sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Doctor Moreau), de H. G. Wells - RESENHA #67


Para conhecer H. G. Wells, decidi começar pel’A Ilha do Dr. Moreau (1896) que era, de longe, a obra do autor que mais me chamava atenção, pela proposta de ser um misto de romance de aventuras e ficção científica. Justamente por não ser muito afeito a este último gênero, mas estando disposto a conhecê-lo melhor, escolhi um livro que, a meu ver, seria um meio-termo. Posso não ter acertado na escolha, mas também não errei completamente. Quero dizer que a experiência de leitura foi bastante válida, mas o livro não me seduziu tanto quanto esperava.

Ainda que tenha escapado aos spoilers por parte de outros leitores, não escapei de um que é lançado pelo próprio autor na introdução do romance. Logo nas primeiras páginas já ficamos sabendo que Edward Prendick, o protagonista, sobreviverá. Para mim, isto foi um grave erro de Wells. Os vários dissabores enfrentados por Prendick, no decorrer da trama, eram amenizados pela certeza de que ele sairia ileso. Não sei se outros leitores compartilham desta minha impressão, mas comigo foi assim.

Na trama, Edward Prendick, após o naufrágio do Lady Vain, é socorrido por Montgomery, um médico que realizava o inusitado transporte de animais para uma ilha desconhecida. Prendick não vê alternativa senão acompanhar aquele estranho homem que possuía um assistente mais estranho ainda, um negro de olhos brilhantes e orelhas pontudas. No desembarque, eles são recebidos pelo Dr. Moreau e vários homens de aspecto animalesco.

Prendick começa a associar aquelas estranhas figuras aos comentários que começa a recordar sobre a pessoa de Moreau e suas experiências controversas. Num primeiro momento, ele acredita que o cientista está transformando homens em monstros, o que o leva a querer fugir. Moreau, porém, logo esclarece que suas experiências consistiam no inverso: ele vivisseccionava vários animais e compunha criaturas de forma humana com pedaços de diferentes espécies. O que mais horrorizava Prendick era a falta de um propósito aceitável naquelas experiências. Segundo o próprio Moreau, seu objetivo era unicamente “encontrar o limite extremo da plasticidade de uma forma viva”.

Moreau ainda revela os problemas encontrados em suas experiências: suas criaturas humanas eram bastante defeituosas e com uma capacidade intelectual primitiva. Inconformado com os resultados obtidos, ele abandona os “Homens-Animais” pela ilha, incutindo-lhes uma lei, segundo a qual todos lhe deviam obediência, além do cumprimento de várias regras “civilizatórias”. Outro problema observado era a regressão perceptível no “Povo Animal”: com o tempo, as criaturas iam perdendo suas características humanas, o que as levava naturalmente ao descumprimento da lei e, por conseguinte, ao castigo da tortura e da morte.

A nova esperança de Moreau está na onça trazida por Montgomery, na qual concentra todos os seus esforços para torná-la perfeitamente humana. Um descuido, no entanto, permite ao animal escapar, depois de já realizadas várias mutações em sua constituição física. Este incidente acaba desencadeando uma série de dificuldades para os três homens presentes na ilha.

A Ilha do Dr. Moreau já sugeriu inúmeras interpretações. O romance de Wells é evidentemente alegórico, principalmente quando, pelos olhos de Prendick, constatamos que o “Povo Animal” enfrenta situações comuns à sociedade humana, em virtude das características que lhe foram implantadas. Aquelas criaturas certamente não precisariam sofrer o que só era comum aos homens, se Moreau não as tivesse alterado. Isto nos leva a refletir sobre nosso próprio sofrimento e os problemas de nossa “sociedade civilizada”.

Wells realiza um trabalho admirável na pintura dos “Homens-Animais”, sempre coerentes com suas composições híbridas. A caracterização dessas criaturas é tão bem executada e convincente que, por vezes, tinha que lembrar que estava lendo ficção científica. O reconhecimento de certos tipos humanos entre o “Povo Animal” é outro destaque da narrativa. Há, por exemplo, uma passagem onde Pendrick refere que, dentre todas as criaturas conhecidas, a mais estúpida era o “Homem-Macaco”, por gostar de se expressar de forma incompreensível, entusiasmando-se sempre que Pendrick dizia algo obscuro, o que era imediatamente repetido inúmeras vezes por ele. Vejo claramente uma crítica à linguagem experimental na Literatura ou, no mínimo, uma censura ao estilo esdrúxulo de certos escritores.

Não poderia deixar de mencionar a sensação perturbadora provocada pela relação de amizade observada entre Montgomery e M’ling (o assistente) e, posteriormente, entre Pendrick e o Homem-Cão. Com o decorrer da leitura, vamos encarando as criaturas de Moreau menos como animais do que como homens, ainda que de cultura rudimentar. Quando, por exemplo, o Homem-Leopardo é perseguido por desobedecer à lei, é como se estivéssemos diante de um criminoso tentando escapar à sua pena. O próprio Pendrick decide matá-lo para poupá-lo do sofrimento que lhe seria infligido. Se associarmos os experimentos de Moreau às atuais questões sobre clonagem humana, deparar-nos-emos com a mesma pergunta: seriam criaturas humanas, de fato?

Apesar de considerar o livro, como um todo, muito bom, devo admitir que a segunda metade (após a fuga da onça) possui um ritmo bem mais instigante. Senti falta de uma figura feminina; penso que faria muita diferença. Não deixa de ser interessante, contudo, o comportamento das “Mulheres-Animais” que, segundo Pendrick, pareciam envergonhadas da própria fealdade. É, no mais, como já disse, uma leitura válida.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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