segunda-feira, 21 de março de 2016

Iraguacy, a Morena Índia do Sertão, de Angélica Sampaio - RESENHA #7



Acho que todo mundo que vê a capa desse livro, pensa logo em Iracema. A verdade é que eles se assemelham em alguns aspectos “intencionais”, porque em termos de consumação, essa Iraguacy está bem aquém da obra-prima de Alencar. Vamos entender o porquê.

Iraguacy, a Morena Índia do Sertão (2001) é o primeiro romance da cearense Angélica Coelho Sampaio, que antes já havia publicado Êxtase, um livro de poesia. Com esse romance, Angélica quis, como Alencar, cantar sua terra natal, mas foi mais específica ao focar seu município natalício: Quixadá, o berço de nossa memorável Rachel de Queiroz. Angélica baseou-se em lendas da sua cidade, principalmente as que dizem respeito aos pontos turísticos da mesma, como: Pedra da Galinha, Gruta do Magé e Barriguda (que é uma árvore espinhosa pelo que entendi). Achei bacana a ideia ou intenção da autora. A maneira, contudo, como ela conduziu a trama fictícia (que é fraquíssima) é que não foi muito feliz.

A princípio, o leitor depara-se com um enredo simplicíssimo, meio enfadonho até. Sei que romances indianistas são taxados de enfadonhos, mas quando você lê Ubirajara, por exemplo, passa a não dar crédito a essa crença. Iraguacy apresenta a tribo andarilha dos quixaras, que foi baseada na extinta tribo tapuia dos quixarás ou quixadás (de onde provém o nome do município Quixadá). Essa tribo (a do livro) crê na profecia de que vão encontrar uma terra prometida onde fixarão sua aldeia e que se chamará Vale das Pedras. O pajé Magé, pai de Iraguacy, conduzirá a tribo até o desejado solo (que é Quixadá). Lá, ele decide casar a filha com o guerreiro Japê, mas antes precisa que ela faça parte de um ritual que lhe trará visões sobre o destino dos quixaras. Iraguacy tem uma visão nada agradável e prefere guardar silêncio, confiando o segredo unicamente a seu amado Japê. No entanto, para que os dois se casem, é necessário que Iraguacy revele o trágico segredo.

Preferi deixar algumas lacunas para não desgostar alguém que pretenda ler o livro que, adianto, não é de grandes surpresas. Mas vou explicar agora os problemas que vi em Iraguacy. Considero o “fazer um romance indianista” uma tarefa ousada por sua complexidade. Não basta fazer uma pesquisa para fazer obra desse gênero. É necessário impregnar a história de um indianismo convincente, o que não é possível inserindo apenas ocasionalmente um ou outro termo indianista. A linguagem de Iraguacy destoa da situação narrada. Os índios de Angélica Sampaio têm uma linguagem muito contemporânea para serem situados no período pré-colonial. Daí, alguém pode dizer que nenhum escritor, nem mesmo Alencar, traduziu com veracidade essa linguagem indígena. Não me refiro, contudo, a uma fidelidade autêntica da linguagem, mas a uma forma mais condizente ou mais aceitável para indígenas, sobretudo na fala dos personagens. Mas espere aí, inconformado leitor, que vou comprovar o que estou dizendo. Para tanto, leia o trecho a seguir, que é a passagem em que o pajé Magé reúne os quixaras para contar o sonho profético da terra prometida.

“— Ontem fui consagrado a ter a honra dos espíritos da visão e a ver a nossa terra esperada. Amanhã mesmo iniciaremos os preparativos para a caminhada. Nas visões aparecem um vale de pedras no centro desse sertão. São formas estranhas e colossais que protegem as terras desse lugar. E nós, os Quixaras, fomos designados a proteger esse solo do qual seremos senhores por muito tempo. Lá, encontraremos a Árvore Sagrada, uma caverna em forma de oca em meio aos lajedos e uma enorme galinha de pedra que impera no meio de tantas rochas.” (Iraguacy, págs. 27-28).

Percebam a formalidade da linguagem! De fato, não se encaixa com um velho índio, ainda que seja um sábio pajé. Também incomoda a inserção de referências a coisas que os indígenas desconheciam, como “galinha”, conforme o próprio prefaciador do livro, Batista de Lima, menciona. Os vários erros tipográficos e até de concordância comprovam que a revisão foi falha, o que, a meu ver, compromete bastante a integridade da obra.

Mas todos esses senões devem fazer pensar que nada vi de bom em Iraguacy. Felizmente, vi sim. Embora a leitura tenha sido um tanto desagradável no começo — em capítulos curtíssimos, com acontecimentos nada empolgantes — após a visão de Iraguacy, a obra funciona melhor, mais imprevisível, até mais poética. O final, sobretudo, embora sem originalidade, conclui o livro numa frase bonitinha que tem tudo a ver com a proposta da autora de cantar uma lenda de sua cidade.

“Hoje, nessas mesmas terras, os Quixaras já não vivem mais./Vive outra gente, a tribo dos homens, senhores desses monólitos: os Quixadaenses.” (Iraguacy, pág. 122). Confesso que essa parte eu reli.

A maioria dos problemas encontrados em Iraguacy são compreensíveis. Fazer um romance indianista não é nada fácil mesmo. É sempre bom esclarecer que não quis desmerecer o talento e a sensibilidade artística de sua autora, que o publicou até quando era bem jovem. Portanto, se quiser ler um bom livro indianista, meu amigo leitor, leia Iracema ou pelo menos Ubirajara, e passemos essa página logo!

Avaliação: (aquela 1 estrela quase duas, ok?)

Daniel Coutinho

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