Anos atrás, quando li A Volúpia do Pecado
(1948), romance de estreia de Cassandra Rios, penso ter sido bastante
benevolente com a novel escritora de apenas dezesseis anos. Mas agora que li Eu
Sou uma Lésbica (1981), publicado quando a autora beirava os cinquenta, posso
ser um carrasco sem culpa.
De antemão, preciso dizer que este é o livro mais
repulsivo que já li em toda minha vida, e desejo profundamente que nenhum outro
o desbanque, para a saúde do meu estômago. Que esta resenha sele, portanto,
minha despedida com dona Cassandra, pois não tenho a intenção de ler qualquer
outro da centena de livros que ela publicou.
Sejamos justos em admitir que a escrita da autora
melhora consideravelmente trinta anos passados de sua péssima estreia. Eu
Sou uma Lésbica está bem escrito, tanto quanto possível. Não se pode negar
que Cassandra Rios tivesse talento com as palavras. Suspeito que, em outras
circunstâncias de vida, ela teria sido uma escritora melhor e, portanto, menos
interessada em ser chocante. Se vivesse hoje, ela publicaria livros do tipo
“Caí nas Garras do Lobo-Mau e Me Dei Bem”, e sem precisar recorrer à
inesgotável criatividade da IA.
Ao iniciarmos a leitura de Eu Sou uma Lésbica,
antevemos um assunto pertinente, principalmente para a época. A novela tem um
ótimo começo: a pequena Flávia sob a mesa apreciando as pernas das mulheres.
Nazaré Tedesco certamente sentiria cheiro de couro ao ler esta cena. É um
começo sutil, promissor, sugestivo, adequado a uma personagem de sete anos que
mais tarde se descobrirá lésbica.
Flávia é a narradora do livro, que pretende ser uma
análise de sua vida sexual. Ao tratar da infância, ela julga ter sido uma
menina precoce. Está obviamente usando de um eufemismo, o que não se demora a
constatar. A fixação pelas pernas de dona Kênia ganha desdobramentos bastante
explícitos. E sim, dentre outras cenas chocantes, leremos sobre uma criança de
sete anos transando com uma mulher casada.
Quando cito que a menina de sete anos transa com a
mulher casada, não estou me referindo a pequenos atos libidinosos ou sutilezas
sexuais subentendidas. Também não estou falando de uma criança que é torpemente
abusada ou molestada sexualmente. É evidente que existe abuso, mas não é disso
que trata a novela. A narradora nos conta sobre como ela mesma convida dona
Kênia para “brincar de gatinho”, e do quanto a brincadeira é bem aceita,
culminando em sexo com penetração.
Pensando nos leitores mais pervertidos, que talvez
não se chocassem com a iniciação sexual de uma menina de sete anos, a autora
decide tornar a pequena Flávia numa espécie de Rhoda Penmark, fazendo com que
ela provoque a morte do marido de Kênia por envenenamento. Mesmo havendo
outras, penso ter citado as passagens mais escabrosas.
Se lembrarmos do quanto a intolerância à
homossexualidade era maior na década de 80 que em nosso tempo, teremos uma
noção do desserviço que foi a publicação dessa novela naquele período. Se já
era comum que gays e lésbicas fossem vistos como seres doentios, por que não
retratá-los como maníacos sexuais homicidas, e assim corroborar com a ideia
generalizada entre nossos pais e avós? Esta parece ter sido a brilhante ideia
de Cassandra Rios.
Agora desconsideremos o impacto social e pensemos
no fator estético. Haverá beleza em Eu Sou uma Lésbica? Para alguém terá
sido catártico o episódio em que Flávia perde a virgindade com o salto da
sandália de dona Kênia? Eu não duvidaria disso. Mas nem preciso dizer que são
de outra qualidade os livros que me arrebatam.
As narrativas de Cassandra Rios parecem ter como
propósito fundamental chocar o leitor. O alvoroço que sua estreia literária
causou parece ter implantado na autora a ideia de que aquele era o caminho do
sucesso, como costuma ocorrer a tantos autores best-sellers que levam suas
fórmulas à exaustão, até que a disposição do público mude e aponte para outras
novidades. É o tipo de literatura que já nasce com um prazo de validade. E essa
aqui já venceu.
Avaliação: ★
Daniel
Coutinho
***
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