terça-feira, 11 de setembro de 2018

Impotência, de João do Rio - RESENHA #76


“Impotência” marca a estreia de João do Rio como ficcionista. O conto apareceu pela primeira vez no periódico Cidade do Rio em 1899, mas o autor preferiu descartá-lo quando da publicação de suas narrativas em livro.

Aderindo à estética naturalista, o conto apresenta um narrador impessoal, responsável por mostrar ao leitor os dilemas de Gustavo Nogueira, um homem rico que permanece virgem aos setenta anos. No tempo presente do conto, nada efetivamente acontece. A narrativa, pois, dá-se a partir das lembranças do protagonista que, sentado no divã de sua biblioteca cor-de-rosa, rememora os episódios de sua existência vazia.

Gustavo é um ser apático e inativo. Há como que uma debilidade constante em todos os seus gestos, o que o torna impotente moral e fisicamente. Essa maneira de ser está diretamente ligada à incompreensão de sua sexualidade. Gustavo não consegue se integrar às convenções da sociedade à qual pertence. Ele sente-se inevitavelmente atraído por homens, mas, em se tratando de mulheres, precisa provocar situações que proporcionem um contato íntimo, situações estas que terminam – todas elas – em frustração, porque lhe faltava “jeito para a cousa”.

Ao longo do conto, o narrador vai dando pistas referentes à homossexualidade de Gustavo, mas insiste em tratar o assunto com reserva. É como se fôssemos visualizando o caráter do personagem através de um vidro fosco, o que nos impede de precisar diversos detalhes. Resta ao leitor lançar hipóteses, por exemplo, sobre a relação entre Gustavo e Euzébio, poeta e amigo de academia. Este convence o outro a viver numa casa nova, elegante e toda cor-de-rosa, mas ao final apenas a biblioteca teria aquela cor. A constante presença de Euzébio, a partir daí, sugere que os dois dividiam a nova casa, ainda que não fique absolutamente claro se era isto ou se o companheiro de Gustavo era apenas um grande frequentador da idealizada biblioteca rosa.

O que se compreende indiscutivelmente é que Gustavo é um homem virgem, enquanto Euzébio denomina-se um “devasso” que acredita – ou prefere acreditar – que o amigo pertence à mesma categoria. Aos trinta anos, Gustavo atribui sua inatividade ao fato de manter-se virgem, por isso decide preparar uma ceia licenciosa com algumas mulheres, no propósito de consumar o ato sexual. O plano não vinga e Gustavo acaba desculpando-se, alegando estar doente. Também merece atenção sua surpresa ante o entusiasmo de Euzébio com a orgia.

O que, por outro lado, não é mencionado é se Gustavo teria feito as mesmas tentativas com alguém do mesmo sexo. As circunstâncias e a repressão social de seu tempo poderiam certamente tê-lo dissuadido de tal ideia. Já na adolescência, quando apaixonado pelo jardineiro “forte e musculoso”, ao ponto de pensar em chamá-lo para junto de si, era impedido pelo medo de manifestar suas emoções. É essa homossexualidade reprimida e mal compreendida que tanto atormenta o protagonista, inutilizando-o para tudo e enchendo-o de ideias suicidas.

O conto de João do Rio provavelmente revela muito de seu próprio sofrimento diante da não aceitação das pessoas em relação à sua orientação sexual. O autor parece querer compensar suas ideias veladas com a linguagem pretensiosa de um estreante, utilizando termos bastante incomuns e chamativos. A meu ver, o argumento poderia ter sido melhor desenvolvido num romance, onde seria possível esclarecer tantas lacunas acumuladas, como o relacionamento conflituoso do protagonista com os pais e a relação ambígua entre Gustavo e Euzébio. Fiquei com esta impressão final de que “Impotência” era na verdade um intricado rascunho que seu próprio autor temia revisitar.

Avaliação: ★★

OBSERVAÇÃO: Impotência ganhou sua 1ª edição em livro este ano pela editora “O Sexo da Palavra”. Pode ser adquirido pelo site (https://www.osexodapalavra.com/) ou na página do Facebook da editora (https://www.facebook.com/osxdapalavra/).

Daniel Coutinho

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