segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

O Almirante, de Domingos Olímpio - RESENHA #195

Eu tinha treze anos quando a minha vida mudou. O livro era Luzia-Homem, de Domingos Olímpio: uma obra bastante desafiadora para alguém da minha idade/maturidade intelectual, mas inexplicavelmente convidativa e atraente. Essa leitura, posso dizer, levou-me por um caminho sem volta: o da literatura clássica. Até então eu só conhecia livros infantojuvenis, que já me divertiam bastante naquela época; mas Luzia-Homem revelou-me um caminho mais escabroso, porém indiscutivelmente recompensador.

Aquela primeira leitura da obra-prima de Domingos Olímpio, obviamente, não foi devidamente aproveitada. Foi a leitura do deslumbre, e eu pouco devo ter absorvido do romance. Contudo, a camada mais superficial da obra já havia me causado forte impressão, ao ponto de me motivar a conhecer outros clássicos.

Sempre que gostava de um livro, empenhava-me por encontrar outros títulos do mesmo autor. Foi assim com José de Alencar, Adolfo Caminha, Machado de Assis e tantos outros. Era raro o autor do qual não encontrasse novos títulos para ler. Domingos Olímpio, infelizmente, encaixava-se nesse pequeno grupo. As bibliografias indicavam um segundo romance, O Almirante, publicado em folhetins d’Os Annaes entre 1904 e 1906. Na mesma folha apareceria O Uirapuru, que ficou inacabado devido à morte do autor. Encontrar essas obras, sobretudo O Almirante (que estava completo), tornou-se um sonho que eu julgava irrealizável.

Anos se passaram e, em 2017, como quem não quer nada, acabei me deparando com as digitalizações d’Os Annaes, disponibilizadas pelo portal Brasiliana da USP, fonte esta que já me proporcionou grandes alegrias. Estavam lá O Almirante, na íntegra, mais os onze capítulos d’O Uirapuru; e eu mal podia acreditar.

Impossível seria não criar expectativas quanto àquela leitura; mas a ideia de ler algo novo de Domingos Olímpio, por si só, já era incrivelmente empolgante. Agora que isso finalmente aconteceu, não posso negar a intensidade da experiência, mas também preciso admitir que o livro não me agradou da forma como esperava, além de ser evidente sua distância da grandeza que foi Luzia-Homem.

O Almirante é um romance ambientado no Rio de Janeiro. Apesar de tratar e refletir importantes questões humanas, o grande foco do livro é a situação política do Brasil que vai do fim do Império aos primeiros anos da República. Mesmo dando largo espaço a um tema pouco interessante para mim, o livro surpreendentemente conseguiu prender minha atenção, pois era visível a preocupação do autor em manter um equilíbrio entre a política e os elementos mais romanescos da trama.

No centro da narrativa temos Guilhermina, a marquesa de Uberaba. Ela é sem dúvida a personagem mais interessante do livro, além de ser uma das poucas por quem alimentei alguma simpatia. Após ser educada num convento, Guilhermina, por arranjo do pai, casa-se com o coronel João Francisco, um negociante em ascensão. Ela e o esposo são mestiços, mas, por esbanjarem uma considerável fortuna, não deparam dificuldades em se relacionarem socialmente.

Guilhermina é uma mulher forte, ativa, sonhadora e ambiciosa. Através de sua inteligência, o marido ascende cada vez mais socialmente e ambos se tornam marqueses. Somando a fortuna herdada do pai com o pecúlio de João Francisco, os marqueses estão entre as famílias mais ricas do Rio de Janeiro.

Há contudo um véu de tristeza que nubla a felicidade do casal: eles não conseguem ter filhos sadios, e todos acabam morrendo precocemente. Para suprir seus frustrados sonhos maternais, a marquesa adota Oscar, um órfão promissor, que recebe todas as vantagens de uma boa educação, tornando-se um marinheiro de destaque, o que lhe confere o epíteto carinhoso de “almirante” do próprio imperador.

Anos mais tarde, uma nova perda irreparável abala a felicidade da marquesa: falece João Francisco. Viúva e com seu único filho distante, a marquesa de Uberaba, para vencer a solidão, regressa ao primitivo sítio mineiro do finado esposo e propõe-se a realizar um grande projeto: a construção de um núcleo agrícola totalmente modernizado e sem trabalho escravo.

Esse é o primeiro ponto alto do livro que, a meu ver, poderia ter sido melhor explorado. O capítulo que narra a chegada dos imigrantes que trabalhariam no núcleo é um dos mais interessantes de toda a obra. De fato, é impressionante a coragem e a pertinácia da marquesa em fazer acontecer o seu sonhado projeto a todo custo, mesmo contra a opinião pública, que considera tudo aquilo uma loucura.

Mas eis que chega o dia 15 de novembro de 1889. A marquesa de Uberaba, monarquista confessa, sofre novo abalo com o fantasma da República que se aproxima. É com grande pesar que ela vê seus amigos próximos tendo que se curvar ao novo regime pelo bem de suas famílias. O próprio Oscar, seu filho do coração, parece render-se ao novo modelo político, desinteressado por manifestar resistência.

Oscar, personagem aludido pelo título do romance, é que não me pareceu bem delineado. Trata-se de um homem grave, disciplinado e inteiramente focado na própria carreira. Nos capítulos iniciais fica subentendido que ele se envolveria com uma das filhas de dona Eugênia, uma amiga da marquesa.

A propósito dessas meninas, as três também não foram devidamente exploradas pelo autor. Amélia, a mais velha, de idade um tanto avançada para o casamento, é beata e recatada, parecendo assim a candidata mais condizente com o temperamento de Oscar. Laura, a irmã do meio, é praticamente invisível no romance, e o que sabemos dela diz respeito à sua ingenuidade e modos infantis. Hortênsia, a caçula, é uma menina sonhadora e ambiciosa, além de ser uma espécie de pupila da marquesa.

Domingos Olímpio enriquece o livro com outros personagens que contribuem com o andamento da narrativa. O autor, neste romance, dispõe de uma galeria de figuras excelentes, com a qual poderia ter realizado um trabalho significativamente melhor. Tive essa impressão de que O Almirante foi escrito mais “ao correr da pena”, sem as preocupações estéticas que vemos em Luzia-Homem.

O romance contém personagens e episódios que poderiam ter sido melhor aproveitados, visto que espaço não faltou à obra, que é demasiado longa. Senti uma falta de equilíbrio no tratamento dado aos temas, como também aos personagens de primeiro plano. O próprio Oscar é bastante invisível na primeira metade do livro, por exemplo.

Por falar nessa primeira metade, a ênfase dada ao contexto político é um tanto exaustiva, especialmente nos longos debates que se dão nos serões da marquesa. Como já mencionado, o autor, ainda assim, estabelece uma dinâmica que não torna a leitura cansativa. Todavia, pareceu-me incoerente que, na segunda metade da obra, essa marca tão característica e identitária do romance fosse quase que inteiramente apagada, uma vez que o foco muda para os aspectos romanescos que vinham sendo moldados, a conta-gotas, desde os capítulos iniciais.

Em resumo, O Almirante é um livro que, com sua incrível galeria de personagens e seus vários momentos e episódios dramáticos, poderia ter rendido uma obra melhor acabada ou pelo menos melhor acomodada nos seus trinta capítulos. O fator tempo deve ter pesado bastante em sua composição. Mas, tendo em vista que Domingos Olímpio infelizmente não nos deixou outros títulos, eu já me senti presenteado pela oportunidade de ter essa experiência que me mostrou uma nova faceta do inesquecível autor de Luzia-Homem.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 7 de janeiro de 2023

TOP 8 - MELHORES LEITURAS DE 2022!!!

Em 2022 encarei um desafio interessantíssimo e felizmente o concluí com sucesso. Propus-me a ler exclusivamente livros da lendária “Coleção Saraiva”, da qual já falei com detalhes no meu antigo canal do Youtube. Impus ainda o critério de ler apenas livros que eu não possuísse em outras edições mais novas, privilegiando títulos que saíram com exclusividade na coleção e que já não são mais editados. Durante o desafio, tive basicamente duas dificuldades. Todos vocês sabem da minha paixão pela ficção brasileira oitocentista; embora a Saraivinha tenha um bom número de obras desse nicho, eu já havia lido todas rs. Tive pois que me contentar em revezar os autores estrangeiros com portugueses do século XIX e brasileiros do século XX. O outro obstáculo foi a diagramação dos livros, quase sempre ruim. O fato do meu tempo de leitura ser predominantemente noturno dificultava ainda mais o processo. Isso, aliado à minha nova rotina doméstica, contribuiu para que eu lesse menos que no ano passado. Contudo, ainda que não tenha lido um único livro “5 estrelas”, fiz leituras maravilhosas ao longo do ano, das quais separei oito para compartilhar com vocês. Vamos conferir?

 

# 8º lugar → NAVIO ANCORADO, de Ondina Ferreira (4 estrelas)

Que surpresa que foi descobrir a prosa poética dessa autora brasileira tão injustamente esquecida! Navio Ancorado foi o livro mais delicado do ano. Há tanta poesia e reflexão nas suas páginas, que é preciso um estado de ânimo apropriado para um melhor aproveitamento da obra. Ercília é uma personagem que desperta um misto de sentimentos confusos no leitor, mas, principalmente após o desfecho do livro, é impossível não se sensibilizar com ela.

 

# 7º lugar → ZADIG, de Voltaire (4 estrelas)

Minha primeira incursão pelo conto filosófico do francês Voltaire foi bastante satisfatória. Zadig é uma delicinha que diverte e instrui ao mesmo tempo. Até agora tenho a impressão de que li um livro maior em número de páginas, porque há tanta matéria nesta novelinha, que a torna mais impressionante que certos calhamaços. É um livro capaz de agradar muitos públicos, sem dúvida!

 


# 6º lugar → O MOINHO SILENCIOSO, de Hermann Sudermann (4 estrelas)

Se Navio Ancorado foi o livro mais delicado do ano, O Moinho Silencioso deve ter sido o mais artístico. Da primeira à última página desta novela nota-se o cuidado estilístico do alemão Hermann Sudermann, outro grande escritor subestimado. Procurei o mais que pude por outros títulos dele em português, mas infelizmente nada encontrei. A história de Martin, João e Gertrudes é um verdadeiro espetáculo, que impressiona e comove de forma surpreendente.

 

# 5º lugar → O VIGÁRIO DE WAKEFIELD, de Oliver Goldsmith (4 estrelas)

Esta foi a primeira leitura do ano, e lá já tive a certeza que figuraria aqui. O Vigário de Wakefield é um grande clássico que já foi mais apreciado. Acredito que em algum momento ele voltará às livrarias brasileiras, pois este livro do irlandês Oliver Goldsmith preserva a força das obras-primas que resistem ao tempo. Embora tenha sido uma leitura bastante prazerosa, tenho plena certeza de que deixei passar muita coisa, elementos até que aumentassem em valor o livro para mim. É certamente um romance para ser relido no futuro.

 

# 4º lugar → O CRIME DE LORD ARTHUR SAVILE e outras histórias, de Oscar Wilde (4 estrelas)

Eis outro gigante da ficção irlandesa. De Oscar Wilde eu já tinha lido o maravilhoso Dorian Gray, mas conhecer as narrativas desta coletânea fez aumentar ainda mais minha admiração pelo autor. A novela que dá título ao livro e O Fantasma de Canterville são verdadeiras joias literárias que exigem releitura, de tão deliciosas que são! Não fosse um dos contos que integra o volume, eu teria dado “5 estrelas” facilmente.

 

# 3º lugar → RAMONA, de Helen Hunt Jackson (4 estrelas)

Este foi o novelão do ano, sem dúvida! E vale lembrar que já serviu de argumento para uma telenovela mexicana com Kate del Castillo e Eduardo Palomo. Que experiência incrível que foi ler Ramona! A primeira parte do romance, que tem um curso mais tranquilo, chegou a me lembrar a prosa alencarina. A segunda parte, muito mais frenética, embora não tenha me agradado da mesma forma, tocou-me em vários momentos, sobretudo no final, que é simplesmente emocionante.

 

# 2º lugar → MAJUPIRA, de João Batista de Melo e Souza (4 estrelas)

Descobrir o irmão mais velho de Malba Tahan foi um dos melhores momentos de 2022. Majupira é a coisa mais fofa que tenho lido desde Anne de Green Gables. Pedro Luiz, ouso dizer, é um dos heroizinhos mais cativantes da ficção de língua portuguesa. Embora compreenda perfeitamente os motivos para este romance estar esquecido no tempo, não posso deixar de lamentar que histórias assim não tenham mais apelo popular. Mas, apesar disso, que sorte a minha ter tido a oportunidade de ler Majupira: o melhor romance do ano!

 

# 1º lugar → A CAÇA DE UM BARONATO e outras histórias, de Augusto Fausto de Sousa (4 estrelas)

Fiquei em dúvida se incluía ou não esta coletânea dentre os melhores de 2022, até porque, além de não pertencer à “Coleção Saraiva”, foi um livro que li para um trabalho prestado à Editora Oitocentista. Mas Augusto Fausto de Sousa, que eu de fato não conhecia nem de nome, foi a maior descoberta do ano. Eu fiquei simplesmente chocado que houvesse um autor brasileiro do século XIX, de tão elevada qualidade, que eu desconhecesse. As novelas e contos deste volume (que brevemente será lançado pela referida editora) são maravilhosamente formidáveis. Eu realmente não compreendo que o trabalho literário de Augusto Fausto de Sousa tenha sido totalmente sombreado por sua incontestável contribuição para o Exército Brasileiro, sendo que o ficcionista não vale menos que o militar. Assim que o livro for lançado, devo reler para publicar uma senhora resenha! Mas de antemão posso citar as narrativas que mais me agradaram: “Onde se encontra a felicidade”, “Dois dias de felicidade no campo”, “Um casamento de tirar o chapéu” e “Um provinciano ladino”.

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O Romance dum Homem Rico, de Camilo Castelo Branco - RESENHA #194

Encerramos 2022 com mais um Camilo Castelo Branco. No último ano, graças ao meu desafio pessoal relacionado à Coleção Saraiva, li quatro romances do autor, e este último, embora não tenha superado Os Brilhantes do Brasileiro, teve seus bons momentos.

O Romance dum Homem Rico (1861) é o tipo de livro que explica com precisão o porquê da ficção camiliana não ter envelhecido bem. Certo é que o romance romântico é mesmo cheio de idealizações e exageros, mas, no presente caso, tudo isso se eleva a patamares difíceis de conceber, principalmente a nós, leitores do século XXI.

O protagonista Álvaro e sua mãe Maria da Glória são seres tão angelicais que, a meu ver, seriam desacreditados até pelos contemporâneos de Camilo. Álvaro, sobretudo, consegue ser ainda mais endeusado aos olhos do leitor, de modo que tanta entrega e resignação chegavam a me incomodar, e até me fazer preferir a primeira parte do livro, que se concentra na história de Maria da Glória.

Que a escrita de Camilo não é das mais fáceis de digerir, todos já sabemos; mas a longa introdução d’O Romance dum Homem Rico pode constituir um problema à parte. Era um recurso comum ao novelista d’A Brasileira de Prazins introduzir seus romances com a “narrativa real” sobre o descobrimento da história a ser contada. Neste caso específico, porém, o autor empolgou-se além da conta, principalmente nas falas prolixas do então Padre Álvaro.

Vencida a introdução, o livro ganha ritmo e as páginas começam a fluir mais livremente. A princípio, o conflito principal é o desejo do pequeno Álvaro em descobrir a verdade sobre sua mãe, a qual não chegara a conhecer e sobre quem nada se comenta dentro de casa.

Pouco a pouco, fazendo investigações por conta própria, Álvaro descobre que sua mãe está viva e encerrada num convento. Seu desejo imediato é encontrá-la às escondidas do pai e, dessa forma, descobrir as razões que levaram Manoel Teixeira a enclausurar a esposa.

Avançando para a segunda parte do romance, o que temos é a paixão não-correspondida de Álvaro por sua prima Leonor. Embora tal união seja desejada por ambas as famílias, a ardente Leonor, de natureza romântica, apaixona-se perdidamente por Miguel de Soto-Maior, um jovem poeta, cuja vida desregrada e cheia de excessos faz suspeitar ao leitor embaraços futuros à prima de Álvaro.

Como já dito anteriormente, a história da enclausurada pareceu-me mais interessante. O mistério sobre o passado de Maria da Glória foi criado e devidamente desvendado na primeira metade do livro. A postura assumida por ela, após determinados acontecimentos, foi o ponto alto do romance, que soube ser coerente e convincente a esta altura da narrativa.

Em relação à segunda metade da obra, cansava-me o comportamento passivo de Álvaro que, diante do sofrimento, parecia apegar-se à dor ao invés de afugentá-la. Alguém como ele, um homem rico como diz o título da obra, possuía um leque de possibilidades e caminhos a ser seguidos antes de optar pela carreira religiosa, fato este sabido pelo leitor desde a introdução.

Algumas situações exageradas dos capítulos finais também não caíram na minha graça, mas esses episódios de dramalhão mexicano estão sempre presentes nas obras de Camilo. Contudo, o que mais me incomodou verdadeiramente nesse contexto foi a santidade exagerada do protagonista que, mesmo sendo um homem bom, trazia estampada no rosto a infelicidade.

É curioso que um homem tão mundano como Camilo tivesse essas inspirações cheias de candura e devoção religiosa. Mas artistas são assim: seres peculiares e cheios de contradições. Cabe a nós, apreciadores da arte, saber absorver os detalhes cujo aproveitamento nos enriquecem, nos confortam e nos contentam.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 24 de dezembro de 2022

Cecília (Cécile), de Alexandre Dumas - RESENHA #193

Eis que neste fim de ano, às vésperas do natal, retorno a ele: um dos nomes mais retumbantes do romantismo francês, o senhor Alexandre Dumas. Dele eu só havia lido o delicioso A Tulipa Negra, que muito me empolgou uns cinco anos atrás. Ainda estou me preparando psicologicamente para encarar a trilogia dos Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, suas obras máximas. Um dia rs!

Cecília (1844) é uma obra menor na produção literária de Dumas, tanto em extensão quanto na qualidade. É, em resumo, o clássico romance romântico onde tudo dá errado. Mesmo sendo atentamente fiel às fórmulas desgastadas já naquela época, o diferencial de Cecília é a deliciosa escrita do criador de D’Artagnan.

O enredo, de fundo histórico, é sobre as desventuras de uma família de nobres perante a Revolução Francesa. Após a execução do esposo, a baronesa de Marsilly foge com a mãe e a filha pequena para uma pitoresca aldeia no interior da Inglaterra. Cecília é pois criada nesse lar idílico e torna-se uma jovem bela e de forte inclinação artística.

A baronesa, de saúde frágil, prevendo uma morte iminente, preocupa-se em garantir o futuro da filha. Seu desejo é casá-la com Eduardo, um rapaz sem sobrenome aristocrático, mas de futuro promissor. No entanto, ironicamente, a humilde Cecília acaba se apaixonando por Henrique, um jovem sem fortuna, mas de família ilustre. A partir desse dilema e das circunstâncias presentes, Cecília será obrigada a fazer sua própria escolha.

Ler Cecília trouxe-me saudades da época em que eu tinha tempo e paciência para fazer marcações de trechos. Inúmeras passagens e fraseados bonitos encheram-me os olhos. Eu, um apreciador confesso da linguagem romântica, tive grande deleite: mais em momentos específicos que na obra em si como um todo.

O capítulo em que Dumas descreve os passatempos da protagonista, sempre entretida com as flores, os pássaros e as borboletas, foi um dos meus favoritos. Outro aspecto que me sensibilizou bastante foi o apreço pela memória. Cecília esforça-se por preservar episódios de sua vida passada, especialmente os mais remotos, cuja lembrança não lhe é clara. Há ainda muitos outros momentos do livro que, isoladamente, mereciam uma releitura.

O tom desigual da narrativa evidencia a presença de um colaborador. Como todos sabemos, Dumas, que tornou-se um gigante dos folhetins, tinha lá seus ajudantes que, justiça seja feita, não eram escritores medíocres. Mas, sobretudo nos capítulos finais, a pena de um estilista mais refinado fez bastante falta.

A vantagem de ler Cecília não está no enredo desgastado e de tema batido. O que o texto oferece de precioso são detalhes e momentos da narrativa escritos em linguagem poética e de grande sensibilidade, capazes de aquecer o coração do leitor. O que quero dizer é que os bons momentos do romance são tão bons, que valem a leitura do livro todo.

Avaliação: ★★★

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domingo, 18 de dezembro de 2022

Iperoig, de Leão Machado - RESENHA #192

Há desses livros que se mantêm num nível de literatura que está acima da mediocridade e abaixo da grandiosidade. Eu, particularmente, aprecio bastante em alguns momentos esse tipo de leitura, que casa perfeitamente com uma viagem ou uma simples fila de espera. Iperoig (1954), do paulista Leão Machado (1904-1976), se encaixa perfeitamente nesse nicho.

É bastante compreensível que esses livros “medianos” acabem condenados ao esquecimento; contudo, não deixam de ser quitutes saborosos para leitores curiosos como eu. Iperoig é de uma leveza tentadora para certas ocasiões. A simplicidade do formato e a pouca densidade do enredo fazem uma limpeza cerebral que por vezes não se pode dispensar.

Assim, sem maiores dificuldades, acompanhamos a bela Lucila no ônibus para Iperoig, compreendendo suas expectativas para o futuro e atentos às circunstâncias da nova vida da professora em começo de carreira. Não é difícil se identificar com a jovem idealista que pensa ser capaz de mudar o mundo, mas vê-se impedida pela realidade dura e cruel das classes menos favorecidas.

Qual de nós, trabalhadores desse mundo moderno, jamais questionou a serventia do que aprendemos nas universidades quando aplicada à nossa rotina profissional? Em pouquíssimo tempo Lucila compreende que precisará adaptar seus conhecimentos à realidade da Praia da Enseada, localidade de sua lotação. Ela travará conhecimento com pessoas que compartilham das mesmas dificuldades da prática, como também com aqueles que vivem iludidos com o fiel cumprimento das teorias.

Nesse contexto desafiador, a interferência de Alberto será de fundamental importância para que Lucila não se sinta frustrada. Além de beber na fonte da experiência do companheiro, a jovem professora acabará, de sobra, descobrindo o amor. Mas claro é que, nesse previsível lance amoroso, obstáculos surgirão para que o leitor possa torcer um bocado pelos mocinhos do romance.

Uma peculiaridade interessante da escrita de Leão Machado é seu fascínio pela descrição da natureza. O romance é todo entremeado por paisagens devidamente emolduradas em quadros à parte, de maneira a querer chamar a atenção do leitor para os cenários exuberantes dessa trama litorânea. Esse recurso aparece do início ao fim e, a meu ver, confere ao livro um caráter positivamente mais artístico.

Os tipos e costumes descritos também são de grande interesse, mas infelizmente recebem um tratamento pouco satisfatório, uma vez que o autor não se aprofunda nos personagens secundários, que poderiam render boa matéria para o romance.

Dentro do que se propõe, Iperoig é um livro bom, mas definitivamente não é uma obra para grandes públicos. Felizmente, durante a leitura, pude criar uma conexão agradável com a prosa do autor, de modo que a mesma nunca me parecia chata ou cansativa. É provável que o desfecho tenha sido o ponto que menos gostei, mas, até chegar lá, o percurso da narrativa soube ser aprazível à sua maneira.

 Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Zadig ou O Destino (Zadig ou La Destinée), de Voltaire - RESENHA #191

O nome Voltaire por si só já diz muito. A fama alcançada pelo filósofo francês repercute com grandeza até os dias de hoje. Cândido ou O Otimismo é o ponto máximo de sua ficção, mas, para meu primeiro contato com o autor, optei por Zadig ou O Destino (1747), onde nasce o conto filosófico voltairiano.

Após a leitura do Zadig, não posso pensar senão que Voltaire foi um gênio formidável. Que ideias bem traçadas e que beleza de escrita! A narrativa se mantém interessante quase que em sua totalidade, impondo-se como indiscutível modelo clássico que é.

Zadig é um jovem belo e inteligente que vive em Babilônia. Mesmo possuindo as mais elevadas qualidades físicas e morais, o destino lhe reserva grandes infortúnios. É essa vida cheia de altos e baixos que deparamos nesta novela episódica de Voltaire.

Os capítulos de Zadig apresentam, de modo geral, situações embaraçosas que levam o herói (como também o leitor) a refletir sobre as injustiças terrenas. Os maus sentimentos que prevalecem na raça humana distorcem as boas ações praticadas por Zadig que, ao invés de premiado, acaba padecendo dissabores em diversas ocasiões.

Em determinado momento, contudo, Zadig passa por uma experiência sobrenatural que pretende explicar-lhe os “caprichos do destino”. É seguramente a passagem mais catártica da história, independente da crença do leitor. Esse episódio consolador reanima o herói a seguir com seu propósito em busca da felicidade.

Zadig é um texto impressionante por vários motivos. O único fator que me incomodou na leitura foi a quantidade de substância compactada em pequeno número de páginas. O ritmo frenético dos capítulos curtos exige algumas pausas para que se possa digerir tanta matéria interessante. A novela, embora de leitura rápida, reverbera impressões que muitos romances longos não logram alcançar.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Carlota Ângela, de Camilo Castelo Branco - RESENHA #190

Tenho muita admiração pela obra de Camilo Castelo Branco, mas numa bibliografia tão vasta como a do autor do Amor de Perdição é natural que nos deparemos com trabalhos menos inspirados, especialmente aqueles produzidos nos primeiros anos de sua trajetória ficcional.

Carlota Ângela (1858) é o romance menos interessante de Camilo dos que li até então. Lembrou-me bastante As Tardes de um Pintor, de Teixeira e Sousa, com aquela aura de século XVIII, sendo o romance brasileiro superior em minha humilde opinião.

Típico exemplo de literatura romântica em língua portuguesa, Carlota Ângela conta a história da protagonista que dá título ao livro, valendo-se do clássico modelo do casal separado pelas diferenças sociais. Carlota e Francisco desejam casar-se, mas a baixa posição do rapaz, que é tenente da Marinha, é motivo suficiente para que Norberto, o pai da moça, seja contra a união dos jovens.

Prevendo a negativa paterna, Carlota planeja recorrer à Justiça para unir-se ao amado, mas Norberto se adianta à filha, apoiando-se em Sampaio, seu cunhado, que obtém a remoção de Francisco para o Brasil, ação esta que lhe garante uns bons trocados saídos da bolsa do pouco astuto pai de Carlota.

Longe de seu amado, Carlota decide encerrar-se num convento, o mesmo de sua tia Rufina, que será sua aliada a partir daí. A ideia da moça é resguardar-se até o retorno de Francisco; mas Norberto, que deseja casar a filha com algum negociante rico, recorre mais uma vez à astúcia de seu cunhado, para juntos urdirem calúnias capazes de separar os apaixonados em definitivo.

O romance de Camilo segue nesse modelo já tão desgastado mesmo para sua época. Contudo, devemos considerar que foram esses primeiros trabalhos ficcionais do decênio de cinquenta que deram a Camilo a perícia necessária para compor grandes obras que viriam a partir da década seguinte.

Em Carlota Ângela o que mais fez falta foi aquele narrador buliçoso e intrometido que aqui ainda está engatinhando. De fato, as narrativas de Camilo valem mais pelos artifícios e recursos estilísticos que pelas tramas fabulosas que nunca foram o seu forte. No mais, Carlota Ângela não é um livro para se conhecer ou gostar da novelística camiliana; antes, é obra útil para quem deseja se aventurar no estudo e análise da ficção do grande escritor português.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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