sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Ira dos Anjos (Rage of Angels), de Sidney Sheldon - RESENHA #75 (contém spoilers)


As boas experiências que tive com Sidney Sheldon nos últimos anos levaram-me a crer que deveria continuar lendo novas obras do autor. Agora que li A Ira dos Anjos (1980), receio que talvez não tenha tomado a melhor decisão. Esta última leitura me fez compreender melhor o posicionamento da crítica em relação à produção ficcional de Sheldon.

Mesmo encarando o livro o tempo todo como um passatempo, cheguei à conclusão de que isso não o torna menos ruim. Na literatura de entretenimento, como em tudo o mais, haverá sempre o positivo e o negativo. Um mesmo autor pode assinar livros excelentes e péssimos. É natural, pois, que tenha me divertido com O Reverso da Medalha e sofrido para terminar A Ira dos Anjos.

Para começo de conversa, admito que fui enganado pela sinopse, que vendia a história de uma mãe desesperada pelo sequestro de seu filho. Achava que esse seria o ponto central da trama, mas ele só aparece depois da metade do livro e é logo encerrado, dando lugar a outras subtramas. Aliás, este é um livro de mil subtramas. Ao final da leitura, é praticamente impossível lembrar todas as situações narradas, muito menos os diversos cenários e, sobretudo, os incontáveis personagens corriqueiros. Fiquei com a impressão de estar assistindo a uma dessas novelas dramáticas que trazem, dia a dia, diferentes situações para entreter o público.

A protagonista, Jennifer Parker, é uma advogada recém-formada que vai tentar a vida em Manhattan. Após cometer uma imprudência, é acusada de receber suborno, o que acaba com sua carreira antes mesmo de tê-la começado. O leitor logo se compadece dessa mocinha, vítima involuntária da grande máfia, e acompanha as dificuldades de sua vida desde então. Desprezada pelas pessoas e sem oportunidades de exercer a advocacia, Jennifer se submete à realização de trabalhos menores para se manter, até que, por intermédio do Padre Ryan, um amigo seu, toma conhecimento do caso de Abraham Wilson.

Abraham é um homem negro, condenado à prisão perpétua por ter assassinado um comerciante durante um assalto. Na prisão, acaba assassinando outro detento, à vista de mais de cem testemunhas, o que poderá levá-lo à cadeira elétrica. A missão de Jennifer é salvar a vida deste moço com um currículo capaz de fazer inveja a qualquer criminoso. Como se não bastasse ter que lidar com uma defesa dificílima, Jennifer precisa enfrentar neste caso o promotor Robert Di Silva, o mesmo que a acusou anteriormente e que inclusive tentou cassar sua licença profissional. Para surpresa do leitor, ou não rs, Jennifer sai vitoriosa neste caso, numa das passagens mais épicas do livro.

A partir daí, a desprezada Jennifer transforma-se numa celebridade, recebendo as mais atraentes propostas dos maiores escritórios de Nova York. Essas reviravoltas são bem ao estilo do autor. Parecia estar vendo Jamie McGregor após roubar aquele sem-número de diamantes. Mas o problema maior está na romantização exagerada da personagem, que torna-se uma heroína dos tribunais, capaz de vencer todo e qualquer caso que lhe caia nas mãos. É justamente isso o que acontece, dando margem a uma sequência fastidiosa de casos e mais casos, que serão todos resolvidos com sucesso pela nossa heroína. Essas querelas judiciais compreendem boa parte da obra e apresentam vários personagens descartáveis, como os chamo, que são aqueles criados para determinado fim e descartados logo em seguida.

Aqui não poderiam faltar também os lances amorosos e amores impossíveis com aquele toque de sensualidade tão característico do autor. Jennifer acaba se apaixonando por Adam Warner, o advogado que impede a cassação de sua licença. Para deixar tudo mais interessante, Adam, claro, é casado, mas não ama sua esposa, Mary Beth, com quem se casou basicamente por pena. Mesmo tendo escrúpulos reforçados pela lembrança da mãe que enganou o pai, Jennifer cede ao sentimento que ela e Adam compartilham. Mary Beth finge resignar-se e mostra-se disposta a dar o divórcio ao marido, mas pede-lhe uma última noite de amor, com a qual espera ficar grávida para prender Adam. É o que acontece. Que sorte, não rs? Como se não bastasse essa gravidez tão automática, Jennifer fica grávida ao mesmo tempo, mas desiste do amor de Adam, pois não quer prejudicar o amado em sua campanha eleitoral para o Senado dos Estados Unidos.

Para a consolação da bela Jennifer, Sheldon providencia um homem tão atraente quanto perigoso. Trata-se de Michael Moretti, um grande líder de uma das maiores famílias da máfia internacional. Jennifer procura evitá-lo, mesmo admitindo os dotes sedutores do mafioso, mas vê-se obrigada a recorrer a ele quando finalmente acontece o sequestro de seu filho Joshua, levado por um psicopata que pretendia crucificar e queimar vivo o menino. Jennifer dá ordens de que matem o sequestrador. Após o pronto salvamento de Joshua, Michael exige de Jennifer o pagamento que vocês já devem imaginar, que ela também realiza prontamente e de muita boa vontade. Os dois mantêm um relacionamento puramente sexual, mas Michael exige fidelidade, ainda que também seja casado. Jennifer, de sua parte, enaltece Michael enquanto parceiro sexual, por experimentar com ele sensações novas, mas não deixa de amar o pai de seu filho.

Tenho observado essa mania de grandeza que tinha Sidney Sheldon. Ele costuma elevar as situações de suas histórias a uma grandiosidade excepcional. Adam, por exemplo, pleiteia a presidência dos Estados Unidos, além de ser a elevação da nobreza em pessoa. Jennifer é a maior advogada que se possa conceber. Joshua é uma criança inacreditável e encantadora. Michael é um forte candidato a comandar as organizações criminosas em todo o mundo, além de ser uma espécie de deus do sexo. Só um pouquinho exagerado, não acham?

Algumas escolhas do autor também me pareceram contraditórias ou equivocadas. Após sobreviver a uma macabra experiência na passagem do sequestro, Joshua acaba morrendo de um problema decorrente de uma pancada na cabeça. O autor sugere que Michael sente-se atraído por Jennifer de uma maneira especial, mas esse suposto amor não reflete positivamente em nada no seu comportamento, como também não impede que Michael tente matar sua amada nos capítulos finais. Ainda nos movimentados momentos finais, Adam, numa situação extrema, mostra-se arrependido por não ter escolhido Jennifer, mas quando tudo podia-se claramente solucionar entre os dois, ele ainda prefere continuar com Mary Beth.

A impressão que tive ao final do romance foi de que tudo terminou em nada. Foi uma trajetória com algumas emoções, admito, mas que não trouxe nenhuma consequência realmente interessante. Essas mais de quatrocentas e cinquentas páginas fizeram-me lembrar de uma comédia de Shakespeare (que ainda não li), cujo título poderia ter muito melhor servido ao seu autor: Muito Barulho por Nada.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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