domingo, 16 de dezembro de 2018

Fantasias, de Alfredo Bastos - RESENHA #87


Alfredo Bastos (1854-?) foi um escritor paraense, hoje injustamente esquecido, que se dedicou à literatura e ao jornalismo. Deixou uma obra consideravelmente vasta, entre contos, romances e peças teatrais, sendo toda ela de difícil acesso ao leitor contemporâneo. Não me é possível fazer um julgamento mais exato de sua produção ficcional. Tudo o que pude obter de sua lavra foram o romance O Matricida (1881) e a coletânea Fantasias (1879), objeto desta resenha.

Fantasias reúne crônicas e contos publicados anteriormente no “Jornal do Commercio”. A edição trazia capa ilustrada pelo célebre artista português Rafael Bordalo Pinheiro (durante sua estada no Brasil), que a compôs um dia antes de seu regresso a Portugal. Os textos, não obstante seu caráter circunstancial, têm um estilo bastante apurado e digno de apreciação.

A escrita de Alfredo Bastos chega mesmo a ser mais requintada do que exigiam os folhetins (não confundir com romance de folhetim) dos jornais para os quais escrevia. Com um texto impregnado de referências circunstanciais e tiradas humorísticas, ele requeria dos seus leitores, mais que um passar de olhos por suas colunas, uma devida atenção. É provável que a consistência de suas historietas (que não deve ter passado despercebida) tenha animado o prosador a, com justiça, reuni-las em volume.

A coletânea começa pelas quatro crônicas: “Fantasias a quatro mãos”, “Os confidentes”, “Usos e modas” e “Na roda elegante”, que fazem uma fina observação dos costumes da sociedade fluminense da segunda metade do século XIX. O cronista, com seu humor ácido e exemplos curiosos, revela-nos as “fantasias” e artimanhas daqueles que demonstram acentuada preocupação com as aparências, seja no intuito de justificar uma posição social ou mesmo granjear uma conquista amorosa. Infelizmente não consegui atinar com certas referências circunstanciais que, acredito, teriam apontado maior interesse aos textos.

Passando aos contos, que mais me interessavam no livro, temos “Mais vale um toma”, onde o autor aborda o casamento por interesse. Amélia está interessada em Eduardo, jovem promissor, mas acaba preferindo o pai dele, o viúvo comendador Carmo, já que “o filho ainda há de herdar, e o pai já herdou” (pág. 56). Mas a sutileza do conto está mesmo nas reações do desiludido Eduardo, como também nas observações do narrador sobre o estouvado comportamento do rapaz.

“Cenas de minha infância” possui um título intencionalmente enganoso. De fato, a narrativa não se concentra numa criança, mas naqueles que estavam à sua volta. É um conto delicadamente sofrido, onde Evarista, servindo de ama de leite a um menino pouco saudável, a fim de compensar as estroinices do marido alcoólatra, acaba se deparando com uma página de seu passado, à qual era ainda sensível.

“Primeiros passos de um rapaz”, de caráter epistolar, relata as extravagâncias de um estudante, autor de teorias bastante particulares sobre circunstâncias amorosas e políticas. Nesse conto, o autor, com muita graça, dá um tratamento especial a objetos inanimados, recurso este melhor desenvolvido em “História de um alfinete”, do qual falarei adiante.

Em “Antes e depois”, a temática do adultério é apresentada com uns toques de fantasia. Reconheço que não pude absorvê-lo muito satisfatoriamente e que alguns detalhes (sobretudo os fantásticos) me pareceram obscuros. “Move-se a terra?” é o mais irônico do conjunto. Trata de uma discussão acalorada entre dois amigos (dos tempos de escola) sobre o movimento do planeta. Se por um lado temos a ignorância do que desacredita da Ciência, por outro, temos uma argumentação bastante questionável por parte daquele que busca convencer o companheiro.

O livro se encerra maravilhosamente bem com “História de um alfinete”, o meu preferido da coleção, que, como sugere o título, apresenta as venturas e desventuras do objeto sob seu próprio ponto de vista. É com muita graça que o autor nos faz acompanhar a trajetória desse alfinete inglês, que embora fabricado (tal como seus 249 irmãos) para fins bélicos, acaba sendo transportado para a janela de uma costureira francesa. Uma série de circunstâncias o leva para diferentes donos, o que proporciona curiosas experiências ao nosso protagonista, até finalmente chegar à mais terrível e assustadora de todas.

Eis um livro que merecia nova chance do leitor contemporâneo, pois mesmo possuindo um texto em parte obscurecido por referências circunstanciais, reúne qualidades de um ficcionista fino e delicado que certamente não será esgotado na primeira leitura.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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