sábado, 23 de junho de 2018

Santa, de Pedro Ferreira - RESENHA #70


Capa não original da 1ª edição
Por sugestão de um leitor deste blog, o professor Victor Rodrigues, decidi empreender a leitura de uma verdadeira raridade da literatura cearense. Trata-se do livro Santa, do ibiapinense Pedro Ferreira (1881-1975). Entusiasmado que sou por essas obras obsoletas, mormente as do meu estado, adiantei a leitura o mais que pude, motivado pela ideia de conhecer um autor cearense do século passado, do qual nunca tinha ouvido falar.

A experiência de leitura foi das mais péssimas que tive, em virtude da pobreza estilística dessa narrativa que pretende ser um romance. Ao final da leitura, já estava preparando meu arsenal de munições para, impiedosamente, ratificar os motivos óbvios que condenaram Santa ao esquecimento. Entrementes, antes de passar à costumeira resenha, tive a providencial ideia de ler outros textos de Pedro Ferreira que me foram enviados pelo mesmo Victor, a quem, desde já, dedico um agradecimento, sobretudo pela autobiografia do autor que me esclareceu muitos questionamentos colecionados ao longo da leitura.

Aos leitores simpatizantes da ferocidade de minhas críticas, peço um pouco de paciência, pois já chegaremos lá rs. Antes, porém, proponho seguirmos uma ordem inversa àquela por mim executada: conheçamos pois primeiro o autor e, empós (como diria o próprio Pedro), sua obra.

Pedro Ferreira de Assis pertenceu a uma família pobre do interior do Ceará. Perdeu a mãe muito cedo e foi educado pelo pai, que era agricultor. Inclinado desde cedo às letras, não pôde estudar, em vista da necessidade de ajudar o pai nos trabalhos do campo. Autodidata, aprendeu a ler e escrever sozinho; com o passar dos anos, foi ampliando seu conhecimento pelo mesmo método: o estudo solitário. Entusiasmado por diferentes áreas do conhecimento, lia, de tudo um pouco, autores nacionais e estrangeiros. Seu obstinado desejo de aprender rendeu-lhe uma ascensão econômica e social. Desempenhou diferentes funções: foi jornalista, militar, geógrafo, além de ter sido eleito por cinco vezes prefeito do município de Ibiapina.

Pedro e eu, para minha surpresa, compartilhamos de uma paixão comum: a obra alencarina. É inegável a influência do autor de Iracema, tanto em sua obra, por razões que definirei adiante, quanto em sua vida, pois não à toa uma de suas filhas foi batizada com o nome de Lucíola. Uma pena que tão positiva influência não tenha sido suficiente para tornar Pedro um escritor mais esmerado! Mas todo este preâmbulo que tenho desenvolvido justifica com propriedade todas as falhas que facilmente encontramos na escrita deste ibiapinense.

Além de Santa, pude ler o poema psicológico O Pensamento É quase Alma, o discurso Cristo e sua Religião, o opúsculo Minha Autobiografia, além de alguns dos artigos que Pedro publicou na revista do Instituto do Ceará, do qual era sócio. Tal panorama forneceu-me uma ideia bastante precisa de sua deficiente escrita, cujas peculiaridades destacarei a seguir.

Por não ter concentrado seus esforços em nenhuma área específica do conhecimento, apreciador que era dos saberes em geral, Pedro Ferreira não pôde desenvolver com afinco o literato que tencionava ser. As circunstâncias em que se deu sua formação intelectual refletem na limitação de suas referências (sejam literárias, filosóficas, políticas, etc.) e, mais perceptivelmente, de sua linguagem, sempre a mesma, independente do gênero. O vocabulário do autor chega a ser tão repetitivo que, às vezes, temos a impressão de que podemos mensurá-lo, por não ser muito difícil prever que termos serão utilizados nos próximos parágrafos.

Consciente de sua inópia linguística, o autor apela para o uso de termos menos comuns, mesmo para o seu tempo, na tentativa talvez de criar um estilo que lhe conferisse erudição. Assim, em lugar de “ilusão”, temos “delusão”; “empós” no lugar de “após”; “brasiliano” ou “brasilense” ao invés de “brasileiro”, “multifário” no lugar de “variado”; “encantante” e não “encantador”, além de muitos outros vocábulos que chamam atenção por serem antiquados e, principalmente, pela recorrência com que aparecem.

Outra característica sua que bastante me incomodou são as expressões pleonásticas, não menos recorrentes que os arcaísmos já citados. Poderia citar várias, mas as que consigo lembrar agora são: “não nunca jamais”, “tanto e tantíssimo”, “mui-muito”, “sempre e sempre”, “demais a mais”, “de todo em todo”, etc. O excesso de adjetivos também não passa despercebido, o que é uma visível influência de Alencar, mas que se manifesta em Pedro ainda mais exageradamente.

O que, contudo, me punha atônito mesmo de verdade eram os períodos demasiadamente longos e cheios de intervalos para explicações excessivas e desnecessárias. Essas constantes interrupções, realizadas através de incontáveis travessões, comprometiam sobremaneira a fluidez do texto e, não poucas vezes, o próprio entendimento do mesmo. Como costumo sempre provar o que digo, segue abaixo um curioso exemplo.

“De fato, quem tem o prazer de subir, embora por sendas estreitas e pedregosas, aos píncaros verdejantes da imponente Ibiapaba, que é o jardim mais belo de beleza do Nordeste — em eterna primavera — nos confins do Ceará plantado, onde vicejam as palmeiras esguias que, desfraldando — à semelhança de flâmulas — as folhas rumorosas, embelecem as frondentes matas, outrora defendidas pelo amouco e valente Juripariguaçu (diabo grande) — o mais poderoso dos morubixabas tabajaras, se esquece, logo, do trabalho da subida, pois que ela, ali, mostra aos olhos deslumbrados do viandante ‘um dos mais formosos painéis, que porventura pintou a natureza em outra parte do mundo’.” (Págs. 42, 43, grifo do autor). Desafio qualquer um de vocês a ler este trecho de um fôlego só rs!

Explicitados os problemas de escrita do autor, concentremo-nos em Santa, que foi publicada, pela primeira vez, nos folhetins do Correio do Norte, no município de Ipu, em 1921. A 1ª, e provavelmente única, edição em livro consta de 1966, numa versão corrigida e ampliada.

Baseada num episódio supostamente real, esta tentativa de romance regionalista traz um enredo acentuadamente monótono, não apenas pelas inúmeras descrições da paisagem ibiapabana, mas pela carência de movimento e ação cênica da trama. Numa escrita que lembra mais o texto de não ficção, a obra passaria facilmente por um daqueles livrinhos religiosos com os quais se deleitava Célia, a protagonista. Não será pois tarefa difícil resumir cento e algumas páginas nas poucas linhas seguintes.

Do capítulo 1 ao 6, temos o episódio no qual Paulo da Silva, sua esposa Sebastiana do Amor Divino e sua pequena filha Celina, chamada simplesmente de Célia, saem de sua terra em busca de um refúgio onde possam escapar aos flagelos da terrível seca de 1877. No capítulo 7, chegam à Serra da Ibiapaba. Parte deste capítulo me pareceu uma imitação de um fragmento de Aves de Arribação, de Antônio Sales, pela forma como são descritos os pássaros do lugar. Do capítulo 8 ao 11, a família de Paulo da Silva, que aportara na Ibiapaba, decide firmar moradia no sítio Boa-Vista. Célia é incentivada a estudar, o que faz com muito gosto, mas não além daquele com que realiza suas atividades religiosas. Dedicada exclusivamente aos estudos e à religião, Célia despreza Raimundo Tavares, o Mundico, que apaixona-se inutilmente por ela. Célia rejeita a ideia do matrimônio, pois está consciente de que a verdadeira felicidade só é possível após a morte. Do capítulo 12 ao 18, Mundico passa a frequentar a casa de Célia, com o apoio dos pais da jovem, como também dos seus próprios; “desiluso” com as negativas da moça, que o considera um vaidoso, Mundico decide partir para o Amazonas. Do capítulo 19 ao 25, Célia continua seguindo a vida inteiramente dedicada à sua crença, aspirando por entrar num mosteiro, enquanto seus pais prosperam na nova terra. Mundico, já longe, após embebedar-se, comete suicídio. Ao saber da tragédia, Célia, impressionada, morre de tristeza, sendo considerada uma “Santa” pelo povo daquela serra.

Acredito que poupei, com este proveitoso resumo, trabalho a muita gente. Considero mesmo dispensável a leitura de Santa e penso já ter dado todas as justificativas dignas de nota. Mas como já disse noutra ocasião, esta é a narrativa de um “entusiasta do romance”, alguém que, acredito, fez sair leite de muitas pedras. Pedro Ferreira merece nosso aplauso por tudo o que fez com tão pouco, ainda que não nunca jamais mereça o mesmo por suas malfadadas tentativas literárias.

Avaliação:

Daniel Coutinho

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sábado, 16 de junho de 2018

Horas Roubadas (On Borrowed Time), de Lawrence Edward Watkin - RESENHA #69

Dificilmente desaprovo os títulos da nostálgica Coleção Saraiva. Mesmo obras hoje ignoradas, como Depois do Verão, Amor de Mãe e Uma Mulher, proporcionaram-me experiências bastante positivas. Horas Roubadas (1937), do norte-americano Lawrence Edward Watkin, acabou sendo uma exceção.

A premissa do livro prometia uma obra bastante engenhosa, principalmente por ter sido inspirada num dos Contos da Cantuária, de Chaucer. O romance, porém, é problemático o suficiente para o classificarmos como dispensável. Embora considerando que se trate da estreia de Watkin como romancista, alguns senões me pareceram imperdoáveis. Sucesso imediato quando de seu lançamento, Horas Roubadas ganhou adaptação para o cinema em 1939. Contra meu costume, posso compreender por que ambos, livro e filme, tenham caído no esquecimento. Acho justo rs!

O enredo é o seguinte: Após a morte dos pais, João Gifford Northrup (carinhosamente chamado de Pud) fica sob custódia provisória dos avós paternos, ambos em idade já avançada. O velho Julian Northrup teme que a cunhada de seu finado filho, Demétria, possa obter a guarda do menino, por ser uma mulher hipócrita e ambiciosa que, na verdade, aspira pela fortuna deixada pelos pais da criança. A “morte”, personificada na figura do Sr. Brink, aparece para o avô de Pud, mas o velho, temendo que seu garoto ficasse desprotegido nas mãos de Demétria, decide prender a fatal aparição no alto de uma macieira. O caso é que, segundo a lenda, a prática de uma boa ação poderia conceder a realização de um desejo do praticante. Julian, aborrecido com os moleques que furtavam suas maçãs, havia desejado mantê-los presos na árvore pelo tempo que julgasse conveniente. Agora pretendia aprisionar a morte por dezesseis anos, tempo suficiente para que Pud pudesse adquirir autonomia bastante para cuidar de seus próprios interesses. Com a morte presa, nada mais morre sobre a Terra, nem mesmo o menor dos insetos, o que acaba resultando num caos inevitável.

Tivesse o autor se concentrado nesta ideia principal sintetizada acima, Horas Roubadas seria um livro melhor. O principal problema do romance é certamente seu mau desenvolvimento. Os episódios sucedem-se mal conectados, dispersos mesmo, alguns notadamente desnecessários para a trama. A malograda inserção de um lance amoroso, através dos personagens Bill e Márcia, pareceu-me totalmente despropositada. O romance dos dois, pessimamente desenvolvido, em nada contribuiu para o andamento da narrativa.

Outro problema que muito me incomodou foi a transparência com que expôs o autor suas ideias ateístas. Mesmo não chegando às proporções de um Fernão Capelo Gaivota, os ataques à religião cristã, sobretudo no segmento protestante, aparecem frequentemente. Julian é assumidamente ateu e Pud, mesmo tendo cinco anos, parece compartilhar das ideias do avô, mostrando-se incrédulo ante Deus tanto quanto pelo papai-noel. Demétria, a “vilã” da história, assumidamente cristã, deseja ardentemente a morte de seu amo, o Sr. Tate, que prometeu-lhe torná-la sua herdeira universal; a megera ainda, como já dito anteriormente, demonstra interesse por Pud, visando unicamente a fortuna herdada pelo garoto. Há, enfim, ao longo do livro, muitas outras referências à ideia de que cristãos são pessoas antiquadas, ignorantes e renitentes.

É provável que a única qualidade que tenha vislumbrado no romance de Watkin sejam suas tiradas humorísticas. Quando menos esperava, ria-me de algum comentário jocoso e bem situado. Ainda que não tenha lido outras obras do autor de Horas Roubadas, acredito, a priori, que ele tenha sido mais feliz escrevendo roteiros para o Walt Disney.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Cadastro dos Desesperados, de Dimas Carvalho - RESENHA #68

Um dos lançamentos mais aguardados deste ano foi com certeza este Cadastro dos Desesperados, publicado oito anos após a última coletânea de contos do premiado autor cearense Dimas Carvalho. Desde muito queria comentar alguma obra do Dimas por aqui, por se tratar de um dos nomes que mais vêm se destacando na nossa laboriosa literatura cearense. Sua produção mais vasta compreende a poesia e o conto, mas tenho notado que o prosador está mais envolto no poeta do que o contrário. Nesta última coletânea, porém, ambos parecem menos conchegados, o que nos permite divisar melhor o prosador.

O livro está dividido em duas partes: “Do lado de lá”, dedicada à literatura fantástica; e “Do lado de cá”, cujos contos têm um teor mais filosófico e realista. Averso que sou ao gênero fantástico, presumia evidentemente gostar mais da segunda parte, mas para minha própria surpresa, estive mais seduzido pela primeira. De fato, os contos que me causaram impressão mais positiva pertencem ao primeiro conjunto.

Ao longo da coletânea, o autor dialoga com seus títulos anteriores, alimentando certas obsessões que parecem ser o tormento de sua musa; as mais recorrentes parecem ser as cidades abandonadas e as punições de um suplício eterno. Não por acaso o grande cientista de “O cravo roxo do diabo” maquinava seus inventos à custa de insônias, delírios e pesadelos; assim como não é pouco familiar aos seus leitores a presença de uma “pequena fábula perversa” na segunda parte do livro. Os caracteres trágicos e pessimistas certamente não poderiam destoar das obras anteriores, portanto, foram requisitos obrigatórios na realização do Cadastro.

Já tive oportunidade de comentar com Dimas sobre a má impressão que tenho do pessimismo em sua obra, ainda que, tenho que concordar, seja um elemento inevitável na contemporaneidade. Metido que sou, sugeri-lhe alguma marca otimista no Cadastro e, com felicidade, lobriguei alguma coisa do tipo em contos como “Ratésia” e “O grande circo místico odontológico”. Ainda que não tenham sido dedicados especificamente a mim, vou entendê-los como tal rs.

Falemos sobre a escrita de Dimas que, nesta quinta coletânea, está especialmente formidável. Há um cuidado tão esmerado na construção dos períodos, ouso dizer, mais notório nas narrativas que prezam pela linguagem informal, justamente pela capacidade do autor de fazer com que seu texto não caia na mediocridade. Há sempre beleza e, o que é melhor, fluidez nas páginas de Cadastro, apenas um pouco comprometida diante de referências que me eram obscuras.

Mas para que nem o autor possa escapar ao desespero, passemos aos senões rs. Certamente por já ter lido toda sua prosa de ficção, os ares de novidade que a nova obra poderia ter suscitado ficaram um tanto esmaecidos. As variações de um mesmo tema às vezes me deixavam enfastiado, como também a repetição de certos caracteres na pintura dos personagens. Mas algo que, mais do que incomodado, deixava-me intrigado eram os contos de argumento truncado. Refiro-me às narrativas que, mesmo ao final, sugeriam-me inconclusão, a modo de estarem mutiladas. “A gralha”, “O construtor de gaiolas” e “Esse estranho que me segue” são alguns exemplos. Terá me escapado alguma acepção?

Gostaria de encerrar elencando os contos que mais me agradaram, alguns deles verdadeiras obras-primas, dignas de figurar na eterna antologia da literatura universal. Em ordem crescente de preferência, são eles: Magia brasileira; O tudo e o nada; O grande circo místico odontológico; Ratésia; Iranildo Pedra, mártir e profeta; Aventuras e desventuras do coronel Diego Lopez; Punhal de prata; O antimágico da taberna transmontana; Caso do embrulho; A cidade dos anões; Bal masqué; O cravo roxo do diabo.

Laus Deo!

Avaliação: ★★★

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sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Doctor Moreau), de H. G. Wells - RESENHA #67

Para conhecer H. G. Wells, decidi começar pel’A Ilha do Dr. Moreau (1896) que era, de longe, a obra do autor que mais me chamava atenção, pela proposta de ser um misto de romance de aventuras e ficção científica. Justamente por não ser muito afeito a este último gênero, mas estando disposto a conhecê-lo melhor, escolhi um livro que, a meu ver, seria um meio-termo. Posso não ter acertado na escolha, mas também não errei completamente. Quero dizer que a experiência de leitura foi bastante válida, mas o livro não me seduziu tanto quanto esperava.

Ainda que tenha escapado aos spoilers por parte de outros leitores, não escapei de um que é lançado pelo próprio autor na introdução do romance. Logo nas primeiras páginas já ficamos sabendo que Edward Prendick, o protagonista, sobreviverá. Para mim, isto foi um grave erro de Wells. Os vários dissabores enfrentados por Prendick, no decorrer da trama, eram amenizados pela certeza de que ele sairia ileso. Não sei se outros leitores compartilham desta minha impressão, mas comigo foi assim.

Na trama, Edward Prendick, após o naufrágio do Lady Vain, é socorrido por Montgomery, um médico que realizava o inusitado transporte de animais para uma ilha desconhecida. Prendick não vê alternativa senão acompanhar aquele estranho homem que possuía um assistente mais estranho ainda, um negro de olhos brilhantes e orelhas pontudas. No desembarque, eles são recebidos pelo Dr. Moreau e vários homens de aspecto animalesco.

Prendick começa a associar aquelas estranhas figuras aos comentários que começa a recordar sobre a pessoa de Moreau e suas experiências controversas. Num primeiro momento, ele acredita que o cientista está transformando homens em monstros, o que o leva a querer fugir. Moreau, porém, logo esclarece que suas experiências consistiam no inverso: ele vivisseccionava vários animais e compunha criaturas de forma humana com pedaços de diferentes espécies. O que mais horrorizava Prendick era a falta de um propósito aceitável naquelas experiências. Segundo o próprio Moreau, seu objetivo era unicamente “encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva”.

Moreau ainda revela os problemas encontrados em suas experiências: suas criaturas humanas eram bastante defeituosas e com uma capacidade intelectual primitiva. Inconformado com os resultados obtidos, ele abandona os “Homens-Animais” pela ilha, incutindo-lhes uma lei, segundo a qual todos lhe deviam obediência, além do cumprimento de várias regras “civilizatórias”. Outro problema observado era a regressão perceptível no “Povo Animal”: com o tempo, as criaturas iam perdendo suas características humanas, o que as levava naturalmente ao descumprimento da lei e, por conseguinte, ao castigo da tortura e da morte.

A nova esperança de Moreau está na onça trazida por Montgomery, na qual concentra todos os seus esforços para torná-la perfeitamente humana. Um descuido, no entanto, permite ao animal escapar, depois de já realizadas várias mutações em sua constituição física. Este incidente acaba desencadeando uma série de dificuldades para os três homens presentes na ilha.

A Ilha do Dr. Moreau já sugeriu inúmeras interpretações. O romance de Wells é evidentemente alegórico, principalmente quando, pelos olhos de Prendick, constatamos que o “Povo Animal” enfrenta situações comuns à sociedade humana, em virtude das características que lhe foram implantadas. Aquelas criaturas certamente não precisariam sofrer o que só era comum aos homens, se Moreau não as tivesse alterado. Isto nos leva a refletir sobre nosso próprio sofrimento e os problemas de nossa “sociedade civilizada”.

Wells realiza um trabalho admirável na pintura dos “Homens-Animais”, sempre coerentes com suas composições híbridas. A caracterização dessas criaturas é tão bem executada e convincente que, por vezes, tinha que lembrar que estava lendo ficção científica. O reconhecimento de certos tipos humanos entre o “Povo Animal” é outro destaque da narrativa. Há, por exemplo, uma passagem onde Pendrick refere que, dentre todas as criaturas conhecidas, a mais estúpida era o “Homem-Macaco”, por gostar de se expressar de forma incompreensível, entusiasmando-se sempre que Pendrick dizia algo obscuro, o que era imediatamente repetido inúmeras vezes por ele. Vejo claramente uma crítica à linguagem experimental na Literatura ou, no mínimo, uma censura ao estilo esdrúxulo de certos escritores.

Não poderia deixar de mencionar a sensação perturbadora provocada pela relação de amizade observada entre Montgomery e M’ling (o assistente) e, posteriormente, entre Pendrick e o Homem-Cão. Com o decorrer da leitura, vamos encarando as criaturas de Moreau menos como animais do que como homens, ainda que de cultura rudimentar. Quando, por exemplo, o Homem-Leopardo é perseguido por desobedecer à lei, é como se estivéssemos diante de um criminoso tentando escapar à sua pena. O próprio Pendrick decide matá-lo para poupá-lo do sofrimento que lhe seria infligido. Se associarmos os experimentos de Moreau às atuais questões sobre clonagem humana, deparar-nos-emos com a mesma pergunta: seriam criaturas humanas, de fato?

Apesar de considerar o livro, como um todo, muito bom, devo admitir que a segunda metade (após a fuga da onça) possui um ritmo bem mais instigante. Senti falta de uma figura feminina; penso que faria muita diferença. Não deixa de ser interessante, contudo, o comportamento das “Mulheres-Animais” que, segundo Pendrick, pareciam envergonhadas da própria fealdade. É, no mais, como já disse, uma leitura válida.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 5 de maio de 2018

A Vida como Ela É..., de Nelson Rodrigues - RESENHA #66

Nós, que pertencemos a esta categoria rara e sinistra dos “leitores”, estamos sujeitos a passar por experiências tenebrosas. Nem só de Machado de Assis viverá o homem, não é mesmo? Sim, este é o prelúdio de uma resenha daquelas!

Não à toa mencionei aqui Machado de Assis. Entre 2014 e 2015 realizei uma de minhas empreitadas literárias mais ambiciosas: ler os contos completos do bruxo do Cosme Velho. A princípio, hesitei, imaginando o quão cansativo seria ler 190 contos consecutivos, mas a ideia era mais empolgante que assustadora e, por isso, resolvi-me a executá-la. O resultado foi mais surpreendente do que o esperado. Ficava assombrado com a capacidade que Machado tinha para contar histórias curtas; por diversas vezes, era uma surpresa atrás da outra. Os temas eram sempre tão variados, de modo que a leitura nunca parecia maçante ou repetitiva.

Mas não é interesse desta resenha enaltecer o criador de Capitu; tampouco confrontar seu talento com o de Nelson Rodrigues. A comparação me foi sugerida pela semelhança das experiências no que diz respeito à quantidade de contos lidos. Ainda que A Vida como Ela É... não atenda à mesma proporção (a coletânea de Nelson contém 100 histórias), nem por isso pode ser considerada obra de pouco fôlego.

Decidi ler os contos de Nelson Rodrigues porque os supunha leves; estava um tanto impressionado com as misérias de guerra relatadas n’A Retirada da Laguna, do Visconde de Taunay. Mal sabia eu que de “leve” o livro só tinha a escrita, que chega a ser primária; e menos ainda que encontraria misérias em número maior que as do episódio da Guerra do Paraguai. O estilo tragicômico do autor não era exatamente o que eu imaginava, mas esta circunstância foi o que menos me desgostou.

Tendo publicado centenas desses contos num período de aproximadamente dez anos (desconheço a periodicidade), talvez que Nelson pensasse que os leitores não lembrariam das histórias publicadas há um ano, por exemplo; assim, não vê problema em repeti-las com poucas alterações; mas algumas histórias são recontadas tantas vezes, que acredito muito no fato de que essas “reescritas” aconteciam frequentemente num mesmo ano. Que os leitores da coluna não lembrassem, posso entender perfeitamente! O imperdoável mesmo é o péssimo trabalho de seleção, realizado em 1961, das cem “melhores” histórias. Foi esta antologia que li.

Como se não bastasse o fato do autor ter incluído nessa seleção várias versões de uma mesma história, ele não se deu ao trabalho sequer de ordená-las numa disposição em que isso ficasse menos perceptível. Em algumas ocasiões, a história seguinte é justamente a anterior, se é que me entendem rs! Essas constantes repetições/variações de um mesmo tema denotam que esses contos foram escritos ligeiramente, quase de improviso e com pouquíssima criatividade, para não dizer nenhuma rs.

Os personagens, em sua maioria, dariam conta do maior sanatório do país; ainda que, curiosamente, a psiquiatria seja desdenhada em vários contos. Nelson Rodrigues parecia ser maníaco por alguns temas, dentre os quais: obsessão, assassinato, traição e suicídio. Ouso dizer que todos os contos do livro se enquadram num desses quatro temas, e não poucas vezes em mais de um deles. Mas o tema mais recorrente é, sem dúvida, a “traição”: seja entre amigos, irmãos, casais, pais e filhos, etc. Dentre essas traições, as de infidelidade conjugal parecem ter um apreço especial por parte do autor.

Não bastassem os temas serem repetitivos, a própria escrita é sempre a mesma. É algo mais ou menos assim...

[Atenção! O texto abaixo é uma imitação proposital do “estilo” do contista Nelson Rodrigues.]

Tavares, bebendo com Paiva, revela ao amigo: “Tenho que te contar uma coisa sobre tua mulher”. O outro, meio confuso, reage. “Batata? Do que se trata?”. Tavares pigarreia e solta: “É o cúmulo que só tu ainda não saibas! Tua mulher te trai com o Hermes. Saem de automóvel e outros bichos.”. Paiva não podia acreditar no que o amigo dizia de Lucila. Sua esposa, tão adorável, parecia ser a mulher mais correta. Em solteira, era a pequena mais direita do Rio de Janeiro, segundo diziam. “Esta pequena é pra casar”, dizia seu pai. Casados, tiveram uma perfeita lua de mel na montanha. Hermes, então, amigo de dentro da sua casa; muito sorridente, tinha sempre o ar de quem lavou o rosto há dez minutos. Não podia ser verdade. “Escuta, Tavares. Sempre te considerei amigo do peito. Por isso, é bom que tenhas provas da tua acusação, porque senão, eu juro que te mato!”.

Vocês que leram o livro devem lembrar muito bem dessa história, até porque ela é recontada uma boa porção de vezes rs. A quem ainda não leu, advirto: é daí pra pior!

A Vida como Ela É..., a meu ver, deveria ter morrido no jornal. Acredito que o próprio Nelson Rodrigues pensasse isso enquanto escrevia as histórias. É surpreendente a repercussão da coluna, especialmente pelas várias adaptações para rádio, TV e cinema. Não digo que a ideia do livro seja de todo ruim. A seleção é que está malfeita. Não duvido que Nelson Rodrigues guardasse os recortes de sua coluna, selecionasse cem deles aleatoriamente, entregasse-os ao editor e dissesse, enquanto fumava um cigarro: “Taí, te vira!”.

Embora, no geral, todas as histórias possam ser facilmente esquecidas, seria injusto de minha parte não destacar as que me pareceram as melhores do livro, para não dizer as menos ruins rs. São elas: O escravo etíope; O monstro; Noiva da morte; O sacrilégio; Uma senhora honesta; Cemitério de bonecas; O gato cego; A morta; O menorzinho; Gagá; Justo pelo pecador; e Caixa de Sapato. Uma coletânea com esses doze contos dispensaria, sem grandes prejuízos, a inserção dos outros oitenta e oito rs!

As histórias d’A Vida como Ela É... têm quase sempre o mesmo número de páginas, pois eram escritas sob medida para a coluna de Nelson Rodrigues no Última Hora. Por esse motivo, em vários dos contos, o autor descreve situações inúteis, ou seja, que não são posteriormente desenvolvidas e que só serviam para preencher o espaço reservado no jornal.

Acredito que mencionei todos os motivos que me fizeram desgostar deste que é, incontestavelmente, um dos piores livros que já li na vida. Uma pena que minha primeira incursão à obra de Nelson Rodrigues tenha sido assim tão desagradável! Verdade seja dita: sua celebridade deve-se mais ao dramaturgo. Tenho aqui Vestido de Noiva ainda para ler. Torço para que, no teatro, possa encontrar esse grande Nelson de que tanto falam.

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Rei Negro, de Coelho Neto - RESENHA #65 (contém spoilers)


Li por esta que é a 1ª edição da obra, de 1914.
Prevenido já estava sobre a escrita verborrágica de Coelho Neto, mas não fazia ideia da proporção que teria o vocabulário esdrúxulo do autor. A impressão que tive foi a de estar lendo noutro idioma, tantas vezes que tive de recorrer ao Aurélio rs. Levei certo tempo até me acostumar com o texto de Rei Negro (1914); após superar este primeiro obstáculo, pude então me ocupar da obra em si.

Rei Negro é o que se pode chamar romance anacrônico. Publicado num período comumente denominado Pré-modernismo, o livro de Coelho Neto seguia na contramão do que estava em voga na época; por esse motivo, alguns críticos o classificam de neoparnasiano. Tal estilo foi alvo de crítica ferrenha por parte de autores como Lima Barreto e Oswald de Andrade. A preocupação do autor com a forma chega a ser tão exagerada, que chega a constituir o primeiro plano da essência de sua obra, em detrimento do enredo e demais elementos da narrativa. É como se, indiferente à fotografia, ele estivesse obcecado pela moldura. Essa obsessão acaba prejudicando a constituição do romance que, sufocado por tantos atavios, não caminha, arrasta-se.

Não saberia dizer se o senhor Coelho Neto era desses que traziam um dicionário sempre à cabeceira ou se ele mesmo era um dicionário ambulante; o certo é que, dono de um vocabulário de incalculável dimensão (sobretudo pelos arcaísmos), ele empenha-se por fazer uso constante desta habilidade excepcional. Para que não digam que estou exagerando, aí vai um trechinho: “Era o luar que penetrava o interior da espessura coando-se pelos raros, descendo em cheio pelas abertas, aqui em fita, além alagando a jorros, ou amiudado em nimbos e em estrias que amedalhavam, reticulavam o ândito tenebroso.” Hã? E que me dizem desse: “Crebro, aos estalidos, pingava o estilicídio das folhas róridas; pipilos denunciavam o sonho dos ninhos e, alumiando a treva ferrugínea, em ronda, os pirilampos multiplicavam-se.”? Ahã rs! Só para constar: mais da metade do livro mantém-se nesse nível.

É natural encontrarmos na prosa regionalista um vocabulário peculiar que caracterize com realismo a região ambientada. Isso justificaria em parte nosso romance em questão, não fosse o fato de a maioria dos termos estranhos utilizados não serem exatamente típicos. O excesso de formalismos é um recurso visivelmente proposital. Digam o que quiserem, o estilo de Coelho Neto granjeou-lhe respeito e renome não só no Brasil, como em Portugal, onde a maioria de seus livros eram editados. Em razão desse sucesso, ele publicou quase uma centena de livros, entre romances, coletâneas de contos e crônicas, além de várias peças teatrais. Os requintes de sua escrita, contudo, não lhe asseguraram a permanência e, hoje, praticamente nem se sabe quem foi Coelho Neto. Até onde sei, só algumas de suas crônicas continuam sendo editadas.

Mas falemos agora de Rei Negro. Como já disse, o enredo e demais elementos narrativos sofrem em favor da forma minuciosamente elaborada. A questão racial é o único tema que consegue se sobressair a partir da figura de Macambira, o filho de Munza, reverenciado entre os negros. Trata-se do escravo de confiança de Manuel Gandra, o proprietário da fazenda Cachoeira. Responsável pelas transações de compra e venda de mercadorias, Macambira é temido por sua valentia e pela superioridade que lhe atribuem, por ser uma espécie de príncipe da raça. De modos reservados, sua única amizade é Balbina, velha mandingueira, que vive a lhe contar as glórias de seus antepassados da África.

Macambira, fiel à sua tradição, sente-se um defensor dos escravos, ao mesmo tempo que reprova-lhes as atitudes, especialmente as relacionadas à concupiscência. Na medida do possível, tenta impedir a corrupção de sua gente, sobretudo das mulheres que, muitas vezes, ainda impúberes, eram vítimas de abuso sexual. Manuel Gandra e seu filho Julinho dispunham das escravas a seu bel-prazer e indiscriminadamente. Julinho, contudo, acaba tendo algumas de suas aventuras malogradas, em razão da intervenção de Macambira, o que gera uma grande antipatia no garoto em relação ao negro.

Sabendo que Macambira ia juntando considerável pecúlio e temendo que o negro comprasse sua liberdade, Manuel Gandra decide casá-lo, para mantê-lo seguro na fazenda. Todos acreditavam que o escravo era averso às mulheres, por sua postura sempre austera, e atribuíam o fato às mandingas da Balbina; mas a verdade é que ele dedicava um amor ideal à mucama Lúcia, uma escrava quase branca, que gozava um tratamento especial na fazenda, além de possuir alguma instrução. Gandra, percebendo os sentimentos de Macambira, sugere o casamento, para a indignação de muitos, inclusive de Julinho.

O sinhozinho, querendo desforrar-se com o interceptor de suas aventuras, prepara uma armadilha e estupra Lúcia. Envergonhada, a mucama não tem coragem de relatar a ocorrência, consciente da inutilidade da delação, fundamentada em outras situações idênticas. O casamento é realizado e, pouco depois, Lúcia engravida. Temendo que o filho seja de Julinho, a mucama sofre horrivelmente. Macambira estava fora quando então nasce a criança, de fato, branca. A desesperação toma conta de Lúcia, que teme morrer ás mãos do marido quando este descobrisse; decide confessar tudo à Balbina, mas não resiste a uma vertigem e morre.

Balbina põe Manuel Gandra a par de tudo, e este, em defesa do filho, trata do enterro de Lúcia e exige o sumiço da criança. Sua primeira ideia é a de matar, mas um escrúpulo o convence a enjeitar a criança na porta de uma igreja, missão esta atribuída a Balbina. Uma grande tempestade impede a tarefa, circunstância que é encarada supersticiosamente pela mandingueira, que entende o imprevisto como obra da falecida. Balbina decide esconder a criança no seu rancho, mas quando Macambira retorna, acaba descobrindo tudo. O escravo decide comprar sua liberdade e abandonar a fazenda, para poupar-se da vergonha, mas Gandra convence-lhe a ficar, tentando sempre justificar o filho. Macambira, contudo, perdendo a razão, prepara uma tocaia na qual Julinho acaba assassinado por ele.

Todo esse dramático enredo é contado da maneira mais arrastada possível, combinado com descrições minuciosas derramadas em páginas e páginas. As descrições são por vezes tão excessivas que não poucas vezes o leitor precisa parar para se situar novamente na trama. Tudo é contado também com bastante distância, de maneira que muito do que atribuímos aos personagens provém do que fica subentendido, pois o autor não se dedica muito ao estudo de seus tipos, o que faz com que o leitor não simpatize muito com eles. O autor, que não dedica atenção aos personagens centrais, importa-se bem menos com os secundários; à exceção de Donária, a Vaca Brava, a participação dos outros é praticamente nula.

Rei Negro é um livro que, não obstante não ser muito longo, poderia ser bem menor. Talvez se ao invés de tantas descrições “despropositadas”, tivéssemos um desenvolvimento melhor da trama, como também dos próprios personagens, o romance renderia uma experiência mais apreciável. A obra, sem dúvida, toca em diversas temáticas que mereciam uma atenção mais cuidadosa. Não quero desmerecer a espantosa perícia estilística do autor, mas, honestamente: há tanta coisa melhor rs!

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

Trilhas Longínquas de Oku (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashō - RESENHA #64

Considerado o maior haicaísta de todos os tempos, Matsuo Bashō (1644-1694) celebrizou-se também pelos relatos que fazia de suas peregrinações. Trilhas Longínquas de Oku (1694), o mais famoso deles, é considerado sua obra-prima. Trata-se do relato de uma viagem que Bashō, acompanhado de seu discípulo Sora, realizou em 1689, por Michinoku, nome pelo qual também era conhecida a Província de Mutsu (território que hoje corresponde às prefeituras de Fukushima, Miyagi, Iwate e Aomori, e às municipalidades de Kazuno e Kosaka na prefeitura de Akita), ao norte e noroeste de Honshu, maior ilha do Japão. Calcula-se que Bashō percorreu, quase sempre a pé, cerca de 2300 km em 156 dias, na idade de 46 anos, considerada avançada para os padrões do século XVII.

Depois dessa confusa introdução rs, passemos à apreciação da obra.

Ainda que não centrado em sua pessoa, Trilhas Longínquas de Oku não deixa de ser um retrato do poeta que foi Bashō. Talvez ele tenha alcançado o grau mais elevado da essência do “ser poeta”, pois sua vida, ao que tudo indica, foi toda dedicada à poesia e à religião. O culto de Bashō pelo zen-budismo — é importante lembrar — está diretamente associado ao culto da poesia. Acho que ficou claro que a vida desse ilustre oriental foi pura poesia mesmo rs. Ainda que os biógrafos discordem bastante a seu respeito, o amor pelo haicai (desde tenra idade) acaba sendo o ponto de interseção entre todos eles.

O que chama atenção na obra máxima de Bashō não é exatamente o percurso empreendido por ele, mas suas reações diante das paisagens e pessoas que encontra. Sua sensibilidade é algo inacreditável, notadamente para o leitor contemporâneo. É interessante como o perigoso trajeto se relaciona ativa e passivamente com a poesia: ora Bashō busca intencionalmente uma imagem referida por autor clássico, ora uma imagem presenciada é logo associada pelo poeta a algum poema famoso. Claro que essas referências, geralmente mescladas com o texto, só poderiam ser atinadas por conhecedores da poesia japonesa, como Meiko Shimon (tradutora da minha edição), que através de notas de rodapé, chega a transcrever alguns dos poemas aludidos por Bashō.

Eis uma obra puramente contemplativa: para autor e leitor. A viagem tinha fins exclusivamente poéticos. Bashō buscava: matéria para seus haicais, encontrar velhos amigos poetas, conhecer outros igualmente dedicados à poesia, verificar monumentos referidos pela poesia clássica, praticar sua fé em vários templos encontrados, apreciar as variedades naturais. Acho que fiz um resumo do livro todo agora rs. Mas nada como compartilhar da sensibilidade do autor! Se por um lado ele aprecia cuidadosamente o ambiente à sua volta, o leitor aprecia seu maravilhoso senso de observação.

Trilhas Longínquas de Oku é permeado por vários haicais de Bashō e Sora, todos eles poemas circunstanciais, que expressam as emoções de momentos marcantes do trajeto; algumas vezes estes poemas eram dependurados na entrada dos locais visitados. Assim, há um poema dedicado às armas de valentes guerreiros de outro tempo, outro inspirado pela empatia para com o sofrimento de duas prostitutas, aquele pelo qual se despede de seu companheiro Sora... Enfim, são muitos haicais, alguns até atendendo a pedidos rs.

O relato de Bashō é de uma simpleza graciosa, mas que exige bastante atenção de leitores, como eu, pouco afeitos à cultura oriental. A tradução de Meiko Shimon tem o mérito de ser a primeira (no Brasil) a verter o texto do original japonês para a língua portuguesa, mas talvez por não ser a tradutora uma falante nativa do português, algumas passagens não me pareceram bem transpostas para nosso idioma, o que pode representar uma dificuldade sofrível, já que a comprometida fluidez de certos trechos não chega a interferir na compreensão da obra.

Imagino que os amantes da poesia apreciarão a prosa poética de Bashō bem mais do que eu, mas, sinceramente, aproveitei esta experiência com particular entusiasmo. Há uma pureza nas impressões do poeta viajante que chega a emocionar, por sugerir que o homem carece de fé e de arte para se manter num mundo tão materialista.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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