segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz - RESENHA #35



Fiquei tão entusiasmado com a leitura de Dôra, Doralina ano passado, que decidi-me a ler Memorial de Maria Moura este ano. Estava guardando para um momento propício, até que ele chegou. Comecei a ler Rachel de Queiroz com O Quinze, sua obra mais famosa. Aprecio bastante o estilo desta minha conterrânea que, através de sua escrita simples e direta, conseguiu atingir um público mais abrangente do que se imagina.

Rachel não é de muitos floreios. Sua linguagem é bastante marcada pela oralidade. Seu regionalismo é acessível e demonstra, até certo ponto, uma preocupação com a compreensão do leitor. Dessa forma, se um personagem “provoca”, como se diz no nordeste, logo se explica que ele vomitou. É uma característica que prezo muito num autor: a preocupação com o entendimento de sua obra, mas de forma dosada, conforme já referi na resenha de Casa de Pensão. Este Memorial de Maria Moura, contudo, para mim, foi mais do mesmo. Não que isto seja ruim, mas a verdade é que não vi muita novidade na obra final da Rachelzinha. De antemão, já vou logo confessando que não gostei do argumento: a menina órfã que, após vingar a morte da mãe, torna-se uma bandida do sertão. Definitivamente não gosto de histórias de bandidos rsrsrs. Mas não foi só isso o que me desagradou na Moura.

Rachel realiza um jogo de narradores na construção de seu romance. A impressão que tive é que ela pretendia dar voz a vários personagens ao longo de toda a obra. A tarefa, contudo, saiu mais difícil do que o planejado. Assim, ela começa com cinco narradores: Beato Romano, Moura, Tonho, Irineu e Marialva. Em seguida, concentra-se apenas em três: Moura, Beato Romano e Marialva; esta última raramente aparece. Para o final, temos apenas a Moura e o Beato Romano, mas a primeira, que é sempre a mais recorrente, termina por narrar sozinha os capítulos finais. A ideia de criar vários narradores num mesmo romance pode ser encrenca. Basta lembrarmos do péssimo Relato de um Certo Oriente. Com Rachel, também não funcionou. Como os títulos dos capítulos são nomeados de acordo com os personagens responsáveis pela narração, ficava evidente o embaraço da autora em sustentá-los. E o que dizer de dois ou três capítulos seguidos narrados pela Moura? É por isso que, paulatinamente, ela vai descartando o artifício à medida que aproxima os narradores ao convívio da Moura. Tonho e Irineu, inimigos da protagonista, acabam sendo descartados da tarefa de narrar. Duarte e Cirino poderiam muito bem substituir os narradores descartados; mas para que Rachel buscaria mais sarna para se coçar, não é mesmo? Teria sido muito mais acertado que o livro fosse todo narrado pela Moura.

Este Memorial não trouxe grandes novidades em sua forma geral. A escrita de Rachel é aquilo de sempre. Seria capaz de reconhecer sem que me dissessem. Talvez a única variante a fugir do convencional seja a rudeza do romance. Parece livro de homem rsrsrs! Fez lembrar aquele caso do lançamento d’O Quinze, quando um crítico desacreditou que fosse livro de mulher. O Memorial é dez vezes mais másculo. Contudo, vez por outra, temos aquele toque feminino, especialmente nos capítulos narrados por Marialva. Rachel também repete muitos elementos de Dôra, Doralina, como: tragédias em família; a paixão avassaladora da Moura por Cirino, tal como a de Dôra pelo Comandante; o grupo de saltimbancos de Valentim, como aquele do Seu Brandini; dentre outros. O caso do Beato Romano foi outro fator que não me chamou atenção. Isso de padres que caem no pecado da carne me parece tema muito batido. Memorial de Maria Moura foi o primeiro livro de Rachel de Queiroz que me pareceu cansativo. A falta de interesse só era combatida pelo prazer de ler a Rachelzinha, que mesmo contando situações maçantes, não perde a graça. Finalmente, a linguagem utilizada não lembra o século XIX. Eu, que sou fã confesso dos romancistas dessa época, já estou bastante afeiçoado à linguagem oitocentista. Não fossem as referências à escravidão e ao regime imperial, situaria a Moura, sem dúvida, em meados do século passado.

A história se situa no sertão nordestino, no tempo do jovem imperador Pedro II. O livro já começa bem movimentado. Senti falta daquela Rachel que prepara o terreno com cuidado antes de entrar em ação. A mãe de Maria Moura supostamente suicidou-se, mas a menina acredita que, na verdade, seu “padrasto” esteja envolvido na morte dela. Liberato não era casado com a mãe da Moura, mas demonstrava um grande interesse em tomar posse dos bens da “suicida”. Ele começa por seduzir a órfã, que não lhe resiste, mas quando percebe seus reais interesses, seduz um homem da fazenda e o convence a matar Liberato. Jardilino, o assassino de Liberato, começa a exigir da Moura o “pagamento” pelo seu serviço, mas a esperta prepara-lhe uma armadilha, e ele acaba morrendo também.

Terminada essa página de tragédias em família, o romance volta-se para uma questão de terras. Os primos da Moura, Tonho e Irineu, querem tomar posse da parte da propriedade que lhes confere. Embora consciente do direito dos primos, a Moura faz resistência, o que leva os primos procurarem a justiça. Obrigada a realizar a partilha, a Moura, para vingar-se, ateia fogo na fazenda e foge em busca da Serra dos Padres. Nessa região, ela deseja encontrar uma propriedade que pertencera a seus antepassados, mas que fora empossada pelos índios. Nessa trajetória, ela segue com João Rufo, seu fiel servidor, e mais três cabras: Zé Soldado, Maninho e Alípio. A intenção da Moura é mesmo formar um exército de homens liderados por ela. Para impor respeito a eles, ela traja-se com as roupas do falecido pai e corta os cabelos. Daí em diante, eles seguem saqueando todos que lhe aparecem no caminho. Moura não permite que matem as vítimas. Seu interesse é apenas tomar posse dos bens dos viajantes: animais, armas, munição, dinheiro, etc. Dessa forma, ela consegue reforços para cumprir com seu plano, que é recuperar as terras de seus avós e construir uma grande Casa Forte, para abrigar a ela e a seu futuro grande exército.

Muitas pedras rolarão a partir do surgimento dessa Moura bandida. Eis uma personagem com quem não simpatizei. A princípio, até compreendi seu momento de fraqueza, seu desejo de vingança, mas nunca concordei com seus métodos radicais. Não conseguia torcer por seus planos, não admirava mesmo suas qualidades, sendo elas aplicadas para fins ilícitos. Enfim, antipatizei totalmente com essa cangaceira metida a macho rsrsrs. Mas o interessante mesmo, e que considero a genialidade do livro, é o fato da Moura não passar de uma farsa. Ela é mulher como as outras, com o coração endurecido, certo, mas com todas as fragilidades da mulher. Há um capítulo em que Rachel deixa isso bem claro, quando a Moura deseja voltar a ser a mulher de antes e viver para o seu amor, Cirino; mas quando percebe que o que o atraía para ela era justamente aquela sutileza do ser, aquela dona Moura tão temida pelos homens, vê-se obrigada a continuar revestida de sua casca grossa.

Memorial de Maria Moura, longe de ser um livro ruim, é apenas mais uma amostra da genial Rachel de Queiroz. Se a mim não causou tanto efeito, é porque, além de não ter simpatizado o enredo, não encontrei na obra grandes novidades, como já disse. É a mesma Rachel de sempre, talvez um pouco mais embrutecida, mas sem deixar de conter o talento que a consagrou como uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

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2 comentários:

  1. boa resenha! mas será que você não foi com muita expectativa ao livro da Rachel? Fiquei com essa impressão

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    1. Isso de expectativas é horrível rsrsrs Fui sim com grandes expectativas, mas não penso que isso foi o motivo principal para ter desgostado a Moura. Certamente, se não tivesse lido a "Dôra", o efeito seria consideravelmente melhor (ou não rs). Mas além de certos elementos aproveitados da "Dôra", foram muitos outros fatores que me incomodaram: o malogrado jogo de narradores do livro, a má ambientação de época (o livro não lembra em nada o século XIX), e de sobra a temática do banditismo, que me é tão pouco aprazível. Mas não digo que não valha a pena ser lido. Rachel tinha outras cartas na manga, como o final do livro, que é emocionante :)

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