terça-feira, 20 de outubro de 2020

A Dama de Espadas, de Aleksandr Púchkin - RESENHA #147

Já estava mesmo passando da hora de finalmente travar meu primeiro contato com os russos. Meus métodos pessoais indicaram-me Aleksandr Púchkin, o iniciador da literatura russa moderna, que influenciaria praticamente todos os prosadores posteriores.

Desconsiderando a importância da inovação que o poeta do Eugênio Oneguin trouxe para a literatura de seu país, temos uma produção ficcional de pouco interesse para o leitor contemporâneo, dada a simplicidade dos enredos e escolha dos temas. Não saberia dizer se minhas impressões são reflexo da seleção questionável de Boris Schnaiderman para a coletânea que li. O caso é que boa parte deste volume enfadou-me ao ponto de querer abandoná-lo.

Acredito que uma boa antologia é aquela que reúne os trabalhos mais significativos que se inserem na proposta do volume que se pretende publicar. Nesse sentido, a inserção de obras inacabadas, a meu ver, comprometem a experiência do leitor que deseja um primeiro contato com determinado autor ou temática. Imaginem uma seleta da prosa romântica alencarina cujo pórtico fosse A Neta d’Anhanguera, seguida d’A Cabeça de Santo Antônio ou d’Os Contrabandistas. Isso mesmo! Não faz sentido.

Schnaiderman abre sua seleta de Púchkin com duas novelas inacabadas: “O negro de Pedro, o grande” e “Dubróvski”. Em ambas constatamos a boa escrita do ficcionista russo, mas acabamos frustrados nos dois casos: no primeiro, pela inconclusão da trama; no último, além da inconclusão, pela insipidez do enredo. “Dubróvski” quase me leva a abandonar o livro, mas minha persistência foi justamente recompensada nos trabalhos seguintes.

“A dama de espadas”, que dá título ao volume, além da primeira narrativa completa, é também a primeira que constitui um bom momento do conjunto. Com sutil ironia, Púchkin nos apresenta uma história sobre ambição e suas consequências. Lisavieta Ivânovna é cortejada por Hermann, mas o real interesse do jovem é tentar uma aproximação com a patroa de sua pretendente, a fim de descobrir um inusitado segredo de jogo que poderá enriquecê-lo.

Dando sequência a essas três novelas, temos quatro contos. “O chefe da estação” deixou-me um tanto intrigado. Irônico e melancólico em linhas gerais, o conto pareceu-me interessante, mas questionável pela conduta dos personagens. Penso que, se Púchkin tivesse feito dele uma novela, teria tido mais espaço para desenvolver melhor sua trama, como também explicar mais claramente o comportamento das figuras centrais.

“O tiro” talvez seja o mais bobinho da antologia, apesar de ter uma construção curiosa por nos mostrar um narrador-personagem que nos conta um causo completo a partir de dois encontros casuais que tivera.

“O fazedor de caixões” rivaliza com “A dama de espadas” a posição de melhor narrativa do conjunto. Com sua atmosfera fantástica, o conto nos surpreende pela alteração que se faz no estilo do meio para o final, como também pelo clichê do desfecho que, ao tempo da publicação, deveria causar maior impressão aos leitores da época.

“Kirdjali” encerra pessimamente a seleta de prosa da antologia. Maçante e arrastado, tenho minhas dúvidas se li de fato esse último conto. Sobre os poemas de Púchkin nada tenho a declarar.

Minha primeira experiência com os russos, conforme visto, não foi lá muito feliz. Mas, como há tantos outros autores ainda por conhecer, acredito que algum deles será digno da minha simpatia. É esperar pra ver! rs

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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