segunda-feira, 20 de junho de 2016

O Homem que Calculava, de Malba Tahan - RESENHA #17



Não entendo muito de Matemática e, pra falar a verdade, nunca fui grande simpatizante dela. Contudo, há bastante tempo, vêm me recomendando este livro de Malba Tahan: O Homem que Calculava (1938). Já ouvi maravilhas dele, especialmente dos colegas matemáticos. Como já o tinha na minha Coleção Saraiva (que merece um post especial, como o que fiz à minha coleção Os Clássicos da ABC Editora), não me custou muito realizar a leitura que finalmente fiz. E sim! Tenho que concordar com meus colegas. Esse livro é mesmo genial!

Antes de mais nada, é necessário esclarecer, para quem não o saiba, que Malba Tahan é um heterônimo do carioca Júlio César de Melo e Sousa (1895-1974). Júlio chegou a escrever uma biografia de seu heterônimo e, por muito tempo, as pessoas acreditaram que Malba Tahan realmente fosse um velho árabe contador de lendas orientais. Interessante que após ter-se revelado, Júlio ganhou do presidente Vargas a inserção do nome Malba Tahan em seu registro de identificação. Embora tenha assinado várias obras como Malba Tahan, O Homem que Calculava foi a única que ficou “a salvo das vassouradas do Tempo”, conforme previra Monteiro Lobato.

O Homem que Calculava traz à tona a eterna discussão dos gêneros. Será romance, novela ou uma simples reunião de estórias? Se optarmos pela linha de pesquisa de Massaud Moisés, entenderemos O Homem que Calculava como novela, por apresentar uma sequência de narrativas interligadas por um grupo de personagens. Mas a verdade é que o conceito mais difundido e que, portanto, acaba sendo o mais aceito, é o de que “novela” constitui um intermédio entre o “conto” e o “romance”. Baseando-me então pela maioria, vou chamar O Homem que Calculava de romance, ok?

Por sua vez, o romance tem lá suas classificações. O Homem que Calculava certamente é um romance didático, principalmente por ser uma obra que objetiva mais instruir que provocar sensações puramente artísticas. Essa instrução, nem preciso dizer, é referente à Matemática. Malba Tahan explora a história, as ramificações, os grandes matemáticos da história e até a filosofia dessa ciência. Claro, ele não poderia ficar apenas na teoria; por isso, realiza a prática através de vários problemas numéricos, muitos deles de puro raciocínio lógico. O livro é repleto de curiosidades sobre números e lendas que envolvem a Matemática, como a origem do jogo de xadrez. Mesmo sendo um livro de pouco mais de 200 páginas, contempla grande porção de ensinamentos, explorando o conhecimento de uma forma bastante dinâmica e divertida.

Você deve estar se perguntando se esse negócio tem enredo ou se é só um livro de Matemática. Sim, tem; mas posso asseverar que o enredo aqui está em segundo plano, até porque, como já disse, o objetivo maior é transmitir noções matemáticas. Desafio qualquer leitor a descascar O Homem que Calculava de todas as suas lendas e problemas numéricos, para identificar o que sobra. Certamente, sobra um enredo fraquíssimo. Sem tirar o mérito do livro, penso que se Malba Tahan tivesse equiparado o plano literário ao didático, sua obra seria muito melhor. Em outras palavras, julgaria mais acertado que a Didática fosse o artifício, e não a Literatura.

O romance é narrado por Hank-Tade-Maiá, que seguindo tranquilamente em seu camelo no caminho de Bagdá, encontra um homem estranho sentado numa pedra, como que em meditação, pronunciando números gigantescos. Esse estranho é Beremís Samir, o homem que calculava. Hank (vou chamá-lo assim) fica impressionado com a incrível capacidade de Beremís em contar desde folhas de árvores à quantidade exata de letras pronunciadas num discurso. Por isso, Hank convence Beremís a acompanhá-lo a Bagdá, onde o engenho do calculista, além de ser justamente aproveitado, poderá render-lhe muitos benefícios profissionais.

Beremís, de fato, com sua capacidade inacreditável de calcular, pouco a pouco, vai realizando grandes conquistas ao longo de todo o livro. Sua agradável maneira de contar estórias e lendas relacionadas à história da Matemática conquista muitos amigos e inimigos também. Não vou contar aqui as estórias, que são muitas, mas posso assegurar que são deliciosamente narradas. A força do livro está justamente nessa aura lendária que, mesmo não passando de artifício para a instrução, não deixa de ser encantadora. Outro ponto forte está na instrução moral que também é apregoada ao longo do livro, visivelmente influenciada pela doutrina cristã, ainda que com essa enganosa capa islâmica. Assim, confesso que me diverti pra caramba com O Homem que Calculava, que me foi sobretudo útil no conhecimento da Matemática. Consegui até resolver alguns problemas antes de ler a resolução do Beremís, como aquele que envolve um hospedeiro e um joalheiro. Sei que pra quem entende de cálculo é uma bobagem, mas para mim, foi a glória! rsrsrsrs.

O curioso é que cotejei minha edição (Saraiva, 1949) com uma daquelas mais atuais, da editora Record, e percebi que há muitas diferenças. O pior é que não encontrei nenhuma explicação quanto aos acréscimos e omissões das novas edições. Fiquei na dúvida se as alterações foram feitas pelo próprio autor, porque a edição não traz nenhuma nota explicativa a esse respeito. Quem souber de alguma coisa, por favor, me ajude a resolver esse mistério rsrsrsrs. O pior é que as diferenças, embora não alterem basicamente o conteúdo principal, são muitas e perceptíveis ao longo de todo o livro. O que mais me impressionou é que foi excluído o capítulo em que Beremís explica a relação entre o número 40 e a lenda de Ali Babá e os Quarenta Ladrões, de maneira que a edição da Record tem 34 capítulos, ao invés de 35 (conforme a que li). Os títulos dos capítulos, em muitos casos, também aparecem com algumas diferenças. Enfim, não cotejei todas as divergências, até porque precisaria ler o texto integral dessa outra edição e, sinceramente, não estou interessado. Também não vou afirmar que a edição da Record é infiel ou adulterada, mas ainda prefiro a minha, uma vez que foi publicada em vida do autor.

Fica a dica de um livro fantástico, obrigatório para quem gosta de Matemática, divertido ainda para quem não gosta, e que, mesmo sendo mais didático que literário, vale sim muito a pena ler!

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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