quinta-feira, 27 de junho de 2019

Curto Alcance (Close Range), de Annie Proulx - RESENHA #101

A boa impressão que tive com O Segredo de Brokeback Montain (2005), filme de Ang Lee, despertou-me o interesse por conhecer o conto original da escritora norte-americana Annie Proulx, incluso na coletânea Curto Alcance (2000), objeto desta resenha. O livro infelizmente não caiu na minha graça, reforçando minha antipatia pela literatura contemporânea, mas não ao ponto de como se dera com Patti Smith.

Do conjunto de onze histórias, apenas três ganharam minha aprovação, dentre elas a que motivou o já aludido filme. O estilo de Proulx maçou-me de tal maneira, que dava-me engulhos, como se estivesse aspirando esterco de búfalo. Sua maneira de narrar, um tanto prolixa, pormenorizando o tempo todo, fazendo comparações desenxabidas e dispensáveis, comprometia constantemente meu interesse pelos enredos, motivando-me a avançar na leitura não pela fluidez, mas pela pressa de terminar o livro rs.

Há uma falta de método tão perceptível no desenho dos contos, que poderia garantir que ao menos a maioria foi traçada de improviso. Proulx provavelmente ia esboçando as histórias a conta-gotas, despreocupada com o desenvolvimento, quem dirá com o desfecho. Assim, ela vai lançando dois personagens, depois mais dois, depois mais três, depois mais uma família inteira, expondo detalhes de um, de outro e de todos, quase sempre informações irrelevantes que vão encorpando seus contos de considerável extensão.

Para cada conto, uma dose indispensável de erotismo sacana explanado de forma chula e grosseira. A bruteza das cenas é outra marca que acompanha toda a coletânea, que preza por uma linguagem crua, áspera e por vezes escatológica; uma ou outra descriçãozinha da paisagem de Wyoming suavizando os quadros trágicos e sangrentos. Se havia intenção por parte da autora de tornar a coletânea homogênea, ao menos este propósito foi alcançado com louvor, tanto que a leitura de dois ou três contos (preferencialmente os que eu assinalar) dispensaria sem prejuízo o conhecimento dos demais.

Curiosamente, afora "Brokeback Mountain", os contos que mais me empolgaram não são exatamente fruto da impressionante verve proulxiana. “A rês semi-esfolada” e “O baio puro-sangue” beberam em fontes folclóricas o argumento de seus enredos.

Em “A rês semi-esfolada”, que abre a coletânea, acompanhamos o retorno de Mero à fazenda de sua família após o falecimento de seu irmão Rollo. Ele, um velho octogenário, decide fazer o longo percurso de carro. Enquanto enfrenta diversos obstáculos, recorda o tempo em que vivia na companhia do pai, da madrasta e de Rollo. Aquele súbito regresso, ao passo que evoca difíceis lembranças, dá-lhe a constatação de que, em todo aquele tempo, sua vida sempre estivera ligada àquele lugar.

“O baio puro-sangue” é uma divertida lenda sobre três vaqueiros que encontram o corpo de um homem morto sobre a neve. Um deles, necessitado de calçados melhores, ambiciona as botas do defunto, mas estas estavam congeladas e portanto presas ao cadáver. A solução encontrada é decepar as canelas do morto e esperar que as botas desgrudem delas. Esta circunstância acaba resultando num mal entendido bastante cômico quando os vaqueiros fazem hospedagem na cabana de um velho, dono de um baio puro-sangue que tinha fama de carniceiro.

“Brokeback Mountain”, que encerra o volume, é provavelmente a luz no fim do túnel. Impressionou-me a fidelidade do filme sobre o conto original. Parecia mesmo que estava revendo o premiado longa com o saudoso Heath Ledger. Quem viu o filme pode estar ciente de que o conto não acrescenta grandes novidades, afora um ou outro detalhe. Não estou desmerecendo o trabalho de Proulx com tal observação; na verdade, "Brokeback Mountain" é indiscutivelmente o melhor conto do livro. Nele não temos o excesso de personagens observado em outras histórias, embora a autora persista na minúcia de detalhes; o enredo, de modo geral, é mais substancioso, revelando algum método em sua construção. É um conto que – enfim  certamente teria me impressionado ainda mais se não tivesse visto o filme tantas vezes.

Se descontarmos os incômodos provocados pela leitura de Curto Alcance, sobrará ainda o “prazer” da experiência de entrar em contato com mais uma autora contemporânea, como também o contentamento de rever os amores de Ennis del Mar e Jack Twist em sua concepção primitiva ou original.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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