segunda-feira, 13 de junho de 2016

A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne - RESENHA #16



Todo mundo já deve ter ouvido falar em Júlio Verne e no seu apreciado livro A Volta ao Mundo em 80 Dias. Lido por pessoas de qualquer faixa etária, o público desse francês do século XIX é bastante amplo e diversificado. Eu, particularmente, nunca (mas nunca mesmo) ouvi alguém falar mal da obra do Verne. Desde criança, deparava-me com títulos como Vinte Mil Léguas Submarinas, Viagem ao Centro da Terra e A Ilha Misteriosa. Só mais tarde, porém, é que pude associá-los ao nome do seu autor, e quando vi a relação de toda sua obra... Sem palavras! A grande quantidade aliada à grande qualidade é o que mais surpreende.

A verdade é que só agora, aos quase 25 anos, é que vim de fato ler Júlio Verne (inveja de quem o leu desde a infância! rsrsrs). Como costuma acontecer comigo, criei certa expectativa em relação a ele. Como sempre associei mentalmente Júlio Verne a aventuras e movimento, imaginava que suas obras não passavam disso, e que o seu mérito maior estaria na qualidade dos enredos. Até que acertei, parcialmente, mas ao ler A Volta ao Mundo em 80 Dias, descobri não apenas um autor de grandes aventuras, mas um verdadeiro gênio da Literatura Universal. Que cara mais incrível foi Júlio Verne! Definitivamente, lamento muito não tê-lo lido antes. E se o restante de sua obra for tão bom quanto esta primeira que li, é porque esse autor é realmente uma lenda!!!

A princípio, preciso confessar que fiquei encantado com o estilo irônico e humorístico empregado por Verne até nos títulos dos capítulos. Minha leitura teve início com um sorriso no rosto, intercalado com boas gargalhadas. Foi minha primeira surpresa. Esperava aventura, tive comédia. O que ocorre é que antes de dar início às fabulosas aventuras do livro, o autor faz uma espécie de prólogo para explicar os motivos que levaram o seu protagonista a realizar a tal jornada de volta ao mundo.

Phileas Fogg, homem inglês, é um cara involuntariamente engraçado. Figura séria e recatada, nada é capaz de lhe abalar. Seu gesto é sempre impassível diante de qualquer acontecimento e, durante todo o livro, só o vi exaltado umas duas vezes no máximo. O engraçado está justamente na forma despreocupada como ele age, a tal ponto, que se lhe dissessem que o mundo estaria prestes a acabar, provavelmente, ele diria algo como: “— Sério? Que pena!”, sem nenhum assombro. Sem esposa e sem filhos, ele tem uma vida tranquila e pacata em sua residência na Saville-row. Mesmo tendo fortuna, não faz o mínimo esforço para chamar atenção, e todos os seus movimentos são metodicamente calculados, de maneira que ele não dá um passo a mais sem haver necessidade. A incapacidade de seu criado de atender a essa rigorosidade de horários e minuciosos detalhes acaba decidindo Mr. Fogg a trocá-lo por outro mais atencioso.

Jean é esse novo criado: uma figura ainda mais cômica que o próprio Fogg, mas voluntariamente mesmo rsrsrs. Francês da gema, é conhecido por Chavemestra, pois tem uma impressionante habilidade para sair-se de encrencas. No original, o apelido é Passepartout. Em outras traduções, Chavemestra é denominado de Fura-Vidas, que é até mais engraçado, mas gostei da escolha da minha edição justamente por ser mais fiel. Após uma vida tumultuada em que exerceu várias profissões (cantor, dançarino, professor de ginástica... rsrsrs), Chavemestra está decidido a ter uma vida menos atribulada. Assim, ao tomar conhecimento que Fogg, o sossego em pessoa, precisava de um novo criado, ele logo se apresenta e é admitido. Chavemestra, ao inteirar-se dos horários regrados e estilo metódico do seu novo senhor, ao invés de embaraçar-se, fica fascinado e sente-se bastante satisfeito.

Mesmo sendo o mais reservado dos homens, Phileas Fogg é integrante do Reform-Club, ambiente destinado a nobres cavalheiros da sociedade inglesa. Mas o interesse de Fogg não está exatamente na conversação amigável e interessante, mas na companhia para jogar whist, jogo no qual é viciado. Contudo, enquanto os cavalheiros lançam cartas na mesa, não conseguem evitar aquele velho dedo de prosa rsrsrs. O assunto da vez é o assalto ao Banco da Inglaterra. Todos comentam sobre onde possa ter se refugiado o ladrão que, àquela altura, ainda não fora encontrado. No meio da conversa, surge a ideia de que em pleno ano de 1872, com os inúmeros meios de transporte disponíveis, é bem possível a um homem fazer a volta ao mundo em três meses. Ao ouvir aquilo, Phileas Fogg, movido pelo seu instinto matemático de ser, não resiste a dizer que, na verdade, para uma volta ao mundo, não seriam precisos mais que 80 dias. Os companheiros de Fogg persistem em desacreditar em tal probabilidade, uma vez que, na prática, muitas circunstâncias poderiam atrasar uma jornada como aquela. Sentindo-se desafiado, Fogg combina uma aposta de vinte mil libras, decidido a partir naquela mesma noite, às 8:45h do dia 2 de outubro, e regressar justamente ao Reform-Club às 8:45h do dia 21 de dezembro, 80 dias depois.

Quando Chavemestra é informado que seu novo senhor pretende fazer um lindo passeio de volta ao mundo, nem preciso dizer o grande susto que tem. A princípio, ele pensa ser uma brincadeira, mas quando percebe que o negócio é sério mesmo, desespera-se, mas resigna-se a partir naquela arriscada empresa. A partida de Phileas Fogg deixa Londres bastante agitada e várias pessoas começam a apostar sobre o sucesso ou fracasso que ele poderia ter em sua jornada. No entanto, quando aparece uma caricatura de Mr. Fogg no jornal, nota-se uma grande semelhança com o retrato feito do tal bandido que assaltou o Banco da Inglaterra. O detetive Fix imediatamente segue o rasto de seu suspeito, acreditando que a tal viagem de volta ao mundo não passara de uma desculpa esfarrapada de Fogg para fugir do país. Assim, Phileas Fogg e seu fiel escudeiro (não tem como não lembrar D. Quixote) seguem o perigoso itinerário de volta ao mundo, descrentes sobre os muitos obstáculos que o detetive Fix colocará pelo caminho, até finalmente conseguir um legítimo mandado de prisão, que além de significar a captura, poderá resultar na perda da aposta e, por conseguinte, toda a fortuna de Mr. Fogg.

Não pensem que contei muita coisa. Na verdade, só contei mesmo o que chamo de prólogo, ou seja, os acontecimentos que desencadearam a narrativa. A Volta ao Mundo em 80 Dias é obra bastante heterogênea, pois não se limita somente às aventuras de Mr. Fogg e Chavemestra. O autor percorre tantas áreas do conhecimento que, não poucas vezes, senti-me leigo quanto aos assuntos tratados: história, geografia, sociologia, política, religião e muitos outros. A obra de Júlio Verne, como já deu pra perceber, é riquíssima de conhecimento, sem deixar de ser empolgante e divertida através do fascinante enredo. A leitura suscita tantas considerações e tantos pensamentos, que é meio difícil abarcar numa resenha todo o colossal engenho empregado por Júlio Verne. É obra mesmo digna de estudo e com muito pano pras mangas rsrsrs. Além dos vários campos do conhecimento percorridos, o autor muda muito o estilo do próprio texto. Ora a narrativa é mais fluida e concentrada nas peripécias do enredo, ora traz um modo mais sarcástico e irônico de narrar, ora pinta cenas engraçadas, ora comove o leitor com tragicidades arrepiantes... e por aí vai! No mais, junte isso à riqueza de costumes abordados dos mais diversos povos de vários países, ao longo da jornada de um homem excêntrico, que não está disposto a fazer turismo, mas a rodar o mundo em 80 dias, que você terá alguma noção do que é esse livro! Será que ele vai conseguir? De antemão, sem dar spoiler, já advirto que o final desse livro não é nada previsível; ao contrário, compreende uma inusitada surpresa num dos desfechos mais bem elaborados que já li na vida.

Como ninguém é perfeito, percebi que a fraqueza de Verne está na construção das figuras femininas. O livro possui uma única personagem feminina importante, Mrs. Aouda, que merecia mais espaço e uma melhor elaboração, uma vez que, ao final de tudo, terá um importante papel. Infelizmente, o autor não lhe deu a atenção e o cuidado devidos, talvez por ser esta mesma sua fraqueza, conforme já citei. Contudo, lendo Júlio Verne, esquecia-me de que lia um autor do século XIX. Percebi o quão à frente do seu tempo ele estava, não só por ter antecipado uma porção de invenções inexistentes em sua época, mas por criar um estilo tão original que influenciou consideravelmente a literatura do século XX e, por que não dizer, a atual também.

Avaliação: ★★★★★
Daniel Coutinho

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