domingo, 13 de outubro de 2019

O Galo de Ouro, de Rachel de Queiroz - RESENHA #112


Em 2013, quando li Til, do meu amado Alencar, experimentei uma estranha sensação de perda. Afinal, era o último romance que me restava ler do meu autor favorito. Caso parecido se deu agora há pouco quando li O Galo de Ouro, da também amada Rachelzinha. Embora não a aprecie tanto quanto ao cantor de Iracema, não pude deixar de lamentar o ter esgotado sua obra romanesca.

A primeira vez que li Rachel de Queiroz foi em 2004, através de O Quinze, seu romance mais conhecido, que muito me impressionou. Mas minha relação afetiva com a autora só seria consolidada em 2015, após a leitura de Dôra, Doralina. Daí em diante, sempre que pegava um novo romance dela para ler, era como se uma vovozinha simpática me pegasse no colo para contar uma boa história. Foi nesse colinho quente de vovó que conheci Maria Moura, João Miguel, Noemi, Maria Augusta e, mais recentemente, Mariano. É desse colinho de vovó que já estou sentindo falta, embora ainda tenha por aqui títulos em que Rachel se aventurou por outros gêneros, inclusive as histórias infantis.

O Galo de Ouro é o único romance de Rachel que não é ambientado no Ceará. A história se passa na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, onde a escritora morou por um tempo. Escrito especialmente para o folhetim da revista O Cruzeiro, os quarenta capítulos da trama saíram entre setembro de 1950 e junho de 1951. Sucesso imediato, despertou logo o desejo dos editores para publicação em livro, mas Rachel, que julgava o texto pouco trabalhado e escrito ligeiramente, preferiu engavetar os originais aos quais retornaria mais de trinta anos depois. A 1ª edição em volume foi lançada em 1985.

No enredo, acompanhamos a trajetória de Mariano: suas experiências profissionais e lances amorosos. Logo no começo do livro, quando Mariano era garçom, ele perde sua companheira Percília num acidente de carro, além de ficar semialeijado do braço direito. Sua filha Gina passa a viver sob os cuidados da comadre Loura e Mariano vai trabalhar como bicheiro (banqueiro de jogo do bicho), passando a residir na Ilha do Governador, onde levantara a casa na qual pretendia viver com Percília.

Por esse tempo, nosso protagonista conhece Nazaré, uma mocinha namoradeira que suspirava por gozar os divertimentos da cidade. Mariano se interessa por ela, mas a pequena mantém um namoro secreto com Zezé, um malandro de péssima reputação. Nazaré, embora bastante atraída por Zezé, reconhece em Mariano uma possibilidade mais consistente para mudar de vida e, por isso, aceita sair com ele. Este, sabendo da existência de Zezé, aproveita-se da circunstância de Nazaré ter recebido do namorado um anel roubado para denunciá-lo às autoridades. Mas algo inesperado acontece...

O Galo de Ouro, não obstante sua ambientação carioca, segue o estilo simples e fluente dos melhores romances de Rachel. A história é contada de forma bastante convincente e os tipos são tão realistas, que se torna incontestável dizer que todos foram tirados do meio em que Rachel viveu nos anos 40.

Apesar da já citada sensação de perda, tive com este último romance uma despedida muito feliz, tanto que o prolonguei o mais que pude, o que me rendeu duas semanas no colo aconchegante da vovó. Mas pressinto que ainda me depararei com muitos outros colos acolhedores. Quem sabe algum me faça recordar o balançar da cadeira de Rachel, sua vozinha melodiosa, o frescor de seu alpendre...

Ó, minha querida, Não Me Deixes!

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

*** 

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2 comentários:

  1. Estou ainda lento esse romance. Maravilhoso!!!

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    1. Sim, muito bom, mas meus favoritos ainda são "O Quinze" e "Dôra, Doralina" :)

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