domingo, 12 de agosto de 2018

Hamlet (The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark), de William Shakespeare - RESENHA #73 (contém spoilers)


Há dez anos, li Shakespeare pela primeira vez. Fora por um volume de tragédias que uma amiga me emprestara. Lembro de ter tido muita dificuldade para compreender os diálogos e monólogos, por conta da linguagem totalmente nova para mim. Assim, absorvi muito pouco de Romeu e Julieta, Macbeth e Hamlet. O volume encerrava-se com Otelo, que não pude ler, por ter que devolver o livro. Somente ano passado, depois de ter adquirido o teatro completo do velho bardo, aventurei-me novamente por sua dramaturgia. Decidira retomar pelo mesmo Otelo, cuja leitura conservava-se interrompida. Foi um reencontro muito feliz, em grande parte pela maturidade adquirida ao longo dos anos, mas não menos pela grandiosidade cênica com que me deparei. Os personagens fascinantes, o movimento das cenas, a agudeza das falas, tudo me deslumbrou. A “descoberta” de Otelo incitou-me a, antes de prosseguir com a leitura das peças não lidas, retornar àquelas cuja experiência havia sido tão pouco proveitosa. Resolvi-me, portanto, a seguir o sentido inverso daquele percorrido há dez anos. Deveria reler Hamlet então.

Acredita-se que a primeira encenação de Hamlet tenha sido em 1602, saindo no ano seguinte a primeira edição do texto da peça, posteriormente ampliado. O argumento foi colhido por Shakespeare nas velhas páginas da mitologia nórdica. O tratamento, porém, dado a uma simples história de vingança tornou a tragédia do príncipe da Dinamarca uma das mais importantes de todos os tempos, sendo também uma das mais influentes de toda a Literatura. Não é, contudo, a canonicidade de uma obra o que poderá garantir um efeito positivo a quem quer que seja. Aliás, nada o poderia diante de uma forma de arte tão múltipla e plurissignificativa como é a Literatura. As experiências são sempre distintas. Quanto melhor o livro, mais possibilidades de leitura ele enfeixa. Hamlet, infelizmente, não me impressionou tanto quanto à maioria dos leitores; tentarei explicar por quê.

Acredito que a celebridade da peça dispensa-me o trabalho de referir o enredo. Devo pois limitar-me a compartilhar as impressões que tive dessa releitura ou, antes, “primeira leitura legítima”.

Hamlet é o tipo de personagem com quem desenvolvi uma relação ambígua de amor e ódio. A princípio, qualquer leitor/espectador comove-se com sua dor pela perda do pai mais o ressentimento de assistir ao precoce matrimônio de sua mãe com o próprio cunhado. Aumenta-lhe o sofrimento a desconfiança de que Cláudio (o tio/padrasto) possa ter sido o causador da morte de seu pai, a fim de usurpar-lhe a coroa, suspeita logo confirmada pelo fantasma do falecido rei, que logo exige vingança. Shakespeare consegue transmitir perfeitamente os dilemas de consciência de seu protagonista, que lamenta a sorte de ter vindo ao mundo para corrigir erros alheios, sem poder evitar ainda a perturbação da dúvida, já que a visão sobrenatural que tivera poderia ser artifício maligno para corrompê-lo.

O escrupuloso Hamlet, no entanto, assume uma postura diferente a partir do momento em que decide fingir-se de louco para, insuspeito, melhor investigar Cláudio. A falsa loucura do príncipe acaba obscurecendo o sentido de seu discurso e talvez seja esta a grande genialidade da tragédia: a ambivalência dos episódios. É difícil distinguir com precisão até que ponto temos o Hamlet disfarçado em sua loucura, e o outro, o ponderado, se é que ele não deixa de existir. Ousarei dar minha própria interpretação da peça ou simplesmente expor a leitura que fiz da tragédia shakespeariana.

Chama bastante atenção o tratamento dado por Hamlet à sua amada Ofélia, a certa altura da peça. O que a bela jovem explica como consequência da suposta loucura é, a meu ver, uma reação ciumenta. De fato, Ofélia é induzida por Polônio (seu pai) e Laertes (seu irmão) a ignorar as cortesias e gentilezas do príncipe, dada a diferença hierárquica entre os dois. A atitude de Ofélia poderia sugerir a existência de outra inclinação amorosa por parte dela, o que explicaria também sua ideia de devolver os presentes dados por Hamlet. Vale lembrar que, na cena da representação, o príncipe, falando a Ofélia, compara a brevidade do prólogo ao amor de uma mulher, além de sugerir que a dama talvez tenha um amante.

Outro aspecto que acaba se confundindo com a falsa loucura de Hamlet é o destempero do personagem. Após a confirmação do assassinato do pai, cometido por Cláudio, o príncipe parece passar por um enrijecimento da sensibilidade. Sua reação fria após matar Polônio, confundindo-o com o rei, revela essa mudança de caráter. A imediata decisão de mandar Rosencrantz e Guildenstern para uma morte iminente dá-nos outra amostra do temperamento inexorável que passa a ter o protagonista. Ainda que dignas de censura, as vítimas fatais de Hamlet teriam sido julgadas certamente com mais complacência num momento anterior.

O teor altamente filosófico de Hamlet colabora com alguns dos vários intervalos que se dão na trama, principalmente os solilóquios do protagonista. No entanto, alguns desses intervalos me pareceram demorados e maçantes, como a recepção dos atores no castelo, as lições de atuação repassadas pelo próprio príncipe e, finalmente, a representação d’O Assassinato de Gonzago. A loucura e morte de Ofélia foram tratadas com precipitação e exagero. O curioso é que são dados tantos pormenores do “acidente”, como se alguém houvesse presenciado, mas inteiramente incapacitado de salvar a donzela. O que me parece, porém, mais despropositado em Hamlet é a conversa entre Polônio e seu criado Reinaldo, logo no começo do segundo ato, quando aquele pede que este vigie seu filho Laertes que partira para a França. Estes zelos paternos não acarretam consequência nenhuma para a peça, assim como Reinaldo acaba sendo um tipo desnecessário que, em suprimido, nada afeta.

Penso ter citado boa parte das razões que embaçaram o brilho de Hamlet em meu conceito. Penso que a mudança por que passa o nobre príncipe no decorrer dos cinco atos tenha sido a mais perturbadora, principalmente quando este aceita tão prontamente o desafio proposto pelo rei, sobre uma aposta claramente suspeita, o que leva praticamente todo o elenco da peça à sepultura. Ainda bem que escapou o bom Horácio para nos contar a história rs!

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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