segunda-feira, 9 de maio de 2016

Hernani, de Victor Hugo - RESENHA #12


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Atenção! Esta resenha contém alguns spoilers, no sentido de que contei boa parte da trama do Hernani; mas isentei-me de contar o final, ok?!

Fã de romances brasileiros do século XIX; enquanto lia muitos deles, achava sempre alguma referência a espetáculos, geralmente nas cenas em que os personagens iam ao teatro, sendo a ópera Ernani, de Giuseppe Verdi, a mais recorrente. Sempre que me deparava com este título, ficava curioso para saber do que se tratava. Descobri que a ópera do Verdi foi composta a partir de Hernani, melodrama em 5 atos, do francês Victor Hugo. Resolvido a ler a tão aludida peça, tive dificuldade para encontrá-la em português, mas graças à coleção das Obras Completas de Victor Hugo, lançada pela Editora das Américas nos anos 50, pude finalmente ler Hernani (localizado no volume 37).

Confesso que tive um medinho de ler esse livro. Nunca tinha lido Victor Hugo traduzido do original; quando muito, li aquela adaptação d’Os Miseráveis, feita pelo Walcyr Carrasco. Adorava a história e desejo muito ler a versão completa, mas sempre com certo medo, por se tratar de Victor Hugo. Imaginava Hernani como obra complexa, ao estilo Shakespeare, e de fato sua leitura não foi lá muito fácil, embora tenha sido mais simples do que supunha. Achei a obra engenhosa, bem escrita e bastante adequada ao palco. Entendo que o teatro limita em grande parte o poder de fabulação do autor, o que será compensado em cena. Tive a impressão de que se ao invés de estar lendo, estivesse assistindo à representação, faria julgamento mais justo ao Hernani.

Escrito em 1829, encenado e publicado em 1830, Hernani trazia em sua edição princeps o título alternativo de A Honra dos Castelhanos que, a meu ver, é mais condizente com a peça do que o título principal. Isto porque, para você realizar uma boa leitura da obra, é de suma importância compreender as questões de honra que prevaleciam na Espanha da Idade Moderna, mais especificamente no século XVI. As atitudes dos personagens podem parecer absurdas a um leitor contemporâneo que, se não aceitar os costumes e crenças da época, julgará o livro pouco convincente. Infelizmente, não tive ninguém para me fazer esta advertência. No entanto, fui cuidando de entender certos pormenores no decorrer da leitura, o que contribuiu bastante à minha compreensão.

Logo no prefácio, Victor Hugo defende, enquanto escritor romântico, a necessidade de dar maior liberdade à Literatura. Percebi um tom de decepção em suas palavras ao revelar que teve de censurar algumas cenas do Hernani, para que fosse ao palco. Ele demonstra grande desejo de um dia ver a versão original de sua obra, na forma como foi concebida, o que se realizará tempos depois. A tradução que li já é dessa versão sem censura.

A história se passa no tempo de Martinho Lutero. Hernani é um jovem proscrito, filho de um homem que foi morto por ordem do pai de D. Carlos, rei da Espanha. Hernani tem sede de vingança, mas sua prioridade ainda é fugir com a bela Doña Sol, que está prometida a seu velho tio, D. Ruy Gomez de Silva, duque de Pastraña. O que o jovem exilado não sabe é que D. Carlos, o rei, é também seu rival.

Após descobrir que Doña Sol encontra-se às escondidas com Hernani, o rei segue seu encalço. Numa noite, D. Carlos, passando-se por Hernani, adentra o quarto de Doña Sol e dá dinheiro à aia da bela dama para que se cale e o esconda num armário do aposento. Quando Hernani finalmente chega, Doña Sol o recebe com toda a ternura de seu amor, o que aborrece o rei, que tudo escuta de seu esconderijo. Em determinado momento, ele surpreende o casal, mas não se identifica, apresentando-se unicamente como um apaixonado de Doña Sol. D. Carlos e Hernani duelam, mas a chegada de D. Ruy interrompe a luta.

O primeiro pensamento do duque é de traição, ao ver dois homens no quarto de sua noiva. A situação não deixa de ser engraçada. D. Carlos então se identifica, para espanto de todos em cena, e conta que morreu seu avô, o imperador da Alemanha, e que sua presença dá-se da necessidade de pedir conselhos ao duque, pois pretende candidatar-se ao império. O particular caso explica a discrição, o lugar e a hora dos acontecimentos. Hernani é identificado como parte do séquito do rei. Antes de partir Hernani, Doña Sol combina discretamente com ele um encontro à meia-noite para o dia seguinte, o que não passa despercebido a D. Carlos, que antecipa mais uma vez seu rival.

As mil propostas do rei não convencem Doña Sol, que alega ser Hernani o dono de seu amor. D. Carlos, enfurecido, tenta raptá-la; a bela resiste-lhe e consegue tomar-lhe um punhal com o qual o ameaça. A essa altura, chega Hernani que desafia o rei, que se nega a lutar com um bandido, especialmente agora que o mesmo já o conhece por rei. Hernani deixa livre a D. Carlos, mesmo este jurando-lhe vingança por sua ousadia. Confesso que não entendi a atitude do nosso herói, mas as questões de honra de que já falei podem explicar tal procedimento, o que ficará ainda mais claro no Ato IV. Após a partida do rei, Doña Sol propõe ao amante que fujam, mas ele hesita, advertindo para os sofrimentos que poderão advir para ela. A apaixonada amante persiste em seguir seu amado, mas o séquito do rei se aproxima, forçando Hernani a escapar sozinho.

É chegado o dia do casamento de Doña Sol com seu tio. Uma hora antes da cerimônia, chega ao palácio do duque um peregrino pedindo abrigo, o que lhe é logo concedido. Este peregrino não é outro senão Hernani, que logo se identifica, mas isso não muda a atitude do duque para com ele, uma vez que o hóspede é sagrado para um espanhol (eis outro fato que desconhecia). Mesmo descobrindo finalmente que seu hóspede e Doña Sol são amantes, e mesmo aparecendo o rei exigindo a cabeça de Hernani, o procedimento do duque é sempre o de proteger o seu hóspede. Para tanto, D. Ruy esconde Hernani em lugar seguro. A recusa do duque revolta o rei que, a troco disso, carrega Doña Sol consigo. Eis o que D. Ruy não pode impedir, pois sua honra não lhe permite contrariar o rei. Ele ainda tenta oferecer sua própria cabeça, mas o rei é enfático em sua fala “— Escolha. Doña Sol ou o traidor. Preciso de um dos dois.” (Hernani, Ato III, Cena VI). Como entregar seu hóspede seria ato indigno, D. Ruy consente em que levem Doña Sol. (Tá vendo como era importante adverti-los a compreender e aceitar as questões de honra de que falei?).

É importante deixar claro que é verdade sim o que disse o rei sobre sua intenção sobre o império da Alemanha. A princípio, nem dei tanta importância aos diálogos que tratavam desse assunto, julgando-os menos importantes. Eis uma lição que aprendi: nada em Victor Hugo é menos importante. A pouca atenção que dei a essas passagens teve como consequência a releitura de muitas cenas rsrsrsrs. A sede do rei pelo império da Alemanha e o desenrolar desse núcleo narrativo resultarão visivelmente no destino do casal principal. Mas não nos esqueçamos do duque que, após a saída do rei, pretende duelar com Hernani, pois, embora seja seu hóspede, revelou-se amante de Doña Sol. (Quando uso o termo “amante”, não é em sentido pejorativo, ok?). Nosso herói reconhece sua “ingratidão”, dado o caráter digno de seu anfitrião; por isso, entrega-se ao duque sem relutar, mas pede-lhe que, por favor, antes de eliminá-lo, deixe-lhe salvar Doña Sol e vingar a morte de seu pai. D. Ruy consente. Chegamos então ao final do Ato III.

Tive grande dificuldade de ler o Ato IV, uma vez que os acontecimentos vêm sem nenhuma conexão com o ato anterior. Só ao final dele, pude juntar as peças e compreender os fatos que, neste ato, são decisivos. O que se sucede então é demasiado surpreendente e encaixa-se tão perfeitamente com o último ato que, por sua vez, traz um final arrebatador. Penso que já contei até demais do Hernani, mas precisava fazer isso, recapitular tudo. (Acabei de fazer a advertência no começo desta postagem rsrsrs). Quanto aos acontecimentos do quarto e quinto atos, prefiro calar-me finalmente, pois seria desumano privar o leitor de tão maravilhosa experiência onde se confirma a admirável genialidade de Victor Hugo. Ainda estou chocado. Experiência semelhante à de O que Tinha de Ser..., do Mário de Alencar, que já tem resenha aqui.

O que cobrei de Hernani e não recebi nos primeiros atos, reembolsei com lucros a meu favor nos atos finais. Foi uma experiência deveras enriquecedora e marcante. Contudo, julguei algumas lacunas deixadas pelo autor ao longo do enredo e a falta de conexão em algumas passagens (como entre o Ato III e o Ato IV) como senões que poderiam ter sido aperfeiçoados. Pode parecer prepotência de minha parte criticar a obra de Victor Hugo; contudo, sou o primeiro a reconhecer que não sou ninguém para realizar tal empresa. Na verdade, não fiz uma crítica; apenas observei detalhes que me incomodaram (ou que me fizeram falta) durante a leitura, estando sempre consciente de ser ainda um inexperiente leitor de clássicos universais.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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