quinta-feira, 6 de junho de 2019

Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan y Vino), de José María Sánchez-Silva - RESENHA #99


Há livros que, de tão bem realizados, têm um brilho especial, cuja beleza só pode ser entendida através do contato com a obra original. É quando mais me sinto impotente enquanto redator de resenhas: quando me deparo com esses livros cujo valor transcende qualidades literárias. Marcelino Pão e Vinho (1953), do espanhol José María Sánchez-Silva, está nessas condições.

Há uma aura de pureza nas páginas de Marcelino, uma doçura enternecedora que nos cativa desde os primeiros capítulos. Mesmo não sendo cristão, não pude deixar de compartilhar desse entusiasmo que dá a religião aos seus fiéis, essa centelha de esperança que é justamente o que atrai tanta gente às igrejas. A fé, independente de sua natureza, é sempre um argumento comovente.

Temos aqui a história desse garotinho, Marcelino, que foi deixado ainda recém-nascido à porta de um convento de frades. Criado com muito amor pelos religiosos, Marcelino chega à idade de cinco anos com saúde e inteligência. Embora lamentasse a ausência dos pais, vivia em harmonia com seus amigos a quem ele nomeava carinhosamente: frei Dodói, frei Porta, frei Batizo, frei Blém-Blém, frei Então, Frei Papinha, dentre outros. Além desses, mereciam seu carinho o gato Mochito e a cabra que lhe servira de ama de leite. E por último temos Manuel, o garoto que morou nas proximidades do convento por um curto período, mas com quem Marcelino continuava conversando em pensamento.

Sendo criado com bastante liberdade pelos frades, Marcelino era proibido unicamente de entrar no sótão do convento. Afeito a travessuras e movido pela curiosidade, ele planeja com astúcia uma maneira de chegar ao sótão sem que ninguém o veja. Quando finalmente consegue, depara-se com um homem desagasalhado e ferido, faminto e sedento, e que, para sua surpresa, é aparentemente o próprio Jesus Cristo.

Os dois travam um diálogo amistoso e Marcelino providencia pão e vinho para a alimentação de Cristo, como também um cobertor com que pudesse se aquecer. Logo em seguida, um acontecimento extraordinário (que não julgo conveniente revelar) muda o curso da narrativa, que passa a se valer de vários flashbacks intercalados com o tempo presente. Faço um destaque especial às travessuras executadas pelo nosso garoto, especialmente quando tenta converter um “indígena” pelo trabalho missionário rs.

As mensagens evangélicas de Marcelino Pão e Vinho, antes de pregarem uma religião, defendem valores acentuadamente humanos: valores cristãos com os quais simpatizo muito, certamente porque chamam a atenção não para a divindade de Cristo, mas para aquilo que este mais se esforçou por ensinar aos seus seguidores: o amor.

Não é de meu costume concluir resenhas com passagens do livro em questão, mas não poderia justificar de modo mais eficiente minha avaliação neste caso. Leiam e vejam se não tenho razão!

E Marcelino resolveu amar tudo loucamente, pondo-se a ajudar os irmãos da horta, como também a Frei Papinha. Levou capim fresco para a cabra. Subiu para visitar Frei Dodói. E, tomando Mochito nos braços, ficou imaginando como pôr-lhe uma orelha no lugar da que faltava, mesmo que arrancada de outro gato que às vezes aparecia de noite.
Por fim, quando chamaram Marcelino para a ceia no refeitório, onde se sentou, como de costume, diante do Superior, ele se lembrou de tudo aquilo e disse, em plena refeição:
— Padre, estou amando!

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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