segunda-feira, 7 de março de 2016

Três Peças Escolhidas, de Eduardo Campos - RESENHA #6



Eduardo Campos foi um notável escritor cearense, sobretudo na dramaturgia, onde mais se destacou. Era conhecido por Manuelito e, dentre as importantes funções que exerceu, foi presidente da Academia Cearense de Letras. Nunca tinha lido nada dele e, pra falar a verdade, não o conhecia até 2012, quando ganhei o livro Três Peças Escolhidas.

Confesso que adoro teatro. Não estou falando exclusivamente do espetáculo em cena, mas do contato com o texto teatral, uma forma literária bastante peculiar. Acho, inclusive, o talento de dramaturgo especialmente louvável, uma vez que o considero mais complexo que o do romancista, dadas as limitações impostas à obra teatral, que não pode prender-se tão somente à arte da palavra, mas ao resultado que será exibido no proscênio.

Três Peças Escolhidas reúne as peças mais aplaudidas de Eduardo Campos, desde a década de 60, quando foram encenadas pela primeira vez (com exceção da terceira). O Morro do Ouro, A Rosa do Lagamar e A Donzela Desprezada são dramas urbanos que tencionam denunciar os males sociais da capital cearense da segunda metade do século XX. São obras de desigual valor que possuem em comum o tema da desonra da mulher. A linguagem do dramaturgo oscila entre a linguagem formal e a popular. Ele não possui aquela forma genuinamente carregada de regionalismos, cultuada por Rachel de Queiroz. O ritmo da ação é um tanto lento, principalmente em A Donzela Desprezada. O texto teatral não define divisões de cenas, como se cada ato correspondesse a uma cena única, onde entram e saem personagens constantemente. As três peças estão divididas em três atos. Passemos à análise individual de cada uma delas.

O Morro do Ouro concentra-se na favela que dá título à peça, preocupando-se em mostrar a vida miserável de seus moradores, através de tipos como: o contrabandista, a prostituta, o cambista bêbado, etc. Nela, temos Madalena, a amante do Zé Valentão, pequeno contrabandista. Sabendo que sua mãe Elvira está prestes a visitá-la, Madalena preocupa-se em arrumar a casa e afugentar o amante, para que sua mãe nada descubra de sua vida de mulher rameira. A influência religiosa de Elvira começa a intervir visivelmente na vida da filha e dos seus vizinhos, o que deixa Zé Valentão irritado e disposto a recuperar a Madalena frívola e devassa de antes. É uma peça agradável de ler, embora transcorra de forma lenta e possua um final inconcluso que não satisfaz o leitor e, creio eu, muito menos o expectador.

A Rosa do Lagamar é mais fluida, mais dramática e a melhor das três. É a mais triste também. Ela nos apresenta Rosa, uma mulher trabalhadora cujo marido, Crispim, há dez anos partiu como embarcadiço de guerra. Rosa abandona sua humilde vivenda no Lagamar e vai viver na Aldeota com a filha Maria Galante. Para a desgraça de Rosa, Maria se envolve com um homem casado; Crispim regressa feito um bêbado mulherengo; e, finalmente, descobre que sua casa foi construída em terreno municipal que logo deve ser transformado em rua. Sua reação diante das dificuldades dá uma cena comovente e surpreendente. Ao ler esta peça, parecia ver o espetáculo, que me pareceu tocante, além de provocar indignação. Espetacular!

A Donzela Desprezada é outro drama que provoca indignação, mas com ironia e requintes de humor. É, contudo, a peça mais fraca do livro. Penso que o próprio Eduardo Campos concordaria comigo, visto que engavetou a obra por trinta anos. Além de trazer um enredo lento e maçante, os personagens não constituem tipos verossímeis ou convincentes. Amelinha é desonrada pelo namorado Edmundo, mas consciente de que possui tanta culpa quanto ele. A princípio, está disposta a assumir sua responsabilidade no caso, mas sua mãe faz pressão para denunciar Edmundo às autoridades, convencendo a filha a alegar menoridade e se fazer de vítima. A polícia em parceria com a imprensa vislumbra a possibilidade de um escândalo digno de primeira página, o que entusiasma Amelinha que acaba criando uma porção de mentiras só para chamar atenção. Quando a cartomante Lolita supostamente morre, Amelinha sente o desprezo da imprensa que já esqueceu seu caso; por isso, está disposta a inventar uma nova mentira só para voltar a ser o centro das atenções. O caráter inconstante de Amelinha e sua mãe, ao longo da peça, faz delas meros fantoches nas mãos do dramaturgo desta malograda comédia dramática.

À parte seus defeitos, este livro proporciona leitura agradável e divertida. O estilo de Eduardo Campos é leve e simples, prezando pelas situações cotidianas e triviais de seus conterrâneos. Os diálogos são o mais simples possível e, se não trazem a veracidade linguística da autora de O Quinze, não deixam de ter aquele sabor coloquial e descontraído. O que também incomodou a leitura foram os inúmeros erros tipográficos da edição, o que mais uma vez prova a importância que tem o trabalho do revisor num projeto editorial.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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