quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Quem é Angélica Coelho?

Quando era acadêmico do Curso de Letras, dentre os muitos livros que conheci através da famosa Biblioteca Central da UVA, deparei-me com um que despertou minha atenção por trazer o nome de uma autora cearense que eu desconhecia existir: Angélica Coelho. O livro, um romance com o sugestivo título “Ritmos Humanos”. Pesquisei no Google, pra ver se encontrava alguma informação sobre Angélica, mas nada encontrei além de vãs citações e referências a seu nome. Curioso com esta esquecida autora, decidi adquirir seus livros, na medida do possível, para encarar a leitura deles e tirá-los do esquecimento.
Descobri que Angélica, além de romancista, foi poetisa, contista, dramaturga, escrevendo ainda em gêneros não fictícios. Fiquei admirado com a vasta obra desta conterrânea e não compreendi porque seu nome tornou-se tão obsoleto. Sobre sua vida, nada encontrei, além da informação que ela pretendia publicar um livro de memórias chamado “A Minha Vida Não Passou Disto...”. Não sei se este livro chegou a ser publicado. Para falar a verdade, não sei nem se Angélica ainda é viva, porque como publicou sua obra nos decênios de 50 e 60, não é assim tão impossível que ela esteja viva. O que me leva a pensar que ela morreu é que, penso, se ela estivesse viva, faria alguma coisa para que seu nome não fosse tão desconhecido, uma vez que vivenciamos uma época onde existem “n” meios de divulgação.
Passando para sua obra, busquei adquirir toda a prosa de ficção deixada por ela. Infelizmente, não obtive exemplar do romance “Renata” (1953), que recebeu um feliz elogio de Peregrino Júnior, finado membro da ABL; mas consegui os três outros romances deixados por Angélica, além de uma coletânea de contos. Depois de ler estes quatro livros, vejamos as impressões que me deixaram eles.
“Ritmos Humanos” (1949) foi o romance de estreia de Angélica, que traz um breve elogio de Rachel de Queiroz. Conta a história da desventurosa Marta, que abre mão de seu amor, mediante a recusa dos pais, e acaba realizando um infeliz casamento. O romance é narrado por Maria Teresa, a melhor amiga de Marta, que acaba sendo protagonista de algumas passagens da obra. Em poucas palavras, é um romance com temas clichês, e ainda por cima mal escrito. A narrativa é lenta, cansativa e maçante. Ainda nos primeiros capítulos, Marta decide contar toda a história de seus amores à Maria Teresa, enquanto elas voltam, num navio, do RJ ao CE. Essa narração compreende mais de 100 páginas; acreditem! Imaginem os detalhes e digressões! Foi um dos pontos mais difíceis dessa leitura. Felizmente, após essa narração que consome mais de um terço do livro, a história assume um ritmo mais correntio. O chato é que Angélica, às vezes, parece estar esquecida de que escreve um romance, e sai contando história atrás de história dos personagens secundários, alguns sem a menor importância para o núcleo da narrativa. Um fato curioso é que num dos últimos capítulos do livro, ela começa a narrar em 3ª pessoa, sem mais nem menos; mas logo, devolve a tarefa de narrar a Maria Teresa. Sinceramente, não entendi isso. Imagino que ela precisou expressar algo muito difícil de contar pela boca da narradora. É a única explicação que encontro, e confesso que foi o erro mais grave que encontrei na obra. Enfim, relevei muita coisa por ser um livro de estreia, mas ainda assim, acredito que poderia ser melhor.
“Decadência de uma Geração” (1963) foi o mais palatável dos seus livros a meu ver. O romance virou até uma novela pela TV Ceará. Conta a história de Ricardo, descendente da ilustre família Sintra, que acaba vivenciando a pior fase dela. Mas deve-se salientar que o próprio Ricardo colabora com essa decadência, dissipando os bens fornecidos pela mãe, de maneira imprudente e irresponsável. Amante de muitas mulheres, ele as imortaliza em suas pinturas e, curiosamente, quase todas elas acabam morrendo. Esse sim tinha tudo para ser um romance bacana, mas de depois da metade para o final, acaba se perdendo. Angélica recorre àquilo de se deter em personagens secundários, e conta histórias e histórias sem importância, além de abusar de recursos narrativos. Tudo isso somado ao final insípido e inconcluso torna este livro quase tão ruim quanto o anterior.

“Festival de Tormentos” (1970), seu último romance, era de se supor que fosse o melhor e mais bem acabado de todos. Ledo engano de minha parte! Foi simplesmente o pior. Nele, Angélica não demonstrou nenhum crescimento; e, de todos, é neste que ela mais utiliza seu péssimo hábito de perpassar histórias e histórias sem importância de personagens secundários. Ela abusa tanto desse recurso, que quando ela retoma a narrativa principal, o leitor já nem se lembra do que se sucedeu com a protagonista. O pior é que você fica sem a mínima vontade de reler o que já passou e esforça-se para lembrar com o decorrer do romance mesmo. O enredo do livro gira em torno do clichê: casamento por conveniência e agrado dos pais. Maria Ângela, após esse casamento, abandona o marido e foge com um amante; troca o amante por outro homem e contrai segundas núpcias; abandona o segundo esposo e vai morar com um tal Jorge Martin, mesmo já tendo uma filha que, quando grande, vai se apaixonar por esse Jorge. Antes disso, ela, depois de quase matar Jorge por conta de uma traição, vai para o México onde conhece o homem que será seu terceiro marido, mas tempos depois, separa-se dele também para curtir sua vida boêmia. Acreditem: tudo isso que contei não é nada diante de tudo que é insuportavelmente narrado. Dramalhão pior que as novelas mexicanas que eu assisto. Ler este livro foi, de fato, um festival de tormentos.


Por último, li a coletânea de contos “Elas Não Têm Destino”, já suspeitando que neste livro Angélica se realizaria, pois poderia contar histórias breves da forma correta: através do conto, e não do romance. O que dizer desses seis contos? Não foi ruim ler este livro. Foi até muito bom, diante de tanta mediocridade que Angélica publicou. Não diria que foi o melhor dos quatro, porque “Decadência de uma Geração” teve bons momentos também. Sugiro pôr os dois num bom empate. Quem se interessar pela resenha dos contos, busque no SKOOB, porque já me prolonguei demasiado neste post. De todos os contos, “Fatalidade” e “O Silêncio da Morte” foram os que mais me agradaram; o primeiro, por trazer um dramalhão à la folhetim; o segundo, por ser impregnado de um tom meio poético-filosófico, e por ser uma das poucas coisas mais ou menos originais que Angélica publicou.

Finalmente, nem preciso dizer que já compreendi porque o nome Angélica Coelho caiu no esquecimento. Sua obra de ínfimo valor não tinha forças para resistir ao implacável tempo. Se eu a li, foi por pura curiosidade mesmo, e não digo que me arrependo. Afinal, conheci a obra de uma autora cearense que, embora não tenha escrito uma grande obra, deixou sua incontestável colaboração às nossas letras.
Daniel Coutinho
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