sábado, 23 de junho de 2018

Santa, de Pedro Ferreira - RESENHA #70


Capa não original da 1ª edição

Por sugestão de um leitor deste blog, o professor Victor Rodrigues, decidi empreender a leitura de uma verdadeira raridade da literatura cearense. Trata-se do livro Santa, do ibiapinense Pedro Ferreira (1881-1975). Entusiasmado que sou por essas obras obsoletas, mormente as do meu estado, adiantei a leitura o mais que pude, motivado pela ideia de conhecer um autor cearense do século passado, do qual nunca tinha ouvido falar.

A experiência de leitura foi das mais péssimas que tive, em virtude da pobreza estilística dessa narrativa que pretende ser um romance. Ao final da leitura, já estava preparando meu arsenal de munições para, impiedosamente, ratificar os motivos óbvios que condenaram Santa ao esquecimento. Entrementes, antes de passar à costumeira resenha, tive a providencial ideia de ler outros textos de Pedro Ferreira que me foram enviados pelo mesmo Victor, a quem, desde já, dedico um agradecimento, sobretudo pela autobiografia do autor que me esclareceu muitos questionamentos colecionados ao longo da leitura.

Aos leitores simpatizantes da ferocidade de minhas críticas, peço um pouco de paciência, pois já chegaremos lá rs. Antes, porém, proponho seguirmos uma ordem inversa àquela por mim executada: conheçamos pois primeiro o autor e, empós (como diria o próprio Pedro), sua obra.

Pedro Ferreira de Assis pertenceu a uma família pobre do interior do Ceará. Perdeu a mãe muito cedo e foi educado pelo pai, que era agricultor. Inclinado desde cedo às letras, não pôde estudar, em vista da necessidade de ajudar o pai nos trabalhos do campo. Autodidata, aprendeu a ler e escrever sozinho; com o passar dos anos, foi ampliando seu conhecimento pelo mesmo método: o estudo solitário. Entusiasmado por diferentes áreas do conhecimento, lia, de tudo um pouco, autores nacionais e estrangeiros. Seu obstinado desejo de aprender rendeu-lhe uma ascensão econômica e social. Desempenhou diferentes funções: foi jornalista, militar, geógrafo, além de ter sido eleito por cinco vezes prefeito do município de Ibiapina.

Pedro e eu, para minha surpresa, compartilhamos de uma paixão comum: a obra alencarina. É inegável a influência do autor de Iracema, tanto em sua obra, por razões que definirei adiante, quanto em sua vida, pois não à toa uma de suas filhas foi batizada com o nome de Lucíola. Uma pena que tão positiva influência não tenha sido suficiente para tornar Pedro um escritor mais esmerado! Mas todo este preâmbulo que tenho desenvolvido justifica com propriedade todas as falhas que facilmente encontramos na escrita deste ibiapinense.

Além de Santa, pude ler o poema psicológico O Pensamento É quase Alma, o discurso Cristo e sua Religião, o opúsculo Minha Autobiografia, além de alguns dos artigos que Pedro publicou na revista do Instituto do Ceará, do qual era sócio. Tal panorama forneceu-me uma ideia bastante precisa de sua deficiente escrita, cujas peculiaridades destacarei a seguir.

Por não ter concentrado seus esforços em nenhuma área específica do conhecimento, apreciador que era dos saberes em geral, Pedro Ferreira não pôde desenvolver com afinco o literato que tencionava ser. As circunstâncias em que se deu sua formação intelectual refletem na limitação de suas referências (sejam literárias, filosóficas, políticas, etc.) e, mais perceptivelmente, de sua linguagem, sempre a mesma, independente do gênero. O vocabulário do autor chega a ser tão repetitivo que, às vezes, temos a impressão de que podemos mensurá-lo, por não ser muito difícil prever que termos serão utilizados nos próximos parágrafos.

Consciente de sua inópia linguística, o autor apela para o uso de termos menos comuns, mesmo para o seu tempo, na tentativa talvez de criar um estilo que lhe conferisse erudição. Assim, em lugar de “ilusão”, temos “delusão”; “empós” no lugar de “após”; “brasiliano” ou “brasilense” ao invés de “brasileiro”, “multifário” no lugar de “variado”; “encantante” e não “encantador”, além de muitos outros vocábulos que chamam atenção por serem antiquados e, principalmente, pela recorrência com que aparecem.

Outra característica sua que bastante me incomodou são as expressões pleonásticas, não menos recorrentes que os arcaísmos já citados. Poderia citar várias, mas as que consigo lembrar agora são: “não nunca jamais”, “tanto e tantíssimo”, “mui-muito”, “sempre e sempre”, “demais a mais”, “de todo em todo”, etc. O excesso de adjetivos também não passa despercebido, o que é uma visível influência de Alencar, mas que se manifesta em Pedro ainda mais exageradamente.

O que, contudo, me punha atônito mesmo de verdade eram os períodos demasiadamente longos e cheios de intervalos para explicações excessivas e desnecessárias. Essas constantes interrupções, realizadas através de incontáveis travessões, comprometiam sobremaneira a fluidez do texto e, não poucas vezes, o próprio entendimento do mesmo. Como costumo sempre provar o que digo, segue abaixo um curioso exemplo.

“De fato, quem tem o prazer de subir, embora por sendas estreitas e pedregosas, aos píncaros verdejantes da imponente Ibiapaba, que é o jardim mais belo de beleza do Nordeste — em eterna primavera — nos confins do Ceará plantado, onde vicejam as palmeiras esguias que, desfraldando — à semelhança de flâmulas — as folhas rumorosas, embelecem as frondentes matas, outrora defendidas pelo amouco e valente Juripariguaçu (diabo grande) — o mais poderoso dos morubixabas tabajaras, se esquece, logo, do trabalho da subida, pois que ela, ali, mostra aos olhos deslumbrados do viandante ‘um dos mais formosos painéis, que porventura pintou a natureza em outra parte do mundo’.” (Págs. 42, 43, grifo do autor). Desafio qualquer um de vocês a ler este trecho de um fôlego só rs!

Explicitados os problemas de escrita do autor, concentremo-nos em Santa, que foi publicada, pela primeira vez, nos folhetins do Correio do Norte, no município de Ipu, em 1921. A 1ª, e provavelmente única, edição em livro consta de 1966, numa versão corrigida e ampliada.

Baseada num episódio supostamente real, esta tentativa de romance regionalista traz um enredo acentuadamente monótono, não apenas pelas inúmeras descrições da paisagem ibiapabana, mas pela carência de movimento e ação cênica da trama. Numa escrita que lembra mais o texto de não ficção, a obra passaria facilmente por um daqueles livrinhos religiosos com os quais se deleitava Célia, a protagonista. Não será pois tarefa difícil resumir cento e algumas páginas nas poucas linhas seguintes.

Do capítulo 1 ao 6, temos o episódio no qual Paulo da Silva, sua esposa Sebastiana do Amor Divino e sua pequena filha Celina, chamada simplesmente de Célia, saem de sua terra em busca de um refúgio onde possam escapar aos flagelos da terrível seca de 1877. No capítulo 7, chegam à Serra da Ibiapaba. Parte deste capítulo me pareceu uma imitação de um fragmento de Aves de Arribação, de Antônio Sales, pela forma como são descritos os pássaros do lugar. Do capítulo 8 ao 11, a família de Paulo da Silva, que aportara na Ibiapaba, decide firmar moradia no sítio Boa-Vista. Célia é incentivada a estudar, o que faz com muito gosto, mas não além daquele com que realiza suas atividades religiosas. Dedicada exclusivamente aos estudos e à religião, Célia despreza Raimundo Tavares, o Mundico, que apaixona-se inutilmente por ela. Célia rejeita a ideia do matrimônio, pois está consciente de que a verdadeira felicidade só é possível após a morte. Do capítulo 12 ao 18, Mundico passa a frequentar a casa de Célia, com o apoio dos pais da jovem, como também dos seus próprios; “desiluso” com as negativas da moça, que o considera um vaidoso, Mundico decide partir para o Amazonas. Do capítulo 19 ao 25, Célia continua seguindo a vida inteiramente dedicada à sua crença, aspirando por entrar num mosteiro, enquanto seus pais prosperam na nova terra. Mundico, já longe, após embebedar-se, comete suicídio. Ao saber da tragédia, Célia, impressionada, morre de tristeza, sendo considerada uma “Santa” pelo povo daquela serra.

Acredito que poupei, com este proveitoso resumo, trabalho a muita gente. Considero mesmo dispensável a leitura de Santa e penso já ter dado todas as justificativas dignas de nota. Mas como já disse noutra ocasião, esta é a narrativa de um “entusiasta do romance”, alguém que, acredito, fez sair leite de muitas pedras. Pedro Ferreira merece nosso aplauso por tudo o que fez com tão pouco, ainda que não nunca jamais mereça o mesmo por suas malfadadas tentativas literárias.

Avaliação:

Daniel Coutinho

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