quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Monge (The Monk), de Matthew Gregory Lewis - RESENHA #40



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O Monge (1796), do inglês Matthew Gregory Lewis, é um dos romances mais bizarros que tenho lido nos últimos tempos. Publicado nos fins do século XVIII, causou grande alvoroço no público, não exatamente pelo estilo gótico já difundido na época, mas pela ousadia do autor na forma como critica a igreja católica e apresenta cenas que compreendem desde estupro a rituais demoníacos.

A princípio, supunha que teria alguma dificuldade com o texto, tal como tive com Os Mistérios de Udolpho, mas, felizmente, O Monge é desprovido de todo aquele paisagismo obsessivo da Ann Radcliffe. O livro não é isento de defeitos. O autor atém-se a inúmeros pormenores, sendo muito minucioso e detalhista no ato de narrar, mas sua linguagem é fluida e corrente, sem apresentar grandes obstáculos de compreensão. A escrita de Lewis é quase sempre objetiva e direta, sem apresentar grandes preocupações com a forma, de maneira que O Monge carece de um texto mais bem trabalhado ou uma linguagem melhor lapidada.

Não me senti cativado pela escrita ou forma textual dessa obra, mas pelos temas inusitados e artifícios folhetinescos, porque, sim, O Monge tem todos os ingredientes de um bom folhetim: paixões proibidas, mocinhas indefesas, vilões desalmados, prisões, incêndios, raptos, fugas, envenenamentos e, é claro, reviravoltas surpreendentes. Foi um prato cheio para mim, um amante do folhetim, mas como nem tudo são rosas, O Monge é um folhetim atípico, uma vez que não se destaca pela leveza, mas sim pelo peso das cenas, pelo grotesco das situações, pelo horror dos crimes, pela vilania e vícios de seus personagens.

O livro é mesmo uma crítica mordaz à igreja católica. Que fique claro que o objetivo do autor não é criticar a religião, mas aqueles que a compõem: desde as autoridades religiosas até os mais pequenos devotos. Aliás, o começo do livro já traz uma crítica bem-humorada a estes últimos, quando o narrador aponta os reais motivos dos fieis de lotarem a igreja: “As mulheres vinham para se exibir, e os homens para vê-las; alguns haviam sido atraídos pela curiosidade de ouvir um orador tão célebre; outros, porque não tinham nada melhor para ocupar seu tempo [...]” (pág. 5).

Se por um lado, os devotos têm sua fé movida por motivos fúteis, as autoridades religiosas são seres desprovidos de piedade, implacáveis para com as falhas humanas, sedentos por ocasiões que lhe permitam demonstrar todo o rigor de sua austeridade. Além do mais, são mentirosos, hipócritas, enganadores, cruéis e falsos moralistas. Diante deste exame, é bem compreensível o fato de que O Monge foi bastante atacado pela censura, tendo sofrido várias modificações até alcançar a forma que hoje conhecemos.

O romance se concentra em dois planos narrativos: a história de Ambrósio e a história de Dom Ramón. A primeira acaba sendo a principal, mas é bem verdade que o autor se ocupa de ambas quase por igual. Eis outro detalhe que me incomodou: essa importância dada à história de Ramón. Não que a mesma seja ruim, mas, por diversas vezes, o leitor se impacienta para voltar ao plano principal, que é o de Ambrósio. É como se fossem dois romances num só rsrsrs E, de fato, é isso mesmo. Vale lembrar que, quando adaptado para o teatro, apenas a história de Ramón foi levada à cena. É escusado dizer que, mesmo compreendendo planos narrativos diferentes, as duas histórias têm pontos comuns personificados principalmente na figura de Lorenzo.

É tarefa difícil resumir tudo o que se passa n’O Monge; por isso, vou me limitar a contar apenas o mote das duas histórias, uma vez que ainda tenho algumas considerações a fazer.

Ambrósio é o monge superior do mosteiro dos capuchinhos. É modelo de virtude e santidade para toda a Madri, sendo venerado e festejado pelo público espanhol. Suas origens são um tanto obscuras, tendo sido abandonado às portas do mosteiro quando era ainda um bebê. Tendo atingido a idade exigida pela ordem, professou seus votos e tornou-se o monge mais exemplar, privando-se inclusive de cruzar os limites da igreja, não saindo jamais das dependências sagradas.

De antemão, o autor nos dá pistas do verdadeiro caráter de Ambrósio. Percebemos que, mesmo cultuado por todos, ele já carrega em si dois vícios: a vaidade e o orgulho. A postura austera tomada por Ambrósio desde sempre não era movida por sentimentos desinteressados. O monge orgulhava-se demasiadamente ao se sentir superior às outras pessoas: vãos pecadores condenados a expiar seus erros. Os louvores consagrados aos seus sermões, assistidos por multidões cada vez maiores, excitavam sua vaidade descontroladamente. Ambrósio acreditava-se isento de vícios, mas era consciente de que, para ele, era mais cômodo fugir ao pecado que enfrentá-lo e resistir à tentação. Quem acenderá esses pensamentos nele é Agnes, personagem do outro plano narrativo (já que chego lá!).

Agnes é freira do convento de Santa Clara. Após confessar-se com Ambrósio, acaba deixando cair uma carta de Dom Ramón, seu amante, que é logo entregue à abadessa. Ainda que Agnes tenha suplicado pela compaixão do monge, o mesmo é implacável, não se compadecendo dela e da criança que esperava. Esse momento é fulminante na obra. É quando Agnes amaldiçoa o monge, asseverando-lhe de que ele também um dia suplicaria pelo perdão, e este lhe seria negado. Ambrósio, de fato, fica profundamente abalado com tais palavras, principalmente quando Rosário, seu noviço de confiança, revela-se uma mulher tentadora: Matilda, identidade que é ocultada de todos os outros monges; e quando vê-se tentado a possuir a bela Antonia, moça ingênua que aproximou-se do monge para que ele pudesse interceder por sua mãe enferma. Ambrósio, finalmente, passará por algo inédito em sua trajetória monástica: terá de enfrentar/resistir o pecado. Conseguirá sair ileso?

Na narrativa paralela, temos Dom Ramón, um jovem rico que, após concluir seus estudos, decide fazer viagens pelo mundo, ocultando seus títulos de nobreza, a fim de obter experiência de forma imparcial. Nesse itinerário, ela passará por maus bocados, dando ao livro um caráter plenamente folhetinesco. As aventuras de Dom Ramón formam um episódio à parte, com todos os seus bandidos, lutas sangrentas e almas do outro mundo. Lewis aproveita dois mitos populares de seu tempo: o judeu errante e a freira sangrenta, para tornar sua história ainda mais inusitada. Nesse cenário de aventuras, Dom Ramón acaba salvando a baronesa de Lindenberg e travando, por conseguinte, relações com sua família. É quando finalmente ele conhece a bela Agnes, que estava sob a tutela dos tios, pois seus pais pretendiam torná-la freira, para cumprirem uma promessa. Ramón decide fugir com Agnes, mas encontrará muitos obstáculos, sendo o mais forte deles a resistência da baronesa que desejava abandonar o marido para ficar com Ramón. Bem rocambolesco, não? O caso é que, como já ficou evidente pelo que contei na história de Ambrósio, Agnes torna-se freira do convento de Santa Clara, mas Ramón não desistirá de resgatá-la da terrível abadessa que está preparando o mais terrível dos castigos para punir a falta de Agnes descoberta por Ambrósio.

O Monge é um livro incrível, especialmente pela quantidade estupenda de ingredientes concentrados. É uma obra completa que traz um pouco de tudo. É como se o autor apostasse em vários artifícios para seduzir o máximo de leitores. Contudo, isso mesmo foi o que deixou o livro um tanto saturado de matéria. Quando você pensa já ter visto de tudo, o autor ainda surpreende com as pavorosas cenas finais. Não lia cenas tão assustadoras desde O Exorcista, sendo que n’O Monge, o tratamento dado ao diabo é ainda mais medonho, principalmente quando você percebe que ele também sempre foi (não só no final, como parece) um personagem ativo na trama.

É preciso ter nervos para acompanhar as cenas de terror, estômago para as cenas de horror, paciência para suportar as minúcias da trama paralela, coração saudável para resistir a tanto sofrimento e um autocontrole bastante eficiente para não desistir da leitura rsrsrs. Mas acreditem: vale muito a pena! É uma experiência que vai te fazer pensar em mil coisas, não exclusivamente humanas, mas sobrenaturais também. Assim, se você tiver uma espiritualidade um tanto aflorada como eu, também não sairá ileso ao terminar esse livro.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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