Dan Brown é mais um daqueles escritores que, não
obstante venderem como água, são taxados de repetitivos, artificiais e rasos.
Há pouco tempo tive a oportunidade de ler Paulo Coelho, outro integrante dessa
turma, e não julguei a leitura d’O Alquimista uma perda de tempo. A
avaliação que dei à leitura de Dan Brown ombreou o best-seller brasileiro, ainda
que tenha me agradado mais deste último.
Eu classificaria o norte-americano Dan Brown como “literatura de
entretenimento” e Paulo Coelho como “literatura esotérica”. Entre uma e outra,
simpatizo mais a primeira. Entretanto, no presente caso, O Alquimista se
sobrepõe ao Fortaleza Digital no que se refere à sua forma final, mas as
avaliações de ambos se equiparam quando notamos que Dan Brown é mais divertido e
envolvente.
Eu, particularmente, não condeno nenhuma proposta
de literatura, desde que esteja claro um investimento mínimo por parte do
autor. Se, contudo, o livro, além de uma narrativa ruim, possui problemas de
revisão, coerência e ritmo, poderemos sem culpa lançá-lo à fornalha ardente rs.
No caso de Dan Brown, são inegáveis os problemas de
sua escrita, certamente mais acentuados em Fortaleza Digital (1998), por
ser livro de estreia. Os personagens são planos e reconhecíveis em qualquer
suspense de sessão da tarde. Há uma corrida para se combater um problema
aparentemente insolúvel que ironicamente terá um desfecho trivial. Temos a
reviravolta clássica do vilão que se torna vítima e vice-versa. Em suma, temos
um passatempo garantido que, embora prenda nossa atenção por várias horas,
estará irremediavelmente esquecido depois que lermos outras duas ou três obras
do mesmo gênero.
Na trama de Fortaleza Digital, a genial
criptógrafa Susan Fletcher é convocada para resolver um problema de consequências
astronômicas: a NSA (Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos)
depara-se com um arquivo externo que não pode ser desencriptado. Mesmo o
TRANSLTR, supercomputador secreto de dois bilhões de dólares, não é capaz de quebrar
o código secreto.
O arquivo inquebrável, chamado de Fortaleza
Digital, é uma criação do japonês Ensei Tankado, que o idealizou como uma
resposta afrontosa ao uso do TRANSLTR. Tankado discordava que o Governo tivesse
acesso irrestrito às informações e mensagens pessoais de todos; por esse motivo,
ele chantageia a NSA, exigindo que a existência do TRANSLTR seja divulgada em
troca da chave do Fortaleza Digital.
A situação se complica quando Tankado é encontrado
morto na Espanha, pois ele já havia deixado a NSA de sobreaviso que, em caso de
sua morte, a chave secreta seria publicada na internet por seu cúmplice. Além
disso, antes de morrer, o japonês supostamente teria confiado um anel à pessoa
que o socorreu, joia esta cuja gravação todos acreditam também ser a chave do
Fortaleza Digital.
Nessas circunstâncias, enquando Susan tentará
descobrir o cúmplice de Tankado, David Becker, seu noivo, sairá em busca do tal
anel. Nem preciso dizer que o livro se constrói de mil obstáculos para que
nossos mocinhos fiquem ocupados por mais de trezentas páginas. Se por um lado
Susan se envolve numa teia de mentiras, por outro David depara-se com o
obstáculo do anel estar convenientemente sempre com outra pessoa.
A saga pela descoberta da chave do Fortaleza
Digital é sem dúvida divertida, já que parte de uma das fórmulas mais antigas e
batidas das histórias de entretenimento. Lembra quando todos ansiávamos para
que Goku reunisse as esferas do dragão? Então… A meu ver, o problema maior do
livro, mesmo enquanto passatempo, está na forma como o autor finaliza a corrida
frenética de seus personagens. Ao final temos aquela impressão de “muito
barulho por nada”.
Fortaleza Digital será um ótimo passatempo para quem curte suspense investigativo, sobretudo
para aqueles que não tiverem lido outros títulos do autor. Se não é mais que
puro entretenimento, ao menos sugere questionamentos relevantes sobre o direito
à privacidade e no quanto podemos confiar nas autoridades que nos governam.
Basta lembrarmos da máxima favorita de Tankado: “Quem irá guardar os guardiões?”.
Avaliação: ★★★
Daniel
Coutinho
P.S.: Um
puxão de orelhas à editora Arqueiro, que não se deu ao trabalho de atualizar a
ortografia da nova edição.
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