segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O Romance de Teresa Bernard, de Maria José Dupré - RESENHA #37



Conheci Maria José Dupré, como a maioria dos leitores, através de Éramos Seis, que li, bem como Dona Lola, sua sequência. Éramos Seis é um livro lindo, singelo e emocionante. A simplicidade do estilo da autora me cativou de tal forma que, pouco tempo depois, fui adquirindo tudo que ela publicara, de maneira que reuni sua obra completa em pouco tempo.

Estava muito indeciso pelo próximo livro que leria da Sra. Leandro Dupré, nome pelo qual era conhecida a autora de Éramos Seis no princípio de sua carreira literária, quando chamou a atenção do público e da crítica, como também de autores renomados da época como Monteiro Lobato. Não sabia se devia começar pelos livros infantis ou pelos demais. Decidi que começaria pelas obras voltadas para o público adulto, em ordem cronológica. Assim, peguei O Romance de Teresa Bernard (1941), muito animado por conhecer a obra de estreia da Dupré. Infelizmente, foi uma má escolha.

Narrado em 1ª pessoa pela própria Teresa Bernard, o livro é uma espécie de caderno de memórias que, ao que parece, vai sendo escrito em pedaços, ao longo da vida da protagonista. Chegou a me incomodar o uso do advérbio “hoje”, especialmente porque a autora não teve a preocupação de organizar as memórias de Teresa por data. Assim, num parágrafo temos “hoje”; no próximo também, mas já é o dia seguinte. Todo dia é “hoje” rsrsrs.

Entendo que O Romance de Teresa Bernard pode ser dividido em duas partes: a primeira, que vai do capítulo I ao XVII; a outra, constituída unicamente pelo capítulo XVIII, que compreende a metade do livro. É isso mesmo que você leu: o último capítulo é a metade do livro! E aqui devo dizer que a primeira metade é tudo o que vale a pena ser lido nessa obra. O resto, pelo menos para mim, foi pura chateação.

Teresa, logo no início do romance, nos conta sobre sua infância sofrida: a perda dos pais, a má vontade de seus parentes, os tempos no colégio interno, sua doença pulmonar, etc. Tudo é contado muito rapidamente, o que também me incomodou. Quando mencionei que a leitura da primeira parte valeria a pena, não quis dizer que a mesma é pura perfeição, mas certamente muito mais tolerável que a segunda. A fluidez dos primeiros capítulos lembrou-me um pouco o estilo doce de Éramos Seis, mas sem o mesmo primor.

Outro ponto a ser questionado é a construção dos personagens. Não consegui simpatizar nenhum. A própria Teresa me chateou várias vezes com seu comportamento estouvado. Até gostava mais dela antes de chegar à vida adulta, quando vivia à mercê de seus tios. Algo que me chamou atenção foram suas experiências literárias, relatadas desde O Guarani e Ana Karenina, lidos na adolescência, até Vicente Blasco Ibáñez, seu autor favorito na maturidade. Em diversas passagens de seu relato, Teresa demonstra ser diferente de sua família, que era de costumes tradicionais. O feminismo é um assunto arranhado pela autora num e noutro momento, mas de forma bastante corriqueira.

No mais, o livro consegue ser razoável até o fim do capítulo XVII, como já disse. O capítulo XVIII transforma o romance num livro de viagens. Teresa, mulher independente que é, decide fazer um itinerário pela Europa com sua dama de companhia. Ao fim deste percurso, ela deveria encontrar-se com Artur, seu amante, em Nova Iorque. Artur é um médico casado, cuja esposa está condenada à morte. A viagem de Teresa é um pretexto para não ter que esperar pela morte da esposa do amante no Brasil. Assim, ela deseja que a mulher de Artur morra logo, para casar-se com ele, e deseja que tudo ocorra antes do encontro deles nos Estados Unidos. Entenderam por que nem com Teresa simpatizei?

A verdade é que, embora não tenha me afeiçoado a nenhum dos personagens, gostava de observar a impressão que eles causavam em Teresa: a severa Tianinha, o apaixonado primo Lúcio, a elegante tia Olívia, a doce avó de Teresa, a fiel e servil Viturina, dentre outros. Por outro lado, a segunda parte consegue ser tão ruim, que todos os personagens aparecidos nela, à exceção daqueles já conhecidos da primeira parte, são desprezíveis figurantes. Eles não têm relevância alguma para a história e me pareceram verdadeiros estranhos. Não conseguia enxergá-los como personagens. Eram criaturas vazias que só serviam para acompanhar Teresa no seu programa interminável de visitas a museus, bares, teatros e outros ambientes públicos. Elizabeth, Simone, Dick, Yvonne, Edouard, Sônia, Maurice, Henry... Todos eles foram verdadeiros estranhos para mim, distantes, como se não fossem personagens de fato.

Os personagens perdem espaço porque o capítulo XVIII é quase todo de intermináveis descrições das cidades visitadas por Teresa. É uma sequência infindável de visitas e encontros noturnos. Teresa troca o dia pela noite e passa a ter uma rotina extremamente extravagante, o que agrava sua moléstia do coração herdada da mãe, e que entendo como uma espécie de punição por seus sentimentos em relação à esposa de Artur. Se por um lado, ela deseja a morte dessa mulher; por outro, tem escrúpulos em que Artur desquite-se dela e isso antecipe a morte da doente. Percebam o egoísmo de Teresa, cuja preocupação não vai além de seus próprios remorsos!

Enfim, não consegui gostar desse livro, e eu bem que tentei rs. Valeu a pena pela primeira parte, que soube ser até agradável, mas não recomendaria a ninguém mesmo, diante de tanta coisa melhor! Foi uma das maiores decepções do ano; tinha em mente que adoraria esse livro; guardei-o para o final do ano justamente por isso, pois gosto de leituras leves e agradáveis nos fins de ano. Não pensem que gosto menos de Mª José Dupré por conta disso. Entendo que um livro de estreia é sempre mais problemático. Mas confesso que fiquei um pouquinho receoso quanto à leitura dos próximos rs. Mas com certeza persistirei minha meta de ler todos, em ordem cronológica. O próximo será Luz e Sombra. Alguém aí já leu? Ficará para o próximo ano. Espero que na leitura dele possa reencontrar aquela escritora fina, delicada e sensível de Éramos Seis.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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3 comentários:

  1. Experimente 'Luz e sombra' o único livro que li três vezes na vida, desde a adolescência. Acho impossível não gostar.

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    1. Coincidentemente, o próximo que lerei será justamente "Luz e Sombra" e espero com ele fazer as pazes com a Sra. Leandro Dupré. Fiquei apaixonado por "Éramos Seis" e saí comprando todos os livros da autora, mas infelizmente a experiência com a "Teresa Bernard" foi muito negativa. Talvez leia "Luz e Sombra" no próximo semestre, quando deverei postar a resenha aqui no blog e um vídeo no meu canal do Youtube. Um abraço!

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  2. Queria muito saber o que achou de 'Luz e sombra'.

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