciúmes em Francisca Miquelina, que também estava interessada no moço. Como nos capítulos iniciais nossa narradora não é tão invisível, ficamos sabendo que ela também tivera interesse pelo noivo da irmã, mas nada muito consistente (como o sentimento de Francisca Miquelina), uma vez que mana Rosa encara Fernão como uma inocente fantasia secreta. Ela apenas permite-se imaginar como seria se estivesse no lugar da irmã: “Durante todo o tempo, observei-o; quando falava, quando ria, quando tomava vinho. Era capaz de amá-lo até a morte, mas sou feia, tola e tímida. Não posso ser amada. ‘Meu Deus! Estou outra vez pensando no noivo de minha irmã; dai-me um bom sono e afastai-me da tentação.’” (pág. 23).

Maria Letícia e o noivo, após o casamento, vão morar na fazenda Santarém, de propriedade do próprio Fernão. Tudo são felicidades até o dia em que Maria Letícia percebe o interesse de D. Deolinda, sua vizinha, por seu marido. Embora Fernão não corresponda às insinuações da vizinha (que é casada com um velho comendador), Maria Letícia põe Modesta, sua escrava de confiança, de vigia. Esta presencia uma cena hilária: D. Deolinda, num dia em que acentuara suas provocações, acaba sendo rejeitada por Fernão, que se mantém fiel à esposa. Revoltada, ela aguarda uma boa oportunidade para se vingar, o que não vem a tardar.

Após flagrar a escrava Inocência cuspindo nos barris de água de Santarém, Maria Letícia ordena ao feitor da fazenda que a castigue severamente. O castigo acaba saindo mais severo do que o esperado e Inocência, que já vivia doente, não resiste e morre. Esta circunstância deixa Maria Letícia perplexa, de tal maneira que ela enche-se de um grande sentimento de culpa. Mas o pior viria depois: uma denúncia “anônima” a acusa de ter ordenado que açoitassem Inocência até a morte e um processo é logo aberto contra ela. Fernão, num gesto de nobreza, assume a responsabilidade pelo caso, indo a julgamento em lugar da esposa.

Muitos outros episódios familiares são narrados por mana Rosa: a infelicidade de Francisca Miquelina que, casando-se com um primo bem mais velho (por imposição do pai), precisa aturar a escrava que o marido tem por amante; a expulsão de Lourenço após decidir casar-se com uma moça de família humilde; a orfandade de Carola, uma prima corcunda que passa a viver sob os cuidados da tia, a mãe de mana Rosa; o casamento secreto de Inácio com Carmela, uma italiana; e muitíssimas coisas mais, que não falta pano pra manga rsrsrs.

Um fator que impulsiona bastante o andamento da narrativa é o diálogo, aqui um tanto exagerado, a meu ver. Mais da metade do livro certamente é toda de conversas entre os personagens, muitas delas maçantes e desnecessárias. Mas o que mais me irritava mesmo eram as discussões políticas, tanto sobre os conflitos na Europa, como a questão da abolição no Brasil e o grande embate entre monarquistas e republicanos. E temos exemplos de conversas desse gênero por todo o livro! Claro que também não poderia deixar de citar as maledicências da baronesa de Sobral, uma velha novidadeira que costumava visitar os pais de mana Rosa, a fim de colher notícias, para depois comentar com dona Escolástica, sua comparsa rs. Há uma passagem em que Leopoldina a imita, especialmente na maneira de dançar; quase morro de rir kkk.

Aproveito pois para destacar o humor da autora que, sem dúvidas, é o elemento mais motivador do romance, em virtude da ausência de trama. São inúmeras as passagens chistosas que levam ao riso. Por outro lado, muitos assuntos sérios também são tratados: a condição da mulher no século XIX, o preconceito de classes e os maus tratos sofridos pelos escravos. A Luz e Sombra, já deu pra perceber, não falta substância; há matéria mesmo sobrando, eu diria. A meu ver, muita coisa poderia ter sido suprimida, pois os excessos da obra acabaram por saturá-la e empanaram seu brilho. Em nenhum momento o livro chega a ser ruim, principalmente depois que você percebe que o propósito da obra é fazer um registro dos costumes daquela época, relegando a ação a um segundo plano. Não é o enredo que tem força neste livro, mas a descrição minuciosa das circunstâncias. O que faltou foi uma execução menos deliberada e mais contida; uma moderação que enxugasse as sobras e deixasse o texto mais limpo. Graciliano teria puxado as orelhas à Dupré rs.

A experiência que tive com Luz e Sombra, independente de não ter sido exatamente o que esperava, foi marcante no sentido de que me deixei levar pelo entusiasmo da autora; abracei mesmo sua proposta, acompanhando os episódios domésticos, dessem no que dessem. Seguramente, o que mais me agradou foi essa convicção de que lia páginas de alguém a quem não interessava ser famosa, escrever uma obra-prima ou ingressar no cânon literário; antes, queria contar histórias do seu jeito, à sua maneira. Parece que conseguiu rs.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano - RESENHA #52 (contém spoilers)



Minha primeira experiência com a obra de Alexandre Herculano não foi muito agradável, o que me deixou um tanto contrariado, apreciador que sou da literatura romântica. Eurico, o Presbítero (1844) é de uma composição que me pareceu bastante ultrapassada, ainda que fosse obra do século XVIII. Seria perfeitamente um desses romances de cavalaria que levaram o Cavaleiro da Triste Figura à insanidade. Mas penso ter saído ileso da experiência rs.

Romance histórico, como todos os demais romances de Herculano, Eurico registra a decadência do império gótico e sua invasão pelos árabes, no século VIII. Nesse contexto, o gardingo Eurico é rejeitado por Favila, duque de Cantábria, como pretendente à mão de Hermengarda, sua filha. Mesmo Eurico não sendo um pobre-diabo, sua posição social não é a ambicionada por Favila para sua bela filha. Mas o que deixa o jovem mais magoado em seu orgulho é a falta de resistência de sua amada, tão prontamente obediente a seu pai.

Ferido em seus sentimentos, Eurico dedica-se à vida religiosa, a fim de esquecer sua bela ingrata. Optando pela carreira monástica, torna-se o presbítero de Carteia, merecendo respeito e admiração por sua conduta espiritual. Uma atitude sua, porém, intriga os fieis: suas vigílias noturnas e solitárias pelas montanhas. Com os pensamentos inflamados pelo sentimento ainda vivo por Hermengarda, Eurico escreve, horas a fio, cânticos e elegias para ela. Após descobrirem suas razões poéticas, as pessoas passam a considerá-lo um inspirado por Deus. Os cânticos de Eurico passam a integrar o repertório das catedrais de toda a Península Ibérica.

Devo pois assinalar que as passagens mais agradáveis do Eurico, para mim, são as dos registros de seus manuscritos, ainda que eles também sejam objeto de análise da corrupção do povo godo. Neles também consta a visão de Eurico que, em sonhos, previu que sua pátria pereceria ao ataque dos povos da África. Impressionado com a visão, o presbítero participa o iminente perigo, por cartas, a seu nobre e velho companheiro de armas, Teodomiro, o duque de Córduba, prevenindo-lhe ainda da traição de Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de Híspalis. O caso é que muitos godos, inconformados com a situação política da península, decidem aliar-se aos muçulmanos.

Essa guerra aparentemente desigual entre godos e árabes é o objeto principal do romance, ocupando considerável parte da obra. Em meio à desesperança de muitos cristãos, contudo, surge uma esperança luminosa na forma de um cavaleiro negro de identidade ignorada. Guerreiro exímio, o desconhecido cavaleiro tem preferência pelos inimigos mais poderosos, a quem extermina com uma fúria sobrenatural.

Nessas circunstâncias, morre Favila, deixando seu título de duque de Cantábria para seu corajoso filho Pelágio, irmão de Hermengarda. Esta é mandada para o Mosteiro da Virgem Dolorosa, onde deveria ficar protegida, em virtude das ocupações militares de seu irmão; mas o lugar é assaltado pelos árabes que têm intenções bastante lascivas para com as monjas. Para escapar deles, as religiosas decidem submeter-se ao “martírio”; em outras palavras, uma sessão de suicídio coletivo. Antes, porém, que Hermengarda fosse sacrificada, é resgatada por Abdulaziz, um amir do árabes, que pretende torná-la sua esposa.

Em Covadonga, caverna onde estão refugiados Pelágio e outros guerreiros godos, chega a notícia do sequestro de Hermengarda. Preocupado com o que possa acontecer a sua irmã, Pelágio reúne seus homens para partirem em busca dela. Sua atitude é barrada por Eurico, que se revela como o cavaleiro negro, apresentando como prova uma carta de Teodomiro que, àquela altura, já era aliado dos árabes. Eurico não quer pôr em risco o que resta de um exército precário; por isso, assume a empresa do resgate de Hermengarda, não revelando seu interesse particular na causa, admitindo como companheiros apenas guerreiros sem família.

O resgate é efetuado com sucesso. A salvo em Covadonga, Hermengarda, ainda bastante impressionada com os últimos sucessos, pensa alto sobre um terrível remorso que carrega consigo: sua ingratidão para com Eurico, a quem julga morto. A donzela admite tê-lo rejeitado por obediência ao pai. E bem perto dela, sem que saiba, quem está? O próprio Eurico, que agora não pode amar Hermengarda em razão de seus votos sacerdotais que incluem o celibato. Contrariado mais uma vez em seu amor, Eurico decide concluir seus dias, fiel a três ideais: sua pátria, sua fé e seu amor. O presbítero prepara uma armadilha para os grandes traidores do seu povo: Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de Híspales: as duas últimas vítimas de seu franquisque. Finalmente, entrega-se sem resistência à cólera de Muguite, amir da cavalaria árabe, que parte-lhe o crânio com uma espada. No dia seguinte, Pelágio desperta com o canto de sua irmã, que entoava um dos cânticos compostos pelo inspirado presbítero de Carteia; após cantar, ela emite um riso insano, pois estava mesmo enlouquecida.

Esse final tremendamente épico confirma a posição do autor quanto ao celibato clerical, manifestada já no prólogo do livro. Herculano fundamenta sua tese com bastante propriedade ao criar um desenlace tão trágico para seus personagens. Nesse quesito, não poderia contestar seu êxito. O que contesto são suas propriedades romanescas e seu poder de fabulação, bastante limitados por seu tino histórico. De fato, o historiador prejudicou bastante o romancista. Pelo menos em Eurico foi assim: a ficção estava sempre em segundo plano, à margem da explicação histórica, de maneira que o leitor não consegue ter um retrato mais sólido de personagens fundamentais como a própria Hermengarda, cuja participação na narrativa é bastante ínfima. Os episódios são enfim narrados muito objetivamente, constantemente esclarecidos pelo autor com descrições minuciosíssimas e notas de rodapé.

A leitura do Eurico foi, portanto, arrastada e aborrecida. É o tipo de livro que vale mais pelo conhecimento da tendência medievalista na escola romântica. Sua composição já era ultrapassada mesmo para sua época, o que renderia a Herculano, anos depois, críticas ferinas da parte de autores como Eça de Queirós. No mesmo ano em que Eurico apareceu em Portugal, Macedo publicava A Moreninha no Brasil, o que demonstra que o Romantismo no Brasil estava bem mais interessante àquela época. Ainda que sejam obras com propostas completamente diferentes, devemos lembrar ainda que, em pouco tempo, teríamos o nosso Alencar com seus romances históricos. O Guarani e As Minas de Prata dão o grande exemplo de que é possível trabalhar um contexto histórico sem ofuscar o brilho e a graça de um romance legítimo, uma obra de arte.

Vale lembrar que Eurico, o Presbítero é o primeiro livro de um projeto literário a que seu autor deu o nome de O Monasticon, constituído, além da obra já citada, pelo romance O Monge de Cister, minha próxima leitura do Herculano. Mas isso não deve ser breve rs!

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto - RESENHA #51



Em mais uma de minhas experiências com a obra de Lima Barreto fui infeliz. Desta vez, li a tão bem acabada Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), na qual pretendia encontrar algo de novo, mas não deu muito certo rs. Seguramente posso afirmar que nunca o autor me pareceu tão enfadonho e repetitivo quanto neste romance, se é que podemos classificá-lo como tal.

Gonzaga de Sá é mais desabafo que romance. Já devo ter dito algo semelhante sobre Policarpo Quaresma, Isaías Caminha e Clara dos Anjos, mas o objeto desta resenha supera todos estes com louvor. Deve ser por isso que não gosto de Lima Barreto! Tudo quanto tenho lido dele trata mais de sua própria pessoa do que de todo o resto. Não consigo entender o interesse que tem despertado até hoje e a animosidade com que muitos falam de seus livros. Será porque está na moda prestar atenção nas classes mais oprimidas da sociedade? Vamos então agora supervalorizar todos os livros sobre negros, deficientes, gays, pobres...? Não estou dizendo que não se deve dar atenção aos grupos menos favorecidos. É importante, sim, lutar contra as desigualdades. Só não entendamos esta luta como qualificativo literário. Não vou dar ouvidos a quem quer que diga que Lima Barreto é excelente “literato” por denunciar o preconceito.

Passando ao livro, logo no título, temos um cacófato provocado pelas iniciais “M. J.”, sugerindo “mijota” ou “mijote”, adjetivo pejorativo. Mais uma vez, portanto, nosso protagonista (tal como Clara, Isaías e Policarpo) não terá importante figura social. O autor esclarece em “Advertência” que está sendo apenas intermediário da publicação, cuja autoria é de um amigo seu, Augusto Machado, o biógrafo. A estratégia é inútil quando o leitor sem grande esforço reconhece o figurão por trás da máscara.

Pois bem. Qual que é a ação do “romance”, vocês devem querer saber; e eu prontamente lhes direi que não há ação. O que temos basicamente são dois títeres: Augusto Machado e Gonzaga de Sá. Lima Barreto é o ventríloquo que lhes dá voz. O livro é quase todo um monólogo diálogo entre esses dois funcionários públicos. Quem são eles?

Augusto Machado é um jovem mulato que deseja ascender no serviço público, aspirando chegar a diretor de repartição.  Quando o bispo de Tocantins é recebido no porto de Belém com apenas dezessete tiros de salva, fica melindrado, julgando-se merecedor de dezoito. O caso é levado aos foros, chegando até Machado, que é logo incumbido de consultar a “Secretaria dos Cultos”, onde trabalha o velho amanuense Gonzaga de Sá.

Nosso “biografado”, bacharel em letras, é um filósofo pessimista e descrente na humanidade. Com mais de sessenta anos, não é mais que simples escrivão, posição assumida por vontade própria, tendo em vista sua ascendência ilustre (Gonzaga descendia de Estácio de Sá). “Filho de um general titular do Império, podia ser ‘muita coisa’; não quis. Era preciso ser doutor, formar-se, exames, pistolões, hipocrisias, solenidades... Um aborrecimento, enfim...” (p. 26). A Gonzaga aborreciam a “mania de aristocracia” dos brasileiros, os falsos intelectuais, os políticos corruptos, os empregados de ideias medíocres, além do mau gosto na arte dos emblemas públicos. É, no mais, um homem sem preconceitos: “Eu sou Sá, sou o Rio de Janeiro, com seus tamoios, seus negros, seus mulatos, seus cafuzos e seus 'galegos' também...” (p. 34).

Antes de passar à vida de seu mentor, Augusto Machado adianta as circunstâncias de sua morte. “Para se compreender bem um homem não se procure saber como oficialmente viveu. É saber como ele morreu; como ele teve o doce prazer de abraçar a Morte e como Ela o abraçou.” (p. 20). Fora no jardim da casa de Gonzaga. Abaixando-se o velho para colher uma flor que pretendia oferecer a seu fiel companheiro, caíra e morrera. Simples assim, como tudo em sua vida. Vale lembrar que, pouco antes, no Passeio Público, ele havia declarado amar a morte, o que revela sua antipatia pelo contexto no qual estava inserido. Dentre os objetos de seu espólio, o manuscrito de um conto sobre um homem que dedicara toda a vida na construção de uma aeronave, sem nunca consegui-la fazer voar.

A narrativa segue fragmentada, em episódios que sempre convergem para a mesma difusão de ideias entre os dois bonecos personagens. Um dos que merecem destaque é o velório do compadre de Gonzaga, Romualdo, homem branco que era casado com uma mulher negra. É mesmo interessante a observação de Machado sobre Aleixo, o pequeno órfão mestiço. Por mais que seu padrinho Gonzaga se esforçasse para torná-lo alguém, o preconceito jamais permitiria. “Coitado! Nem o estudo lhe valeria, nem os livros, nem o valor, porque, quando o olhassem diriam lá para os infalíveis: aquilo lá pode saber nada!” (p. 74).

Finalmente, não encontrei nada de novo neste livro, além da já citada ausência de ação. Se o tivesse lido antes dos outros, a impressão atual seria destes, de maneira que toda a obra “romanesca” de Lima Barreto parece ser uma coisa só: birras pessoais desafogadas em letra redonda.

Avaliação:

Daniel Coutinho

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