segunda-feira, 18 de julho de 2016

Dois Irmãos, de Milton Hatoum - RESENHA #20



Finalmente li Dois Irmãos! Foram tantas indicações; e quando finalmente resolvo ler, descubro que há uma ligação com a obra de estreia do Hatoum, Relato de um Certo Oriente, que já tem resenha por aqui. Já se sabe que não curti muito esse primeiro contato, mas esperava ser compensado com Dois Irmãos. Só que... não deu muito certo rsrsrs.

Comecei a leitura de Dois Irmãos muito animado com a história, que me conquistou imediatamente. É inevitável não compará-lo com o romance anterior do Hatoum, pois não são poucas as semelhanças. A primeira impressão que tive foi a de que Relato de um Certo Oriente não passou de um rascunho de Dois Irmãos, diante da qualidade perceptivelmente superior neste último. Deve-se levar em conta o tempo entre a publicação dos dois livros: mais de 10 anos! Reconheci um Hatoum muito mais senhor de sua narrativa. Confesso que as semelhanças com o livro anterior me incomodaram, mas essa ideia que fiz de “versão melhorada” consolou-me bastante.

Analisando superficialmente as semelhanças entre os dois romances, neles temos duas famílias de origem libanesa que residem em Manaus, sendo os cônjuges de religiões diferentes: os maridos são muçulmanos e as esposas são católicas. Os filhos desses casais são os grandes desencadeadores dos principais conflitos nas duas obras. As duas famílias se mantêm pelos rendimentos de uma loja. Poderíamos, inclusive, estabelecer um paralelo entre os livros, apontando equivalências entre os personagens. Emilie seria Zana; O marido de Emilie seria Halim; Hakim seria Yaqub; Samara Délia seria Rânia; os filhos endiabrados de Emilie seriam Omar; a narradora anônima seria Nael... E por aí vai rsrsrs. Não estou dizendo que o autor reproduziu fielmente as figuras do Relato, mas apenas assinalando uma inegável semelhança entre elas.

Como disse, comecei Dois Irmãos com bastante empolgação. O texto parecia mais fluido e agradável na voz desse novo narrador, que permanece anônimo quase que até o final do livro, quando finalmente descobrimos que se chama Nael (e desculpem se estraguei a surpresa de alguém! Mas, gente... é só um nome, né?). Ele nos conta a história de “sua” família, constituída pelo casal Zana e Halim, que possuem três filhos: Yaqub e Omar, os gêmeos; e Rânia. Completam a família: Domingas, a empregada índia; e o narrador do romance, que é filho dela.

O grande problema dessa família são os irmãos Esaú e Jacó Yaqub e Omar, que não conseguem se entender. De temperamentos e comportamentos distintos, os gêmeos não suportam um ao outro, e a convivência entre os dois se torna cada vez mais intolerável. Yaqub é moderado e estudioso; Omar é folgado e promíscuo. Na adolescência, eles se apaixonam por Flora Lívia, uma mocinha que parece dar atenção aos dois. Quando, porém, Omar surpreende a bela Lívia aos beijos com Yaqub, ele fica louco de raiva, e golpeia o rosto do irmão com um pedaço de vidro, rendendo uma eterna cicatriz a Yaqub.

Desesperado com o comportamento dos filhos, Halim pretende mandá-los para o Líbano, a fim de dar-lhes uma educação mais rigorosa, mas Zana não assente, pois superprotege Omar, o caçula, alertando para os problemas de saúde que o mesmo sempre teve desde que nasceu. Talvez, Halim quisesse mesmo livrar-se dos filhos, pois nunca os quis. Os três filhos foram planejados por Zana assim que casara: queria três. Halim só queria mesmo brincar de papai e mamãe com Zana, só que sem os filhos nessa brincadeira, se é que me entendem! O certo é que decidiram mandar apenas Yaqub para passar uma temporada no Líbano. Após cinco anos, ele regressa um tanto esquecido dos modos civilizados da cidade. Omar e ele continuam de cara feia um para o outro, principalmente agora que Yaqub deixa florescer seus dotes intelectuais de calculista, tornando-se o orgulho da casa. Decidido a viver longe da presença irritante de Omar, Yaqub vai para São Paulo estudar engenharia. Ele nega-se a receber auxílio dos pais, forma-se e casa-se com Lívia. Nem preciso dizer que ele é meu gêmeo favorito rsrsrs.

Omar, por outro lado, além de ser expulso da escola por agredir um professor, não consegue terminar os estudos, mesmo indo para outra escola de reputação duvidosa. Os pobres pais acham que São Paulo é a solução para o gêmeo incorrigível. E aí, o que vocês acham que Omar vai fazer em São Paulo? Sim... Incomodar Yaqub. A partir daí, o livro acaba perdendo aquela animosidade dos primeiros capítulos, vai adquirindo uma atmosfera mais pesada e conflituosa, além de inserir outros dramas dos demais personagens. Não é o texto que fica ruim; a trama é que fica desagradável e muitas vezes irritante. Hatoum parece ter preferência pelo Omar, que me pareceu tão insuportável, que até me irritava ler as passagens sobre ele. Não pensem também que Yaqub é um anjo de bondade, mas à vista do irmão...

O narrador vive ainda o dilema de desconfiar que é filho de um dos gêmeos. As relações familiares nas obras de Milton Hatoum me pareceram muito abomináveis. Os filhos se referem aos pais pelo nome, o tratamento entre os membros é um tanto repugnante, sobretudo nas insinuações/realizações incestuosas. Não quero ser chato, mas tenho cá meus pudores. A narrativa em Dois Irmãos é bastante escrota, mais que em Relato. Não foi, enfim, uma leitura agradável; e com isso, não nego o valor e o mérito conferidos ao autor. Já confessei por aqui que sou um tanto averso aos modernos e contemporâneos justamente por isso: essa crueza de situações torpes, vis e infames! Xô, pessimismo! rsrsrs. Que fique claro então que o meu desagrado diz respeito a uma questão puramente de gosto pessoal.

Não sou favorável a qualquer tipo de limitação artística, mas penso que, diante de tanta miséria deste mundo real, precisamos de livros que nos confortem com alguma mensagem de esperança.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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