segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Por que ninguém lê Caridad Bravo Adams?



Caridad Bravo Adams


Você já ouviu falar em Caridad Bravo Adams? Provavelmente não. Se, porém, você, assim como eu, passou a adolescência assistindo novelas mexicanas no SBT, é bem provável que lembre deste nome. Na verdade, até hoje os argumentos de Caridad Bravo Adams fazem sucesso com o público de telenovelas no mundo todo. Grandes sucessos como Cañaveral de Pasiones, La Mentira, Corazón Salvaje, Yo No Creo en los Hombres e Abrázame Muy Fuerte continuam cativando as grandes massas, seja em suas versões primitivas, como também pelos remakes. Caridad Bravo Adams continua sendo um grande sucesso através das telenovelas, mas seu nome é mesmo tão obscuro, que poucos telespectadores lembrarão dele.

E o que dizer de seus livros? As obras que deram origem às telenovelas de hoje! Estão todos esquecidos. Pelo que sei, nem no México se edita mais. Em lugar nenhum. Com muita sorte e bastante dinheiro, você encontra algum exemplar velho nos sebos estrangeiros e “mercados libres” da web. Ao que parece, Caridad nunca foi traduzida para o português. E como lamento tudo isso! Como queria ler seus romances Pecado Mortal e Soledad, nos quais se baseia Abraça-me Muito Forte, aquele novelão com Aracely Arámbula e Fernando Colunga. Leria qualquer livro seu que encontrasse. Sempre tive curiosidade de conhecer sua obra no original, mas como já se viu, parece que ninguém mais no mundo está interessado em publicar seus romances novamente.

Para quem ainda estiver boiando e não entendeu nada do que eu disse, vou explicar melhor.

Caridad Bravo Adams (1908-1990) foi uma escritora mexicana de grande sucesso. Dedicou-se a vários gêneros, especialmente ao romance e à poesia. Publicou mais de vinte livros, muitos deles adaptados para novelas do rádio e da televisão. Como já disse, sua obra continua sendo aproveitada até os dias atuais, pois o êxito de suas histórias continua inabalável. O motivo do post é minha indignação ante o descaso para com a obra literária de Caridad, que não é mais editada nem no México.

Será que os mexicanos não leem? Não têm apreço pela obra de sua ilustre compatriota? Aproveitam-se do talento de Caridad com as rentáveis produções televisivas, nas quais seu nome aparece muito rapidamente nos créditos, mas não se preocupam em difundir a obra da escritora, quem dirá estudá-la. Sempre achei que o Brasil é um país fraquíssimo no quesito “leitura”, mas estou vendo que os mexicanos levaram “a melhor” nessa. O descaso para com a obra de Caridad Bravo Adams é a prova viva do que estou dizendo. Nenhum de seus livros é comercializado atualmente. Quem quiser adquiri-los, trate de garimpar nos sebos e alfarrabistas.

Alguém poderá dizer (talvez até um mexicano) que se a obra de Caridad não é mais editada, é porque a mesma não teve força suficiente para resistir ao implacável tempo. Certamente, o fato de um autor fazer sucesso em vida não assegura sua imortalidade. É bem verdade que não conheço as qualidades literárias da autora de La Mentira. Talvez suas obras sejam uma droga mesmo! Mas se elas fazem tanto sucesso na TV (e, em relação a isso, Caridad tem resistido ao tempo), é de se supor que algo de bom comportem. Mas o que me admira mesmo é a indiferença dos telespectadores de hoje pelos livros. É bem provável que 99% das pessoas que acompanham tramas mexicanas não tenham o hábito de ler. Pois havendo um interesse notável por parte do público, isto não animaria as editoras a desencavar Caridad das cinzas? Penso que sim.

Felizmente, ainda é sim possível ler Caridad Bravo Adams (no original) graças aos esforços de uma minoria de leitores que disponibilizaram algumas de suas obras em formato digital. Os links são compartilhados no Facebook e não têm fins lucrativos. Contudo, não encontrei os desejados Pecado Mortal e Soledad. Estão disponíveis para download, além da trilogia Corazón Salvaje, os romances La Mentira, Cristina, Bodas de Odio, Una Sombra entre los Dos, Al Pie del Altar, Más Fuerte que el Odio, Águilas Frente al Sol e El Destino de un Patriota. A quem interessar, as obras estão disponíveis na página Biblioteca Virtual. Não posso opinar sobre a qualidade das edições, porque ainda não li nenhuma. Não domino o espanhol, mas com um dicionário de lado, posso até encarar.

Caridad Bravo Adams me lembra muito a escritora brasileira Maria José Dupré ou Sra. Leandro Dupré, como gostava de ser chamada. Seus romances, tal como os de Caridad, granjearam muito sucesso com o público, alcançando a televisão com Éramos Seis. Aqui, felizmente, a Sra. Leandro Dupré continua sendo editada. No entanto, dos onze romances publicados, somente Éramos Seis resiste ao tempo. Alguns de seus livros infantis também continuam nas livrarias, como A Ilha Perdida e alguns da série O Cachorrinho Samba. Tenho orgulho de dizer que tenho a obra completa dessa grande autora, tão elogiada por Monteiro Lobato, e tão subestimada pela crítica contemporânea. De sua obra, só li Éramos Seis e sua sequência Dona Lola. O primeiro é um verdadeiro primor, obra de uma delicadeza emocionante. Dona Lola não me pareceu grande coisa. Não é um livro ruim, mas comparado a seu antecessor, é bem menos significativo. Já está na hora d’eu voltar a ler seus livros. Brevemente, lerei O Romance de Teresa Bernard. Já estou com saudades da nossa Caridad Bravo Adams brasileira.


Enfim, precisava desabafar minha insatisfação para com essa injustiça à obra de Caridad Bravo Adams. Queria poder ler suas obras em edições físicas e, claro, traduzidas para o português. Mas, conforme já se viu, se o México não está interessado nisso, o Brasil muito menos. Vou me conformar em ler as edições digitais que baixei. Mas estou em dúvida: se devo começar por La Mentira ou Bodas de Odio. A primeira deu origem à novela A Mentira, com Guy Ecker e Kate del Catillo; a outra é o argumento de Amor Real, com Adela Noriega, Fernando Colunga e Mauricio Islas.

Essas novelas mexicanas... rs.

Daniel Coutinho

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