sábado, 3 de fevereiro de 2024

Cenas Populares, de Juvenal Galeno - RESENHA #205

A origem do conto cearense pode dividir opiniões, seja pela velha questão da diferença entre “conto” e “novela”, como também pelas circunstâncias de publicação. Há quem considere José de Alencar um precursor, por narrativas curtas como Cinco Minutos (1856) e A Viuvinha (1860). Em seguida, temos Franklin Távora, que publicou as histórias que formam A Trindade Maldita em 1862. Contos Brasileiros (1868), de Araripe Júnior, também entra na disputa. Mas é Juvenal Galeno, com suas Cenas Populares (1871), quem mais merece o título de precursor.

José de Alencar, o grande romancista, pouco se dedicou à produção de narrativas curtas. Acredito que apenas dois textos seus atendem aos critérios do que entendemos hoje por “conto”: o panfleto satírico “A corte do leão” (1867) e “Lembra-te de mim” (1872), que saiu no livro Noturnos, de Luís Guimarães Júnior. Cinco Minutos e A Viuvinha, na condição de obras mais extensas, não podem ser consideradas contos.

A Trindade Maldita, de Franklin Távora, por sua vez, obedece ao formato de “narrativa-moldura”, à maneira de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo, sua principal influência. Esse tipo de narrativa está mais para uma novela, embora, de fato, as histórias contidas na “moldura” possam ser entendidas isoladamente. Quanto aos Contos Brasileiros, de Araripe Júnior, a situação chega a ser engraçada, uma vez que o título é um tanto enganoso, sugerindo um compilado de histórias curtas, mas entregando na verdade uma novela, “Tabira”, seguida de um único conto: “Jaguaraçu e Saí”.

É Juvenal Galeno quem, portanto, apresenta a primeira coletânea de contos no formato que se utiliza até hoje, reunindo oito narrativas curtas no volume Cenas Populares. Se lembrarmos que as demais obras acima mencionadas foram publicadas por seus autores fora do Ceará, maior mérito atribuiremos a Galeno enquanto pioneiro do conto cearense.

Como ocorre à maioria dessas obras iniciadoras de um segmento literário, Cenas Populares é um trabalho de pouca excelência. Aqui o gênero “conto” está em processo de formação, e seu autor experimenta várias fórmulas na tentativa de encontrar o modelo mais azado aos seus fins estilísticos.

“Os pescadores” nos introduz a essa experiência tão inovadora para o poeta cearense. É possível que os contos de Galeno estejam dispostos em ordem cronológica de escrita, pois esta primeira história é notadamente marcada pela poesia, gênero que imortalizou o autor das Lendas e Canções Populares. “Os pescadores” não possui um enredo convencional; nele temos personagens e costumes sendo descritos, de tal forma a criar um quadro contemplativo para apreciação do leitor, como um longo poema em prosa.

“Dia de feira” segue por caminho semelhante. Deixamos o litoral cearense e seguimos para a Serra da Aratanha, onde o autor nos leva a contemplar um “dia de feira” no centro de Pacatuba. O autor experimenta, contudo, um modelo diferente, dividindo o texto em três partes principais: a primeira segue o mesmo estilo poético da narrativa anterior; a segunda se concentra num casal de agricultores, apresentando uma narrativa isolada, com começo, meio e fim, e que, por si só, renderia um conto; a terceira traz um relato histórico sobre a Serra da Aratanha e da então vila de Pacatuba.

É, contudo, na terceira narrativa, “Folhas secas”, que Juvenal Galeno acerta com o estereótipo do conto cearense. Temos aí, por assim dizer, o conto definitivo, com todos os seus componentes essenciais. É o trabalho mais excelente do conjunto, digno mesmo de figurar, com louvor, em qualquer antologia. Nele o vaqueiro José Bernardo, durante um serão noturno, relata os principais acontecimentos em torno de seu casamento com dona Francisquinha. “Folhas secas”, além de um enredo consistente, possui ritmo e ambientação primorosos, sendo ainda bem-humorado do início ao fim.

“Noite de núpcias” tenta reproduzir o esquema de “Folhas secas”, desta vez nos trazendo uma narrativa triste e lacrimejante. Não podemos esquecer que Cenas Populares foi publicado quando o Romantismo ainda estava vivendo seu auge no Brasil. O resultado neste quarto conto não foi tão satisfatório quanto no terceiro. O tema da garota iludida, abandonada e prostituída também já estava um tanto desgastado para a época, mas, ainda assim, o texto mantém-se bem-acabado e interessante.

“Senhor das caças” é outro ponto alto da coletânea. Juvenal Galeno, que sempre bebeu na fonte do folclore popular para fazer literatura, fez bom uso dessa matéria neste conto que é quase tão bom quanto “Folhas secas”. Durante uma “farinhada”, vários trabalhadores (de ambos os sexos) compartilham de uma prosa agradável, na qual alguns deles exercem a função de contadores de histórias fantásticas que divertem o grupo. “Senhor das caças” é praticamente uma “mini-narrativa-moldura”, contemplando histórias muito curtas. Embora a fantasia e o colorido dos causos relatados engrandeçam o conto, a ambientação construída na “moldura” é que o torna uma pequena joia literária.

Difícil de entender é como o autor, após tantos avanços, acaba retrocedendo na qualidade literária alcançada até então. “Clara” é o puro suco do romantismo exagerado e ultrapassado, sendo previsível e de pouca relevância. “Amor-do-Céu”, embora tocando num tema ainda recente e delicado para a época (o recrutamento de pais de família durante a Guerra do Paraguai), tem um ritmo arrastado e igualmente previsível. “O serão”, finalmente, embora não seja estupendo, encerra a coletânea de modo simpático.

Cenas Populares dificilmente agradará leitores em geral, por se tratar de um livro de conteúdo datado, onde um poeta experimenta pela primeira vez a prosa de ficção. Todavia, sendo a primeira coletânea de contos publicada por autor cearense, é leitura indispensável aos estudiosos da nossa literatura.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

TOP 5 - MELHORES LEITURAS DE 2023!!!

Apesar de ter lido consideravelmente menos em 2023, não poderia deixar de destacar as leituras mais marcantes do ano passado. Infelizmente tive muitas decepções literárias ao longo de todo o ano. Orgulho e Preconceito deve ter sido a maior delas. O aclamado clássico de Jane Austen não me conquistou da forma esperada, e a impressão final foi a de um livro datado e superestimado. Um volume de contos de Rachel de Queiroz (uma de minhas prosadoras favoritas) foi possivelmente o livro que menos gostei da autora até agora. O Almirante, de Domingos Olímpio, um dos livros mais ansiados por mim, com seus altos e baixos acabou sendo um romance bastante mediano. E, finalmente, os livros de que não gostei, como Laranja Mecânica e Torto Arado, fizeram de 2023 um ano difícil para este leitor. Mas passemos finalmente aos alentos do ano, ou seja, àqueles livros que nos fazem lembrar por que somos leitores apaixonados.

 

# 5º lugar → JANE EYRE, de Charlotte Brontë (3 estrelas)


Lamento que este livro tão importante para a literatura universal apareça aqui simplesmente como uma menção honrosa. Eu realmente esperava mais de Jane Eyre, e até previa gostar mais dele que d’O Morro dos Ventos Uivantes, o que não aconteceu. Tenho criado uma antipatia insuportável pelos “mocinhos” ingleses. Valancourt, Heathcliff, Mr. Darcy... Detesto todos eles. Quanto ao senhor Rochester, meus sentimentos foram um tanto contraditórios. Eu realmente penso que Jane merecia um homem melhor; mas, quando lembro de seu outro pretendente, aquele primo irritante que queria obrigá-la a ser missionária na Índia, acho Rochester formidável. No mais, o livro tem diversas passagens interessantíssimas, algumas até que me levaram às lágrimas. Eu simplesmente não conseguiria pensar nas leituras do ano passado sem lembrar de Jane Eyre.


# 4º lugar → MAURÍCIO, de Bernardo Guimarães (4 estrelas)


Todos sabem que eu amo uma boa literatura de entretenimento, gênero este do qual Bernardo Guimarães é simplesmente um mestre. Suas histórias, para mim, nunca perdem o fascínio e o sabor característico das narrativas orais. Maurício, em análise literária, talvez seja seu romance menos polido, o que em nada compromete os atrativos de um enredo envolvente e que mantém o leitor cativo do início ao fim. Os capítulos que escreveu para O Bandido do Rio das Mortes (continuação de Maurício) são uma amostra comprobatória de uma grandiosidade que infelizmente não pôde ser concluída, e que só por isso não integrou esta seleção.

 

# 3º lugar → O CAPOTE e outras histórias, de Nikolai Gógol (4 estrelas)


As narrativas curtas de Nikolai Gógol surgiram em meu caminho como uma luz no fim do túnel e, curiosamente, abriram uma sequência de ótimas leituras. “O capote” e “O nariz” são textos tão inovadores para a época em que foram publicados, que não há como não ficar surpreso com a genialidade de Gógol. Embora o “fantástico” não seja o gênero da minha preferência, o estilo criativo e bem-humorado do autor russo me conquistou definitivamente. Maior surpresa do ano, sem dúvida!


# 2º lugar → A PRINCESINHA, de Frances Hodgson Burnett (5 estrelas)


Sim, eu ainda avalio livros com 5 estrelas rs! E, para comoção geral, ano passado isto aconteceu duas vezes seguidas! Eu mesmo ainda nem acredito rs. A Princesinha é o segundo livro que leio de Frances Burnett. O Jardim Secreto, também avaliado com 5 estrelas, foi a melhor leitura de 2020 e, desde então, os livros de Frances estiveram no meu radar, embora não tenha muitos títulos dela. A Princesinha me fez questionar se gostei mais dela que do Jardim, e até agora não cheguei a uma conclusão. Acho ambos os livros incríveis, belíssimos e transformadores. Eu, particularmente, acho uma tarefa dificílima escrever um livro infantil que agrade (de verdade!) também ao adulto; e Frances faz isso com maestria. Sua escrita exerce um fascínio instantâneo sobre o leitor. Pessoas que abandonam seus livros precisam ser estudadas.

 

# 1º lugar → A VIÚVA SIMÕES, de Júlia Lopes de Almeida (5 estrelas)


Que saudade que senti de minha querida D. Júlia! Em 2022, por conta do projeto pessoal com a “Coleção Saraiva”, não pude ler um novo título da autora. Mas ano passado nos reencontramos e selamos de vez nosso caso de amor. Júlia Lopes de Almeida tornou-se oficialmente, até o presente momento rs, minha escritora preferida. Quando iniciei A Viúva Simões, embora estivesse gostando bastante, não imaginava a excelência que o livro alcançaria até o capítulo final. É emocionante o sentimento de grandeza que uma obra de arte pode proporcionar: quando a contemplação se apresenta como um privilégio. É assim que me sinto quando leio D. Júlia: um privilegiado.


Daniel Coutinho

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sábado, 30 de dezembro de 2023

A Princesinha (A Little Princess), de Frances Hodgson Burnett - RESENHA #204

A feliz experiência que tive com O Jardim Secreto, da inglesa Frances Hodgson Burnett, levou-me a querer conhecer outros títulos da autora. Seguindo o caminho mais óbvio, escolhi A Princesinha (1905) como próxima leitura. E, mais uma vez, Frances me mostrou o que é literatura infantil de alta qualidade.

A primeira versão deste clássico saiu com o título Sara Crewe (1888) em formato de conto. Os editores de Frances, no entanto, sugeriram um desenvolvimento melhor para a irresistível história da orfãzinha, o que resultou no livro que temos hoje, publicado mais de quinze anos depois em formato de romance.

A Princesinha, tal como O Jardim Secreto, é uma narrativa que explora valores como bondade, generosidade e esperança. Cada capítulo é uma espécie de lição que nos leva a refletir na riqueza que são os bons sentimentos. Sara é uma criança tão perfeita, que chega a ser difícil admitir sua existência, mas, ao longo do livro, acabamos conhecendo seu lado frágil em momentos de vulnerabilidade.

Sara é uma menina rica, filha do capitão Crewe, um importante negociante indiano. Órfã de mãe, aquela filha única sempre teve de tudo, sendo mimada pelo pai nos mínimos detalhes; mas, por conta dos negócios, o capitão decide matriculá-la num renomado colégio interno em Londres. A senhorita Minchin, diretora do internato, recebe Sara com bastante cordialidade, oferecendo-lhe todos os confortos disponíveis em sua escola, mas sua conduta é sempre guiada pela situação financeira avantajada daquele pai tão generoso.

A princípio, tudo parece correr bem para Sara que, com seu jeito doce e meigo, conquista muitas amizades, mas também inveja e antipatia de umas poucas garotas. Um funesto acontecimento, porém, muda a posição social de Sara do dia para a noite, transformando-a de princesinha em pobre serviçal. A repentina mudança gera um grande desafio para ela, que precisará adaptar-se a um novo cenário nada convidativo, mas que se tornará suportável graças ao poder de sua imaginação.

Lendo A Princesinha, tive o mesmo pensamento de quando li O Jardim Secreto: “O mundo inteiro precisa ler e praticar as lições deste livro”. As mensagens contidas nas obras de Frances não se aplicam somente às crianças. A verdade é que nós, adultos, carecemos muito mais da aplicação delas em nossas vidas.

É muito interessante como as páginas d’A Princesinha conversam com os nossos bons sentimentos. É como se o que há de melhor em nós reagisse aos episódios do livro, exclamando em nosso interior: “É isso mesmo! É assim que se faz!”, e desse modo confirmando que também somos pessoas boas e capazes de fazer o bem.

Livros como O Jardim Secreto e A Princesinha são renovadores de esperança. Eu me refiro à esperança em nós mesmos. A leitura deles nos faz pensar que, ao invés de olharmos para a humanidade como juízes, devemos fazer a nossa parte, e isso, de certa forma, bastará.

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 9 de dezembro de 2023

A Viúva Simões, de Júlia Lopes de Almeida - RESENHA #203

D. Júlia é um talento inegável. Dentre todas as escritoras brasileiras que já li, sua obra tem ressaltado com um viço e uma potência impressionantes, e isto vem se confirmando com mais força a cada nova leitura. A Viúva Simões (1895) é minha sexta experiência com a autora e, como já esperado, o livro caiu na minha graça.

É simplesmente maravilhoso quando lemos um autor pelo qual nos apaixonamos, principalmente quando, a cada novo livro, essa paixão só aumenta. Os livros de Júlia Lopes de Almeida conversam comigo de uma forma encantadora, pois o estilo deles vai diretamente ao encontro do meu gosto pessoal. A escolha dos temas, a construção dos enredos, a caracterização e atuação dos personagens, a condução da narrativa, o estilo de escrita... Tudo isso me agrada. Talvez o uso de alguns estrangeirismos seja o único ponto incômodo, mas nada que tire o brilho desses livros tão preciosos que a autora nos deixou.

Em A Viúva Simões, acompanhamos o drama de Ernestina que, tendo enviuvado muito jovem, renova suas antigas inclinações por Luciano, seu primeiro amor. O antigo namorado, porém, embora atraído pela viúva, é um homem mundano, avesso a compromissos. Depois de uma longa ausência, tendo vivido muitos anos na Europa, Luciano retorna ainda solteiro e passa a frequentar a casa de Ernestina, com quem flerta descaradamente.

Ernestina, contudo, possui uma filha já crescida, a jovem Sara, que em tudo lembra o falecido comendador Simões. Luciano antipatiza a garota à primeira vista, e não se esforça em nada por esconder da mãe sua opinião em relação à filha, mesmo o que diz respeito à aparência dela. Ernestina esforça-se ao máximo por apaziguar a situação, especialmente depois que Sara começa a perceber um movimento de mudanças acontecendo em sua casa.

Fiel à memória do pai, Sara encara pessimamente as atitudes da mãe, que interrompe o luto em menos de um ano. Mas essa alteração de cores no visual da família faz ressaltar a beleza de Sara, que já não é mais tão desinteressante aos olhos de Luciano. Uma aproximação inevitável entre os dois desencadeia uma série de acontecimentos dramáticos e até trágicos.

Uma qualidade das mais excelentes em D. Júlia é o manejo dos personagens secundários, sempre valorizados em seus romances. A caracterização que ela nos dá faz com que os enxerguemos tão nitidamente quanto as figuras centrais, e o movimento deles em cena confere um toque bastante realista aos episódios da trama. Os empregados de Ernestina não são meros figurantes. Ainda que a autora não se atenha a todos por igual, conhecemos suas existências, suas rotinas e suas aspirações.

Outra característica já percebida em leituras anteriores, e que considero muito positiva, é esse “efeito crescente” nos seus romances. À medida que avançamos no texto, a trama parece ganhar mais consistência, como um caldo que vai engrossando até atingir o ponto ideal. Quando finalmente chegamos ao desfecho, temos a imagem final de uma obra belamente acabada, onde, de modo geral, tudo está no seu devido lugar e nada mais precisa ser dito.

A Viúva Simões me deixou ainda mais apaixonado por sua autora. D. Júlia é hoje para mim um porto seguro, um lugar aconchegante onde sempre serei bem recebido. É um alento saber que ainda tenho vários livros dela para desfrutar. São essas alegrias que nos mantêm sendo leitores. E como isso é bom!

Avaliação: ★★★★★

Daniel Coutinho

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sábado, 11 de novembro de 2023

O Capote e outras histórias, de Nikolai Gógol - RESENHA #202

Eis que retorno à literatura russa! Se com Púchkin meus olhos de leitor não brilharam suficientemente, com Nikolai Gógol a experiência foi bem mais compensadora. Mas a questão é: podemos considerar russo o autor de “O capote”? Eu, particularmente, acredito que sim. Apesar de nascido na Ucrânia (numa época em que o país integrava o Império Russo) e de seus primeiros escritos tecerem sobre costumes e mitos de sua terra natal, Gógol viveu na Rússia, que serviu de cenário às suas obras mais importantes.

A literatura de Gógol é fantástica, nos dois sentidos. Seus textos são de uma qualidade artística impressionante que exerce sobre o leitor o fascínio característico das obras-primas. A universalidade dos temas, a escrita excelente e o bom humor em doses convenientes são alguns dos fatores que fazem da obra de Gógol atemporal. Mesmo quando um tema ou uma escolha me desagradavam, o talento mantinha-se evidente em qualquer das narrativas que li.

Quanto ao uso do fantástico, podemos dizer que Gógol antecipou em sua ficção o que mais tarde, no século XX, seria chamado de “realismo mágico”. Seus elementos fantasiosos, principalmente em sua “fase russa”, são nitidamente empenhados em servir uma crítica realista. É como se o “estranho” e o “maravilhoso” funcionassem como toques artísticos em sua obra, conferindo uma impressão final mais literária.

A seleta de contos e novelas que li, da Editora 34, está excelente, principalmente por trazer textos que revelam as múltiplas facetas do autor. “O capote”, que abre o volume, pode ser considerado a síntese do talento de Gógol. Há tanto o que dizer sobre ele, que seria justo escrever outra resenha à parte; mas, como não disponho de tempo para tal, contentemo-nos com um pequeno comentário.

O protagonista de “O capote” é um homem obcecado por seu trabalho. Na função de conselheiro titular, mesmo sendo ridicularizado por seus companheiros de repartição, Akáki Akákievitch sente-se intimamente realizado, a tal ponto, que concentra todos os prazeres de sua vida miserável no exercício de sua profissão. Quando, porém, vê-se obrigado a adquirir um novo capote, o foco de seus esforços acaba mudando e, com ele, sua própria vida.

A partir daí, muitas leituras podem ser feitas, tendo em vista os desdobramentos da narrativa. A figura do homem alienado, que concentra todos os seus anseios num único “lugar”, nos mostra o quão triste e perigoso pode ser esse modo de vida, especialmente quando o “lugar” para onde convergem todos os seus esforços deixa de existir.

“Diário de um louco” é o conto mais triste do conjunto. A genialidade de Gógol na construção desse trabalho torna-se ainda mais admirável pela época em que o escreveu. Um fator digno de nota é a mudança de tom que a narrativa assume do meio para o final. A história que começa leve e bem-humorada torna-se trágica e melancólica; mas tal mudança não chega a ser abrupta, pois o formato de “diário” permite uma sucessão mais livre dos acontecimentos.

“O nariz” é um dos contos mais estranhos que já li. A estratégia usada por Gógol para criticar o funcionalismo público de seu tempo é das mais inusitadas. Mas o conto não se limita a isso. Tal como “O capote”, é capaz de render várias interpretações. A meu ver, “o nariz” de Kovaliov é o objeto, concreto ou abstrato, que eleva o ego do homem vaidoso, conferindo-lhe status social. Pode ser o carro do ano, uma roupa de marca ou até um título acadêmico. Uma vez perdido esse objeto, perde-se o valor da própria vida. Eis outro conto que suscita amplas reflexões.

“Noite de natal” é divertidíssimo. É a comédia pastelão do século XIX. As peripécias divertidas, que envolvem o próprio diabo, fizeram-me rir por diversas vezes, nesta que é a maior história do conjunto. Em compensação, “Viy” não ganhou minha simpatia. Trata-se de um conto de terror, totalmente baseado numa lenda ucraniana. Definitivamente não é um texto ruim, mas o enredo não soube prender minha atenção como nas narrativas anteriores.

A excelência do trabalho de Gógol já é, para mim, o grande momento das leituras do ano; e, a essa altura, dificilmente outro autor poderá superá-lo. Se me tivessem dito que em 2023 eu leria Jane Austen, Charlote Brontë e um autor russo, e que este último seria preferido às outras duas, eu certamente não teria acreditado. Como é a vida, hem?

Avaliação: ★★★★

Daniel Coutinho

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domingo, 22 de outubro de 2023

Torto Arado, de Itamar Vieira Junior - RESENHA #201

O romance nacional mais aclamado dos últimos anos é indiscutivelmente Torto Arado (2019), do baiano Itamar Vieira Junior. O porquê dos tambores rufarem tão alto em torno deste livro é que não posso compreender. Mas quem explica o sucesso? Essa loteria que, de tempos em tempos, premia este ou aquele sem determinar métodos.

Torto Arado é nitidamente o romance de um neófito das letras. Os primeiros capítulos são carregados de um tom infantojuvenil, mas que não soa como recurso estilístico proposital, e sim como texto em processo de autodescoberta, que ainda não tem segurança do rumo que vai tomar. De fato, a narrativa me pareceu hesitante em praticamente todo o livro.

A frase simples de Itamar até que se esforça por atingir uma fluidez textual, mas a falta de apuro em vários trechos e muitas ambiguidades bobas, por exemplo, prejudicam bastante o ritmo. Se, por outro lado, o plano ficcional compensasse esses defeitos, a impressão final poderia ser melhor, mas o enredo é tão problemático quanto o texto.

Entendo que a narrativa fragmentada, essa colcha de retalhos tão querida dos autores contemporâneos, seja uma marca muito forte na literatura do nosso tempo. No entanto, tal recurso, se não manejado por dedos de artesão, pode comprometer seriamente uma obra literária.

Logo no início do romance temos um exemplo claro dessa costura mal executada: quando o episódio das gêmeas Crispina e Crispiniana interfere bruscamente o fluxo de uma narrativa que teve um bom começo. Em seguida, quando a história de Bibiana já ganhava um bom desenvolvimento, o foco muda para Belonísia e, daí por diante, a meu ver, o livro se perde cada vez mais.

Outro ponto delicado, ao qual não poderei dar o espaço merecido nesta resenha, é o engajamento do texto. Em poucas palavras, toda literatura é livre para dizer o que quer, mas sou dos que pensam que, quando a intenção artística não está em primeiro plano, a obra literária tende a se descaracterizar. É o que ocorre com Torto Arado, onde a militância não aparece de forma sutil, mas nitidamente escancarada.

Há várias passagens no livro que apostam por uma prosa poética, recurso que poderia ter tido um efeito melhor, não fosse a impressão de estarem ali para suavizar a pregação ativista de capítulos anteriores. No entanto, grave mesmo é quando a mesma técnica é aplicada no desfecho do romance, a fim de pôr panos quentes no “olho por olho” defendido na polêmica frase final.

Torto Arado é daquele tipo de livro que poderia ter sido muito melhor, desde que outras escolhas fossem tomadas na composição da obra. Não estou aqui para ditar as escolhas certas para este ou qualquer outro texto que seja. Apenas reflito sobre possibilidades diversas que teriam dado um acabamento mais satisfatório ao romance, sem desmerecer seu mérito por ter (na forma concebida) funcionado para tantos leitores.

Avaliação: ★★

Daniel Coutinho

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sábado, 30 de setembro de 2023

Jane Eyre, de Charlotte Brontë - RESENHA #200

Sou fascinado por certos casos peculiares que fazem parte da história da Literatura Universal. As irmãs Brontë são um grande exemplo disso. É de intrigar a qualquer um que três irmãs nascidas no interior da Inglaterra tenham sido privilegiadas com um talento literário tão potente que as eternizou na memória popular.

Charlottë, Emily e Anne: três mulheres aparentemente simples e com limitado conhecimento de mundo (salvo aquele adquirido pela leitura), mas que deixaram uma contribuição ímpar para a ficção inglesa. Delas, só havia lido a Emily até então, que muito me impressionou com seu perturbador O Morro dos Ventos Uivantes: um livro visceral, cheio de camadas e repleto de exageros mais dignos de comoção que de censura.

Jane Eyre (1847), a meu ver, embora substancioso, não consegue ser tão impressionante. É um romance visivelmente autobiográfico, como já denuncia o subtítulo. O texto trescala um desabafo íntimo de sua autora. Há revolta, indignação, desejo, paixão, sonho e muito mais, tudo aparentemente escrito com o coração e sentimento à flor da pele. São essas emoções tão autênticas que possivelmente fizeram do livro um sucesso.

Logo de início somos dominados pela impetuosidade da pequena Jane que, muito criança, já revelava uma força admirável para enfrentar os seus opressores. Órfã de pai e mãe, Jane é confiada a um tio, cuja esposa não a recebe bem, e muito menos após enviuvar. Os primos, de idade semelhante, igualmente a desprezam. Salvo uma das empregadas da casa, Jane Eyre sofre a antipatia de todos à sua volta.

Mandada para um colégio interno, a garota enfrentará outros desafios, como fome e insalubridade. É dessa época sua amizade com Helen Burns, que marcará Jane por toda sua vida. Penso que tal amizade constitui um dos melhores momentos do livro, principalmente porque, nos capítulos seguintes, não aparecerão outros tipos tão interessantes quanto Helen. Devo confessar, inclusive, que, após a saída de Jane do internato, há uma queda considerável de ritmo, salvo pelos episódios bizarros protagonizados por Bertha Mason, personagem da qual não devo dizer muito.

Jane Eyre torna-se preceptora de uma menina numa casa rica. Adéle é uma garotinha adorável e que, penso, poderia ter sido melhor aproveitada no enredo. A propósito, o mesmo vale para muitos outros personagens, que certamente teriam tornado a parte central do livro mais fluida.

As conquistas amorosas de Jane Eyre infelizmente não me cativaram. A primeira delas, o senhor Rochester, pareceu-me um Heathcliff melhorado ou algo parecido. Também achei bastante automático o interesse súbito entre os dois, mas o fato de que Rochester foi a primeira figura masculina (um namorado em potencial) com quem Jane Eyre travou relações depois de adulta justifica de certa forma a ligeireza da paixão.

Sobre a paixão em Jane Eyre, preciso admitir que, principalmente considerando o ano de publicação da obra, é apresentada com uma franqueza impressionante. A autora, sempre muito clara em seus posicionamentos (o que renderia assunto para um texto à parte), não se intimida em revelar sua protagonista plenamente apaixonada e mesmo capaz de atitudes ousadas para a época.

Uma reviravolta na história promete tornar o livro novamente interessante, mas o segundo pretendente de Jane é um dos personagens mais chatos que tenho visto na literatura inglesa. St. John, por trás de uma capa religiosa cuidadosamente preservada, revela-se um homem presumido e egoísta, capaz de sugerir o sacrifício dos interesses de Jane em benefício dos seus. É nesse ponto que Rochester, como o diabo, parece não ser mais tão feio quanto se pinta.

Jane Eyre, tal como Orgulho e Preconceito, não me agradou da forma esperada, mas conversou comigo bem mais que o romance de Jane Austen. Os primeiros e os últimos capítulos me arrancaram lágrimas, o que por si só já é um mérito em se tratando de critério pessoal. Não se tornou um “livro da vida”, mas me mostrou uma protagonista grande e bela, ao contrário de como a consideravam os outros personagens do romance.

Avaliação: ★★★

Daniel Coutinho

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