quinta-feira, 7 de junho de 2018

Cadastro dos Desesperados, de Dimas Carvalho - RESENHA #68


Um dos lançamentos mais aguardados deste ano foi com certeza este Cadastro dos Desesperados, publicado oito anos após a última coletânea de contos do premiado autor cearense Dimas Carvalho. Desde muito queria comentar alguma obra do Dimas por aqui, por se tratar de um dos nomes que mais vêm se destacando na nossa laboriosa literatura cearense. Sua produção mais vasta compreende a poesia e o conto, mas tenho notado que o prosador está mais envolto no poeta do que o contrário. Nesta última coletânea, porém, ambos parecem menos conchegados, o que nos permite divisar melhor o prosador.

O livro está dividido em duas partes: “Do lado de lá”, dedicada à literatura fantástica; e “Do lado de cá”, cujos contos têm um teor mais filosófico e realista. Averso que sou ao gênero fantástico, presumia evidentemente gostar mais da segunda parte, mas para minha própria surpresa, estive mais seduzido pela primeira. De fato, os contos que me causaram impressão mais positiva pertencem ao primeiro conjunto.

Ao longo da coletânea, o autor dialoga com seus títulos anteriores, alimentando certas obsessões que parecem ser o tormento de sua musa; as mais recorrentes parecem ser as cidades abandonadas e as punições de um suplício eterno. Não por acaso o grande cientista de “O cravo roxo do diabo” maquinava seus inventos à custa de insônias, delírios e pesadelos; assim como não é pouco familiar aos seus leitores a presença de uma “pequena fábula perversa” na segunda parte do livro. Os caracteres trágicos e pessimistas certamente não poderiam destoar das obras anteriores, portanto, foram requisitos obrigatórios na realização do Cadastro.

Já tive oportunidade de comentar com Dimas sobre a má impressão que tenho do pessimismo em sua obra, ainda que, tenho que concordar, seja um elemento inevitável na contemporaneidade. Metido que sou, sugeri-lhe alguma marca otimista no Cadastro e, com felicidade, lobriguei alguma coisa do tipo em contos como “Ratésia” e “O grande circo místico odontológico”. Ainda que não tenham sido dedicados especificamente a mim, vou entendê-los como tal rs.

Falemos sobre a escrita de Dimas que, nesta quinta coletânea, está especialmente formidável. Há um cuidado tão esmerado na construção dos períodos, ouso dizer, mais notório nas narrativas que prezam pela linguagem informal, justamente pela capacidade do autor de fazer com que seu texto não caia na mediocridade. Há sempre beleza e, o que é melhor, fluidez nas páginas de Cadastro, apenas um pouco comprometida diante de referências que me eram obscuras.

Mas para que nem o autor possa escapar ao desespero, passemos aos senões rs. Certamente por já ter lido toda sua prosa de ficção, os ares de novidade que a nova obra poderia ter suscitado ficaram um tanto esmaecidos. As variações de um mesmo tema às vezes me deixavam enfastiado, como também a repetição de certos caracteres na pintura dos personagens. Mas algo que, mais do que incomodado, deixava-me intrigado eram os contos de argumento truncado. Refiro-me às narrativas que, mesmo ao final, sugeriam-me inconclusão, a modo de estarem mutiladas. “A gralha”, “O construtor de gaiolas” e “Esse estranho que me segue” são alguns exemplos. Terá me escapado alguma acepção?

Gostaria de encerrar elencando os contos que mais me agradaram, alguns deles verdadeiras obras-primas, dignas de figurar na eterna antologia da literatura universal. Em ordem crescente de preferência, são eles: Magia brasileira; O tudo e o nada; O grande circo místico odontológico; Ratésia; Iranildo Pedra, mártir e profeta; Aventuras e desventuras do coronel Diego Lopez; Punhal de prata; O antimágico da taberna transmontana; Caso do embrulho; A cidade dos anões; Bal masqué; O cravo roxo do diabo.

Laus Deo!

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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