quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre a saga "Rocambole", de Ponson du Terrail



Você já deve ter lido ou até mesmo ouvido falar no termo “rocambolesco”. Conheci Rocambole graças a esse dito termo, usado até hoje para designar histórias acidentadas, cheias de peripécias e reviravoltas. A palavra provém do nome do famoso personagem Rocambole, criação mais famosa do francês Ponson du Terrail. Não tem como não lembrar aquele bolo em forma de caracol rsrsrs. Pois é. Por conta de seu formato “enrolado”, o bolo acabou ganhando o nome do personagem. É meio complicado falar de Rocambole, cuja composição é tão embaraçosa quanto a própria narrativa do mesmo, mas vou tentar ser o mais esclarecedor possível, amparado em minhas pesquisas.

Ponson du Terrail (1829-1871) foi um escritor francês que ficou famoso por seus incontáveis folhetins. Ele escreveu em torno de 200 romances, para se ter uma noção. Para quem não sabe, o folhetim era a telenovela do século XIX. Os jornais traziam nos rodapés narrativas seriadas, segundo o gosto popular, a fim de garantir assinantes. De fato, muita gente adquiria o jornal apenas para acompanhar os folhetins. Podemos dizer que o folhetim foi o ganha-pão de muitos autores, não só na França, mas em praticamente todo o mundo. O auge do sucesso de Terrail como folhetinista despontou em 1857, com a estreia do seu comentado folhetim Os Dramas de Paris (Les Drames de Paris), publicado no jornal La Patrie, e projetado para ser uma “série”, cuja primeira história chamava-se A Herança Misteriosa (L'Héritage Mystérieux). Contava a história de Armand, um homem rico que pretende esquecer as fatalidades de seu passado através da filantropia, levando auxílio aos necessitados das classes menos favorecidas da sociedade francesa. Qualquer semelhança com Os Mistérios de Paris (Eugène Sue) não é mera coincidência; mas trataremos disso mais adiante. Foi em A Herança Misteriosa, primeiro folhetim da série Os Dramas de Paris, que apareceu pela primeira vez o personagem Rocambole, um anti-herói que, mesmo sendo uma figura secundária da trama, roubou a cena e conquistou o público.

Animado com a boa recepção de sua série, Ponson du Terrail, no ano seguinte, publicava a segunda história: O Clube dos Valetes de Copas (Le Club des Valets-de-cœur). Claro que não poderia deixar Rocambole de fora da nova trama. O êxito se repetiu, Rocambole ganhou novos fãs e, de tão querido pelo público, acabou virando a figura principal da série a partir da terceira história: As Proezas de Rocambole (Les Exploits de Rocambole), publicada entre 1858 e 1859. A série chegava então ao ápice, fazendo o autor escrever incansavelmente, por quatro anos, a quarta história, Os Cavaleiros do Luar (Les Chevaliers du clair de lune), entre 1860 e 1863. Terrail estava então saturado daquilo; não aguentava mais Rocambole, o bandido que mudara o destino de sua série. De fato, o título genérico Os Dramas de Paris estava esquecido. Quando mencionados, aqueles folhetins eram indicados simplesmente por Rocambole. O autor então decidiu matar o querido personagem, a fim de livrar-se da série. O público foi quem não gostou nenhum pouco da ideia. Assim, depois de mais de um ano sem novas aventuras com o amado bandido, e após ser ferozmente pressionado pelo público e por seus editores, o autor decide ressuscitar Rocambole, escrevendo a quinta história da série: A Ressurreição de Rocambole (La Résurrection de Rocambole), entre 1865 e 1866, imediatamente seguida de A Última Palavra de Rocambole (Le Dernier mot de Rocambole), publicada entre 1866 e 1867.

Se por um lado, Rocambole era idolatrado pelas massas populares; por outro, era desdenhado pela crítica, que o taxava de inverossímil, estereotipado e vulgar, dentre muitos outros defeitos. Para defender sua obra, no livro, A Verdade sobre Rocambole (La Vérité sur Rocambole, 1867), o autor revela ter se baseado em um tipo real para construir seu personagem central. Será verdade ou mera estratégia? O certo é que, de um jeito ou de outro, Rocambole acompanharia Ponson du Terrail até a morte. Entre 1867 e 1868, saía a sétima história: As Misérias de Londres (Les Misères de Londres), seguida de As Demolições de Paris (Les Démolitions de Paris, 1869). Em 1870, sairia a nona história, A Corda do Enforcado (La Corde du pendu), que acaba ficando incompleta, pois no ano seguinte, morreria Ponson du Terrail.

Não foram poucos os escritores que se aventuraram a dar continuação à saga Rocambole. Teve um português, Francisco Leite Bastos, que se sobressaiu ao escrever um final para a última história que ficara incompleta, na obra que chamou As Maravilhas do Homem Pardo, por muito tempo atribuída ao próprio Ponson du Terrail e considerada por muitos a décima e última história oficial da saga. Nem preciso dizer que Rocambole conquistou o mundo e ganhou inúmeras adaptações para cinema e teatro. O Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, era o responsável por levar as aventuras rocambolescas ao público brasileiro. Quanto às edições em livro, não sei dizer quantas foram realizadas em Brasil e Portugal, mas foram várias se contarmos as publicações avulsas, pois poucas editoras lograram editar o Rocambole na íntegra; daí a dificuldade de ler tão vasta obra em português. Sei que a Guimarães & Cia., de Portugal, editou a obra completa em vários volumes, por mais de uma vez. No Brasil, não tenho certeza, pois careço de fontes, mas penso que a editora Minerva também publicou a versão integral de Rocambole. Outras editoras lançaram volumes avulsos e versões condensadas, como foi o caso da Editora Cia. Brasil e Nova Fronteira. A primeira, em 1946, lançou em 8 volumes uma versão “mais enxuta” da saga completa (que estou louco para conseguir, pois é o mais próximo da versão integral que penso ser possível obter); a outra lançou, em 1977, sob o título As Aventuras de Rocambole, uma versão condensada de A Herança Misteriosa, que é o primeiro livro da saga. Esta edição da Nova Fronteira foi tudo que li, pois não obtive a versão integral. Nem faço apelo às editoras brasileiras, pois se elas não lançam Os Mistérios de Paris (que é obra muito mais importante), quem dirá Rocambole.

Agora, imagino que estejam curiosos para saber o que achei desse primeiro contato com a obra-prima de Ponson du Terrail. De antemão, já advirto que fiquei chateado por não conseguir a versão integral. Depois da experiência catastrófica com aquela edição condensada d’Os Mistérios de Paris, ainda estou meio traumatizado. Mas como queria muito ler Rocambole... rsrsrs Até pensei em procurar a versão “mais enxuta” da saga completa em 8 volumes, lançada pela Cia. Brasil, mas fiquei meio assustado com o preço nos sebos. Foi o jeito partir pra edição única da Nova Fronteira mesmo rsrsrs que, felizmente, é maravilhosa. Até entendo que o trabalho de tradução e adaptação tenha sido mais simples que o de Os Mistérios de Paris da Editora Eli, pois a Nova Fronteira condensou 600 páginas em 350, enquanto a Editora Eli condensou 1500 páginas em 350. Mesmo assim, ainda penso que poderiam ter feito um trabalho melhor! Sério, gente, leiam esse post/desabafo que fiz. Prometo não fazer mais links rsrsrs!

A primeira impressão que tive lendo Rocambole foi ter a certeza de que Ponson du Terrail leu Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue. É impossível não compará-los. Felizmente, o autor de Rocambole não buscou esconder sua fonte de inspiração e mostrou que é bem possível fazer uma obra de sucesso inspirada em outra obra de sucesso. Se pensarmos no caso, foi o mesmo com Virgílio e Homero, não? Mas é necessário reconhecer que a obra do Sue é muito superior. Sou consciente de não ser a pessoa mais indicada para fazer esse tipo de julgamento, até porque, como já confessei, apenas li adaptações dessas obras; portanto, faço questão de esclarecer que minhas considerações se baseiam unicamente nas impressões absorvidas dessas edições adaptadas.

Se observarmos o teor de ambas as tramas, perceberemos intenções diferentes em cada uma delas. O romance do Sue, mesmo em moldes românticos, é essencialmente realista e visa denunciar o descaso da burguesia para com as classes mais miseráveis da sociedade parisiense. Rocambole, por outro lado, é puro entretenimento, mas o bom é que seu autor é consciente disso. Em nenhum momento seu texto dá mostras de querer ser pretensioso. O narrador de Rocambole quer apenas divertir, empolgar e, claro, emocionar o leitor. A narrativa corre em ritmo o tempo todo acelerado. Percebo que o fato da edição ser condensada pôde ter contribuído ainda mais para chegar a esta conclusão, mas em momento nenhum percebi alguma brecha ou parêntese no enredo com outra finalidade que vá além do entretenimento. Devemos lembrar que o folhetim era o ganha-pão de Terrail. Ele não estava interessado em entrar para o cânone da literatura francesa; só queria garantir seu sustento. Poderia abrir aqui uma discussão sobre a questão da literatura de entretenimento, mas julgo que este post já esteja muito longo, o que não me impede de declarar que, sim, gosto desse tipo de literatura, desde que “realmente” me entretenha!

É totalmente compreensível a crítica ter taxado Rocambole de estereotipado, pois nele, temos claramente definido o bem e o mal, personificados nos irmãos Armand e Andréia (Andréia é homem, ok?). O enredo é realmente bastante movimentado e cheio de estratégias folhetinescas: paixões proibidas, traições, envenenamentos, sequestros, duelos, e por aí vai... rsrsrs. O autor é perito na criação de tramas intrincadas e realiza a narrativa com mestria, de modo que a mesma raramente perde o interesse do leitor. O texto é repleto de diálogos e personagens simpáticos, como o próprio Rocambole, que mesmo sendo um bandido, é uma verdadeira graça rsrsrs. Embora ele só apareça quase que no final do livro, deixa sua marca registrada na trama e ganha a simpatia do leitor. Nos primeiros livros da série, Rocambole é bandido, passando gradativamente ao herói que será nos livros seguintes.

Ponson du Terrail já me conquistou com essa pequena amostra do seu Rocambole. Estou mesmo quase decidido a ir atrás da edição da Cia. Brasil, pois já estou super curioso para saber o destino desse tão querido personagem, que tanto cativou o público oitocentista e que constitui influência que repercute até os dias de hoje. Adoraria poder ler isso na íntegra! Portanto, decidi não fazer resenha da edição que li. Vou esperar uma oportunidade para, quem sabe, mais pra frente, fazer um diário de leitura da saga Rocambole completa. Torço para que isso seja possível. Vamos aguardar pra ver!

Daniel Coutinho

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