segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O Exorcista (The Exorcist), de William Peter Blatty - RESENHA #31



O Exorcista foi um dos meus piores terrores de infância. Lembro que morria de medo quando via as chamadas do filme na TV. Engraçado como o medo, de certa forma, nos atrai. Mesmo morrendo de medo, tinha aquela vontadezinha de assistir, uma curiosidade teimosa. Ficava ouvindo meus amigos comentando, prestava sempre atenção, imaginava as cenas na minha cabeça e me assustava só de pensar. Um dos meninos tinha conseguido o livro, numa edição bem antiga da Nova Cultural. Lembro que nenhum de nós teve coragem de ler, nem mesmo eu que era o mais afeito a livros.

Finalmente, mais de 10 anos depois, criei coragem suficiente para encarar o livro e o filme. Tinha como uma questão de honra superar esse trauma de infância rsrsrs. Mas, com toda sinceridade, foi mais difícil do que pensei.

É bem provável que a inevitável associação da recente experiência com as lembranças da infância tenha contribuído bastante com o medo que senti. Provavelmente, se nunca tivesse sequer ouvido falar na trama, não teria sido tão abalado pela experiência. Quando peguei o livro pra ler, parecia estar voltando no tempo. Não tinha como não me sentir incomodado: um repentino pavor, um tremor nas mãos, um gelo nos pés... Xi... Fazia tempo que não sentia isso rsrsrs. Mesmo assim, não desisti daquilo a que me propusera e fui ficando menos tenso com o decorrer da leitura, mas não isento daquela apreensão ao menor ruído, a qualquer movimento inesperado. Ui rsrsrs! Estou rindo agora, mas, no ato da leitura, tive medo mesmo.

Estou me perguntando se preciso mesmo contar o enredo. Todo mundo já conhece essa história, não? Mas para quem tiver esquecido, O Exorcista relata o caso de uma garotinha de doze anos, que é possuída pelo demônio (ou não?). Blatty realiza um esforço admirável na construção de uma trama que pende para duas soluções: uma natural e uma sobrenatural. Sempre que Regan apresenta um novo sintoma de possessão, uma explicação científica logo nos aparece como uma réplica. Há quem diga que esse debate não tem solução no livro, mas somente uma pessoa inteiramente cética não chegaria à conclusão de que Regan estava mesmo endemoninhada. Não quero abrir parêntese para falar de religião, mas faço questão de esclarecer que meu entendimento da obra se fundamenta na fé que professo.

O Exorcista, mais do que um livro de terror, é uma obra que pretende discutir o que é “fé”. Chris, a mãe de Regan, é uma atriz ateia. Quando percebe que a Ciência não tem recursos para “curar” sua filha, sendo inclusive aconselhada pelos próprios médicos a buscar uma solução espiritual, passa a acreditar no sobrenatural. Ainda que não admita a existência de Deus, alimenta sua fé numa força invisível e misteriosa aos homens. Por outro lado, o autor nos apresenta Damien Karras, um padre cuja fé está abalada. Procurado por Chris, o padre Karras, que também é psiquiatra, consente em examinar Regan. Diferente de Chris, o padre não acredita na hipótese de possessão. Suas explicações são sempre amparadas pela lógica natural da Ciência. O próprio “exorcismo” aplicado a Regan é realizado mais como medida científica que espiritual. Daí, não poderia deixar de destacar a presença do fator Ciência no livro.

O autor, mesmo baseando-se num caso real, faz uma pesquisa científica impressionante. Algumas passagens do romance são verdadeiras aulas de psiquiatria, focando sobretudo em distúrbios com características extrassensoriais. É perceptível também, claro, a pesquisa religiosa, especialmente no que diz respeito a satanismo, demonologia e exorcismo. Todas essas pesquisas dão respaldo para que Blatty persista no combate entre a Fé e a Ciência, na tenuidade entre o natural e o sobrenatural. Nem preciso dizer que a trama é muito bem realizada. Quem viu o filme deve lembrar-se da riqueza de conteúdo do enredo. Mesmo sendo muito fiel ao livro, o filme apresenta algumas variantes que, ao invés de prejudicar a trama, aperfeiçoam-na quase sempre. E agora podemos nos concentrar nos problemas do livro.

Logo que comecei a leitura d’O Exorcista, percebi que faltava ao autor técnica literária. Não parecia que lia um romance, mas um roteiro de cinema, o que me leva a crer que, desde o princípio, o objetivo de Blatty era levar O Exorcista às telas. A obra traz diálogos extensos e muitas vezes maçantes, especialmente na primeira metade. Em várias passagens, reconhecemos falas que poderiam ter sido suprimidas, por não trazerem nenhuma relevância à obra. Algumas conversas impacientam o leitor, principalmente a partir do momento em que a narrativa assume uma roupagem de romance policial. Isso ocorre após a morte de um personagem secundário, o que abre espaço para uma fervorosa investigação por parte do detetive Kinderman, que me chateou bastante com suas inacabáveis perguntas. Não tenho experiência com literatura policial, mas se nela encontrar personagens impertinentes como esse Kinderman, vou passar longe do gênero rsrsrs.

Não poderia deixar de admitir que, sim, à medida que o romance se desenrola, a técnica literária da qual senti falta nos capítulos iniciais, vai surgindo paulatinamente e ganhando força. É bastante perceptível o crescimento ou evolução da obra do início ao fim. Nem preciso dizer que o desfecho do romance é de tirar o fôlego. Contudo, não vi a grande obra-prima que tanta gente falava. Na verdade, penso que, se não fossem os temas delicados que aborda com frieza (as obscenidades, as profanações, além de certos exageros com relação à possessão de Regan), este livro não teria causado tanto alvoroço. Mas vejam bem! Estou falando do livro. O filme, que condensa muitos excessos da obra original, principalmente no tocante à sintetização dos diálogos, é realmente fabuloso, tanto que revolucionou a indústria do Cinema de horror.

A escrita apelativa de Blatty é revoltante. Fico imaginando a reação de um cristão rsrsrs... O excesso de cenas provocantes, entremeada de palavrões e gestos obscenos, torna a leitura uma experiência... digamos... repugnante. As descrições das profanações, aparecidas na igreja próxima à casa de Chris, confirmam a intenção do autor de chocar o leitor. Enfim, são tantas baixezas, censuradas até pelo filme, que acabam não tendo outra função que não a de indignar. O aproveitamento das questões relativas à fé e ao mal que existe em cada um de nós acaba compensando e até justificando a razão de ler este livro.

Pronto. Penso que já falei tudo o que tinha planejado, faltando apenas comentar a última frase, que tem intrigado tanta gente. Se você não quiser saber da frase, pare por aqui e tchauzinho! Quem continua lendo este post, ou já leu o livro ou não se importa que eu revele a frase, que é: “No ato de esquecer, eles tentavam se lembrar.” Assim como deve ter acontecido com todo mundo que chegou ao fim do livro, julguei estranha essa frase que aparece após a trivial conversa entre o padre Dyer e o detetive Kinderman. Mas pensando um pouco, observando o rumo que tomara a conversa, totalmente distante do recente drama, imagino que o autor tencionava revelar que embora os personagens parecessem “esquecidos” dos recentes acontecimentos, eles não conseguiam tirá-los do pensamento. Se você entendeu de outra forma, compartilhe nos comentários! Enfim, acabou. Finalmente virei essa assustadora página!

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

*** 

SKOOB: http://www.skoob.com.br/usuario/1348798
Escreva para o blog: autordanielcoutinho@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário