terça-feira, 20 de março de 2018

Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett - RESENHA #61 (contém spoilers)


Ainda estou meio zonzo da leitura que fiz das Viagens na Minha Terra (1846), de Almeida Garrett. Confesso que fui ao livro com certo receio, provocado pela fama de “difícil” que ele tem. Fácil realmente não é rs. A escrita de Garrett me parecia, por vezes, tão incomum, que difícil me era compará-la. Ouso dizer que suas peculiaridades linguísticas vão além das de Camilo, mas é muito provável que tal impressão se explique no fato de que esta foi minha primeira experiência com o iniciador do Romantismo em Portugal.

Viagens na Minha Terra é obra híbrida, ou seja, que faz mistura de gêneros e estilos. Essa estrutura nada convencional já lhe confere grande interesse (ainda que não de minha parte rs), especialmente pela época em que foi publicada. Não é tarefa fácil comentar obra que discute uma infinidade de temas propositalmente dispersos. A leitura é mesmo confusa, e é o próprio autor quem assevera: “Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, só com muita paciência se pode deslindar e seguir em tão embaraçada meada.”.

Contentar-me-ei em comentar o que me parecer digno disso!

Os primeiros capítulos são formidáveis. Parodiando os modelos clássicos, o autor propõe um relato extraordinário que se concentra nos sucessos de uma viagem de Lisboa a Santarém. São os mínimos detalhes do percurso, contudo, que abrem margem para muitas digressões. O estilo dessas observações é irônico, galhofeiro e revestido de uma falsa presunção. Mesmo não sendo exatamente modesto, nosso narrador não é um vaidoso. Sua afetação é antes artifício, dentre outros que colaboram com o bom humor de sua obra. Achei divertido e inteligente; o autor sabe ser mordaz sem ser deselegante.

A certa altura do percurso, quando chega ao Vale de Santarém (que não deve ser confundido com Santarém, o destino final), nosso narrador fica profundamente impressionado com a visão de uma janela, o que lhe faz cismar. Um de seus companheiros de viagem acode-lhe, dispondo-se a contar a história da menina que um dia vivera ali, recostada àquela janela, rodeada de rouxinóis. Começa aqui o episódio da “Joaninha dos olhos verdes”.

Nem preciso dizer que grande parte do meu interesse em ler as Viagens era justamente conhecer o famigerado episódio de Joaninha. Que decepção! E que claro esteja: agora trato do romancista!

A história de Joaninha, à primeira vista, pode mesmo parecer bastante singela. A narrativa principia de maneira bem despretensiosa: uma velha cega (dona Francisca) dobando um novelo, tendo como única companhia sua neta (Joaninha) de dezesseis anos. As duas recebem, costumeiramente às sextas-feiras, a visita do sinistro Frei Dinis. Há, contudo, uma aura de mistério em torno desse quadro de simplicidade.

Mas, agora, desenrolemos a trama sem os meandros do autor rs!

Dinis de Ataíde fora um nobre português que, após ter granjeado sucesso na carreira militar, dedicara-se à magistratura, fazendo interessante fortuna. Teve, contudo, a má sorte de interessar-se por uma mulher casada: a filha de dona Francisca. Consumado o adultério, nasce Carlos, a quem todos pensam ser um filho legítimo. Quando descoberta a traição, o filho de dona Francisca (pai de Joaninha) une-se ao cunhado para limpar a honra da família. Dinis, em defesa da própria vida, vê-se obrigado a matar os dois; matara, contudo, ignorando a identidade de suas vítimas; o reconhecimento delas causa-lhe grande arrependimento. Para livrar-se dos corpos, lança-os no rio Tejo, o que acaba sugerindo, com conveniência, um suposto acidente.

Dinis não esconde o crime praticado da mãe de Carlos. A esposa infiel, horrorizada, falece chorando pelo marido perdido e amaldiçoando o amante, pai de seu filho. Lembremos ainda que dona Francisca esteve sempre a par de todos esses acontecimentos! Assim, para expiarem suas penas, Dinis de Ataíde e dona Francisca entregam-se à vida religiosa. O magistrado torna-se Frei Dinis, guardião do Convento de S. Francisco de Santarém; e dona Francisca consagra-se à educação de seus netos: Carlos e Joaninha. A fortuna que fora de Dinis de Ataíde é quase toda para o sustento dos órfãos.

As circunstâncias teriam seguido assim sem maiores dificuldades, não fosse o fato de que Carlos cresce com a desconfiança de que sua avó e Frei Dinis foram cúmplices na morte de “seu pai”. Sua prima, quinze anos mais jovem que ele, era muito criança para compartilhar de seus receios. Desiludido ainda com a situação política de Portugal, Carlos, após formar-se em Direito, decide emigrar para a Inglaterra. Sua partida acaba sendo fulminante para todos. Não se trata de uma questão puramente familiar, mas política.

Instaura-se uma guerra civil entre realistas e liberais. Carlos está entre os liberais, para desgosto de Frei Dinis. Os combates trazem-lhe de volta ao Vale de Santarém e, numa tarde, ele reencontra Joaninha, adormecida no campo. A nova imagem da prima, que vira apenas criança, acende-lhe chamas no coração. E agora falemos do coração de Carlos, que vem a ser o “grande motivo” do romance.

Carlos sofre por ter um coração maior do que se possa conceber. Em Inglaterra, por exemplo, ele apaixona-se por três irmãs: Júlia, Laura e Georgina. Certamente que seu tipo era dos mais atraentes, uma vez que as três irmãs acabam correspondendo aos seus honestos sentimentos. Mas não pensem que ele comete o descaramento de amá-las ao mesmo tempo! Seu coração só resiste a uma por vez rs. A primeira que amou, Laura, infelizmente, já estava comprometida e acaba indo morar com o marido na Índia; com Júlia, seu amor acaba sendo mais platônico, em razão de Georgina ser muito mais bonita rs; o reencontro com Joaninha, finalmente, vem confirmar o diagnóstico que ele mesmo faz de si: “Oh! eu sou monstro, um aleijão moral deveras, ou não sei o que sou.”. Não parece um romance maravilhoso e de grande interesse? Mas ainda não chegamos na melhor parte rs!

Em razão de seu compromisso com os liberais, Carlos deixa sua noiva e vai para a Ilha Terceira, onde desperta o amor de uma piedosa freira que, segunda ela, só queria consolá-lo. Ele, de fato, parecia muito triste por ter o coração dividido entre a Índia, a Inglaterra e o Vale de Santarém rs! O diabo não é tão feio como se pinta; por isso, Carlos acaba não correspondendo a mais esta conquista, o que não evita contudo diversos comentários maldosos a este respeito.

Lamento se esta resenha estiver um pouco confusa. Garanto que o é menos que o livro de Garrett!

Esquecia-me dizer o resultado do bucólico encontro entre Joaninha e seu amável primo. A reação dela ao despertar é de grande surpresa por encontrar a personificação do objeto de seus sonhos, porque, sim, Joaninha também acaba apaixonada por Carlos. Dividido entre o amor da prima e o da bela inglesa, Carlos empenha-se na sua causa política, mas acaba gravemente ferido num combate. Feito prisioneiro, ele acaba sendo salvo por Frei Dinis, que decide tratar as feridas do filho em seu convento. Mas Carlos ainda teria uma enfermeira particular: Georgina, que fora encontrá-lo em Portugal, por julgar muito frias as últimas cartas mandadas pelo maravilhoso noivo. Desconfiada, ela acaba sabendo da existência de Joaninha e dos novos sentimentos de seu amado; mas, num ato de inacreditável resignação, a bela inglesa acaba cedendo Carlos para a tal priminha dos rouxinóis. Digno de nota: Joaninha aceita o sacrifício de Georgina de muito bom grado.

As desconfianças de Carlos são também finalmente esclarecidas depois que ele se recupera das feridas. Sua primeira ideia é matar Frei Dinis, mas acaba sendo retido pela descoberta de ser o franciscano seu verdadeiro pai. Perplexo, ele beija a mão ao pai, abraça a avó e parte para Évora. De lá, remete uma carta para Joaninha, contando-lhe os detalhes de seu incomum coração, tão incapaz de amar uma única mulher. Joaninha enlouquece e morre; Carlos enriquece e torna-se barão.

Não é uma linda história de amor?

Não bastasse o enredo do episódio de Joaninha ter se perdido inteiramente em incoerências, o autor alterna tão emocionante história com outras tantas digressões, mas não como aquelas dos capítulos iniciais. As digressões finais fazem o leitor percorrer por templos, túmulos, pardieiros e outros grandes monumentos da histórica Santarém. Vocês não imaginam o meu interesse rs!

Brincadeiras à parte, não estou aqui para questionar o valor da obra de Garrett. Percebi, principalmente na primeira metade da obra, o grande escritor que ele era. Mas, convenhamos que, como romancista, realmente não vingou.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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2 comentários:

  1. Tive uma aula sobre esse livro sexta-feira última. Uma coisa que o professor comentou foi o fato de que, por ser leitura obrigatória de alguns vestibulares, acontece muito de o aluno ler o livro obrigado e levar a ironia e o humor dos capítulos inicais do Garrett a sério e aí o que já é uma leitura difícil fica quase intolerável, dando a impressão de que nada acontece.

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    1. Sim, Michael! Um leitor menos experiente poderá pensar que o autor está "se achando", mas essa vaidade é, como disse, um artifício de estilo e humor. Uma pena que Garrett, pelo menos a meu ver, não tenha conseguido manter o mesmo nível até o final da obra. Um abraço!

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