sábado, 5 de setembro de 2020

Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco - RESENHA #144 (contém alguns spoilers)

Volto ao grande Camilo com mais uma de suas novelas satíricas, a redescoberta Coração, Cabeça e Estômago (1862), que nos últimos anos tem sido mais divulgada graças à sua inclusão dentre as leituras obrigatórias de alguns vestibulares.

Trata-se de obra que vale principalmente pela agudeza do humor, além dos artifícios já tão comuns à ficção camiliana. Não obstante a presença de um prosador seguro e convicto, desgostou-me o pessimismo presente em todo o livro. Definitivamente esta não é uma leitura para se resgatar a fé na humanidade.

O volume abre-se com um preâmbulo, técnica muito usual na obra de Camilo, onde o editor do livro, em conversa com o poeta Faustino Xavier de Novais, confessa-se depositário dos manuscritos de um amigo comum, Silvestre da Silva, falecido há seis meses. Estes papéis, organizados em três volumes, acabam sofrendo diversas intervenções pelo editor, até adquirirem a forma final de que se constitui Coração, Cabeça e Estômago.

Os manuscritos de Silvestre da Silva tencionam compartilhar uma longa sequência de desilusões amorosas, cujo final é enganosamente feliz. Como disse, trata-se de um livro excessivamente pessimista, mas que ganha tons amenos em virtude do bom humor do prosador, que nos arranca boas risadas da primeira à última página.

Essa estratégica divisão pela qual Silvestre dispôs seus papéis evidencia três momentos de sua vida pessoal: juventude, vida adulta e maturidade. No primeiro deles, tendo as paixões inspiradas pelo “coração”, Silvestre passa por experiências efêmeras, dessas que todos vivemos na adolescência. A primeira parte do livro, contudo, encerra-se com dois casos que ganham atenção especial por parte do narrador.

O primeiro deles refere-se a Paula, “a mulher que o mundo respeita”. Silvestre, como tantos outros, acaba apaixonado pela bela donzela que, mesmo comprometida, alimenta esperanças em vários outros pretendentes, até finalmente decidir-se a fugir com um deles. Resguardo-me de contar o desfecho desta aventura que é, sem dúvida, digno da pena de Camilo.

Quanto ao outro caso especial, arrisco dizer que talvez compreenda o momento mais interessante de todo o livro. Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, aparece de maneira fortuita na vida de Silvestre, que logo se interessa por conhecer sua trágica história, repleta de lances dramáticos que culminam na sua prostituição. Esta pobre infeliz foi possivelmente o único amor verdadeiro de nosso autobiógrafo.

Na segunda parte, Silvestre nos relata suas intenções amorosas regidas pela ‘cabeça”, todas elas malogradas por circunstâncias adversas, mas cheias de chiste. Na parte final, de volta aos sítios de seus ascendentes, Silvestre conhece Tomásia: moça simples, de pouca instrução, trabalhadeira, acima do peso (mas de ótima saúde) e de muitas prendas domésticas.

Embora desprovida de maiores atrativos, Tomásia conquista Silvério pelo “estômago”, fazendo-o mudar de hábitos em todos os aspectos. Nosso protagonista rende-se a uma vida bucólica, longe das polêmicas da imprensa e do tumulto das grandes cidades, mas, em se tratando de uma novela satírica do autor d’A Queda dum Anjo, a ironia fala mais alto e nosso Silvestre termina seus dias como vítima de suas novas inclinações.

Não fossem as digressões maçantes onde o hermetismo de Camilo ganha mais força, poderia dizer que este foi o melhor livro que já li do autor. Mesmo considerando as passagens tediosas e o pessimismo predominante da narrativa, Coração, Cabeça e Estômago mantém-se como leitura divertida e cujo interesse se preserva até os dias de hoje.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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