segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë - RESENHA #25



A leitura de O Morro dos Ventos Uivantes (1847) foi um misto de sensações boas e ruins. Poderia resumir o post nesta frase. Contudo, prefiro esclarecer mais detalhadamente minhas impressões, como sempre faço rs. A princípio, deixem-me confessar que esse livro é um dos muitos daqueles que imagino ser a última pessoa a ler. O título, por si só, dispensa apresentações, mas a verdade é que a mim ele perturbou mais que agradou. Li a tradução de Octávio Mendes Cajado para a “Coleção Saraiva”, numa edição em 2 volumes.

A história, imagino que todo mundo conheça; mas se isto é uma resenha, vamos recordá-la, sim?

Nas proximidades de Gimmerton, uma aldeia da Inglaterra, vive a família Earnshaw. O casal tem dois filhos: Hindley e Catherine. Todos vivem aparentemente bem na isolada propriedade Wuthering Heights (que é o título original do romance). A paz doméstica é interrompida com a chegada de um novo membro na família. Trata-se de Heathcliff, um garotinho com aparência de cigano, que fora encontrado abandonado, quando Mr. Earnshaw fazia uma viagem. De antemão, podemos dizer que Heathcliff é centro de todo o enredo, pois ele será o principal desencadeador de conflitos ao longo do livro.

O primeiro desses conflitos é a rivalidade entre Heathcliff e Hindley, pois este último despreza ter que dividir sua família, especialmente seu pai, com o estranho enjeitado. Catherine, por outro lado, torna-se “amiga” do ciganinho, que acaba virando cúmplice de suas criançadas. A morte dos senhores de Wuthering Heights, porém, faz de Hindley o novo soberano da casa, o que servirá para sujeitar todos à sua vontade, principalmente Heathcliff. Hindley acaba casando com uma mulher chamada Frances; com ela, tem um filho, batizado de Hareton. Após o nascimento da criança, Frances adoece e acaba morrendo dias depois. Hareton fica sob os cuidados de Nelly, a criada da casa. Essa Nelly é personagem fundamental da obra, uma vez que ela é quem conta praticamente toda a história. Daí, façamos um parêntese para compreender os narradores de Wuthering Heights.

O romance é todo narrado em 1ª pessoa, inicialmente por Lockwood, depois por Nelly, a quem corresponde mais de 90% da narração. O que ocorre é que o livro se inicia após os principais acontecimentos da trama. Lockwood aluga Thrushcross Grange, propriedade mais próxima de Wuthering Heights e pertencente ao mesmo dono. Decidido a conhecer melhor o seu locador, Lockwood faz-lhe uma visita e acaba tendo que passar a noite na casa por conta de uma tempestade. No quarto indicado para dormir, o visitante encontra as anotações de Catherine, o que desperta sua curiosidade sobre a história daquela antiga moradora. Nelly, que, a essa altura, é governanta em Thrushcross Grange, é quem lhe contará toda a história, a começar pelo que já referi. Vamos prosseguir?

Os sentimentos de Catherine e Heathcliff vão se fortalecendo com o passar dos anos e se transformando em algo muito maior que amizade. Catherine, contudo, reconhece que Heathcliff não passa de homem rude e ignorante, muito distante do perfil de homem que idealizava para marido. Quem terá esse perfil é Edgar Linton, filho dos proprietários (à época) de Thrushcross Grange. Edgar e sua irmã Isabella foram amigos de infância de Catherine, que está decidida a casar com o moço, principalmente para livrar-se do despotismo de Hindley e, quem sabe, poder livrar também a Heathcliff de toda aquela opressão vivida em Wuthering Heights. Consciente de seus sentimentos por Heathcliff, Catherine decide contar tudo a Nelly, sem perceber que o rapaz está à escuta. Quando Catherine revela que, para ela, seria degradante casar-se com o irmão de criação, este sai imediatamente de casa e trata de desaparecer. Tivesse demorado um pouco mais, Heathcliff teria ouvido a confissão do amor de Catherine por ele. Ao aperceber-se do desaparecimento do rapaz e dos possíveis motivos para tal sucesso, Catherine entra numa crise nervosa que abate ferozmente sua saúde.

E aqui assinalo a maldição que é Heathcliff. Como já contei, antes de aparecer em Wuthering Height, tudo ia bem com a família Earnshaw. A chegada de Heathcliff é que vem pôr tudo em desordem rsrsrs. Quando ele desaparece, magicamente, tudo fica bem novamente, tão logo, claro, Catherine se recupera de sua crise. A paz volta a reinar e o casamento com Edgar Linton logo acontece. Nelly faz questão de mencionar a felicidade dos primeiros anos que sucederam àquele enlace. Mas, infelizmente, aquilo não se prolongaria por muito tempo. O que vocês acham que acontece? Sim! Heathcliff retorna de seu misterioso paradeiro, e bastante rico! Em vários momentos do livro, a autora joga com esse mistério por trás desse fatal personagem. Em certa passagem, inclusive, ele é comparado a um lobisomem ou vampiro, sempre persistindo os fatos obscuros de sua vida: seu nascimento, seu estranho comportamento, seu sumiço, seu enriquecimento, etc. A verdade é que Heathcliff é um verdadeiro monstro, e isso ficará bastante claro a partir de seu regresso de não se sabe onde. Não quero dar spoiler e penso até que já revelei muita coisa, mas posso adiantar que o propósito dessa repentina volta do nosso lobisomem é acertar pendências: com Hindley, com Linton, com Catherine, com todos.

Devem estar lembrados de Hareton, o filho de Hindley. Ele terá importante papel na trama, mas não poderei entrar em detalhes sem revelar importantes acontecimentos, os quais prefiro poupar aos futuros leitores da obra.

O Morro dos Ventos Uivantes é um livro perturbador. Não poucas vezes o leitor sentirá profunda revolta lendo suas áridas páginas. Os personagens, no geral, são desprezíveis e representam o motivo de ódio de muitos pela obra de Emily Brontë. Não obstante seus defeitos no que diz respeito a ocorrências improváveis, a escrita da autora nos convence a prosseguir, e confesso que me senti recompensado quando cheguei ao 2º volume, que embora também seja permeado pela maldade, representa com louvor a vitória da luz sobre as trevas.

Avaliação: ★★★
Daniel Coutinho

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