segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Moço Loiro, de Joaquim Manuel de Macedo - RESENHA #11


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Joaquim Manuel de Macedo foi uma das minhas primeiras paixões literárias. Considerado por muitos críticos como precursor do romance no Brasil, sua obra é, no entanto, subestimada. A Moreninha e A Luneta Mágica são livros que evocam tempos muito bons. Mesmo que ainda fosse um inexperiente leitor quando os li, tenho recordações muito agradáveis dos dois, sobretudo do primeiro, que é, sem dúvida, um dos meus livros favoritos da vida. Lembro que nessa mesma época, já ouvia falar d’O Moço Loiro, e morria de vontade de ler. Era, contudo, muito difícil de achá-lo disponível na biblioteca da escola, onde havia um único exemplar, da antiga Coleção Jabuti da editora Saraiva. O certo é que por mil motivos nunca me foi possível ler O Moço Loiro, até agora.

Terceiro romance mais famoso de Macedo, e segundo que ele publicou (1845), O Moço Loiro é daquelas obras impregnadas de Romantismo, mas que, infelizmente, em quase nada acrescenta aos outros dois que já tinha lido. E é com certo pesar que o digo. Isto porque sou fã de Macedo desde que li o romance da travessa D. Carolina, aquela diabinha em pele de anjo, que nunca esquecerei. Passei quase dez anos sem ler um novo livro do doutor Macedinho, tempo em que, contudo, reuni toda a sua ficção de que tenho notícia, até mesmo as obras mais raras, que há algum tempo foram digitalizadas pelo portal Brasiliana da USP. Sabia que retomaria Macedo com O Moço Loiro e já criava uma expectativa enorme, há tempos, em torno dessa leitura. Creio que foi isso o que mais prejudicou minha experiência com a obra.

O Moço Loiro não é um livro ruim; longe disso, ele só não é tão bom quanto eu imaginava que fosse. A “finalmente” leitura dele foi-me até bastante prazerosa: a leveza de seu estilo, os personagens-tipo, as cenas cômicas, o sentimentalismo açucarado... Tive uma péssima sensação de que estava lendo O Moço Loiro tarde demais, e esse foi o grande problema. Senti falta de novidade nesse livro, de uma narrativa menos previsível, de uma obra mais original. Depois de esgotar os romances alencarinos e machadianos, fiquei mais exigente com livros românticos. Mas quando penso que antes d’O Guarani e antes de Ressurreição, O Moço Loiro já existia há mais de uma década, consigo ser mais complacente com Macedo. Era novidade naquele momento, e também seria para mim se o tivesse lido “antes”. A maturidade, contudo, vem compensar minha intempestiva leitura, fazendo-me reconhecer em Macedo um dos primeiros gênios do romance brasileiro.

Mas vamos logo à história, através da qual revelarei as impressões positivas e negativas suscitadas pela leitura.

O livro já começa mal. O primeiro capítulo (Teatro italiano), embora já perpasse alguns personagens secundários, é uma espécie de prólogo totalmente desnecessário à trama. Não digo que seja ruim. A meu ver, daria um excelente conto, e até acaba sendo, quando você percebe que ele em nada influi na narrativa. Trata da rivalidade veemente entre os admiradores das cantoras da época; o fanatismo exagerado dos diletantes assemelha-se a uma disputa política. E o que isso tem a ver com a história do moço loiro? Nada mesmo. Este primeiro capítulo servirá apenas para pôr em cena o personagem Otávio, que será um dos muitos admiradores da protagonista do livro; e a família de dona Tomásia, que constitui o núcleo responsável pelas cenas engraçadas, daquelas que fazem você rir mesmo rsrsrsrs. Tomásia é uma senhora cinquentona autoritária que veste as calças da sua família, dado o caráter pusilânime de Venâncio, seu marido. Eles são pais de Rosa, uma moça namoradeira e vaidosa; e Manduca, um rapaz tão estúpido quanto comilão. Eles costumam ter em sua companhia o primo Félix, que é apaixonado por Rosa; e Brás-mimoso, um moço velho metido a conquistador, que é uma graça!

Dos personagens que citei, apenas Otávio e Félix terão participação importante à trama principal. Os demais servirão apenas para fazer rir ao leitor, além de provocar certa reflexão sobre as futilidades e tipos medíocres da corte fluminense. Passemos pois ao que interessa.

Lauro é expulso de casa após ser acusado de roubar uma valiosa joia de família, que deveria por direito passar às mãos de sua priminha Honorina. Todos os indícios apontam para ele, embora persista em alegar inocência. Os anos passam e Honorina completa dezesseis anos, sendo bela e instruída. Possui uma única amiga: Raquel, moça bonita, da mesma idade que ela. Raquel e Honorina são, contudo, muito diferentes. A primeira desde cedo foi advertida pelo pai a não acreditar nos homens, nas falsas juras de amor, o que a tornou incrédula desse sentimento; enquanto que Honorina, criada no campo, longe dos saraus, cresceu pura e inocente, cheia de esperanças felizes quanto ao casamento. (Estive pensando: este nome “Honorina” será feminino de “honor”? Temos aqui uma intenção ou uma coincidência com o caráter de nossa protagonista?).

Honorina então acaba despertando o amor de um misterioso homem denominado unicamente de “moço loiro”, que manda-lhe bilhetes, utilizando sempre as mesmas palavras, ditas pela própria Honorina em conversa com Raquel. Esse misterioso homem parece seguir os passos de sua amada sem que ela perceba, e inventa mil maneiras de aproximar-se dela, especialmente através de disfarces. As várias identidades e perucas utilizadas por Macedo chegam a ser detestáveis. Os exageros desse misterioso personagem me incomodaram bastante, uma vez que não me pareciam naturais ou espontâneos, até porque esse personagem... É preciso que eu diga quem é? Eis outro fator bastante incômodo: insistência num mistério que, desde o princípio, o leitor mais ingênuo saberá resolver. Isto também vale para a identidade do verdadeiro ladrão da joia da família. Ainda bem que Macedo não seguiu o gênero policial rsrsrs.

Uma situação melindrosa nos negócios de Hugo, pai de Honorina, incita a que a bela jovem dê atenção aos amores protestados por Otávio, que é credor de Hugo, mas ela já está apaixonada pelo “moço loiro” que ninguém sabe quem é. Raquel é outra que involuntariamente se apaixona pelo misterioso moço loiro, sofre por ser consciente de que o amor dele já tem dona, e prefere calar seus sentimentos. Os amores de Otávio por Honorina despertam os ciúmes de Lucrécia, uma jovem viúva que pretende casar-se com o rico moço. Mesmo sabendo que Honorina não corresponde a Otávio, Lucrécia pretende vingar seu orgulho ofendido. E agora, quem poderá salvar a inocente Honorina? Preciso mesmo dizer? Toda essa situação demonstra que a temática principal da obra é o “casamento por interesse”. Macedo, inclusive, no capítulo “Honorina meditando” (que é um dos pontos altos do romance), discute a situação da mulher no século XIX, enfatizando sua inferioridade social em relação ao homem. Esse Macedo feminista deixa o romance bem mais interessante. (Há um detalhe importante sobre essa dívida de Hugo para com Otávio que omiti propositalmente para não dar spoiler).

Eis um livro que poderia muito bem ter sido melhor enxugado nas suas 400 páginas, uma vez que não é de fato ruim. Temos nele um narrador picaresco que, embora não seja muito verossímil, não deixa de ser divertido e inteligente no plano do entretenimento. Há uma passagem que alude ao personagem Augusto d’A Moreninha, só para dar uma pequena amostra dos recursos deliciosos empregados por Macedo, que nem quando ele conta a história da joia da família pela voz da avó de Honorina. Tudo isso mostra que O Moço Loiro é um livro para se entreter, um passatempo para divertir a mente, e não para ser levado a sério. Sua leitura me deixou ainda mais curioso para ler os outros romances de Macedo, títulos sobre os quais não criei grandes expectativas; de repente, posso ter uma surpresa com Rosa, Vicentina, O Rio do Quarto, O Forasteiro, A Baronesa de Amor, Um Noivo a Duas Noivas... São tantos! Qual será o próximo? Só espero não seja daqui a dez anos de novo!

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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2 comentários:

  1. quem na verdade roubou a joia valiosa, que deveria ser passada a honorina

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  2. Não citei na resenha para não dar spoiler.
    Quem roubou foi o "primo Félix".

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