segunda-feira, 16 de maio de 2016

Cordéis, de Patativa do Assaré - RESENHA #13



Sempre pensei que Patativa fosse desses poetas analfabetos, cujo talento, apreciado por muitos, tivesse sido transposto em livros por seus admiradores. Só agora descobri que Patativa sabia ler e escrever, além do que, era homem letrado. Não obstante ter frequentado a escola por apenas quatro meses, tinha gosto pela leitura e lia grandes nomes da língua portuguesa como Camões, Gonçalves Dias, Castro Alves, Coelho Neto, Olavo Bilac, dentre outros. O fato de ter citado basicamente poetas não é mera coincidência, uma vez que a paixão de Patativa era mesmo a poesia.

Homem de vida simples, nunca abandonou seu ofício de agricultor, o que não impedia o desenvolvimento de seu estro poético. Antônio Gonçalves da Silva, como realmente se chamava, tinha uma memória incrível, ao ponto de poder recitar todos os seus poemas em sua idade mais avançada. O nome “Patativa” era dado a todos os bons repentistas de seu tempo, que eram diferenciados segundo seu lugar de origem; daí sua denominação popular “Patativa do Assaré”. Sua obra mais famosa, Cante lá que eu canto cá (1978), representa a síntese de todo o seu talento, mas não foi a obra que escolhi para meu primeiro contato com Patativa.

Ao longo de sua carreira, Patativa sempre cultivou o cordel, gênero bastante comum e apreciado em todo o nordeste. O cordel geralmente retrata uma estória popular em forma de poesia rimada, e é divulgado em folhetos baratos que são vendidos nas feiras. Antigamente, eram constantemente recitados nos saraus do interior, costume que, hoje, praticamente se perdeu. Os cordéis de Patativa, contudo, fogem a esse padrão convencional de aventuras e causos bizarros para divertir o público. No geral, trazem sempre uma intenção, seja de crítica ou denúncia social. Patativa expõe a realidade do povo nordestino, mencionando especialmente os problemas em decorrência da seca. Luiz Tavares Júnior percebe no cordel de Patativa a união de três fatores: a natureza telúrica, a denúncia social e o espírito lúdico.

Em 1993, por iniciativa do professor Gilmar de Carvalho em parceria com a SECULT-CE, é lançado uma caixa especial, reunindo todos os cordéis divulgados por Patativa em seus folhetos. De limitada tiragem, a edição é logo esgotada. Apenas em 1999, a editora da UFC relançaria os Cordéis de Patativa, pela “coleção nordestina”, sendo esta a edição que possuo. Esta edição contém xilogravuras de vários artistas consagrados, quase todos de Juazeiro do Norte. Foram coligidos dezesseis cordéis de desigual tamanho, seguindo diferentes temáticas. Patativa explora além da linguagem padrão, a reprodução da fala do nordestino do sertão, não abrindo mão da musicalidade dos versos, de maneira que quando recitados, temos uma impressão mais profunda deles.

A coletânea abre com a composição mais famosa de Patativa, imortalizada na voz de Luiz Gonzaga: A triste partida. Apreciado por pessoas de todos os graus de instrução, esse cordel retrata a situação do agricultor que, no século passado, por causa da seca, era obrigado a deixar sua terra para buscar meios de sobrevivência em outro lugar. Eis uma realidade bastante comum que foi por muito tempo a causadora de inúmeros sofrimentos para o povo nordestino, além de ter sido assunto para muitas outras obras de grandes escritores brasileiros. A triste partida é, sem dúvida, a composição mais perfeita de Patativa.

História de Abílio e seu cachorro Jupi segue o estilo tradicional que popularizou o gênero cordel em todo o país. Traz uma divertida estória de cunho moralizante, onde o bem e o mal são personificados nos filhos do senhor Benvenuto: Grigório e João, que eram incorrigíveis ladrões; e o pequeno Abílio, dono do cachorro Jupi. Com a morte do pai, Grigório e João pretendem desfazer-se de Abílio, perdendo-o na floresta, para praticarem seus crimes com mais liberdade. Jupi, que também iria ser morto, acaba salvando seu pequeno dono e o ajuda a sobreviver no mato. A Providência ainda terá participação importante para a recompensa do justo e o castigo dos infames.

As façanhas de João Mole traz a divertida estória de um homem que vivia apanhando da mulher e da sogra, até que um dia, cansado de apanhar, resolve dar inversão aos papéis. É importante lembrar que Patativa, muito tradicionalista, não defende a agressão, mas a submissão da mulher; de maneira que seus cordéis, por diversas vezes, buscam alertar os sertanejos quanto a situações perigosas, como em O doutor Raiz, onde critica os vendedores das chamadas “garrafadas”, que ao invés de curarem moléstias, antecipavam a morte de muitos. Quanto à questão da submissão da mulher, pode parecer um tanto machista para os dias atuais, mas deve-se levar em conta o contexto cultural em que o poeta foi criado, e que ele alerta para o abuso de poder da mulher dentro do ambiente familiar. Mesmo no contexto atual, o respeito ainda é indispensável entre homens e mulheres.

O meu livro é um dos meus preferidos. Nele, Chico Braúna, homem do campo, sem instrução escolar, irá enaltecer os valores dos sertanejos que têm muito conhecimento a partir do livro mais importante que é a natureza. A forma como Patativa conduz esse cordel, os exemplos de sabedoria popular, o enaltecimento da terra, tudo enfim colabora para fazer desse cordel um dos pontos altos da coletânea.

Vicença e Sofia ou o castigo de mamãe trata de racismo. Romeu decide casar com a negra Vicença, contra a vontade dos pais, que mesmo sabendo das boas prendas da moça, rejeitam-na por sua cor. O irmão de Romeu, por outro lado, casa com Sofia, moça branca e bonita. O destino de cada casamento provará que a cor da pele em nada influi no caráter do indivíduo. Esse cordel, mesmo tratando de um tema sério, é um dos mais engraçados.

ABC do Nordeste flagelado traz uma estrofe para cada letra do alfabeto. A temática ainda é a pobreza e a condição social do nordestino sob a circunstância da seca, temas também explorados em A triste partida e Emigração. Em Glosas sobre o Comunismo, Patativa faz uma severa crítica a esta ideologia política, valendo-se inclusive de justificativas religiosas, pois a religiosidade cristã permeia toda a sua obra, sendo mais perceptível nos cordéis O padre Henrique e o Dragão da Maldade, Saudação ao Juazeiro do Norte e Antônio Conselheiro. Patativa assina suas Glosas sobre o Comunismo de maneira peculiar, fazendo na última estrofe um acróstico de PATATIVA; recurso já utilizado em História de Abílio e seu Cachorro Jupi.

A coletânea se encerra com a História de Aladim e a lâmpada maravilhosa. Tal como História de Abílio e seu cachorro Jupi, obedece a tendência mais pura do cordel popular, que é o entretenimento a partir da fantasia. Inspirado numa lenda d’As Mil e uma Noites, esse cordel destoa totalmente do resto do livro, sendo o único que não traz o Nordeste como pano de fundo. Nem por isso deixa de ser interessante. Nele, Patativa abusa da fantasia na capacidade ilimitada de poder do gênio da lâmpada, além das diversas peripécias e reviravoltas que instigam o imaginário popular. Talvez por ser o mais diferente de sua produção cordelista, não foi incluso na edição de 2006, publicada pela editora da UFC sob o título Cordéis e Outros Poemas. Esses “outros poemas” aludidos pelo título são apenas dois: Cante lá que eu canto cá, que dá título à obra de 1978; e A terra é naturá, da mesma coletânea já citada. Li os dois: o primeiro é uma pequena obra-prima que faz uma comparação entre o poeta da cidade e o poeta do campo; o outro é o desabafo de um sertanejo ante uma desapropriação de terra, proveniente da divisão de bens entre seus irmãos herdeiros.

Patativa é um escritor de acentuada simplicidade, o que acaba sendo a força de sua poesia; essa influência telúrica, o conhecimento sobre seu povo e costumes populares, tudo isso se configura de maneira aprazível em sua obra, especialmente quando utiliza a reprodução fiel do linguajar típico dos sertanejos. Seu mérito garantiu-lhe por cinco vezes o título de doutor honoris causa e sua obra é objeto de estudo até mesmo fora do Brasil. É admirável como nunca abandonou suas raízes e o fato de seu reconhecimento em vida não ter lhe despertado grandes ambições. Morreu o que sempre foi: agricultor de vida simples, cantor de seu sertão e de seu povo.

A única particularidade que me incomodou em sua obra é que, fazendo uma visão geral de todo o conjunto dela, identifiquei ser muito persistente a mensagem de que o nordestino é um ser sofrido, chegando a ser vítima de um governo que lhe discrimina. As temáticas: sofrimento, pobreza, fome e seca acabam evidenciando o que muita gente do sul pensa sobre o Nordeste. Até entendo que a intenção de Patativa era outra e que sua preocupação era denunciar as sofríveis condições das classes mais baixas de sua sociedade, a fim de chamar atenção para elas, para que fossem beneficiadas. Posso também assinalar a força de intenção político-social que ofusca a intenção puramente artística que eu tanto aprecio num autor. Contudo, reconheço que a arte sobrevive no âmago de sua poesia mais militante.

Avaliação: ★★★★

P.S.: Estou totalmente convencido de que preciso ler Cante lá que eu canto cá!

Daniel Coutinho

*** 

SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

4 comentários:

  1. Prezado Daniel,

    Em 2012 saiu a 2ª edição ampliada do livro Cordéis onde foram incluídos outros cinco folhetos, alguns desses bem mais antigos e considerados perdidos, mas resgatados pelo pesquisador Gilmar de Carvalho (que me presenteou com este novo volume.)Tenho as quatro edições: A Caixa com 13 folhetos de 1993, Cordéis de 1999, Cordéis e Outros Poemas de 2006 e Cordéis 2º Edição Ampliada de 2012.

    Tenho também todo o restante de sua obra, como também vários outros livros (dissertações, teses e demais trabalhos sobre o poeta)uma média de 55 livros.

    Além de Cante Lá Que Eu Canto Cá recomendo que leia os demais como Ispinho e fulô, Aqui Tem Coisa, Inspiração Nordestina. Esses três se encontram facilmente e estão na praça pela editora Hedra.

    Tem outros que são mais difíceis de encontrar, mas vale a pena a busca. Posso passar os títulos caso se interesse.

    Um abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Hélio! Fiquei curioso por essa edição ampliada de 2012. Não sabia que existia. Onde posso encontrá-la? Sério que você tem a caixa de 1993? Puxa, uma raridade, hem! Já tenho comigo "Cante Lá que Eu Canto Cá" e pretendo ler ano que vem; quando provavelmente farei a segunda postagem dedicada a Patativa.

      Excluir
    2. Olá, Daniel. Essa edição de 2012 pode ser adquirida direto com a Editora editora@ufc.br (85) 3366 7499.
      Realmente essa caixa que eu tenho é uma raridade.
      Cante Lá Que Eu Canto Cá já está na 18º edição ou 19º.
      Vou aguardar sua resenha sobre esse livro.
      Abraço.

      Excluir
    3. Obrigado pela dica. Vou tentar entrar em contato com a editora da UFC.

      Excluir