Separei alguns livros infantojuvenis do meu acervo
para descarte, mas, antes de passá-los adiante, decidi relê-los uma última vez,
a fim de ter certeza se algum deles não faria falta. Ao que parecia, todos os
títulos seguiriam mesmo seu caminho com destino a outros leitores. No entanto,
chegando ao último deles (que, a princípio, confesso, li com certa preguiça),
descubro uma pequena joia da qual já não lembrava.
Uólace e João Victor (1998), da escritora fluminense Rosa Amanda
Strausz, é uma preciosidade da nossa literatura infantil. Sua composição é de
uma criatividade que nos fascina constantemente ao longo de suas quase
cinquenta páginas. A narrativa, além de bem escrita, sabe ser inteligente,
bem-humorada e emotiva na medida certa, sem exageros ou pieguices.
A estrutura da novela já dá mostras do estilo
criativo da autora. Os capítulos são duplicados: os doze capítulos narrados por
João Victor são intercalados por outros doze narrados por Uólace, realizando
esse interessante jogo do contraponto. A princípio, esse jogo parece disposto a
evidenciar o contraste entre os dois garotos, de mundos tão diferentes, mas,
para surpresa do leitor, muitos paralelos são criados para aproximar as
histórias dos dois protagonistas.
Uólace e João Victor são pré-adolescentes, talvez
de uns onze anos, ambos filhos de mães solteiras. Uólace é um garoto de rua,
negligenciado pela mãe, uma mulher alcóolatra; ele não vai à escola e depende
da generosidade alheia para fazer qualquer refeição, tal como seus dois amigos:
Catuaba, um garotinho franzino, provavelmente mais novo, com pendores
artísticos e apaixonado por novelas de época; e Cachorrão Duplex, o mais alto
da turma, que, com seu porte e olhar ameaçadores, obtém dinheiro mais facilmente
dos transeuntes.
João Victor, embora tenha um padrão de vida muito
melhor, não vive em um lar abastado. Sua mãe, que possivelmente não conta com
ajuda financeira do pai do garoto, trabalha como secretária, além de revisar
livros para conseguir uma renda extra. Dessa forma eles conseguem viver
dignamente, garantindo suas necessidades básicas. João Victor frequenta a
escola, e é sempre cobrado pela mãe para que tire boas notas; ela deseja que o
filho tenha um futuro brilhante. Ele também tem dois amigos: Zé Luiz, de
contexto familiar idêntico, e por isso mesmo um amigo mais próximo; e Lucas,
garoto mimado, cheio de privilégios, pertencente a uma família rica.
Assim vamos conhecendo, a partir da estrutura já
mencionada, o cotidiano desses dois garotos, cujas vidas estão cheias de
similaridades. As diferenças sociais não mudam o fato de que Uólace e João
Victor são apenas dois meninos comuns, com seus medos e aspirações. Ambos
desejam comer hambúrguer no café da manhã, lamentam não ter dinheiro para um
tênis de marca, sentem-se ameaçados quando pressentem o perigo, questionam o
futuro diante do sucesso e distanciamento dos amigos mais próximos. E esses
dois garotos, que apenas se conhecem de vista, jamais poderiam imaginar o
quanto são parecidos.
O livro de Rosa Amanda Strausz é uma sucessão de
surpresas, e das boas, dessas que tornam a experiência de leitura satisfatória.
O texto se mantém interessante para todos os públicos, dando margem para
diversas discussões pertinentes. Uólace e João Victor nos fazem ver que todas
as pessoas têm suas próprias lutas e que, sejam quais forem as circunstâncias,
precisamos enfrentá-las.
Avaliação: ★★★★★
Daniel
Coutinho
***
Instagram: @autordanielcoutinho
E-mail para contato: autordanielcoutinho@gmail.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário