segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo - RESENHA #34



 A leitura de Casa de Pensão me fez recordar o ritmo delicioso que têm os romances de Aluísio Azevedo. Lembro perfeitamente da sofreguidão com que li O Cortiço e O Mulato, que são verdadeiras joias literárias. Assim como Macedo, tinha deixado Aluísio de lado por muito tempo. Na verdade, estou numa fase que me faz correr para tudo que sempre quis ler, mas que, por variados motivos, vivo adiando. No geral, são leituras que considero essenciais, muitos deles pertencentes à nostálgica “Série Bom Livro” da editora Ática, através da qual conheci muitos clássicos brasileiros. Essa fase da capa branca é minha favorita, talvez por ter o melhor e mais variado catálogo dessa coleção de clássicos. Para quem não estiver entendendo do que estou falando, esclareço que essa “Série Bom Livro”, que é antiquíssima, já teve várias fases no que diz respeito ao projeto gráfico dado aos livros, que mudou bastante até chegar ao modelo atual que, a meu ver, é de péssimo gosto. Modernizaram as capas de tal maneira, que as ilustrações destoam (e muito) da estética literária dos autores editados; sem falar da diagramação horrível com letra bastante minúscula. Por isso, essa fase da capa branca ainda é a melhor, mesmo não possuindo também a melhor das diagramações. Pelo menos, gosto das capas rsrsrs. Mas voltemos ao que interessa!

Aluísio é, sem dúvida, um dos meus autores preferidos da vida! Costumo comentar que poucos escritores conseguem prender tanto a minha atenção como ele. Com efeito, sua escrita elegante e fluente parece prezar pelo interesse do leitor. Vendo-se obrigado a escrever para sobreviver, Aluísio empenhou-se como poucos na confecção de suas obras. Percebo nele uma característica admirável com a qual me identifico sobremaneira: trata-se do cuidado em dosar a intenção autoral com o gosto do público, o que é empresa deveras difícil. Geralmente, os escritores tendem por apenas um desses caminhos, mas quando escrevem movidos unicamente por sua própria intenção artística, acabam involuntariamente distanciando-se de grande parte dos leitores; todavia, quando escrevem exclusivamente na intenção de agradar o público, acabam produzindo literatura fútil. É preciso saber dosar, e Aluísio faz isso muito bem. É verdade que ele também teve sua fase literária para agradar as massas em geral, mas apenas por uma questão financeira, pois lhe desgostavam esses livros por encomenda, como confessaria em vida. Eu é que não consigo imaginar nada ruim que venha de Aluísio; por isso, morro de curiosidade de ler seus romances “inferiores”: A Condessa Vésper, Girândola de Amores, Filomena Borges, etc.

Casa de Pensão, como tudo que já li de Aluísio, é muito bem desenhado. O autor, que também era caricaturista, vaza seu talento pictórico na modelação das figuras que povoam o romance. Penso que se dessem a qualquer artista plástico as passagens em que Aluísio descreve seus personagens, eles poderiam facilmente transformá-las em desenho. A técnica de condução da trama é coisa de mestre! Enquanto lia, pensava: “Esse cara é tão genial, que poderia escrever qualquer coisa, que seria bom.” O texto dele é mesmo de quem sabe o que faz, de quem escreve com senhoria e total domínio ou controle da circunstância imaginada. Dá gosto em ler! Sinceramente, o nome Aluísio Azevedo deveria ser mais reverenciado do que é, como um dos vultos maiores de nossas letras, à altura de Alencar e Machado. A cada livro, gosto mais dele, especialmente quando dá mostras do leitor que foi de literatura nacional e estrangeira. Lamartine parece ser um de seus preferidos; lembro de ser citado em O Mulato também. Uma passagem em que Amâncio, protagonista de Casa de Pensão, lê um volume caindo aos pedaços, me agradou em especial, uma vez que o volume era um romance do Alencar.

Assim como em O Cortiço, Casa de Pensão possui vasto leque de personagens, não nas proporções do primeiro, mas ainda assim de amplitude considerável. Aluísio parece ter preferência por aglomerados de pessoas vivendo próximas, talvez por facilitar seu trabalho em analisar as influências do meio e a mediocridade das massas. Amâncio é um jovem de vinte anos que sai do Maranhão, a fim de estudar medicina no Rio de Janeiro. Longe de sentir entusiasmo pelos estudos, o que ele vislumbra mesmo são os prazeres da corte: mulheres impudicas, noitadas com os amigos, liberdade sem limites, tudo isso sem ter que dar satisfação a quem quer que seja. É por isso que ele rejeita ficar em casa do Campos, comerciante rico que devia favores a um tio de Amâncio. O jovem assente em morar na casa de pensão de um novo amigo que fizera: João Coqueiro. E para lá vai.

Amâncio é um homem lúbrico, lascivo e mulherengo. Sedento de prazeres carnais, vive fantasiando indecências com todas as mulheres à sua volta: Hortênsia (mulher de Campos), Carlotinha (irmã de Hortênsia), Amélia (irmã de João Coqueiro), Lúcia (moradora da casa de pensão); nem Nini escapa. Nini é a filha louca de Madame Brizard, viúva francesa com quem casou João Coqueiro. Nini ficara louca após a morte do marido e do filho. Todos os personagens (ou quase todos) postos em cena vêm comprovar a mediocridade humana, as baixezas e vilanias da sociedade, sempre movida por interesses egoístas. João Coqueiro, por exemplo, casou com Madame Brizard por conveniência. Após a morte dos pais, ficara sozinho no mundo com Amélia, sem dinheiro para prosseguir com o negócio da casa de pensão que herdara. Aceitara casar com Madame Brizard, visando obter o dinheiro necessário para prosseguir o negócio em sociedade com a francesa.

Esse João Coqueiro, que é mesmo um especulador, convida Amâncio para a casa de pensão, objetivando arrastá-lo para sua irmã Amélia. O jovem, rico e promissor, é contudo tolo, de maneira que todos tentam arrancar dinheiro dele. Amâncio, que não é tão tolo quanto pensam, não deseja casamento. O que ele quer é divertir-se longe de pessoas maçantes e estudar o menos possível. As mulheres, todas elas, não passam de possíveis aventuras. Quando João Coqueiro percebe uma crescente aproximação entre o estudante e Lúcia, desconfia que a megera possa frustrar seus planos. Essa Lúcia, que vive amasiada com Pereira, um grande estafermo que passa por seu marido, deseja livrar-se do “estorvo” e seguir a vida com melhor partido. Amâncio parece ser esse partido ansiado, mas, como já se viu, o jovem não quer compromisso. Lúcia, por seu lado, não desiste de seu intento, mesmo conhecendo os planos de João Coqueiro. Amélia, mesmo se insinuando o tempo todo, parece ser a que menos chama a atenção de Amâncio, que é mais atraído por mulheres que se fazem de difícil rsrsrs.

A trama segue num ritmo que mantém o leitor preso de dois sentimentos: a indignação e a curiosidade. Casa de Pensão é puro Realismo, com alguns toques de Naturalismo. De todos os amores contracenados, o único que se mostra verdadeiramente honesto é o amor maternal/filial. Os demais são todos movidos por interesses mesquinhos e vis. Aluísio desnuda a sociedade tal qual ela é; e, mesmo tendo se passado tantos anos, percebemos que muita coisa não mudou. Confesso que chegou a me incomodar tanta hipocrisia, tanta baixeza, tanta especulação; o que me faz lembrar minha preferência pelos livros românticos que, embora idealistas e utópicos, constroem um mundo mais justo que (mesmo fictício) serve de refúgio para pessoas desiludidas com o mundo real.

Dos fatores que me perturbaram em Casa de Pensão, é escusado dizer que o final é o primeiro deles, porque mesmo as piores baixezas pintadas por Aluísio, quando escritas por sua pena, são toleráveis; eis outra proeza sua. Do mesmo modo quando li O Cortiço e O Mulato, fiquei impressionado com o desfecho em Casa de Pensão. Confesso que ainda estou meio impressionado com ele, embora já o imaginasse em minhas suposições. Contudo, a maneira como Aluísio apresenta o capítulo final é digno dos escritores de sua monta. Perturbador, mas incrível!

Mas vou já dizer uma coisa que me desagradou na escrita do Aluísio e que, para ser sincero, não lembro se ocorre nas duas outras obras já citadas. É essa mistura dos discursos direto e indireto que ele persiste em fazer, como também o recorrente uso do travessão. Já vi muitos escritores confundirem falas e pensamentos de personagens à voz do narrador; mas fazer o contrário, isto é, adequar a voz do narrador às falas propriamente ditas dos personagens, é, no mínimo, esquisito e inusitado. Mas vindo do querido Aluísio, é, logicamente, perdoável. Costumo fazer uma explanação geral do livro ao final do post, mas penso que, desta vez, já disse tudo. Portanto, se você nunca leu Aluísio Azevedo na sua vida, não sabe o que está perdendo! Difícil vai ser escolher o próximo.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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