sábado, 3 de novembro de 2018

A Corveta Diana, de Antônio Luís von Hoonholtz - RESENHA #83


Antônio Luís von Hoonholtz (1837-1931) foi um importante almirante brasileiro, herói da Guerra do Paraguai, que se dedicou a diversas atividades de relevância nacional, o que lhe rendeu, por exemplo, o título de “barão de Tefé”. É também lembrado por ter sido pai da caricaturista Nair de Tefé, a segunda esposa do presidente Hermes da Fonseca.

Hoonholtz, afora suas mil atividades de fôlego, era ainda um amante das letras, tendo sido um grande leitor de poetas e prosadores nacionais e estrangeiros. Seus entusiasmos literários levaram-no à ousadia de escrever seu próprio romance que, segundo ele, era na verdade uma “memória” de acontecimentos reais. Consciente do pouco valor de sua obra, mantivera-a guardada por dez anos, até que seu irmão José Paulino, o Juca, depois de ler o manuscrito, decidira mandar imprimir o livro sem comunicar nada a Antônio. Ao que parece, o romance intitulado de A Corveta Diana (1873) não chegou a ser comercializado, pois a pequena tiragem que dele se fez foi toda destinada aos amigos mais próximos do autor.

Adepto da escola romântica, servindo-se dos modelos bebidos em Teixeira e Sousa e Joaquim Manuel de Macedo, Hoonholtz nos apresenta uma narrativa sentimental e previsível, mas divertida e agradável. Sua escrita é até bastante cuidada para um homem que não era do meio, o que para mim foi uma grata surpresa. A Corveta Diana é pois o que chamo de passatempo literário, mas que preza por uma linguagem e estilo cativantes. Os únicos entraves que tive durante a leitura foram o jargão náutico utilizado nas cenas marítimas e a reprodução do sotaque português do personagem Jorge.

O romance nos apresenta Amélia, uma bela órfãzinha de dezessete anos, que vive na companhia das irmãs Chiquinha, Quinota e Mariquinhas, esta última casada e mãe de três filhos. As meninas decidiram evitar passeios e divertimentos até que a morte da mãe completasse um ano, sujeitando-se a uma vida monótona e desinteressante. A chegada da corveta Diana naquela sossegada praia catarinense viria tirá-las do tédio.

O comandante Otávio, moço muito simpático, logo dá-se a conhecer e faz a apresentação de seus amigos oficiais: o velho comissário Ricardo, o piloto Gustavo, o escrivão Adriano, o guarda-marinha Fernando, o Dr. Alberto e o segundo-tenente Alfredo, que preferira isolar-se de todos, separando-se das senhoras com um breve aceno. Tal atitude chamara a atenção de Amélia, que imediatamente considerou o moço um orgulhoso.

Nossa protagonista é na verdade uma romântica sonhadora que espera pela chegada de um homem ideal. Desapontada com os oficiais que conhecera, ela sofre uma amarga desilusão que lhe tira o sono. Recostada na janela do quarto, Amélia tem seus pensamentos interrompidos pelo som de uma voz que canta a ária do Ernani. Era Alfredo quem passava e que ganhava, a partir daquele momento, o interesse da jovem. Daí surge uma profunda afeição entre os dois.

Mas como em toda boa história romântica, não poderíamos deixar de ter um vilão horrendo e perverso. Aqui, quem assume este papel é o desprezível Dionísio, que tendo idade para ser pai de Amélia, dirige seus galanteios à bela órfã. Percebendo-se rejeitado em benefício de Alfredo, Dionísio faz uso de suas influências para obter a retirada da Diana. Com a partida do tenente, ele empenha-se em tecer um plano de vingança, objetivando a desonra de Amélia.

Mesmo tendo um enredo tipicamente folhetinesco, o romance de Hoonholtz revela um observador sensível e atento. Para além das fórmulas de segredos do passado que são revelados e passagens apelativas que vão de um matricídio a um quase incesto, o autor nos brinda com cenas cheias de carisma e sensibilidade, como o passeio de Alfredo pelas ruas do Desterro (hoje Florianópolis) ou a conferência íntima onde os oficias trocam confidências pessoais. O capítulo em que Otávio conta a história de seus amores com Julieta e o Dr. Alberto compartilha a sua inovadora teoria de conquista é um verdadeiro tributo a Macedo, de quem Hoonholtz devia ser grande admirador.

Não esperava mesmo encontrar as qualidades que me revelou A Corveta Diana. O almirante provou que, mesmo carecendo de talento estilístico, possuía uma escrita desembaraçada e correntia. Desejei ler seu drama naval A Justiça de Deus, mas não o localizei. Fiquei com esta impressão final de que Hoonholtz devia ser aquele cara sério de casca grossa que encobre um coração generoso, delicado e dócil.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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