sexta-feira, 5 de março de 2021

A Volúpia do Pecado, de Cassandra Rios - RESENHA #154

Cassandra Rios (1932-2002) era um nome obscuro para mim até pouquíssimo tempo. Foi durante a transmissão virtual da Parada LGBT de São Paulo (ano passado) que tomei conhecimento de sua polêmica existência.

Impressionei-me com os rótulos que lhe eram atribuídos no século passado: “escritora maldita”, “escritora mais proibida do Brasil”, “escritora mais censurada pela ditadura”. Mesmo tendo 36 de suas obras censuradas, Cassandra, em 1970, alcançou a proeza de ser a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de livros.

Contudo, Odette Ríos (como realmente se chamava) notabilizou-se de verdade por publicar em 1948 (quando tinha apenas dezesseis anos) o primeiro romance lésbico de nossa literatura: A Volúpia do Pecado. É sobre ele que vamos falar hoje.

De antemão, todos sabemos que não se pode esperar muito do romance de estreia de uma adolescente. A Volúpia do Pecado é sem dúvida bastante problemático, o que me fez pensar se Cassandra caiu no ostracismo por injustiça ou por carência de qualidades literárias. Precisaria ler os livros de sua fase madura para constatar. Desde já, aceito sugestões.


A Volúpia do Pecado nos conta sobre o envolvimento amoroso entre duas adolescentes: Lyeth e Irez. Depois que se tornam vizinhas, uma aproximação entre ambas é inevitável, a princípio como uma grande amizade, para depois tornar-se numa paixão tórrida.

Embora Lyeth receie manter um relacionamento com outra mulher, apresentando resistência, acaba cedendo às investidas de Irez que, sempre provocadora, empenha-se em seduzir a amiga. Para convencê-la de seus sentimentos, Irez entrega seu diário a Lyeth, revelando-lhe seus desejos mais íntimos em relação a ela. Além dos problemas de autoaceitação, as dificuldades de se relacionarem em segredo mais os ciúmes obsessivos de Irez acabam prejudicando o romance das duas.

A obra mantém algum interesse basicamente até o momento em que Lyeth e Irez trocam o primeiro beijo. Em seguida, temos uma sequência interminável de cenas de sexo, de tal modo que a participação dos demais personagens, que já não era significativa até então, torna-se praticamente nula. O livro, focado inteiramente nas transas das protagonistas por dezenas e dezenas de páginas, torna-se maçante e repetitivo.

Os conflitos e discussões entre Lyeth e Irez são ridículos, com direito a ciúmes infundados e brigas agressivas que são mais cômicas que dramáticas. A busca pelo entendimento da homessexualidade através de manuais e consultas psiquiátricas é pessimamente desenvolvida, como quase tudo no livro, tornando o desfecho, que poderia ser lógico, praticamente incompreensível.

Não é difícil entender por que A Volúpia do Pecado seja um livro ruim. Além dos problemas de maturidade, o romance possivelmente fora uma válvula de escape para sua autora, que também era uma adolescente homossexual à época em que o escrevera. As repetitivas cenas eróticas possivelmente foram concebidas mais para empolgação da própria Odette que para outros prováveis leitores que ela imaginava alcançar.

Ainda que repleto de imperfeições, o primeiro trabalho de Cassandra Rios tem o mérito do pioneirismo no tratamento da homossexualidade feminina na literatura brasileira. A autora ainda esmiuçaria o tema em dezenas de outros livros possivelmente melhores, a despeito de toda a perseguição sofrida pela publicação deles. Por estes e outros feitos, seu nome, diferente de sua obra, certamente não será esquecido.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho 

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