sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa - RESENHA #56



Muito já se discutiu sobre a primazia do romance brasileiro, o que não deixa de causar certa admiração, principalmente depois que se lê o esclarecedor artigo de Aurélio Buarque de Holanda para O Cruzeiro, de 1952, mais tarde reutilizado (com algumas alterações) como prefácio em edição de O Filho do Pescador (Melhoramentos, 1977). De tudo o que li sobre a referida questão, o texto do Aurélio me pareceu o de observações mais acertadas. Não vou remoer o assunto aqui, pois não é o motivo do post. Limito-me a dizer que, como José Veríssimo, reconheço o romance de Teixeira e Sousa como o primeiro de nossas letras.

Todos que se deram ao trabalho de ler e analisar O Filho do Pescador (1843) são unânimes sobre a precariedade do livro. Desse modo, ainda que involuntariamente, a crítica lançou sobre a obra tal anátema, que há pelo menos vinte anos a mesma não é reeditada. A última edição de que tenho notícia é a preparada por Domício Proença Filho para a editora Artium em 1997; edição por que li.

Muito me admira essa aversão à obra de Teixeira e Sousa, mesmo da parte de estudiosos da Literatura. Não me proponho aqui a desmentir os muitos defeitos apontados pela crítica; antes, quero fazê-los pensar nosso primeiro romance como o que é: o primeiro. Quando paramos para analisar as primeiras obras de nossos autores preferidos, deparamo-nos com problemas que, de modo geral, não aparecem em trabalhos posteriores, sem contarmos que não poucos escritores acabam excluindo publicações imaturas de suas bibliografias. O começo não é fácil pra ninguém rs. Agora, pensemos no que consistia a prosa de ficção do Brasil antes de 1843. Quando muito, tínhamos o Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, que de caráter notadamente religioso, era mais um livro didático de escola dominical rs. Há quem lembre os contos ou novelas da primeira metade do século XIX; mas certamente que as narrativas de Lucas José de Alvarenga e Pereira da Silva (imitadas de argumentos europeus) ou mesmo as novelas mais ou menos originais de Joaquim Norberto não tinham o porte do romance de Teixeira e Sousa.

Foi, pois, o autor cabo-friense quem abriu caminho para todos os outros “romancistas” posteriores. O Filho do Pescador não é, portanto, apenas um problemático livro de autor estreante; é o primeiro romance de uma nação. Não parece pois justo exigir excelência de obra pioneira no exercício do gênero literário mais complexo em nosso país. Esta consideração que elevou tal romance em meu conceito, mas não apenas ela. Se considerarmos também que Teixeira e Sousa foi um mulato de precária educação (interrompida aos treze anos por problemas financeiros), e que por volta dos vinte anos, já não tinha nenhum membro da família vivo, passaremos a admirá-lo muito mais, pois, não obstante tantas adversidades, perseverou ele ainda com suas atividades literárias. Todas essas razões são mais que suficientes para justificar o interesse pela leitura do objeto desta resenha.

O Filho do Pescador é um típico romance de folhetim. Não quero dizer com isto simplesmente que trata-se de narrativa de caráter folhetinesco; sua primeira publicação foi de fato em forma de “folhetim”, quando saiu nos rodapés do jornal O Brasil, de 6 de julho a 22 de agosto de 1843. Enquanto romance de folhetim, a obra não poderia deixar de conter todos os elementos característicos do gênero, que era mesmo destinado a agradar o grande público. Portanto, como era comum aos folhetins, o enredo é bastante movimentado, os personagens estereotipados, há manutenção de suspense, além de reviravoltas e ganchos entre os capítulos. Ainda que narrado de forma linear, o autor faz uso de flashbacks através de revelações feitas pelos próprios personagens.

Seduzida por Sérgio, Laura abandona sua mãe e vai viver com o amante; era órfã de pai e contava apenas treze anos. Após dar a luz a um menino, Sérgio a abandona, levando-lhe seu filho. Laura é amparada por outro homem, mas ambos acabam naufragando na costa fluminense; morre o amante, mas Laura é salva por Augusto, o filho do pescador, que a leva para sua casa na praia de Copacabana, onde se desenrola a trama. Apaixonado pela náufraga, a quem acredita ser viúva, Augusto quer casar-se com ela, mesmo contra a vontade do velho pescador, seu pai.

Realizado o casamento, Laura dá cada vez mais mostras de sua leviandade. Tendo casado por interesse, sente-se logo atraída por Florindo, cantor de modinhas e “amigo” de seu marido. Florindo persuade Laura a livrar-se de Augusto; para tanto, ela provoca um incêndio, mas o escravo João resgata seu senhor; uma tentativa de envenenamento acaba surtindo mais efeito. É também sugerido que Laura se relacionava com outros homens; após ser abandonada por Florindo, ela exige que Marcos (o amante seguinte) mate aquele que a desprezou. O que Laura não sabe é que alguém discretamente testemunha todos os seus crimes; com que intenções, não vou dizer. Para complicar tudo ainda mais, Emiliano, um jovem caçador, acaba despertando em Laura sentimentos que ela nunca antes experimentara. Esse novo amor, que é correspondido, se afigura diferente dos outros, revestido de pureza e honestidade; mas o Dr. Sinval, padrinho e pai adotivo de Emiliano, é dono de um segredo que impossibilita terminantemente tal união.

O romance, como já bem sugere o enredo, é bastante artificial e repleto de exageros. Os tipos são mesmo caricatos e Aurélio Buarque de Holanda os percebe como abstrações: “O autor não movimenta seres humanos; movimenta abstrações – a Beleza e a Fealdade, o Egoísmo e a Renúncia, a Virtude e o Vício”. O crítico também reconhece uma “despreocupação com a verossimilhança”; não que os episódios sejam exatamente inverossímeis; a forma como o autor os conta, tão deliberadamente e sem maiores explicações, é que os torna. Como aponta o mesmo crítico, os personagens se movimentam meio que de forma automática, como se fossem máquinas trabalhando, isentos portanto de necessidades comuns ao cotidiano de todas as pessoas.

Sobre o estilo do autor, não podemos deixar de mencionar suas frases de efeito que permeiam toda a obra, que fizeram Domício Proença Filho associá-las aos atuais modelos de autoajuda, e Aurélio Buarque de Holanda chamar seu autor um “sub-Marquês de Maricá”. Eu, particularmente, gostei dessas máximas do autor. Digam o que disserem, marquei várias delas, pois me causaram, sinceramente, boas impressões.

Domício Proença Filho reconhece ainda no narrador do romance certas técnicas que antecipam o esmerado estilo machadiano. O narrador de Teixeira e Sousa, embora peque por se confundir com o autor (ainda que por causa explicável: o romance é uma espécie de resposta a pedido de certa dona Emília), mantém uma conversação com o leitor: comenta as situações, supõe que impressões os episódios narrados poderiam provocar, transcreve até supostos pensamentos de possíveis leitores a respeito da obra. Todas essas técnicas narrativas, sim, dão certa graça ao livro.

Mas o que deveras mais me chamou atenção nesta leitura, e que também não passou despercebido a Domício Proença Filho, é a atualidade do discurso feminista de Emiliano (note-se que é um personagem masculino) no último capítulo. Teixeira e Sousa, através deste personagem, reflete a condição da mulher em sua época, tão constantemente exposta à qualidade de vítima pela maldade dos homens. Em suma, critica-se uma realidade que persiste até os dias de hoje: o homem que exige virtude da mulher e que a repreende por seu vício, ainda que ele mesmo tenha colaborado com sua corrupção.

O Filho do Pescador é uma leitura simplesmente necessária a todos os apreciadores da literatura nacional, não só pelo seu valor histórico/documental, mas para compreensão do alicerce do que hoje chamamos romance brasileiro.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

*** 

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2 comentários:

  1. Puxa, que interessante! Não sabia que este é considerado o primeiro romance brasileiro.. aliás, não me lembro de ter ouvido falar do livro. (Talvez tenha sido mencionado nos meus tempos de escola, mas não lembro mesmo).
    Interessante também a história do autor do mesmo!

    Gostei imenso do que li!
    Abraços

    Marina

    Marina Carla- Devaneios e Desvarios

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    Respostas
    1. Sim, o primeiro; e tão injustamente esquecido. Gostei bastante da leitura dele. É obra visivelmente defeituosa, mas que ainda assim surpreende, justamente por ser a primeira no gênero "romance".
      Caso tenha interesse, há uma digitalização da edição de 1977 no site "Caminhos do Romance", e outra mais antiga no acervo digital do portal Brasiliana da USP.
      Abraço!

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