sábado, 24 de março de 2018

Os Dois Sósias (The Man Who Lost Himself), de H. De Vere Stacpoole - RESENHA #62


Entusiasmado que fiquei com a escrita de Stacpoole, quando li ano passado A Lagoa Azul, ansiava urgentemente ler mais alguma coisa do autor. Ainda entristecido por não poder ler os outros dois livros da trilogia de Emelina e Dick, acabei localizando este romance de aventuras publicado no Brasil em 1956 pela editora Edigraf: Os Dois Sósias (The Man Who Lost Himself, 1918).

Mesmo assinado por Stacpoole, o livro não parecia grande coisa, a julgar pela qualidade da edição. O título bem diverso do original também me sugeriu uma tradução malcuidada. Mas como era tudo o que me restava deste maravilhoso irlandês, não podia deixar passar rs! E para minha grande surpresa (ou nem tanto assim), acabei adorando o livro. Simplesmente divertidíssimo!

Os Dois Sósias, diferente d’A Lagoa Azul, é obra mais ligeira e despretensiosa, mas de leitura tão agradável e cativante, que estou convencido de que Stacpoole tem sido negligenciado pelo público brasileiro. Ainda que tenha lido por uma edição de bolso com letra pequeníssima e numa tradução um tanto problemática, pude vislumbrar o talento inquestionável do autor. Dentre outras surpresas, o enredo me fez pensar que talvez Inés Rodena tenha se inspirado nesta obra para criar a trama de La Usurpadora. Quando passarmos ao enredo, este ponto estará devidamente esclarecido. Que seja pois já rs!

Vitor Jones é um jovem americano que não tem tido sorte na vida. Uma recente relação profissional o leva para território inglês onde mais uma vez a sorte se lhe apresenta adversa. Desgostoso de tanto insucesso, acaba conhecendo um homem que mudará sua vida inteiramente: o conde Artur Rochester, seu perfeito sósia. Este, primeiro a se dar conta da incrível semelhança entre os dois, decide festejar a descoberta com Jones.

No dia seguinte, Jones acorda num lugar onde nunca esteve antes. Ele só lembra de ter sido carregado bêbado para aquela residência que logo reconhece ser a mansão do conde de Rochester. Uma porção de criados logo o cerca de cuidados e atenções com os quais ele nunca sonhara. Todos o tomam pelo conde. Embora julgando-se vítima de uma brincadeira, o verdadeiro conde não se manifesta. Uma notícia de jornal notificando a morte de um americano identificado como “Vitor Jones” convence o verdadeiro Jones de que fora o conde de Rochester, o responsável pela troca, quem realmente acabara falecendo.

O conde, contudo, tivera tempo de deixar uma carta para seu sósia, pedindo-lhe que se aguentasse em seu lugar. Assustado com a situação, receoso de complicar-se ainda mais e sem um níquel no bolso, Jones prefere calar a verdade e continuar representando o papel do sósia. Não imaginava, contudo, que Rochester fosse um estroina de péssima reputação, cercado de más companhias e, ainda por cima, infiel à esposa.

Para sua surpresa (e do leitor), Jones assume a identidade do sósia de tal forma, que reage às consequências da vida dele, como se fosse a sua própria, chegando mesmo a confundir-se ocasionalmente sobre sua personalidade. Tudo o que era indiferente a Rochester é encarado com austeridade pelo sósia que logo propõe-se a reparar todos os erros daquele cujo lugar usurpava. Como se não bastassem tantos problemas de natureza diversa, Jones ainda sente-se inevitavelmente atraído por Teresa, a esposa do conde, que não obstante os inumeráveis defeitos do marido, ainda o ama. Digam se vocês não viram essa novela de Gabi Spanic rs?

Admito que mesmo envolvido com as peripécias aventurescas da trama, não podia deixar de rir-me da situação, como que desdenhando de uma história improvável que não fazia mais que me divertir. Mas Stacpoole, prevenido de leitores como eu, acaba fazendo uso de um recurso com o qual não contava. Em poucas palavras, ele cria uma situação que obriga o leitor a dar crédito à sua improvável narrativa. O que parecia inverossímil acaba sendo aceitável. Essa obstinação do autor por fazer crível seu enredo fez a obra crescer consideravelmente em meu conceito.

No mais, só compartilho de uma impressão curiosa que tenho observado em relação a romances de aventura. Esse ritmo acelerado que os caracteriza chega a me aturdir. Talvez por estar habituado a leituras que refletem as situações mais atentamente e que, portanto, são mais lentas, fico quase ofegante com esse correr de cenas e acontecimentos apressados. Ainda que me divirta com as situações, elas acabam me cansando também, pela velocidade com que transcorrem na obra.

Desejaria muito ver Stacpoole sendo reeditado aqui no Brasil. É autor de estilo agradável e envolvente, seja pela sedução poética d’A Lagoa Azul, seja pelo movimento excitante d’Os Dois Sósias.

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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