sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Ermitão do Muquém, de Bernardo Guimarães - RESENHA #59



Quando penso em romance indianista, só lembro de Alencar, pois até então não tinha lido outros que não os do cantor de Iracema. Não sabia que o romance de estreia de Bernardo Guimarães tratava-se de obra indianista. O que sabia d’O Ermitão do Muquém era seu pioneirismo na história do romance regionalista nacional. O caso é que, dividido entre essas duas tendências, o romance está simplesmente formidável. Há muito que não lia um novo romance do autor, que é um dos meus românticos favoritos, especialmente pela sedução que tem a sua escrita.

Editado ora como “O Ermitão de Muquém”, ora como “O Ermitão do Muquém”, o título mais correto vem a ser este último, por ser o que consta na 1ª edição, como nas posteriores impressas em vida do autor. O subtítulo acusa: História da fundação da Romaria de Muquém na província de Goiás. Festejada até os dias de hoje pelos fieis devotos, a romaria de Muquém tem sua origem romanceada por Bernardo Guimarães que, na introdução de seu romance, alega ter ouvido toda a narrativa da boca de um romeiro, enquanto fazia pouso num rancho mineiro. Contudo, embora não possa afirmar, acredito que toda a fabulação d’O Ermitão do Muquém é fruto da imaginação de seu autor, uma vez que não encontrei referências à narrativa em outras fontes.

O romance é dividido em quatro “pousos”, que correspondem àqueles realizados pela comitiva do autor, durante a narração do romeiro. Vamos pois à história!

Gonçalo é um típico valentão de Vila Boa (atual Goiás) que desafia a quantos queiram medir forças com ele. Ainda que inspirado pelos bons sentimentos recebidos dos falecidos pais, a índole de Gonçalo instiga-o à vida rude e desregrada. Num dia em que via-se louco por uma briga, decide provocar seu amigo Reinaldo, insinuando-se para Maroca, a namorada do rapaz. A situação dá lugar a um sangrento combate, onde Reinaldo acaba morto e Maroca enlouquece de tão impressionada.

Fugitivo das autoridades, Gonçalo buscará refúgio entre os selvagens, passando por várias peripécias até chegar finalmente à tribo dos Xavantes, onde conhecerá a bela Guaraciaba, por quem logo se apaixona. A virgem, filha do velho cacique Oriçanga, já está, no entanto, prometida desde o berço ao intrépido guerreiro Inimá. Como os sentimentos de Itajiba (Gonçalo é chamado assim pelos Xavantes) são bem recebidos por Guaraciaba, e ele também acaba ganhando a simpatia de Andiara, principal pajé da tribo, decide-se realizar uma grandiosa prova entre os rivais, para a escolha do companheiro da filha de Oriçanga.

O poder de ambientação de Bernardo Guimarães é algo surpreendente, de maneira que sentimo-nos dentro da história o tempo todo. De fato, as cenas são pintadas com cores tão vivas e cintilantes que, atreladas à escrita fluida e feiticeira do autor, fazem a leitura voar. O estilo é, tal como em outras obras já lidas desse grande mineiro, deliciosíssimo. Verdade é que a pintura indianista não é da mesma precisão de um Alencar, mas o senão acaba sendo justificado pelos intermédios que tem a história que, como disse, é relatada por um romeiro que, por sua vez, a ouviu de terceiros.

Indiscutível é que a empolgação despertada pela leitura não me dava oportunidade de prestar atenção em mais nada que não fosse a trama. Mas, claro, não pude deixar de apreciar a beleza da frase de Bernardo Guimarães, que vale por um aconchegante cafuné.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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