quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Memórias de Marta, de Júlia Lopes de Almeida - RESENHA #142

Júlia Lopes de Almeida está se tornando minha musa literária favorita, uma vez que, a cada nova leitura que realizo de sua vasta obra, fico mais encantado com o talento dessa escritora primorosa que esteve por tão largo tempo injustamente esquecida dos leitores brasileiros.

Desta vez li seu primeiro romance, o subestimado Memórias de Marta (1888), que muito me surpreendeu, pois não contava que D. Júlia já desse mostras de tanta habilidade artística em sua estreia com narrativas mais longas. A obra já se inicia revelando técnicas avançadas para a época, que fazem da autora de A Falência nossa primeira prosadora “pré-modernista”.

As Memórias de Marta compreendem o relato de uma mulher madura sobre as dificuldades e restrições enfrentadas desde a infância até a vida adulta. Marta nascera num lar razoavelmente abastado, mas um roubo sofrido por seu pai durante uma viagem complica a situação financeira da família. A morte deste, pouco depois, rebaixa a viúva e a órfã à condição de miséria, obrigando a senhora Marta (mãe e filha compartilham do mesmo nome) a trabalhar como engomadeira.

A narradora, além de comentar o choque da mudança para um cortiço, descreve a nova moradia com propriedade, ressaltando os moradores que ocupam o mesmo aglomerado. D. Júlia antecipa, de certa forma, o que Aluísio Azevedo faria em sua obra-prima, O Cortiço (1890). A autora põe mesmo uns toques naturalistas em determinadas passagens, como também na criação de tipos: a ilhoa, a lavadeira bêbada, o mulatinho Lucas, o tio Bernardo, os dois rapazes tiroleses que “viviam juntos”, etc.

Marta detém-se mais sobre a família da ilhoa, pois brincava com os filhos desta. A autora aproveita o ensejo para denunciar a exploração e a marginalização de crianças, tema que seria recorrente em suas obras futuras, como Cruel Amor. Carolina, filha mais velha da ilhoa, é obrigada a trabalhar desde cedo, mas chama mais atenção o caso de seu irmão Maneco, que é alcoolizado pelo vendeiro do cortiço.

A protagonista confidencia a revolta provocada pela pobreza, principalmente quando comparada ao luxo em que viviam as filhas das freguesas de sua mãe. A entrada de Marta para a escola, no entanto, será o primeiro movimento de reação àquelas circunstâncias e, a partir daí, novas possibilidades se abrirão para mãe e filha.

O livro de D. Júlia é todo escrito num delicioso tom memorialístico, onde acompanhamos a trajetória de Marta, que encara suas contingências com uma natureza sensível e frágil. A personagem possui muitos complexos e tenta viver/encaixar-se numa sociedade que, para ela, representa um padrão inatingível. A passagem da juventude para a vida adulta é um dos momentos mais interessantes da obra, envolvendo dilemas e lances amorosos que repercutirão significativamente no futuro da protagonista.

Foi de fato uma enorme surpresa ter encontrado uma obra desse porte na estreia de D. Júlia como romancista. Em menos de duzentas páginas, a autora nos entrega matéria suficiente para entreter e reverberar. A prosadora de Memórias de Marta não precisou engatinhar, andou livremente desde seus primeiros passos.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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